A Educação Superior brasileira acaba de atravessar um marco histórico. Pela primeira vez na série analisada pelo Mapa do Ensino Superior 2026, do Instituto Semesp, a modalidade de Educação a Distância superou o ensino presencial em número de matrículas. Em 2024, a EAD passou a concentrar 50,7% dos estudantes do Ensino Superior no Brasil, enquanto o presencial ficou com 49,3%. O dado confirma uma transformação que vinha se desenhando há anos e que agora se consolida como uma mudança estrutural no setor educacional.
Mais do que um movimento numérico, esse resultado revela uma mudança profunda no comportamento do estudante brasileiro. A busca por flexibilidade, mensalidades mais acessíveis, possibilidade de conciliar estudo e trabalho e maior familiaridade com tecnologias digitais ajudou a impulsionar a expansão da EAD. No entanto, o crescimento da modalidade já demonstra sinais de desaceleração: segundo o Semesp, a EAD cresceu 5,6% em 2024, abaixo dos patamares observados em anos anteriores, enquanto o presencial apresentou queda discreta de 0,5%.
Esse cenário exige uma leitura madura por parte das instituições de ensino. O EAD não pode mais ser tratada como uma modalidade secundária, complementar ou apenas operacional. Ela se tornou protagonista no acesso ao Ensino Superior brasileiro. Ao mesmo tempo, seu crescimento impõe uma pergunta essencial: estamos ampliando apenas o número de matrículas ou estamos garantindo uma formação de qualidade, com acompanhamento, vínculo acadêmico, aprendizagem efetiva e permanência estudantil?
O próprio Semesp alerta que, apesar do crescimento do setor, os desafios de permanência continuam relevantes. Em 2024, a taxa de evasão nos cursos presenciais foi de 24,8%, enquanto na EAD atingiu 41,6%. Esse dado mostra que a expansão da modalidade precisa vir acompanhada de estratégias consistentes de retenção, tutoria, mediação pedagógica, acolhimento, acompanhamento de desempenho e fortalecimento do vínculo entre estudante, curso e instituição.
Outro ponto relevante é o perfil dos ingressantes. Segundo o Mapa do Ensino Superior 2026, pelo quinto ano consecutivo o número de novos alunos na EAD foi maior do que no presencial. Além disso, a participação da EAD entre os ingressantes chegou a 73,5%, indicando que a modalidade absorveu grande parte do público que antes buscava o ensino presencial noturno, especialmente estudantes trabalhadores que precisam de maior flexibilidade para permanecer na graduação.
Diante desse novo cenário, a discussão não deve ser reduzida a uma disputa entre EAD e presencial. O futuro da Educação Superior tende a ser cada vez mais híbrido, flexível, tecnológico e orientado por dados. O presencial continuará tendo papel essencial em cursos que demandam práticas laboratoriais, vivências clínicas, experiências presenciais intensivas e desenvolvimento de competências relacionais. Já a EAD tende a ocupar espaço estratégico quando bem estruturada, com desenho pedagógico adequado, professores preparados, tutores atuantes, recursos tecnológicos eficientes e avaliação de aprendizagem consistente.
Para os gestores educacionais, o dado traz uma mensagem clara: não basta ofertar EAD; é necessário governar a EAD. Isso significa acompanhar indicadores de acesso, permanência, evasão, desempenho, satisfação discente, empregabilidade, qualidade dos materiais, interação docente-estudante e efetividade da aprendizagem. A modalidade que cresce sem controle acadêmico corre o risco de ampliar matrículas sem consolidar trajetórias formativas.
Portanto, o fato de a EAD ter superado o presencial não deve ser lido apenas como uma vitória da tecnologia ou da flexibilidade. Deve ser interpretado como um chamado à responsabilidade institucional. A Educação Superior brasileira está mudando, e as instituições que conseguirem equilibrar inovação, qualidade, acompanhamento pedagógico e sustentabilidade acadêmica estarão mais preparadas para responder às demandas do novo estudante e do novo mercado de trabalho.
O futuro da Educação Superior não será definido apenas pela modalidade de oferta, mas pela capacidade das instituições de entregarem formação relevante, acessível, humana e de qualidade seja no presencial, na EAD ou em modelos híbridos cada vez mais integrados.
Fonte: https://www.semesp.org.br/mapa/edicao-16
Cristiane Procópio de Oliveira
Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais

