No 28º
FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate não ficou restrito às
possibilidades da tecnologia. Ele nos levou a uma questão anterior e mais
incômoda: que futuro profissional estamos ajudando a construir para quem confia
à educação superior anos de esforço, renda familiar e expectativa de mobilidade
social?
Ao
lado da Dra. Priscila Bonini Ribeiro, Pró-Reitora da Unaerp Guarujá, que
mediou a conversa com sensibilidade institucional, e de Edigar, da
Otimize, construímos um diálogo que ultrapassou a agenda tecnológica. O ponto
de convergência foi claro: inovação só tem valor educacional quando amplia a
capacidade humana, melhora a inserção profissional e preserva a dignidade de
quem se forma.
O
Edigar colocou na tela dados duros e sensíveis sobre a aceleração das
dispensas corporativas provocadas pela Inteligência Artificial e, acima de
tudo, acendeu o alerta vermelho sobre o avanço silencioso do subemprego
entre os jovens com diploma no Brasil.
O que
está em jogo não é apenas a substituição de tarefas por sistemas inteligentes.
É a possibilidade de ampliarmos um contingente de diplomados que estudou para
avançar, mas encontra ocupações aquém de sua formação, de sua capacidade e do
investimento realizado. Se esse descompasso já preocupa economias
desenvolvidas, no Brasil ele se torna ainda mais grave: convivemos com baixa
produtividade, desigualdade persistente e trajetórias profissionais mais
frágeis. Por isso, o enfrentamento do subemprego qualificado não pode depender
do calendário eleitoral. Precisa ser tratado como projeto de Nação.
Esse
contraste nos obriga a uma reflexão muito mais profunda do que simplesmente
discutir ferramentas tecnológicas: qual é o valor real da formação que
estamos entregando?
O
Gigante do Subemprego: Uma Questão de Gestão e de Política Pública
O principal
risco para o Ensino Superior já não se limita à evasão. Ele aparece também
depois da formatura, quando o egresso conquista um diploma, mas não encontra
uma ocupação compatível com os conhecimentos, as responsabilidades e a
remuneração que sua formação deveria possibilitar.
Estudos
recentes do setor e indicadores consolidados pelo Semesp apontam que uma
parcela expressiva dos diplomados brasileiros ocupa postos que não exigem formação
superior. Esse fenômeno reúne trajetórias distintas de funções auxiliares e
vínculos precários ao trabalho mediado por aplicativos, mas produz o mesmo
sinal de alerta: o país investe na formação e não consegue converter plenamente
esse conhecimento em trabalho qualificado e produtividade.
Quando
quatro anos de estudo terminam em uma ocupação que não reconhece a formação
adquirida, não fracassa apenas uma expectativa individual. Perdem a família que
investiu, a instituição que formou e o país que deixou de transformar
conhecimento em desenvolvimento.
Edigar
demonstrou que a inteligência artificial não automatiza apenas processos: ela também
reduz postos operacionais que historicamente funcionaram como porta de entrada
para recém-formados. A resposta, portanto, não cabe em uma disciplina isolada
nem em uma iniciativa passageira. Exige governança nas IES, compromisso do
setor produtivo e uma política de Estado capaz de articular educação, inovação,
produtividade e geração de trabalho qualificado.
Nas
economias desenvolvidas, o avanço do subemprego entre jovens qualificados já
pressiona o debate sobre produtividade, mobilidade social e retorno da
educação. Em um país emergente, o efeito pode ser mais profundo. O Brasil não
dispõe da mesma rede de proteção, apresenta desigualdades educacionais e
regionais mais intensas e ainda precisa elevar sua produtividade. Importar a
tecnologia sem construir uma estratégia própria de formação e trabalho
significaria modernizar processos enquanto se ampliam frustrações sociais.
A
Integridade do Ser Pensante: O Aluno Não Pode Ser Refém do Algoritmo
Diante
desse cenário, algumas instituições podem confundir atualização curricular com
treinamento instrumental. Ensinar o estudante a operar ferramentas generativas
é necessário, mas insuficiente quando não vem acompanhado da capacidade de
formular boas perguntas, verificar respostas, interpretar contextos e assumir responsabilidade
pelas decisões.
Esse é
um equívoco perigoso. O sociólogo e educador Edgar Morin, ao formular os
pilares da educação do futuro, já nos alertava:
"O
conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo exterior; todo
conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão."
A
Inteligência Artificial é prodigiosa em processar volumes monumentais de
informação e produzir respostas sintéticas em fração de segundos. No entanto,
ela fabrica correlações estatísticas, não sabedoria; gera probabilidades, não
julgamento ético.
Se
ensinarmos o estudante apenas a aceitar passivamente o que o algoritmo entrega,
estaremos formando um profissional dispensável alguém que pode ser substituído
por uma atualização de software.
A
verdadeira fronteira da empregabilidade está em formar um ser pensante,
racional, íntegro e criativo:
1.
Auditoria e Ceticismo Metódico: O aluno precisa saber interrogar os dados gerados pela IA
identificar viés algorítmico, alucinações conceituais e inconsistências
lógicas.
2.
Capacidade Crítica de Decisão: A máquina calcula cenários; quem escolhe o caminho sob
incerteza e assume a responsabilidade humana pelo impacto da escolha é o
profissional.
3.
Criatividade e Sensibilidade Contextual: A máquina não compreende a dor de um
pequeno comerciante do bairro, a angústia de uma família em litígio judicial ou
a complexidade das relações comunitárias. A criatividade humana nasce da
empatia e da leitura profunda do contexto.
Como
destacou Joseph Aoun (presidente da Northeastern University) em sua obra
seminal Robot-Proof: "Para prosperar na era da automação, a
educação superior precisa desenvolver o humano para integração entre a
alfabetização tecnológica, a alfabetização de dados e a alfabetização humana
(criatividade, empatia, pensamento crítico e ética)."
Do
Conservadorismo Isolacionista à Integração Produtiva
Durante
décadas, parte do meio universitário tratou a aproximação com o mercado como
ameaça à autonomia acadêmica. Preservar a reflexão crítica continua
indispensável; o erro está em confundir independência intelectual com
distanciamento dos problemas concretos da sociedade e do trabalho.
O
resultado desse afastamento foi uma relação de baixa confiança: empresas
passaram a questionar a utilidade prática do diploma, enquanto universidades
viam o setor produtivo com reserva. Reconstruir essa confiança é condição para
aproximar currículo, inovação e oportunidades profissionais sem subordinar a
educação às demandas imediatas do mercado.
A
superação desse distanciamento requer uma arquitetura de cooperação entre IES,
setor produtivo e regulação do MEC. Cada parte tem uma responsabilidade
própria: a instituição forma e produz conhecimento; as organizações apresentam
problemas reais e oportunidades de aplicação; o poder público cria diretrizes,
incentivos e mecanismos de acompanhamento que protejam o interesse coletivo.
- A Regulação do MEC (com as DCNs e os 10% de
curricularização da extensão) não deve ser encarada como fardo cartorial
para acumular papéis, mas como a autorização legal para transformar a
cidade em laboratório vivo.
- O Setor Produtivo (o comércio local, as indústrias
da comarca, os prestadores de serviço) tem carência crônica de
inteligência aplicada, mas não possui recursos para contratar consultorias
de grande porte.
·
A IES organiza essa cooperação: prepara os
estudantes com recursos tecnológicos e rigor analítico, conecta-os a desafios
reais da região e acompanha projetos capazes de diagnosticar custos, redesenhar
fluxos de trabalho e implantar soluções digitais nos negócios locais.
Quando
o empresário vê um aluno do 1º ou 2º ano entrando em sua empresa, não para
fazer discurso teórico, mas para organizar suas contas e aumentar sua
produtividade com olhar crítico e respeito à realidade do negócio, ocorre uma
transformação imediata: o estudante passa a ser apreciado, respeitado e
cobiçado pelo mercado.
A
empresa acredita no potencial desse jovem porque viu a sua competência gerar
valor antes mesmo da formatura.
O
Retorno do Investimento: O Diploma Não Pode Ser Apenas um Papel na Parede
Para a
imensa maioria dos nossos estudantes em especial o aluno trabalhador do período
noturno, a faculdade não é um passatempo. É um projeto de sobrevivência e
emancipação familiar.
Cada
mensalidade paga representa escolhas difíceis: é o almoço que foi economizado,
a jornada dupla no transporte público, o tempo subtraído do convívio com os
filhos.
Por
trás de cada matrícula existe um pacto sagrado: a família investe o que tem
na esperança legítima de que aquele diploma trará o retorno esperado em
dignidade, remuneração justa e sustentabilidade econômica.
Nós,
gestores de Instituições de Ensino Superior, não podemos considerar concluída
nossa responsabilidade no momento da colação de grau. A formação só cumpre
plenamente sua finalidade quando o conhecimento adquirido amplia a autonomia do
egresso, sua capacidade de gerar valor e suas condições de construir uma
trajetória profissional digna.
A
nossa métrica soberana de sucesso precisa ser clara:
- Quantos dos nossos egressos
escaparam das armadilhas do subemprego?
- Quantos deles conquistaram
posições estratégicas onde suas mentes são valorizadas e bem remuneradas?
- Quantos deles aprenderam a usar a
inteligência artificial sem nunca abrir mão da própria voz, da ética e da
capacidade de pensar por si mesmos?
Essas
perguntas precisam deixar de ser retóricas. Devem orientar indicadores de
acompanhamento de egressos, revisão curricular, parcerias com empregadores e
decisões dos Conselhos Superiores. Aquilo que a instituição não acompanha tende
a permanecer invisível; e o subemprego não pode continuar sendo o resultado que
o sistema prefere não medir.
A
Lição de Casa para as Lideranças Universitárias
Para
transformar essa reflexão em práticas concretas nas nossas instituições a
partir desta semana:
1.
Revisitar os NDEs com Foco no Pensamento Crítico: Auditar os planos de ensino e
eliminar avaliações focadas em respostas padronizadas que a IA resolve em três
segundos. Exigir defesa oral, resolução de problemas reais sob pressão e
auditoria crítica de relatórios gerados por algoritmos.
2.
Transformar a Extensão em Vitrine de Empregabilidade: Alinhar os projetos de extensão com
as associações comerciais e arranjos produtivos locais. O aluno deve atuar como
consultor de inovação e produtividade desde o primeiro ano de curso.
3.
Pacto nacional pela dignidade
do diploma: acompanhar a trajetória dos
recém-formados e tratar a empregabilidade compatível com a área de formação como
indicador central de qualidade. Esse compromisso deve ultrapassar instituições
e mandatos, reunindo ensino superior, setor produtivo e poder público em metas
contínuas de qualificação, produtividade e inserção profissional.
O
recado que levamos do FNESP é inequívoco: a inteligência artificial continuará
avançando e as rotinas previsíveis perderão espaço. O diferencial não estará em
disputar velocidade com a máquina, mas em formar pessoas capazes de interpretar
consequências, decidir com integridade e converter conhecimento em valor para a
sociedade.
Essa
missão não pertence apenas às instituições de ensino, às empresas ou a um
governo. Ela exige um projeto de Nação: formar profissionais que conduzam a
tecnologia com discernimento, transformar diplomas em trabalho qualificado e
fazer da produtividade um caminho para a dignidade. Um país que educa sem criar
espaço para o talento que formou não desperdiça apenas investimento; desperdiça
futuro.
Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça
Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro