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terça-feira, 4 de novembro de 2025

Estudo Revela que Cursos de Contabilidade no Interior Paulista Não Atingem Currículo Ideal

 

                                                                Fotos: Cursos Abeline

    Pesquisa acadêmica desenvolvida no interior de São Paulo analisou a grade curricular de cursos de Ciências Contábeis e identificou um significativo afastamento do modelo de ensino considerado ideal para a formação profissional. O estudo, realizado sob a orientação do  Prof. Dr. Angelo Antônio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues, contou com a autoria das bacharéis Juliana Massonete da Silva e Tamiris Cristina Mathias.

    O trabalho focou-se em instituições de ensino superior (IES) da região de Ribeirão Preto, interior paulista, comparando suas matrizes curriculares com a proposta pedagógica elaborada pela Fundação Brasileira de Contabilidade (FBC). A FBC, ligada ao Conselho Federal de Contabilidade (CFC), estabelece um currículo-modelo que visa harmonizar a formação do contador no país, alinhando-se inclusive a padrões internacionais.

                                                                Foto do Jornal Contábil

    A análise, de caráter qualitativo e descritivo, envolveu a minuciosa checagem documental dos currículos de onze IES. Os resultados foram claros: nenhuma instituição atingiu 100% de aderência ao proposto pela FBC. A similaridade variou entre 45% e 77%, indicando uma disparidade considerável na qualidade e no escopo da formação oferecida aos futuros contadores.

    Entre as principais deficiências encontradas, destacam-se a baixa oferta de disciplinas fundamentais para uma visão crítica e humanística, como "Filosofia da Ciência", presente em apenas 18% das instituições. Na área profissional, considerada o cerne da formação, matérias importantes como "Estrutura das Demonstrações Contábeis" e "Contabilidade Societária" – bases para a contabilidade avançada – são negligenciadas, com oferta de apenas 36% e 45%, respectivamente.

    Um dos dados mais alarmantes aponta que apenas 9% das IES oferecem a disciplina "Gestão de Finanças Públicas", essencial para atuação no setor. Outro ponto crítico é a exigência do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), obrigatório em apenas 27% das instituições, o que, segundo o estudo, pode desestimular a carreira acadêmica e a pesquisa na área.

 

                                                   Vídeo do Canal Confi do Prof. Ricardo Rios

    A pesquisa conclui que, apesar de as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) concederem autonomia às universidades, a falta de aderência a um currículo robusto como o da FBC pode prejudicar a formação integral do profissional. Os graduandos de instituições com menor aderência podem sair despreparados para os desafios do mercado e para a prova do Exame de Suficiência do CFC, obrigatória para o exercício da profissão.

    O estudo serve como um importante alerta para gestores educacionais e órgãos reguladores, sublinhando a necessidade de uma revisão curricular que priorize um encadeamento mais eficaz entre as disciplinas, sem abrir mão da formação técnica de excelência e do desenvolvimento humanístico e social indispensáveis ao contador do século XXI.

    A construção de um currículo bem estruturado é, portanto, a espinha dorsal de uma formação contábil de qualidade. Mais do que uma simples lista de disciplinas, um currículo coerente e alinhado às demandas do mercado e às diretrizes nacionais é fundamental para moldar profissionais não apenas tecnicamente competentes, mas também com visão crítica, ética e estratégica, capazes de atuar com excelência em um cenário econômico cada vez mais complexo e dinâmico.

by Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

 

Referência:

 
SILVA, Juliana Massonete da; MATHIAS, Tamiris Cristina; RODRIGUES, Angelo Antônio Davis de Oliveira Nunes e. Uma análise da aderência dos currículos dos cursos de Ciências Contábeis do interior paulista ao proposto pela Fundação Brasileira de Contabilidade. Revista Brasileira de Contabilidade, n. 201, p. 69-78, 2013.



terça-feira, 21 de outubro de 2025

Brasil na contramão do futuro: o desafio de formar cérebros para STEM

 

    O relatório "Education at a Glance" da OCDE escancara uma realidade preocupante: enquanto nações desenvolvidas apostam em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), o Brasil ainda forma mais administradores e advogados. Conforme a reportagem de Renata Cafardo, com apenas 16% dos graduados em STEM, contra 23% da média da OCDE e índices que chegam a 35% na Alemanha, o país arrisca ficar para trás na economia global, cada vez mais digital e baseada em conhecimento.

    Essa disparidade não é acidental. Reflete deficiências históricas no ensino básico, especialmente em matemática e ciências, que desestimulam os jovens desde cedo. O texto jornalístico do Estadão
da reportagem "Alunos em tecnologia, ciências, engenharia e Matemáticas são 16%; países ricos tem 23%" alerta para a "baixa qualidade do ensino de Matemática e ciência nas escolas", um problema crônico que se reflete na drástica redução de 51% no número de alunos de Engenharia Civil desde 2015. A complexidade dos cursos de engenharia, associada à falta de incentivos concretos, afasta talentos. Enquanto isso, a formação em STEM é sinônimo de menor desemprego e melhores salários no mundo todo — um ciclo virtuoso que o Brasil não aproveita.

    O relatório destaca ainda que "as áreas STEM são particularmente valorizadas no mercado", criando um paradoxo perverso: há demanda por esses profissionais, mas o país não consegue formá-los em quantidade suficiente. Essa lacuna ameaça diretamente nossa capacidade de inovação e competitividade industrial, especialmente em setores estratégicos como energia limpa, inteligência artificial e biotecnologia.

    Outro aspecto crucial é a questão de gênero nas carreiras científicas. Conforme apontado pela OCDE, as mulheres são sub-representadas em STEM, dominando majoritariamente a área da Saúde. Essa disparidade não só perpetua desigualdades, como priva o país de talentos essenciais para o desenvolvimento tecnológico. Urge criar políticas específicas que incentivem a participação feminina nessas áreas desde a educação básica.

    Para reverter esse cenário, é urgente uma política de Estado que priorize a educação científica desde a infância. Investir na capacitação de professores, modernizar laboratórios e promover a cultura da experimentação são passos essenciais. Além disso, é preciso valorizar financeiramente carreiras em STEM, criar bolsas de estudo e estreitar a ligação entre universidades e setor produtivo, seguindo o exemplo de países como Coreia do Sul e Finlândia, que aparecem no relatório com mais de 30% de formados nessas áreas.

    Sem uma mudança estrutural, continuaremos importando tecnologia e perdendo oportunidades de inovação. O futuro exige engenheiros, cientistas e tecnólogos. Cabe ao Brasil decidir se quer formar — ou apenas assistir — a essa revolução. O momento de agir é agora, antes que o gap educacional se transforme em um abismo econômico intransponível.

by 

 Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues