sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O curso é Nota 5 no MEC e o aluno é nota 1 no Enade/Enamed

 


O sistema de avaliação do ensino superior no Brasil, coordenado pelo Ministério da Educação (MEC) por meio do Inep, consolidou nas últimas décadas um aparato técnico-institucional composto por indicadores como Enade, CPC, IGC, IDD e, mais recentemente, o Enamed. Esses instrumentos orientam decisões regulatórias, subsidiam políticas públicas e alimentam o discurso da transparência e da qualidade educacional. No entanto, a profusão de métricas não tem sido acompanhada de clareza conceitual sobre o que exatamente se pretende avaliar — e com qual finalidade. Avaliar indivíduos não é o mesmo que avaliar instituições, e a confusão entre essas dimensões tem produzido distorções graves no sistema.

As instituições de ensino superior são avaliadas presencialmente por comissões do MEC em visitas de curta duração, que analisam documentos, instalações físicas, titulação docente e regimes de trabalho. Esses processos, embora relevantes para a regulação, são estruturalmente limitados para captar a complexidade dos processos pedagógicos e seus efeitos cumulativos sobre a aprendizagem. O resultado é paradoxal: cursos com desempenho pífio no Enamed, obtendo conceitos 1 ou 2 no exame, alcançam média 4,68 no Conceito de Curso (CC) — praticamente o teto da escala. A contradição é empiricamente incontornável: o sistema certifica excelência institucional onde o aprendizado não se materializa, gerando uma ilusão de qualidade que beneficia mais as instituições do que os estudantes ou a sociedade.

Paralelamente, os alunos são avaliados por exames padronizados como o Enade e o Enamed, que utilizam a Teoria de Resposta ao Item (TRI) para medir desempenho individual. No entanto, o MEC utiliza esses resultados como proxy da qualidade institucional, reduzindo a avaliação de cursos e universidades à média das notas de seus estudantes. Um aluno bem preparado formado em uma instituição mal avaliada deve ser impedido de exercer a profissão? E o inverso: um médico malformado, egresso de uma instituição com nota máxima, deve ser automaticamente autorizado a clinicar? Confundir avaliação coletiva com certificação individual pode ser administrativamente conveniente, mas não responde à principal demanda social: assegurar a competência profissional de quem exerce a Medicina e outras profissões.

Para romper com essa esquizofrenia avaliativa, é preciso avançar em duas frentes complementares. Primeiro, as avaliações institucionais precisam superar o foco em insumos e documentos, incorporando de fato a análise dos processos pedagógicos e seus resultados. Segundo, é indispensável instituir exames nacionais de proficiência individual, com etapas práticas, que acompanhem o diploma e sejam publicamente acessíveis — como já ocorre em outros países e, no Brasil, com o exame da OAB e CRC. Enquanto o país não for capaz de avaliar com profundidade e coerência, continuaremos a proteger um sistema que explora comercialmente selos de qualidade ilusórios, enquanto o paciente, o cliente ou o cidadão permanece desprotegido diante de profissionais cuja competência nunca foi devidamente aferida.

Referência

LOBO, R.; RIVERA, C.; LOBO, M. B.. ENAMED: Nota 1 no exame, mas 5 na visita de comissões do MEC: quem estamos avaliando — e a quem estamos protegendo? Globo, Rio de Janeiro, 12 fev. 2026 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Revogação de edital escancara crise na formação médica

 


A revogação do edital do Programa Mais Médicos que autorizaria até 5,9 mil novas vagas em cursos privados, publicada em edição extra do Diário Oficial da União na última terça-feira, jogou luz sobre um sistema de formação médica em estado de ruptura. O Ministério da Educação justificou a decisão com base na “alteração significativa do contexto fático, social e regulatório” — mas o que os bastidores revelam é uma política pública refém de judicialização em massa, sucessivos adiamentos e ausência crônica de planejamento. Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgados semanas antes, expuseram a face mais aguda do problema: 38,8% dos formandos de instituições privadas não atingiram a proficiência mínima exigida, o equivalente a 9.489 estudantes de um universo de 24.487 avaliados.

O Brasil chegou a esse impasse após mais de uma década de expansão acelerada e pouco criteriosa. Levantamento do Conselho Federal de Medicina revela que 56% dos cursos classificados com os piores conceitos (1 e 2 no Enamed) foram criados a partir de 2014, ano seguinte à promulgação da Lei do Mais Médicos. Das 351 graduações avaliadas, 107 tiveram desempenho insatisfatório — e destas, 87 são ofertadas por universidades particulares. O quadro agravou-se com a judicialização: só nos últimos 18 meses, muitas vagas foram pleiteadas por meio de liminares, sem qualquer contrapartida em infraestrutura hospitalar ou campos de estágio adequados.

A qualidade dos novos cursos esbarra em obstáculos que a profusão de editais e decisões judiciais não foi capaz de resolver. O Conselho Federal de Medicina alerta para localidades onde três ou quatro faculdades concentram-se no mesmo território, sem estrutura hospitalar compatível com o volume de alunos. A proporção legal de leitos por estudante, quando respeitada, mostra-se insuficiente diante da multiplicação de vagas — fenômeno que compromete não apenas a aprendizagem, mas a segurança dos pacientes atendidos nesses cenários. Em nota, o CFM enfatizou que “a política de abertura de cursos não pode ser orientada por interesses políticos ou financeiros” e que os resultados do Enamed indicam “fragilidades relevantes na formação de parcela significativa dos estudantes”.

O Ministério da Educação, por sua vez, afirma que a revogação do edital “não representa a interrupção da política pública de expansão da formação médica”, mas sim uma reavaliação técnica que assegure alinhamento às novas Diretrizes Curriculares Nacionais e às necessidades do Sistema Único de Saúde. Não há prazo para novos editais — e o setor privado, por meio da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, já fala em “instabilidade regulatória” e “insegurança jurídica”. O que está em jogo, porém, vai além dos interesses de mercado: é a qualidade da medicina que será praticada nas próximas décadas no país.

Referências

G1. MEC revoga edital que permitia criação de novos cursos de Medicina. G1, Rio de Janeiro, 11 fev. 2026. 

O GLOBO. Governo Lula cancela edital que previa abertura de até 5,9 mil novas vagas em cursos privados de Medicina. O Globo, Rio de Janeiro, 11 fev. 2026. 

O GLOBO. 'Instabilidade regulatória': associação de universidades privadas critica revogação de edital do Mais Médicos. O Globo, Rio de Janeiro, 11 fev. 2026. 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

 

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O silêncio das páginas: como a crise de leitura ameaça nossa sociedade

 

    A prática da leitura, pilar fundamental para o desenvolvimento cognitivo e emocional, enfrenta um declínio alarmante em escala global. Nos últimos 20 anos, os EUA registram uma queda de mais de 40% nos leitores por prazer, tendência que se repete com gravidade no Brasil, onde, pela primeira vez, os "não leitores" (53%) superaram os leitores em 2024. Especialistas apontam a combinação de distrações digitais, mudanças nos hábitos de lazer e desigualdades no acesso como os motores dessa retração preocupante, que põe em risco não só a cultura, mas a saúde pública.

    Diante deste cenário, políticas públicas internacionais tentam frear a erosão do hábito leitor. Iniciativas vão desde campanhas nacionais de incentivo, como as observadas em países europeus com altos índices de leitura (Irlanda, Finlândia, Suécia), até programas de subsídio e acesso a livros em bibliotecas e escolas. O foco tem sido combater a disparidade socioeconômica no acesso e promover a leitura desde a infância, reconhecendo o livro físico como ferramenta crucial para uma compreensão mais profunda, especialmente entre os jovens.

    A ausência da leitura compromete severamente o desenvolvimento intelectual e a mobilidade social. A leitura expande o vocabulário, o pensamento crítico e a capacidade de abstração – competências essenciais para o sucesso acadêmico e profissional. Sem ela, perpetua-se um ciclo de desigualdade: indivíduos com menor acesso a livros e estímulos literários encontram mais barreiras para ascender socialmente pelo estudo, ampliando o abismo educacional e limitando oportunidades.

    As universidades brasileiras, como agentes de transformação social, têm um papel crucial a desempenhar. Podem liderar a criação de programas de extensão que levem bibliotecas itinerantes e clubes de leitura a comunidades periféricas. Internamente, podem integrar a leitura por prazer em seus currículos, promover debates acessíveis com autores e fortalecer parcerias com editoras para reduzir o custo de livros. Ao assumirem a vanguarda dessa missão, as instituições de ensino superior podem ser a chave para reescrever o futuro da leitura no país.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

 Fonte:

FREUND, Alexander; CORRÊA, Fábio. Leitura tem queda dramática – e preocupante – pelo mundo. G1, 06 fev. 2026.



 

Fonte

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Brasil na Academia Global: um jogo de cátedras que mais instituições nacionais deveriam participar

 


    A internacionalização do ensino superior transcende o intercâmbio de estudantes. É um processo estratégico e multifacetado que integra uma instituição à comunidade acadêmica global, incorporando dimensões internacionais em seu ensino, pesquisa e extensão. Isso se materializa em parcerias formais, publicações científicas em coautoria internacional, mobilidade de docentes e discentes, oferta de currículos com perspectiva global e atração de talentos estrangeiros. Trata-se de um critério essencial para a excelência, mensurado por rankings de prestígio mundial, como o Times Higher Education (THE).

    O THE avalia essa dimensão através de três pilares: a "proporção de colaboração internacional em artigos científicos" (onde o Brasil tem seu melhor desempenho), a "proporção de acadêmicos internacionais" e a "proporção de estudantes internacionais". No cenário nacional, as universidades públicas estaduais e federais dominam as primeiras colocações. A Universidade de São Paulo (USP) lidera, seguida de perto por instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que figuram no top 200 mundial do indicador de colaboração internacional em pesquisa, demonstrando uma vigorosa integração às redes globais de conhecimento.


    Um fenômeno marcante na geopolítica do conhecimento é a ascensão meteórica da China nos rankings. O país não apenas consolidou universidades de classe mundial como também se tornou um parceiro científico incontornável. Reconhecendo essa nova realidade, o Semesp – entidade representativa de mantenedoras de ensino superior – organizou uma missão técnica à China. O objetivo é decodificar as estratégias que alçaram suas universidades ao topo, buscando aprender com políticas de atração de talentos, investimento massivo em pesquisa e modelos ágeis de gestão acadêmica que poderiam inspirar ajustes no modelo brasileiro.

                                                                         Fonte: TV SIMI

    Diante desse cenário de competição global acirrada, um questionamento se impõe: onde estão as instituições brasileiras nesse mapa da internacionalização? Sua notável ausência nas posições de destaque dos rankings revela uma desconexão preocupante com os padrões mundiais de excelência. Enquanto as públicas, mesmo com recursos limitados, avançam na colaboração internacional, o setor privado, que responde pela maior parte das matrículas, parece relegar a projeção global a um plano secundário. A pergunta que fica é se a visão meramente mercadológica, focada no âmbito doméstico, será suficiente para formar cidadãos e profissionais aptos a liderar em um mundo sem fronteiras intelectuais. A internacionalização deixou de ser um adereço de prestígio; é uma condição de sobrevivência e relevância acadêmica no século XXI.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  
 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Dia Internacional do Ensino: ponto sem volta no ensino superior brasileiro?

 


    Neste 24 de janeiro, data instituída pela ONU para celebrar o papel da educação como direito humano e bem público, o cenário global do ensino superior revela uma transformação irreversível, impulsionada a força pela pandemia e consolidada por demandas por maior acessibilidade e relevância.

    Dados da UNESCO, que lidera as celebrações deste ano sob o tema "aprendizagem para a paz", indicam que a crise sanitária acelerou em anos a adoção de tecnologias educacionais. Se, por um lado, a transição emergencial para o Ensino Remoto e o Ensino Remoto Emergencial expôs gritantes desigualdades digitais, por outro, catalisou uma reavaliação profunda dos modelos pedagógicos. O estudo "Ensino Remoto e Híbrido na Educação Superior", citado em análise, já apontava a percepção discente de que metodologias ativas e recursos audiovisuais eram subutilizados no presencial. A pandemia forçou a curva de aprendizado.

    No Brasil, a resposta governamental à aceleração digital materializou-se em ações como o programa "Conecta IF", do MEC, que investiu na infraestrutura de internet de institutos federais, e a disponibilização de recursos via CAPES para formação de professores em práticas pedagógicas digitais. A expansão de programas de assistência estudantil, como o Auxílio Permanência, buscou mitigar a evasão, enquanto editais específicos fomentaram pesquisa em tecnologias educacionais. No entanto, especialistas apontam que a efetivação de uma política de Estado robusta para a educação híbrida, com investimento contínuo e regulamentação clara, ainda é um desafio a ser superado.

    A hibridização tornou-se palavra de ordem. Instituições ao redor do mundo, do MIT a universidades públicas brasileiras, agora operam com modelos flexíveis que combinam sincronia e assincronia, presencialidade e virtualidade. Este não é mais um plano de contingência, mas um novo paradigma. A internet deixou de ser um canal alternativo para se firmar como infraestrutura central, expandindo o acesso a públicos geograficamente distantes ou com limitações de tempo, como profissionais em busca de especialização.

    Contudo, o Dia Internacional da Educação também serve de alerta. O mesmo relatório que destaca vantagens da flexibilidade e da personalização do aprendizado online adverte: a sensação de "solidão" do aluno e a "sobrecarga" do docente são desafios críticos. A educação de alto nível no século XXI, portanto, não se debate mais sobre a superioridade de um modelo sobre o outro, mas sobre como integrá-los de forma ética, inclusiva e eficaz. O futuro, como afirmam especialistas, é "híbrido e humano", exigindo investimentos massivos em formação docente e infraestrutura digital para que a promessa de uma educação verdadeiramente global e de qualidade seja, de fato, para todos. A pandemia passou, mas a revolução que ela iniciou no ensino superior apenas começo.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 

Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo