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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Da Regulação Cartorial ao Estado Indutor: o MEC na Aliança entre Ensino e Território Produtivo

  

  Durante anos, a gestão acadêmica brasileira celebrou matrículas e diplomas sem acompanhar, com o mesmo rigor, o destino profissional dos egressos. Essa lacuna tornou-se crítica: a automação e a inteligência artificial já reduzem funções operacionais que historicamente serviam de porta de entrada aos  recém-graduados.
    No 28º FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate conduzido pela Dra. Priscila Bonini Ribeiro (Unaerp), com contribuições de Edigar (Otimize), evidenciou esse risco. Ignorá-lo significa ampliar uma geração de jovens diplomados, porém subutilizados. A questão exige ação coordenada entre ensino superior, setor produtivo e Estado.


    A geografia do desvio ocupacional   

       O subemprego qualificado assume formas distintas conforme a estrutura econômica de cada região:

 

Região

Cenário predominante

Impacto sobre os egressos

Sudeste

A automação reduz vagas técnicas de entrada.

Egressos migram para funções administrativas inferiores ou para a informalidade.

Nordeste

Há menor dinamismo de setores intensivos em conhecimento.

O retorno da graduação diminui e cresce a migração de talentos.

Sul

Polos industriais e cooperativos exigem competências digitais e operacionais atualizadas.

Currículos defasados dificultam a inserção profissional qualificada.

Centro-Oeste

O agronegócio e a logística incorporam novas tecnologias em ritmo acelerado.

A oferta local de competências nem sempre acompanha a expansão, levando à contratação de profissionais de outras regiões.

Norte

Biotecnologia, bioeconomia e logística apresentam potencial de crescimento.

A formação local ainda é insuficiente em áreas estratégicas, o que limita o aproveitamento dos talentos da própria região.

 

Uma vulnerabilidade transversal

    Nenhuma área está imune à precarização. O problema aparece de formas diferentes, mas tem uma raiz comum: formação pouco conectada às práticas profissionais emergentes. 

 

Área de formação

Desafio predominante

Impacto profissional

Saúde

Vivência clínica insuficiente durante a formação.

Egressos ficam mais expostos a vínculos precários e atuação profissional limitada.

Engenharias, Arquitetura e Exatas

Distância entre teoria, ferramentas atuais e prática produtiva.

Profissionais são contratados para funções abaixo de sua qualificação formal.

Tecnologia da Informação

Automação crescente das atividades básicas de codificação.

O valor profissional desloca-se para arquitetura de sistemas, segurança e modelagem estratégica.

Humanas e Educação

Baixa remuneração e excesso de rotinas burocráticas.

Profissionais se afastam da mediação pedagógica e da transformação social.

Ciências Sociais Aplicadas

Automação de triagens, controles e processos padronizados em Direito, Administração e Contabilidade.

Cresce a necessidade de competências analíticas, estratégicas e decisórias.

 

O tempo do estudante e a formação que importa

    O estudante trabalhador não pode esperar quatro anos para perceber retorno concreto da graduação. Se os primeiros semestres não ampliarem sua capacidade de gerar valor, renda e mobilidade profissional, a evasão deixa de ser surpresa e passa a ser consequência previsível.
    A advertência de Peter Drucker permanece atual: em períodos de ruptura, o maior risco é insistir nas premissas de ontem. Isso não significa formar o aluno como mero operador de tecnologia. Como lembra Edgar Morin, informação não equivale a julgamento; sistemas computacionais organizam probabilidades,
mas não substituem deliberação crítica e responsabilidade ética. A resposta está no que Joseph Aoun denomina Humanics: integração entre domínio tecnológico, fluência em dados e alfabetização humana, apoiada em ética, criatividade e pensamento autônomo. O diferencial do egresso deve ser sua capacidade de interpretar, decidir e agir com responsabilidade.


O MEC como agente indutor


    Se o subemprego é uma questão de Estado, o MEC não pode limitar-se à fiscalização de indicadores e formulários. A regulação deve aproximar campus e economia local, premiando instituições e empresas que produzam inserção profissional qualificada.
    Essa política pode operar em duas frentes complementares:
1. Incentivos ao setor produtivo: micro, pequenas e médias empresas que funcionem como laboratórios de aprendizagem, apresentem desafios reais e acolham estagiários desde os primeiros semestres poderiam receber abatimentos fiscais, prioridade em licitações ou crédito subsidiado. Ao compartilhar a formação do jovem, a empresa atua como co-tutora e merece contrapartida econômica.
2. Bonificação às IES transformadoras: instituições com resultados comprovados de inserção qualificada, evolução salarial e impacto territorial deveriam obter reconhecimento regulatório. IGC, CPC e recredenciamento poderiam incorporar indicadores de aderência ocupacional, enquanto IES de alto desempenho receberiam prioridade em programas federais e simplificação de processos.


Empresa e IES no mesmo ecossistema

    Com respaldo regulatório e financeiro, a cooperação com o setor produtivo deve começar no ingresso do estudante e organizar-se em três movimentos:
1. Extensão como residência de produtividade territorial: usar os 10% regulatórios para conectar estudantes e docentes a problemas concretos de empresas, cooperativas e organizações locais, com diagnósticos e soluções aplicadas.
2. Capacitação instrumental com IA: introduzir, desde o ciclo inicial, ferramentas de automação, análise de dados e melhoria de processos úteis às organizações parceiras.
3. Certificações modulares: reconhecer competências a cada semestre para antecipar a empregabilidade e permitir que o estudante demonstre valor antes da conclusão do curso. Quando empresas observam estudantes resolvendo problemas reais, a distância entre academia e mercado diminui. O graduando deixa de ser visto como custo e passa a ser reconhecido como agente de produtividade e inovação.
 

    A missão dos gestores educacionais e das autoridades públicas é restituir valor concreto à jornada universitária. Educar com compromisso territorial significa fazer do diploma não apenas um símbolo, mas uma via real de emancipação, renda digna e desenvolvimento econômico. 

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Gestor, Pesquisador de Governança e Liderança no Ensino Superior

 


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Diploma, Trabalho e Futuro: O Subemprego como Desafio de Nação

 


    No 28º FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate não ficou restrito às possibilidades da tecnologia. Ele nos levou a uma questão anterior e mais incômoda: que futuro profissional estamos ajudando a construir para quem confia à educação superior anos de esforço, renda familiar e expectativa de mobilidade social?

    Ao lado da Dra. Priscila Bonini Ribeiro, Pró-Reitora da Unaerp Guarujá, que mediou a conversa com sensibilidade institucional, e de Edigar, da Otimize, construímos um diálogo que ultrapassou a agenda tecnológica. O ponto de convergência foi claro: inovação só tem valor educacional quando amplia a capacidade humana, melhora a inserção profissional e preserva a dignidade de quem se forma.

    O Edigar colocou na tela dados duros e sensíveis sobre a aceleração das dispensas corporativas provocadas pela Inteligência Artificial e, acima de tudo, acendeu o alerta vermelho sobre o avanço silencioso do subemprego entre os jovens com diploma no Brasil.

    O que está em jogo não é apenas a substituição de tarefas por sistemas inteligentes. É a possibilidade de ampliarmos um contingente de diplomados que estudou para avançar, mas encontra ocupações aquém de sua formação, de sua capacidade e do investimento realizado. Se esse descompasso já preocupa economias desenvolvidas, no Brasil ele se torna ainda mais grave: convivemos com baixa produtividade, desigualdade persistente e trajetórias profissionais mais frágeis. Por isso, o enfrentamento do subemprego qualificado não pode depender do calendário eleitoral. Precisa ser tratado como projeto de Nação.

    Esse contraste nos obriga a uma reflexão muito mais profunda do que simplesmente discutir ferramentas tecnológicas: qual é o valor real da formação que estamos entregando?

O Gigante do Subemprego: Uma Questão de Gestão e de Política Pública

    O principal risco para o Ensino Superior já não se limita à evasão. Ele aparece também depois da formatura, quando o egresso conquista um diploma, mas não encontra uma ocupação compatível com os conhecimentos, as responsabilidades e a remuneração que sua formação deveria possibilitar.

    Estudos recentes do setor e indicadores consolidados pelo Semesp apontam que uma parcela expressiva dos diplomados brasileiros ocupa postos que não exigem formação superior. Esse fenômeno reúne trajetórias distintas de funções auxiliares e vínculos precários ao trabalho mediado por aplicativos, mas produz o mesmo sinal de alerta: o país investe na formação e não consegue converter plenamente esse conhecimento em trabalho qualificado e produtividade.

    Quando quatro anos de estudo terminam em uma ocupação que não reconhece a formação adquirida, não fracassa apenas uma expectativa individual. Perdem a família que investiu, a instituição que formou e o país que deixou de transformar conhecimento em desenvolvimento.

    Edigar demonstrou que a inteligência artificial não automatiza apenas processos: ela também reduz postos operacionais que historicamente funcionaram como porta de entrada para recém-formados. A resposta, portanto, não cabe em uma disciplina isolada nem em uma iniciativa passageira. Exige governança nas IES, compromisso do setor produtivo e uma política de Estado capaz de articular educação, inovação, produtividade e geração de trabalho qualificado.

    Nas economias desenvolvidas, o avanço do subemprego entre jovens qualificados já pressiona o debate sobre produtividade, mobilidade social e retorno da educação. Em um país emergente, o efeito pode ser mais profundo. O Brasil não dispõe da mesma rede de proteção, apresenta desigualdades educacionais e regionais mais intensas e ainda precisa elevar sua produtividade. Importar a tecnologia sem construir uma estratégia própria de formação e trabalho significaria modernizar processos enquanto se ampliam frustrações sociais.

A Integridade do Ser Pensante: O Aluno Não Pode Ser Refém do Algoritmo

    Diante desse cenário, algumas instituições podem confundir atualização curricular com treinamento instrumental. Ensinar o estudante a operar ferramentas generativas é necessário, mas insuficiente quando não vem acompanhado da capacidade de formular boas perguntas, verificar respostas, interpretar contextos e assumir responsabilidade pelas decisões.

    Esse é um equívoco perigoso. O sociólogo e educador Edgar Morin, ao formular os pilares da educação do futuro, já nos alertava:

"O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo exterior; todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão."

    A Inteligência Artificial é prodigiosa em processar volumes monumentais de informação e produzir respostas sintéticas em fração de segundos. No entanto, ela fabrica correlações estatísticas, não sabedoria; gera probabilidades, não julgamento ético.

    Se ensinarmos o estudante apenas a aceitar passivamente o que o algoritmo entrega, estaremos formando um profissional dispensável alguém que pode ser substituído por uma atualização de software.

A verdadeira fronteira da empregabilidade está em formar um ser pensante, racional, íntegro e criativo:

1.     Auditoria e Ceticismo Metódico: O aluno precisa saber interrogar os dados gerados pela IA identificar viés algorítmico, alucinações conceituais e inconsistências lógicas.

2.     Capacidade Crítica de Decisão: A máquina calcula cenários; quem escolhe o caminho sob incerteza e assume a responsabilidade humana pelo impacto da escolha é o profissional.

3.     Criatividade e Sensibilidade Contextual: A máquina não compreende a dor de um pequeno comerciante do bairro, a angústia de uma família em litígio judicial ou a complexidade das relações comunitárias. A criatividade humana nasce da empatia e da leitura profunda do contexto.

    Como destacou Joseph Aoun (presidente da Northeastern University) em sua obra seminal Robot-Proof: "Para prosperar na era da automação, a educação superior precisa desenvolver o humano para integração entre a alfabetização tecnológica, a alfabetização de dados e a alfabetização humana (criatividade, empatia, pensamento crítico e ética)."

Do Conservadorismo Isolacionista à Integração Produtiva

    Durante décadas, parte do meio universitário tratou a aproximação com o mercado como ameaça à autonomia acadêmica. Preservar a reflexão crítica continua indispensável; o erro está em confundir independência intelectual com distanciamento dos problemas concretos da sociedade e do trabalho.

    O resultado desse afastamento foi uma relação de baixa confiança: empresas passaram a questionar a utilidade prática do diploma, enquanto universidades viam o setor produtivo com reserva. Reconstruir essa confiança é condição para aproximar currículo, inovação e oportunidades profissionais sem subordinar a educação às demandas imediatas do mercado.

    A superação desse distanciamento requer uma arquitetura de cooperação entre IES, setor produtivo e regulação do MEC. Cada parte tem uma responsabilidade própria: a instituição forma e produz conhecimento; as organizações apresentam problemas reais e oportunidades de aplicação; o poder público cria diretrizes, incentivos e mecanismos de acompanhamento que protejam o interesse coletivo.

  • A Regulação do MEC (com as DCNs e os 10% de curricularização da extensão) não deve ser encarada como fardo cartorial para acumular papéis, mas como a autorização legal para transformar a cidade em laboratório vivo.
  • O Setor Produtivo (o comércio local, as indústrias da comarca, os prestadores de serviço) tem carência crônica de inteligência aplicada, mas não possui recursos para contratar consultorias de grande porte.

·             A IES organiza essa cooperação: prepara os estudantes com recursos tecnológicos e rigor analítico, conecta-os a desafios reais da região e acompanha projetos capazes de diagnosticar custos, redesenhar fluxos de trabalho e implantar soluções digitais nos negócios locais.

    Quando o empresário vê um aluno do 1º ou 2º ano entrando em sua empresa, não para fazer discurso teórico, mas para organizar suas contas e aumentar sua produtividade com olhar crítico e respeito à realidade do negócio, ocorre uma transformação imediata: o estudante passa a ser apreciado, respeitado e cobiçado pelo mercado.

A empresa acredita no potencial desse jovem porque viu a sua competência gerar valor antes mesmo da formatura.

O Retorno do Investimento: O Diploma Não Pode Ser Apenas um Papel na Parede

    Para a imensa maioria dos nossos estudantes em especial o aluno trabalhador do período noturno, a faculdade não é um passatempo. É um projeto de sobrevivência e emancipação familiar.

    Cada mensalidade paga representa escolhas difíceis: é o almoço que foi economizado, a jornada dupla no transporte público, o tempo subtraído do convívio com os filhos.

    Por trás de cada matrícula existe um pacto sagrado: a família investe o que tem na esperança legítima de que aquele diploma trará o retorno esperado em dignidade, remuneração justa e sustentabilidade econômica.

    Nós, gestores de Instituições de Ensino Superior, não podemos considerar concluída nossa responsabilidade no momento da colação de grau. A formação só cumpre plenamente sua finalidade quando o conhecimento adquirido amplia a autonomia do egresso, sua capacidade de gerar valor e suas condições de construir uma trajetória profissional digna.

A nossa métrica soberana de sucesso precisa ser clara:

  • Quantos dos nossos egressos escaparam das armadilhas do subemprego?
  • Quantos deles conquistaram posições estratégicas onde suas mentes são valorizadas e bem remuneradas?
  • Quantos deles aprenderam a usar a inteligência artificial sem nunca abrir mão da própria voz, da ética e da capacidade de pensar por si mesmos?

    Essas perguntas precisam deixar de ser retóricas. Devem orientar indicadores de acompanhamento de egressos, revisão curricular, parcerias com empregadores e decisões dos Conselhos Superiores. Aquilo que a instituição não acompanha tende a permanecer invisível; e o subemprego não pode continuar sendo o resultado que o sistema prefere não medir.

A Lição de Casa para as Lideranças Universitárias

    Para transformar essa reflexão em práticas concretas nas nossas instituições a partir desta semana:

1.     Revisitar os NDEs com Foco no Pensamento Crítico: Auditar os planos de ensino e eliminar avaliações focadas em respostas padronizadas que a IA resolve em três segundos. Exigir defesa oral, resolução de problemas reais sob pressão e auditoria crítica de relatórios gerados por algoritmos.

2.     Transformar a Extensão em Vitrine de Empregabilidade: Alinhar os projetos de extensão com as associações comerciais e arranjos produtivos locais. O aluno deve atuar como consultor de inovação e produtividade desde o primeiro ano de curso.

3.         Pacto nacional pela dignidade do diploma: acompanhar a trajetória dos recém-formados e tratar a empregabilidade compatível com a área de formação como indicador central de qualidade. Esse compromisso deve ultrapassar instituições e mandatos, reunindo ensino superior, setor produtivo e poder público em metas contínuas de qualificação, produtividade e inserção profissional.

    O recado que levamos do FNESP é inequívoco: a inteligência artificial continuará avançando e as rotinas previsíveis perderão espaço. O diferencial não estará em disputar velocidade com a máquina, mas em formar pessoas capazes de interpretar consequências, decidir com integridade e converter conhecimento em valor para a sociedade.

    Essa missão não pertence apenas às instituições de ensino, às empresas ou a um governo. Ela exige um projeto de Nação: formar profissionais que conduzam a tecnologia com discernimento, transformar diplomas em trabalho qualificado e fazer da produtividade um caminho para a dignidade. Um país que educa sem criar espaço para o talento que formou não desperdiça apenas investimento; desperdiça futuro.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

domingo, 30 de agosto de 2026

“Ver o Que Nos Une e Não o Que Nos Separa”: O “Zigue-Zague” entre as Exigências do MEC, a Realidade do Aluno e o Caixa da Mantenedora

 

 

    Ao convocar o Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII imortalizou uma das diretrizes mais lúcidas de liderança e convergência: “Vamos ver o que nos une e não o que nos separa”. No ecossistema do Ensino Superior brasileiro, poucas reflexões são tão urgentes e necessárias. Historicamente, muitas instituições construíram barreiras invisíveis entre dois pilares indissociáveis: a governança acadêmica e a sustentabilidade econômico-financeira da mantenedora.

    Quando as dificuldades de caixa se misturam aos desafios pedagógicos sem uma visão estratégica    unificada, a instituição perde tração. O acadêmico corre o risco de enxergar o financeiro como uma barreira fiscalizatória fria; o financeiro, por sua vez, tende a enxergar as demandas de infraestrutura e corpo docente apenas sob a ótica da despesa.

    Essa cisão enfraquece a IES. A decisão assertiva da alta gestão precisa fazer convergir, de forma concomitante, duas metas inegociáveis: a continuidade perene da missão educacional e a geração de recursos suficientes para honrar custos operacionais, cobrir despesas e bancar os investimentos estruturais da Mantenedora.

1. O “Zigue-Zague” do Ensino Superior: Entre o Rigor do MEC e a Urgência do Aluno

    Quem vivencia a rotina de uma faculdade reconhece que liderar uma IES no Brasil exige o fôlego de um guerreiro para navegar o constante zigue-zague do setor:

  • O Trabalho Árduo com as Exigências do MEC: Manter comissões próprias de avaliação ativas, estruturar matrizes aderentes às novas DCNs, cumprir os 10% de extensão curricular, obter conceitos de excelência no Enade e responder a processos de regulação e recredenciamento demandam esforço técnico contínuo e rigor documental diário da Pró-Reitoria e dos coordenadores.
  • A Luta do Aluno Trabalhador e o Orçamento Familiar: Na outra ponta desse zigue-zague está o protagonista da sala de aula brasileira: o estudante trabalhador. Ele necessita de uma formação ágil e aplicável, que aumente sua empregabilidade imediata. Conseguir uma promoção ou um novo emprego não é apenas uma vitória profissional; é a garantia de renda para ajudar nas despesas de casa e manter o pagamento das mensalidades em dia para seguir seus estudos até a colação de grau.

    O cumprimento das normas do MEC perde sentido se for puramente burocrático; ele precisa ser a garantia de que o aluno está sendo preparado para gerar valor econômico real em sua vida e em sua comunidade.

2. A Equação da Continuidade: O Fluxo de Caixa a Serviço da Formação

    Folha de pagamento qualificada, laboratórios modernos, equipamentos de tecnologia e conservação predial não se sustentam sem um fluxo de caixa rigorosamente planejado. Ao mesmo tempo, um caixa equilibrado só existe quando o produto acadêmico entrega valor percebido e retém o acadêmico.

    A verdadeira sustentabilidade nasce da complementaridade:

  • O Acadêmico como Alavanca de LTV: Matrizes conectadas ao mercado, extensão aplicada que resolve dores da região e uso instrumental de tecnologias tornam a faculdade indispensável para o aluno, blindando a matrícula contra a evasão e protegendo o Lifetime Value.
  • O Financeiro como Guardião da Infraestrutura: O controle rigoroso do capital de giro e o gerenciamento assertivo de custos e despesas não visam sufocar a pedagogia, mas assegurar recursos para que a Mantenedora invista em clínicas, fazendas experimentais, bibliotecas e ambientes de inovação.

3. A Visão Sistêmica: O Todo sem Exclusão de Cursos ou Estruturas

    A superação dos desafios institucionais exige abandonar a análise fragmentada de departamentos. Julgar cursos isoladamente como "lucrativos" ou "deficitários" ignora o ecossistema integrado que compõe uma instituição de ensino:

  • Interdependência dos Eixos do Saber: As Ciências da Saúde, Agrárias, Jurídicas, Exatas e de Negócios formam um mosaico de impacto socioeconômico regional. O reconhecimento social e a reputação construídos por uma área abrem portas comerciais para todas as outras.
  • Integração de Ponta a Ponta: Da portaria à tesouraria, da secretaria acadêmica ao suporte de TI, cada ponto de contato impacta diretamente a jornada do aluno. Uma falha de atendimento ou um processo burocrático engessado reflete imediatamente no desengajamento do estudante e na perda de receita da mantenedora.

    Encarar os desafios do Ensino Superior exige a resiliência do guerreiro para equilibrar o rigor regulatório do MEC com a dura realidade financeira do aluno trabalhador.

    Ao buscar o que une a paixão educacional à disciplina financeira, a instituição preserva seu propósito, garante a sustentabilidade da Mantenedora e cumpre sua missão maior: transformar o esforço diário do estudante em dignidade profissional e ascensão social.

    “Na gestão universitária, quem separa o rigor financeiro da missão acadêmica compromete o futuro da instituição. A continuidade da IES reside na capacidade de ver o que nos une, enfrentar o zigue-zague da realidade com a coragem do guerreiro e liderar o todo com equilíbrio, sustentabilidade e propósito.”

    Espaço de Diálogo

    Como a sua instituição equilibra o trabalho árduo das exigências do MEC com a necessidade de gerar empregabilidade rápida para o aluno trabalhador manter seus estudos? A Pró-Reitoria e a Mantenedoria têm operado como parceiras unificadas na gestão de custos, despesas e investimentos?

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro