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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Internacionalização no Ensino Superior: moda passageira ou estratégia de modernização?

 


    A internacionalização do ensino superior deixou de ser um diferencial restrito às grandes universidades globais e passou a ocupar posição estratégica nas instituições de ensino de diferentes portes e regiões. Em um cenário marcado pela intensa circulação de conhecimento, inovação tecnológica e cooperação científica internacional, discutir internacionalização não é mais apenas uma questão de prestígio acadêmico, mas de competitividade institucional, desenvolvimento regional e formação qualificada de profissionais.

    Entretanto, ainda persiste uma pergunta importante: a internacionalização no ensino superior é apenas uma tendência impulsionada pela globalização — uma “moda acadêmica” — ou representa um processo real de modernização das universidades?

 

Muito além do intercâmbio

 

    Quando se fala em internacionalização, muitas pessoas associam imediatamente o conceito a programas de intercâmbio estudantil. Embora a mobilidade acadêmica seja uma dimensão importante, a internacionalização é significativamente mais ampla.

     Ela envolve a inserção da dimensão internacional nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão universitária. Isso inclui:

* cooperação científica internacional;

* desenvolvimento de pesquisas multicêntricas;

* publicações em colaboração com pesquisadores estrangeiros;

* oferta de disciplinas em língua estrangeira;

* dupla titulação;

* participação em redes internacionais de inovação;

* atração de estudantes e docentes estrangeiros;

* adaptação curricular para competências globais.

 

Na prática, internacionalizar significa preparar a universidade — e seus estudantes — para atuar em um ambiente acadêmico, científico e profissional cada vez mais conectado.

 

A internacionalização como instrumento de modernização

 

    Sob a perspectiva das Relações Internacionais, a internacionalização do ensino superior pode ser compreendida como um mecanismo de inserção estratégica dos países na economia do conhecimento. Universidades internacionalizadas tendem a ampliar sua capacidade de inovação, fortalecer sua produção científica e aumentar sua relevância institucional.

     Além disso, a cooperação internacional favorece o acesso a:

* novas metodologias de ensino;

* tecnologias emergentes;

* financiamento internacional;

* infraestrutura colaborativa;

* formação avançada de recursos humanos.

 

    Em países em desenvolvimento, como o Brasil, a internacionalização também exerce papel importante na redução de assimetrias científicas e tecnológicas. A participação em redes globais de pesquisa permite acelerar processos de atualização acadêmica e ampliar a visibilidade internacional das instituições. Nesse sentido, a internacionalização não deve ser vista como um elemento periférico, mas como parte integrante da modernização universitária.

 

O risco da internacionalização superficial

 

    Apesar dos avanços observados nos últimos anos, ainda existem iniciativas de internacionalização baseadas mais em marketing institucional do que em transformação estrutural.

    Em alguns casos, a internacionalização é reduzida a ações pontuais, como convênios pouco ativos, participação esporádica em eventos internacionais ou utilização do termo como ferramenta de posicionamento institucional.

    Esse modelo superficial pode gerar baixa efetividade acadêmica e poucos impactos reais para estudantes, pesquisadores e para a própria instituição.

    A internacionalização efetiva exige planejamento estratégico, investimento institucional e integração com os objetivos acadêmicos da universidade. Não se trata apenas de “parecer internacional”, mas de incorporar práticas globais de excelência de maneira consistente e sustentável.

 

Formação do cidadão do futuro

 

    A internacionalização do ensino superior também possui impacto direto na formação cidadã. Em um mundo marcado por transformações tecnológicas aceleradas, desafios globais compartilhados e crescente interdependência entre países, formar profissionais tecnicamente qualificados já não é suficiente.

    As universidades contemporâneas são cada vez mais desafiadas a formar cidadãos capazes de compreender realidades multiculturais, dialogar com diferentes perspectivas e atuar de maneira ética em contextos globais complexos.

    A experiência internacional — seja por meio da mobilidade acadêmica, da participação em redes globais de pesquisa ou da interação com ambientes multiculturais — contribui para o desenvolvimento de competências humanas fundamentais, como:

* empatia intercultural;

* pensamento crítico;

* comunicação global;

* capacidade de adaptação;

* colaboração internacional;

* responsabilidade social;

* compreensão de desafios globais compartilhados.

 

    Além disso, a internacionalização favorece a formação de indivíduos mais preparados para lidar com temas transnacionais, como sustentabilidade, saúde global, inovação tecnológica, desigualdades sociais e diplomacia científica.

    Sob a ótica das Relações Internacionais, a universidade internacionalizada também exerce papel importante na formação de uma cidadania global, capaz de reconhecer a importância da cooperação entre países e da produção coletiva do conhecimento.

    Mais do que formar profissionais para o mercado de trabalho, a internacionalização contribui para formar cidadãos aptos a atuar em sociedades cada vez mais conectadas, diversas e dinâmicas.

 

Formação de profissionais globais

 

    Outro aspecto relevante é o impacto da internacionalização na formação dos estudantes. O mercado de trabalho contemporâneo valoriza cada vez mais competências interculturais, capacidade de colaboração internacional, domínio de idiomas e adaptação a contextos multiculturais.

     Profissionais formados em ambientes acadêmicos internacionalizados tendem a desenvolver:

* maior capacidade crítica;

* visão global de problemas complexos;

* competências de comunicação intercultural;

* maior adaptabilidade profissional;

* familiaridade com inovação e diversidade.

 

    Essas competências são particularmente importantes em áreas como saúde, tecnologia, engenharia, negócios, biotecnologia e pesquisa científica.

 

Exemplos brasileiros de internacionalização

 

    Diversas universidades brasileiras têm demonstrado que a internacionalização pode gerar impactos concretos na produção científica, na inovação e na formação acadêmica.

    A Universidade de São Paulo,"USP", por exemplo, consolidou-se como uma das principais instituições latino-americanas em cooperação internacional, com forte presença em publicações científicas multicêntricas, programas de dupla titulação e redes globais de pesquisa.

    A Universidade Estadual de Campinas,"UNICAMP" ampliou significativamente suas parcerias estratégicas em áreas como biotecnologia, engenharia e inovação tecnológica, fortalecendo sua inserção em projetos colaborativos internacionais.

    Já a Fundação Oswaldo Cruz,"Fiocruz" tornou-se referência internacional em saúde pública e pesquisa translacional, especialmente por meio de cooperações científicas em epidemiologia, vacinas e doenças infecciosas.

    Outro exemplo relevante é a Universidade Federal de Minas Gerais, "UFMG"], que desenvolve programas de internacionalização voltados tanto à mobilidade acadêmica quanto à atração de pesquisadores estrangeiros e participação em consórcios internacionais de pesquisa.

    Além das grandes universidades, instituições localizadas fora dos principais centros econômicos também vêm ampliando sua atuação global. Universidades estaduais e centros de pesquisa do interior têm estabelecido colaborações internacionais em áreas específicas, demonstrando que a excelência científica não está restrita às capitais.

    Esse movimento evidencia que a internacionalização pode atuar como ferramenta de fortalecimento regional, ampliando a visibilidade internacional da ciência produzida no Brasil.

 

Internacionalização regional e interiorização do conhecimento

 

    Um ponto frequentemente negligenciado é que a internacionalização não deve ser exclusividade das grandes capitais ou universidades centrais.

    Instituições localizadas no interior também possuem potencial significativo para cooperação internacional, especialmente quando apresentam expertise em áreas específicas de pesquisa, inovação ou impacto regional.

    A construção de parcerias internacionais pode fortalecer ecossistemas locais de inovação, atrair investimentos, ampliar a formação de pesquisadores e aumentar a inserção global da produção científica regional.

    Nesse contexto, internacionalizar também significa democratizar oportunidades acadêmicas e científicas.

 

Redes acadêmicas e programas de internacionalização

 

    A consolidação da internacionalização no ensino superior brasileiro também depende fortemente da participação das instituições em redes nacionais e internacionais de cooperação.

    Essas redes permitem compartilhar experiências, desenvolver projetos multicêntricos, ampliar a mobilidade acadêmica e fortalecer a inserção global das universidades brasileiras.

    Nesse contexto, a Associação Brasileira de Educação Internacional,"FAUBAI"desempenha papel central no fortalecimento da internacionalização universitária no Brasil. A entidade atua na articulação entre universidades, agências de fomento e instituições estrangeiras, promovendo eventos, capacitações e conexões estratégicas voltadas à cooperação acadêmica internacional.

    A atuação da FAUBAI contribuiu significativamente para profissionalizar os escritórios de relações internacionais das universidades brasileiras e ampliar a discussão sobre políticas institucionais de internacionalização.

    Outro avanço importante foi o desenvolvimento de programas nacionais voltados à internacionalização da pós-graduação e da pesquisa científica. Entre eles, destaca-se o programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior,"CAPES"PrInt (Programa Institucional de Internacionalização), frequentemente associado ao movimento conhecido como “CAPES Global”.

    O CAPES PrInt incentivou universidades brasileiras a estruturarem planos institucionais de internacionalização de longo prazo, estimulando:

* mobilidade internacional de docentes e discentes;

* atração de pesquisadores estrangeiros;

* criação de redes internacionais de pesquisa;

* internacionalização curricular;

* fortalecimento da produção científica colaborativa.

 

    Mais do que financiar intercâmbios, o programa estimulou mudanças institucionais mais profundas, exigindo planejamento estratégico e metas de internacionalização integradas aos programas de pós-graduação.

    Além disso, redes internacionais de pesquisa têm se tornado fundamentais para enfrentar desafios globais complexos, como pandemias, mudanças climáticas, segurança alimentar e inovação em saúde.

    Nesse cenário, universidades capazes de atuar em redes colaborativas internacionais ampliam não apenas sua visibilidade científica, mas também sua capacidade de gerar impacto social e tecnológico.

 

Conclusão

 

    A internacionalização do ensino superior não deve ser interpretada como uma moda acadêmica temporária. Trata-se de um processo estratégico de modernização institucional e inserção global do conhecimento.

    Universidades que investem em cooperação internacional de forma estruturada ampliam sua capacidade científica, fortalecem a formação de seus estudantes e se tornam mais preparadas para enfrentar os desafios contemporâneos.

    Mais do que um selo de prestígio, a internacionalização representa uma ferramenta de transformação acadêmica, científica e social.

    Em um mundo cada vez mais interdependente, universidades isoladas tendem a perder relevância. Já aquelas capazes de construir pontes internacionais tornam-se protagonistas na produção de conhecimento e inovação.

    A pergunta, portanto, talvez não seja mais se a internacionalização é necessária, mas como implementá-la de maneira estratégica, inclusiva e sustentável.

 

 Dra. Giovana A. Gonçalves Vidotti

PHD em Ciências FMUSP e Especialista em Relações Internacionais

Convidada Especial  

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Educação e Projeto de Nação: Notas a partir da Missão Técnica Internacional do Semesp à China

     


    Na Missão Técnica da qual estou participando nestes dias, aqui na China, tenho feito uma reflexão sobre a educação em nosso país. Percebo que, para a transformação de uma nação, o planejamento é algo essencial. Esse planejamento na área educacional deve transpor os limites de um período de governo , levando-se em consideração um projeto de educação para a transformação do país a curto, médio e longo prazo.Nosso país não carece de diretrizes educacionais; dispomos de marcos normativos relevantes e de uma comunidade acadêmica altamente qualificada. No entanto, persiste um desafio estrutural: há uma dificuldade de transformar diretrizes em coerência sistêmica ao longo dos anos. 

 


    O que acontece hoje no Brasil é uma desconexão; ou seja, “o ensino se torna uma ilha”. Na prática, observa-se uma fragmentação entre os diferentes níveis de ensino. Educação Básica, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior operam em diferentes frequências, a partir de lógicas próprias, nem sempre articuladas entre si.Esse desalinhamento compromete a fluidez da trajetória formativa do estudante. Quando começamos algo com erro de milímetros, no final do processo, isso pode chegar a quilômetros. Na educação brasileira, esse erro acaba refletindo-se mais evidentemente no Ensino Superior, que passa a atuar, em muitos casos, como instância de recomposição formativa. Em vez de se consolidar como espaço de aprofundamento e produção de conhecimento, assume parcialmente um papel corretivo de nivelamento.Quem perde com isso somos todos nós, brasileiros. Sem profissionais totalmente aptos e qualificados, o desenvolvimento da nação fica comprometido, gerando consequências no desenvolvimento social do país. 


 

    A educação, quando pensada de forma integrada, deixa de ser apenas um campo setorial e passa a atuar como eixo estruturante do desenvolvimento nacional.Nesse sentido, torna-se imprescindível avançar na construção de mecanismos de articulação efetiva entre o poder público, as instituições de ensino em todos os níveis e as entidades representativas da área educacional. Mais do que um alinhamento pontual, o desafio está na construção de uma continuidade institucional capaz de sustentar políticas educacionais que ultrapassem ciclos de governo e se consolidem como políticas de Estado. As reflexões aqui apresentadas são parte de um percurso em construção, que envolve observação em campo, aprofundamento acadêmico e diálogo constante com profissionais da área. 

 

    E talvez a questão mais incômoda e necessária seja esta: se já sabemos onde estão as falhas de articulação, o que, de fato, ainda nos impede de corrigi-las? Estamos diante de limitações técnicas, institucionais ou de falta de convergência entre os próprios atores que compõem o sistema? Provocar esse debate com responsabilidade e profundidade talvez seja, hoje, tão importante quanto propor soluções.Fica o convite à reflexão, especialmente àqueles que acreditam que pensar a educação é, inevitavelmente, pensar no futuro do país,

 

Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Capital externo fortalece ensino superior privado no Brasil em meio a desafios nacionais


 

    Nos últimos anos, o ensino superior privado no Brasil passou por um intenso processo de desnacionalização, com grande parte das instituições sendo controladas por grupos estrangeiros. De acordo com o artigo “A desnacionalização do ensino superior privado”, publicado por Fernando Nogueira Costa em A Terra é Redonda, cinco grandes grupos — muitos deles com participação significativa de fundos de Wall Street — dominam cerca de 40% das matrículas no setor.

    Essa presença maciça de capital estrangeiro tem sido fundamental para a expansão e consolidação do ensino superior no país, especialmente em um contexto marcado pela escassez de poupança interna, queda nos investimentos públicos e concorrência por recursos com outros setores, como a educação infantil.

    Segundo o autor, o setor tornou-se altamente atrativo para fundos de private equity e conglomerados educacionais globais devido à alta demanda reprimida por diplomas, à estrutura de custos reduzidos — especialmente no ensino a distância (EaD) — e ao acesso a políticas públicas de financiamento, como FIES e Prouni.

    Dados citados no artigo mostram que apenas 21,3% da população entre 25 e 64 anos possui ensino superior completo, percentual que sobe para 23,7% entre os jovens de 25 a 34 anos — ainda assim, cerca de metade da média dos países da OCDE. Escenário reforça a necessidade de investimento em escala, algo que o capital nacional, por si só, tem dificuldade de oferecer.

    Além disso, a financeirização da educação — com decisões orientadas por métricas de rentabilidade — tem permitido a oferta de mensalidades mais acessíveis, como as de EaD, que giram em torno de R$ 348, contra R$ 1.132 na média dos cursos presenciais. Esse modelo viabiliza o acesso de parcelas da população que, de outra forma, estariam excluídas do ensino superior.

    No entanto, o artigo também alerta para os riscos desse processo: a perda de controle nacional sobre a formação em áreas estratégicas como saúde e direito, a precarização do trabalho docente e a subordinação da qualidade pedagógica aos interesses financeiros.

    Recentemente, o governo federal reagiu a parte dessas tendências com a edição de um decreto que regula e limita a oferta de EaD em cursos como medicina, direito, odontologia, enfermagem e psicologia — tentativa de frear a massificação sem critérios.

    A desnacionalização, portanto, surge como um fenômeno ambíguo: por um lado, injeta recursos e escala em um setor estratégico; por outro, submete a educação à lógica do mercado, com impactos ainda incertos sobre sua qualidade e soberania.

by 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 

Fonte:
Costa, Fernando Nogueira. “A desnacionalização do ensino superior privado”. A Terra é Redonda, 11/06/2025. Publicado em Outras Palavras.