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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

5.000 visitas, 110 textos e uma comunidade que se constrói no diálogo

 

    O Blog Diálogo Acadêmico acaba de alcançar uma marca que nos enche de orgulho: 5.000 visitas e 110 textos publicados. Cada número representa pessoas reais que dedicaram seu tempo para ler, refletir e debater conosco sobre o futuro da educação superior no Brasil.

    Essa conquista não é fruto de um esforço isolado. Ela é resultado da colaboração de articulistas que, com generosidade intelectual e compromisso, transformaram o blog em um espaço plural de análise, crítica e proposição. A cada segunda, quarta e sexta, o Diálogo Acadêmico cumpre sua missão de construir pontes entre a academia e a sociedade por meio da liberdade de pensamento.

    Agradecemos imensamente a Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça, professor, contador e gestor financeiro, que contribui com análises estratégicas sobre gestão, evasão, microcertificações e sustentabilidade financeira das IES. Agradecemos à Profa. Dra. Cristiane Procópio de Oliveira, psicóloga e consultora educacional, cujos textos sobre saúde mental, metodologias ativas e formação docente enriquecem nosso debate. E agradecemos a Dra. Giovana A. Gonçalves Vidotti, PhD em Ciências pela FMUSP e especialista em Relações Internacionais, que trouxe ao blog a dimensão da internacionalização e da cidadania global.

    A todos os leitores, que fazem deste espaço um lugar de encontro e aprendizagem, nosso muito obrigado. Vocês são a razão de continuarmos escrevendo.

    Mas 5.000 visitas e 110 textos são apenas o começo. Seguimos com o compromisso de aprofundar temas essenciais: gestão acadêmica, inovação curricular, evasão, inteligência artificial, regulação, empregabilidade e o papel transformador da educação no desenvolvimento do país.

    Que venham as próximas visitas, os próximos textos e, acima de tudo, os próximos diálogos.

 

Obrigado por fazer parte desta jornada!

 

📚 Continue acompanhando o Blog Diálogo Acadêmico e compartilhe com sua rede. A educação se transforma quando o conhecimento circula.

 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
 Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A universidade que queremos versus a universidade que temos: o diagnóstico que não pode esperar

 


    O seminário "A USP Pensa a Universidade Brasileira", promovido pela Cátedra Paschoal Senise em agosto de 2026, colocou em evidência um debate essencial para o futuro do ensino superior no país. Reunindo pesquisadores, autoridades acadêmicas e especialistas, o encontro partiu de quatro perguntas fundamentais: qual universidade queremos, qual é possível, qual é necessária e qual é o seu papel no futuro? A vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci lembrou que a quinta revolução tecnológica coloca o ser humano e a sociedade no centro, e que as universidades têm a "obrigação de reduzir diferenças sociais e criar conhecimento para eliminar a pobreza através da excelência".

    Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, construída a partir de diagnósticos como o apresentado no seminário, traria benefícios concretos. O pró-reitor de Pós-Graduação, Carlos Eduardo Ambrósio, revelou que a USP renovou um terço de seu quadro docente (cerca de 1.400 novos professores) e atingiu 81% de excelência em seus programas de pós-graduação (notas 6 e 7 da Capes). No entanto, Luiz Roberto Liza Curi, titular da Cátedra, alertou para um descompasso grave: o Brasil é o 13º produtor de pesquisa qualificada no mundo desde 2002, mas convive com currículos de graduação defasados, alguns datados dos anos 1970, enquanto a inteligência artificial avança rapidamente. Uma política de estado que articule avaliação, financiamento e renovação curricular poderia transformar esse cenário.

    As faculdades brasileiras precisam abordar urgentemente a desarticulação entre ensino, pesquisa e extensão, apontada por Curi como um dos principais entraves. O seminário mostrou que a regulação atual avalia de forma idêntica grandes universidades federais e faculdades isoladas, sem considerar suas especificidades e impactos regionais. O caminho apontado é o de uma modernização do sistema avaliativo, transformando-o de instrumento burocrático em indutor do desenvolvimento — como defendeu o próprio Curi. Modelos que associam ensino ao desenvolvimento da nação, integrando inteligência artificial, pesquisa e formação acadêmica, foram discutidos na primeira mesa-redonda, com participação de representantes da UFPE, Unifesp, Unicamp e Insper.

    A solução exige uma agenda coordenada entre universidades, agências de fomento (como Inep, Finep e Capes) e o próprio MEC. O seminário apontou a necessidade de discutir limites da regulação na perspectiva da autonomia, prioridades no financiamento estudantil e políticas curriculares que integrem graduação, pós-graduação e extensão. Como bem sintetizou a vice-reitora da USP, o papel das universidades é formar "pessoas e dirigentes capazes de fazerem decisões sábias para toda a sociedade". Mais do que uma reforma administrativa, trata-se de um projeto de nação — que exige coragem para desengessar regimentos, enfrentar o descolamento entre pesquisa e ensino, e colocar a universidade brasileira no centro do desenvolvimento humano, econômico e cultural do país.

 

Referência

 
JORNAL DA USP. Impacto da educação superior no desenvolvimento do País pauta encontro de pesquisadores. São Paulo, 27 ago. 2026. 

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

sábado, 22 de agosto de 2026

O mapa da excelência: por que o Brasil precisa (urgentemente) de uma política de qualidade baseada em dados globais

 


    A 16ª edição do QS World University Rankings by Subject avaliou mais de 21 mil programas acadêmicos em 1.900 instituições de 100 países, consolidando-se como um dos mais abrangentes termômetros da qualidade do ensino superior global. O relatório revela movimentos estratégicos: enquanto a América do Norte ainda lidera em número de cursos ranqueados, a Ásia Meridional (com 40% de disciplinas em alta) e a Oceania (37%) ganham terreno aceleradamente. Para o Brasil, esses dados não são apenas estatísticas – são um espelho das lacunas que precisam ser preenchidas com urgência.

    Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, ancorada em indicadores internacionais como os da QS, traria benefícios concretos: primeiro, permitiria que as universidades brasileiras identificassem com precisão suas forças e fraquezas em relação aos padrões globais, especialmente nas áreas de maior crescimento, como Ciência de Dados e Inteligência Artificial – que registram o maior número de novas entradas no ranking. Segundo, estimularia a competição saudável entre instituições, elevando o patamar médio da formação oferecida. Por fim, ampliaria a visibilidade internacional da ciência brasileira, atraindo parcerias e investimentos estrangeiros.

    O relatório mostra que áreas como Engenharia e Tecnologia (+1.150 movimentos ascendentes) e Ciências da Vida e Medicina (+1.210) são as que mais progrediram globalmente – justamente os campos em que o Brasil tem carência crítica de profissionais qualificados. Isso evidencia que a formação prática dos alunos, aliada à pesquisa aplicada, é o diferencial competitivo das melhores universidades. Instituições que conseguem integrar laboratórios, estágios e projetos reais ao currículo formam egressos mais preparados para o mercado, como demonstram os casos de sucesso do Tecnológico de Monterrey (México) e das universidades comunitárias brasileiras.

    A solução passa por uma agenda coordenada entre MEC, Capes e as próprias universidades: criação de um sistema nacional de monitoramento baseado nos critérios da QS (reputação acadêmica, citações por artigo, empregabilidade dos egressos); incentivo à internacionalização dos currículos e à formação de redes de pesquisa com instituições de países emergentes que estão subindo no ranking; e, principalmente, vinculação de recursos do Fies e do Prouni ao desempenho institucional em rankings globais e nacionais, como forma de induzir a melhoria contínua. O Brasil tem ciência de qualidade, mas precisa de uma política de estado que transforme excelência isolada em sistema nacional de alta performance – antes que a lacuna para as nações que sobem no ranking se torne um abismo intransponível.

 

Referência:

 
QS QUACQUARELLI SYMONDS. QS World University Rankings by Subject 2026: results. London, 25 mar. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Menos mestrados, mais doutorados e a privatização silenciosa: qual o futuro da pós-graduação brasileira?

 


    O sistema de pós-graduação brasileiro está em plena transformação estrutural. Dados do Mapa do Ensino Superior 2026, do Instituto Semesp, revelam um movimento contraditório: o doutorado cresceu quase 16% no país, impulsionado principalmente pela rede privada (+34,6%), enquanto o mestrado sofreu retração de 15,6% nas universidades públicas. Ao mesmo tempo, a modalidade a distância avança na pós-graduação stricto sensu, já reunindo 28,4% dos mestrandos e 17,6% dos doutorandos. Esse cenário reacende o debate sobre modelos de formação e carreira acadêmica.

    A ampliação do doutorado direto — caminho que permite ao aluno pular o mestrado e ingressar diretamente no doutorado — é apontada como uma estratégia para reduzir o tempo de formação de pesquisadores. Como defende Sergio Lazzarini, do Insper, um estudante com consistente trajetória de iniciação científica pode estar preparado para o doutorado sem passar pelos dois anos de mestrado. Para Denise Pires de Carvalho, presidente da Capes, essa é uma tendência internacional que “faz sentido para estudantes que chegam ao fim da graduação já preparados para desenvolver pesquisa”. Reduzir o ciclo de formação de pesquisadores é essencial para ampliar a oferta de profissionais qualificados e tornar o sistema mais ágil.

    No entanto, a ênfase quase exclusiva na formação de pesquisadores revela uma lacuna preocupante: a pós-graduação brasileira forma predominantemente cientistas, mas negligenciar a preparação de professores para o ensino superior. Como bem observa Celso Capilongo, da PUC-SP, a procura por cursos de pós-graduação diminuiu após a pandemia — e um dos motivos pode ser o desestímulo gerado pelo formato híbrido ou virtual. Mas a questão de fundo é mais grave: muitos programas de mestrado e doutorado preparam seus alunos para a pesquisa, mas não para a docência universitária, que exige competências pedagógicas específicas.

    A solução passa por uma revisão ampla da formação superior brasileira, como sugere a própria presidente da Capes, mas com um olhar específico para a formação docente. Programas de pós-graduação deveriam incluir, como componente obrigatório, disciplinas de didática, metodologias ativas e gestão de sala de aula — especialmente em um cenário de expansão do EAD e de mudanças no perfil dos estudantes. Além disso, seria necessário repensar a duração dos cursos: no Brasil, o doutorado dura, em média, quatro anos, enquanto em outros países o ciclo é de três anos. Essa rigidez, combinada com a falta de preparação pedagógica, contribui para formar pesquisadores tecnicamente competentes, mas professores despreparados.

    Apesar da gravidade das transformações em curso, as mudanças nos programas de mestrado e doutorado são raramente debatidas com a profundidade que merecem. Discute-se a ampliação de vagas, o financiamento da Capes e o crescimento da rede privada, mas pouco se fala sobre o que se ensina e como se ensina na pós-graduação. O silêncio sobre a formação pedagógica dos futuros docentes é um sintoma de que o sistema ainda trata a pesquisa como fim último, e o ensino como subproduto. Enquanto não colocarmos a docência no centro do debate da pós-graduação, continuaremos a formar gerações de professores que sabem pesquisar, mas não sabem ensinar — e o Brasil continuará a ter uma educação superior de qualidade desigual.

 

Referência

 
VICTORINO, Adriana. Menos mestrados, mais doutorados e busca por faculdades privadas: o que mudou na pós-graduação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 29 jul. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

 

sábado, 25 de julho de 2026

Professor sob ataque: por que a valorização docente é a política de qualidade mais negligenciada do Brasil

 


    O relato da professora Marta, ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos, e o caso da educadora Michelle Bernardes, que teve um dedo decepado ao tentar conter um aluno em crise, são a ponta do iceberg de uma epidemia silenciosa. Dados do Centro do Professorado Paulista revelam que 65% dos professores brasileiros já sofreram alguma forma de agressão, e o Brasil lidera o ranking da OCDE de violência contra educadores, com 47% deles relatando abusos verbais como fonte de estresse – contra uma média global de 18%.

    Valorizar o docente não é apenas uma questão de justiça ou bem-estar; é a base de qualquer política consistente de qualidade do ensino. Um professor que trabalha sob ameaça, com salários defasados e jornadas exaustivas, não consegue desenvolver práticas pedagógicas inovadoras nem estabelecer vínculos significativos com os alunos. Como observa a psicóloga Renata Paparelli, da PUC-SP, a precarização das condições de trabalho alimenta o abismo entre educadores e comunidade, tornando a escola um lugar que "vai perdendo sentido para os estudantes".

    As instituições de ensino superior, que formam os futuros professores, precisam colocar o respeito à docência no centro de seus projetos pedagógicos. Não se trata apenas de disciplinas sobre didática, mas de construir uma cultura que reconheça o professor como profissional intelectual, com autonomia, formação continuada e condições dignas de trabalho. A solução exige políticas públicas integradas: redução do número de alunos por turma, suporte psicológico nas escolas, mediação de conflitos e diálogo efetivo com as comunidades.

    Apesar da gravidade do problema, o incentivo ao docente raramente figura nas pautas prioritárias da educação nacional. Discute-se currículo, tecnologia e avaliação, mas silencia-se sobre o profissional que está na linha de frente. Enquanto o Brasil tratar a violência contra professores como um problema isolado, e não como um sintoma de desvalorização estrutural, continuaremos a formar gerações em um ambiente hostil – e a perder, como mostra a pesquisa, professores por adoecimento mental, como burnout e estresse pós-traumático, em números alarmantes.

 

Referência 
BBC. A epidemia de violência contra professores no Brasil: 'Fui ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos'. G1, São Paulo, 21 jul. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Ciência fechada a sete chaves: o Brasil financia, mas não pode ler?

 


    O Brasil investe bilhões em pesquisa científica, mas grande parte do conhecimento produzido com recursos públicos permanece trancado atrás de paywalls internacionais. Em artigo publicado no Jornal da USP, o professor André Vereta Nahoum denuncia a contradição: pagamos para produzir ciência, mas não garantimos seu livre acesso. Apesar de o país ter sido pioneiro com o SciELO, a internacionalização da ciência brasileira criou novos muros — agora, as editoras cobram taxas de publicação (APCs) que podem chegar a milhares de dólares por artigo, inviabilizando o acesso aberto para a maioria dos pesquisadores.

    O acesso aberto não é apenas um luxo acadêmico: artigos publicados nessa modalidade alcançam mais leitores, recebem mais citações e geram maior impacto científico e social. Quando a produção científica brasileira circula livremente, ela pauta debates internacionais, reduz assimetrias entre países e instituições e permite que cidadãos e formuladores de políticas públicas utilizem o conhecimento produzido. Como bem lembra Nahoum, "se a sociedade financia a pesquisa, seus resultados não deveriam permanecer restritos por barreiras de acesso impostas por editoras comerciais".

    A formação de novos cientistas e a consolidação da pesquisa no país dependem de um ambiente acadêmico que valorize a circulação do conhecimento. As universidades públicas têm o dever de formar pesquisadores críticos, capazes de produzir ciência de impacto, mas também de atuar ativamente na democratização do saber. Incentivar a publicação em acesso aberto e debater os modelos de negócio das editoras científicas é tão importante quanto ensinar metodologia ou redação acadêmica — é formar cidadãos científicos comprometidos com o bem público.

    A solução, como propõe o autor, passa por uma ação coletiva e estratégica: universidades como USP, Unicamp, Unesp e Fapesp, em conjunto com a Capes, podem usar seu peso institucional para ampliar acordos nacionais com as grandes editoras. Em vez de financiar milhares de pagamentos individuais, instituições brasileiras podem negociar condições mais justas e ampliar a cobertura do acesso aberto, reduzindo custos e tornando mais equitativa a circulação internacional do conhecimento produzido com recursos públicos.

Referência:
 

NAHOUM, A. V. O acesso aberto precisa se tornar uma política das universidades públicas. Jornal da USP, São Paulo, 7 jul. 2026. 

#A imagem foi obtida via internet e pertence ao canal Ciência Oculta;  

 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Qual o real motivo de tanta dificuldade das Instituições de Ensino Superior com o Enade?

    

     


    O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) foi instituído em 2004 e integra o ciclo avaliativo dos cursos de ensino superior no Brasil. Passadas mais de duas décadas, é interessante observar como muitas instituições ainda enfrentam dificuldades com o desempenho de seus alunos, mesmo considerando que a avaliação ocorre a cada três anos. Isso nos leva a questionar: de que forma os resultados das avaliações estão sendo efetivamente utilizados para a evolução do ensino?

    A prova é aplicada em todos os cursos de graduação, mas em ciclos trienais, e as notas institucionais são padronizadas em uma escala de 1 a 5. Um curso que obtém conceito 3 demonstra que, na média, o desempenho de seus formandos no ano da avaliação está alinhado à média nacional. No entanto, essa média nacional pode não refletir um desempenho satisfatório em termos de percentual de acertos — ou seja, alcançar 50% de acerto. Assim, não é raro encontrar cursos com conceito 3 cuja nota média dos estudantes ficou em torno de 30% de acertos, significando que, a cada 10 questões, o formando errou 7.

    O cenário é desafiador, especialmente porque a maioria dos cursos de ensino superior no Brasil obtém bons conceitos nas visitas in loco dos avaliadores do MEC, mas ainda assim não consegue garantir a aprendizagem efetiva de seus alunos. Qual seria, então, o motivo para essa discrepância?

    Uma primeira explicação para o descompasso entre a nota atribuída na visita de avaliação e o desempenho no Enade reside no fato de que o questionário utilizado pelos avaliadores pouco ou nada considera o conceito obtido pelo curso no exame ou a aprendizagem dos alunos. O foco da avaliação, portanto, acaba sendo a estrutura física e organizacional para a oferta do curso, em detrimento de uma observação mais aprofundada sobre a qualidade da aprendizagem.

    A resposta para essa lacuna, no entanto, não é única. Se analisarmos o curso sob uma perspectiva acadêmica, abrem-se várias frentes para compreender a falta de qualidade média em alguns cursos superiores no país. Uma delas é que o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) tornou-se, em muitos casos, um documento irrelevante, desconectado de sua diretriz curricular nacional e com frágil relação entre a gestão do curso e o que efetivamente é ensinado em sala de aula.

    Um segundo ponto que merece destaque é a falta de rigor acadêmico nos itens de flexibilização curricular, como atividades complementares, estágio, trabalho de conclusão de curso e disciplinas virtualizadas. Muitas vezes, esses componentes são utilizados como estratégia para redução de custos, e não como alternativas pedagógicas que promovam a autonomia do estudante. Em terceiro lugar, é inegável que um coordenador de curso bem formado e motivado tem o poder de fazer a diferença na construção de uma graduação de qualidade.

Ao longo de mais de 20 anos de aplicação do Enade, foi possível aprender com as avaliações e utilizar os dados para evoluir a qualidade dos cursos. Contudo, nem todas as instituições demonstram interesse em realizar essa discussão crítica e preferem, a cada três anos, sofrer com os resultados, em vez de enfrentar as causas estruturais do problema.

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

“Não há educação sem cultura”: o alerta que as faculdades não podem ignorar

 


    No Festival LED, promovido pelo g1 e pela Globo, a atriz Fernanda Montenegro proferiu uma frase que deveria ecoar em todas as reuniões de colegiado do ensino superior brasileiro: “Não há educação sem cultura”. Ao lado dos escritores Raphael Montes e Socorro Acioli, e da cantora Linn da Quebrada, ela defendeu o diálogo entre artes e ensino como condição para uma formação verdadeiramente humana. O evento evidenciou que a cultura não é enfeite ou atividade extracurricular — é parte estruturante do processo educativo.

    A relação entre cultura e educação é intrinsecamente dialética. Enquanto a educação transmite saberes sistematizados, a cultura oferece os significados, as narrativas e as sensibilidades que dão sentido a esses saberes. Uma faculdade que forma profissionais tecnicamente competentes, mas culturalmente empobrecidos, forma mão de obra, não cidadãos. A literatura, o teatro, a música e as artes visuais desenvolvem pensamento crítico, empatia e capacidade simbólica — habilidades essenciais até mesmo para a inovação nas áreas técnicas e científicas.

    A necessidade de as faculdades brasileiras incorporarem a cultura em seus currículos tornou-se urgente. Em um mundo dominado por algoritmos, inteligência artificial e métricas frias de produtividade, a cultura é o antídoto contra o empobrecimento da experiência humana. Instituições de ensino superior que desprezam a formação cultural formam profissionais robotizados, incapazes de lidar com a ambiguidade, a criatividade e a ética — justamente o que as máquinas ainda não conseguem fazer.

    A solução pode começar sem grandes investimentos: incluir uma disciplina obrigatória de “Arte, Literatura e Pensamento Crítico” nos currículos de todas as graduações; promover uma hora cultural semanal com debates sobre filmes, livros e exposições; e integrar museus, teatros e centros culturais como extensão obrigatória da sala de aula. Não se trata de formar artistas, mas de formar seres humanos completos. Como bem lembrou Fernanda Montenegro, sem cultura, o diploma pode até existir — mas a educação, não.

Referência ABNT:

ALFANO, Bruno. ‘Não há educação sem cultura’: Fernanda Montenegro e escritores defendem diálogo entre artes e ensino no LED. O Globo, Rio de Janeiro, 21 maio 2026.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O modelo do ensino superior atual acabou

      

    O modelo de ensino superior privado do país passa por muitas modificações, e este novo cenário nos faz perceber que a atual forma como o Ministério da Educação avalia os cursos está defasada, pois o modelo vigente não prioriza a aprendizagem, mas sim a estrutura do curso — o que pode ser notado pelo instrumento de avaliação atual, bem como pelas notas discrepantes entre a avaliação dos cursos e a avaliação da aprendizagem dos alunos (Enade ou Enamed).

    É inegável que existe um problema e que a avaliação realizada deixa escapar a aprendizagem do aluno ao contemplar outros objetivos que deveriam ser o cerne do processo avaliativo. Por que enfrentamos esse problema no presente?

    A rede privada é um conjunto complexo de instituições, no qual se torna muito difícil representá-la por uma média ou imagem, pois temos grandes grupos com ações na bolsa, grupos internacionais, grandes universidades com presença nas capitais, fundações, igrejas, grandes instituições do interior e pequenas instituições.

    Assim, entender o instrumento de avaliação e aplicá-lo não é difícil quando se possui recurso, pois o questionário atual é pequeno, e a maioria dos pedidos pode ser atendida para um ou mais cursos — ou seja, seu custo pode ser dividido internamente.

    Neste momento, devemos refletir sobre o motivo de termos cursos com nota máxima na avaliação do MEC, mas com notas insuficientes na avaliação da aprendizagem de seus alunos. Para quem leciona, a resposta é fácil: a nota passa pelo docente.

    O docente é o fator mais importante do ensino superior, pois ele transmite seu esforço e paixão ao processo de ensino e aprendizagem do aluno. O professor decide sobre o respeito ao Projeto Pedagógico, sobre a atualização do seu Plano de Ensino, acerca da metodologia atualizada para cada tópico ementário de sua disciplina e por utilizar ou não o livro base, a biblioteca ou o laboratório.

    Ao observarmos o docente universitário, entenderemos o motivo do ensino superior privado estar em crise, pois a virtualização pode ser entendida como uma tentativa de retirar sua necessidade ou mesmo de substituí-lo por profissionais menos qualificados ou por um simples PDF. Sua forma de contratação como horista é boa para a instituição, mas terrível para quem planeja ter uma família, pois não garante sequer o salário mínimo — há docentes que não recebem por mês o valor do salário mínimo, sem falar que a convenção coletiva parte do pressuposto de que os docentes não precisam se alimentar, já que não contempla vale-alimentação ou refeição, ao menos em São Paulo.

    Tenho visto muita discussão sobre o novo instrumento de avaliação do MEC, sobre qualidade do ensino, sobre instituições que passam por dificuldades financeiras, sobre falta de docentes, queda nas matrículas, mas vejo pouca gente discutindo como tratar o docente com respeito e dignidade.




Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

     

sábado, 23 de maio de 2026

Mensalidades em queda: vamos pensar sobre os reais motivos?

 


O estudo da Hoper Educação em parceria com a Abmes, divulgado em 22 de maio de 2026 com base na análise de 80% dos cursos do país, revela uma inflexão histórica no mercado de ensino superior privado brasileiro. Pela primeira vez desde 2015, os valores medianos das mensalidades caíram tanto no presencial (queda de 4,3%) quanto EAD (queda de 1,8 % ) descontada a inflação. A grande questão é entender o motivo da depreciação do mercado em relação ao valor da mensalidade do ensino superior, dado que os custos para oferta não param de subir.           


A engenharia foi um dos cursos com quedas mais expressivas: a mediana despencou de R$ 1.743 para R$ 967 em 2026. O movimento reflete a migração de alunos para o EAD e para o modelo semipresencial. O estudo aponta que a grande competitividade entre instituições, aliada à pressão inflacionária e à perda de poder aquisitivo das famílias, força as IES a conceder mais descontos. “Quem não mostrar diferencial precisa disputar preço”, resume Caio Polizel, Executivo da Hoper.


Diante da queda generalizada dos preços e da escalada dos custos operacionais, entender o motivo do seu curso estar concorrendo no mercado somente pelo preço pode ser a melhor forma de enfrentar esta crise financeira, que poder funcionar como um sinal de alerta para uma crise maior, que é a falta de qualidade de muitos cursos universitários no país.

Assim, se o seu curso está nesta situação, uma forma de enfrentar o problema é agregar valor ao serviço prestado por meio da revisão do seu Projeto Pedagógico, escolha de uma equipe de docente bem formada, bem como montar um programa de estágio que seja capaz de auxiliar o aluno na construção da sua carreira. A  grande questão por baixo da queda do valor da mensalidade  média é entender o motivo do curso não possuir boa avaliação por parte do mercado e do MEC.



Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

terça-feira, 12 de maio de 2026

Rankings que medem passado não preparam o futuro: a hora de inovar é agora

 


    De acordo com o professor sul-coreano Dong-Sung Cho, criador do ranking Wuri, as universidades precisam deixar de ser avaliadas exclusivamente por conquistas passadas — como publicações e titulações — e passar a medir seu impacto no mundo real. A inovação não é um fim em si mesma, mas parte de um propósito maior: resolver problemas concretos da sociedade. Para Cho, o foco institucional deve migrar do prestígio abstrato para a criação de valor tangível.

    O professor defende que a inovação deve ser compreendida sob três perspectivas: como parte de um propósito maior, como um processo dinâmico e contínuo, e como uma construção sistêmica. Essa abordagem se estrutura no modelo SER-M (Sujeito, Ambiente, Recurso e Mecanismo), no qual o principal elemento é o mecanismo que transforma ideias em resultados palpáveis. Dessa forma, as universidades podem aprender, replicar e escalar a inovação.


    Cho alerta que as instituições ainda operam de forma isolada e compartimentalizada, o que dificulta a interdisciplinaridade e a colaboração. Para avançar, o ensino superior precisa romper com estruturas rígidas e adotar modelos flexíveis, que integrem tecnologia, inteligência artificial e novos desenhos pedagógicos. O autor destaca que a inovação não ocorre de forma isolada, mas inserida em ecossistemas dinâmicos que conectam universidades, centros de pesquisa, empresas e necessidades públicas.

    No Brasil, o potencial é enorme, mas exige alinhamento estratégico. Segundo Cho, iniciativas como a do Inteli, única instituição brasileira no ranking Wuri, mostram que é possível combinar tecnologia, liderança e acesso social por meio de projetos concretos. As universidades brasileiras podem protagonizar esse movimento se alinharem seus programas com prioridades nacionais — como a Amazônia, a biodiversidade e a defesa constitucional da universidade pública —, produzindo casos de inovação com influência global.

Referência

 
LEITE, Lucas. Universidades devem focar no futuro, não no prestígio, afirma professor sul-coreano Dong-Sung Cho. Folha de S.Paulo, São Paulo, 8 maio 2026. 

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária /Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP