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sábado, 25 de julho de 2026

Professor sob ataque: por que a valorização docente é a política de qualidade mais negligenciada do Brasil

 


    O relato da professora Marta, ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos, e o caso da educadora Michelle Bernardes, que teve um dedo decepado ao tentar conter um aluno em crise, são a ponta do iceberg de uma epidemia silenciosa. Dados do Centro do Professorado Paulista revelam que 65% dos professores brasileiros já sofreram alguma forma de agressão, e o Brasil lidera o ranking da OCDE de violência contra educadores, com 47% deles relatando abusos verbais como fonte de estresse – contra uma média global de 18%.

    Valorizar o docente não é apenas uma questão de justiça ou bem-estar; é a base de qualquer política consistente de qualidade do ensino. Um professor que trabalha sob ameaça, com salários defasados e jornadas exaustivas, não consegue desenvolver práticas pedagógicas inovadoras nem estabelecer vínculos significativos com os alunos. Como observa a psicóloga Renata Paparelli, da PUC-SP, a precarização das condições de trabalho alimenta o abismo entre educadores e comunidade, tornando a escola um lugar que "vai perdendo sentido para os estudantes".

    As instituições de ensino superior, que formam os futuros professores, precisam colocar o respeito à docência no centro de seus projetos pedagógicos. Não se trata apenas de disciplinas sobre didática, mas de construir uma cultura que reconheça o professor como profissional intelectual, com autonomia, formação continuada e condições dignas de trabalho. A solução exige políticas públicas integradas: redução do número de alunos por turma, suporte psicológico nas escolas, mediação de conflitos e diálogo efetivo com as comunidades.

    Apesar da gravidade do problema, o incentivo ao docente raramente figura nas pautas prioritárias da educação nacional. Discute-se currículo, tecnologia e avaliação, mas silencia-se sobre o profissional que está na linha de frente. Enquanto o Brasil tratar a violência contra professores como um problema isolado, e não como um sintoma de desvalorização estrutural, continuaremos a formar gerações em um ambiente hostil – e a perder, como mostra a pesquisa, professores por adoecimento mental, como burnout e estresse pós-traumático, em números alarmantes.

 

Referência 
BBC. A epidemia de violência contra professores no Brasil: 'Fui ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos'. G1, São Paulo, 21 jul. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

IA na Educação: Entre o Alívio da Carga Docente e o Desafio da Inclusão Digital


    O relatório "IA na Educação 2025" revela um cenário de transição no Reino Unido, onde a Inteligência Artificial emerge como uma ferramenta promissora para reduzir a carga administrativa dos professores – 34% já relatam menor sobrecarga –, mas esbarra em desafios críticos de formação e equidade. Quase metade dos docentes (46%) não recebe treinamento, e 44% sentem-se como "trapaceando" ao usar a tecnologia, evidenciando uma crise de identidade profissional.

    Em contraponto, no Brasil, os desafios são ainda mais profundos. Enquanto no Reino Unido discute-se a otimização de aulas com IA, no Brasil a base material ainda é um obstáculo intransponível para muitos. A falta de infraestrutura digital básica, a conectividade insuficiente e a escassez de recursos para capacitação criam um abismo digital que amplia as desigualdades educacionais existentes. O foco brasileiro, portanto, ainda precisa ser duplo: sanar o déficit histórico de acesso à tecnologia e, paralelamente, construir as bases para uma adoção crítica e pedagógica da IA, aprendendo com os erros e acertos de nações que estão à frente neste processo. A jornada é mais longa e requer um investimento maciço para que a IA não se torne mais um vetor de exclusão.

 

 
 
    Além disso, a realidade brasileira impõe uma barreira inicial que vai além da capacitação: a desigualdade de acesso. Enquanto no Reino Unido a discussão gira em torno de como usar a IA de forma ética e eficaz, no Brasil é crucial garantir que professores e alunos tenham, primeiro, dispositivos e conexão de qualidade para sequer experimentar essas ferramentas. Esta lacuna digital fundamental exige que as políticas públicas nacionais não se limitem a replicar modelos estrangeiros, mas criem estratégias próprias que associem a inclusão digital à formação pedagógica, evitando que o país fique ainda mais para trás na revolução educacional impulsionada pela inteligência artificial. 
 
by Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
 
 
Referência

BETT. AI in Education 2025: Navigating Progress, Pedagogy and Pain Points. Londres: Bett, 2025.

Imagem Disponível em:

https://inteligencianosdados.com.br/blog/f/lei-de-regulamenta%C3%A7%C3%A3o-da-ia-e-o-impacto-na-educa%C3%A7%C3%A3o  Acesso: 19:54