Nos últimos anos, o ensino superior privado no Brasil passou por um intenso processo de desnacionalização, com grande parte das instituições sendo controladas por grupos estrangeiros. De acordo com o artigo “A desnacionalização do ensino superior privado”, publicado por Fernando Nogueira Costa em A Terra é Redonda, cinco grandes grupos — muitos deles com participação significativa de fundos de Wall Street — dominam cerca de 40% das matrículas no setor.
Essa presença maciça de capital estrangeiro tem sido fundamental para a expansão e consolidação do ensino superior no país, especialmente em um contexto marcado pela escassez de poupança interna, queda nos investimentos públicos e concorrência por recursos com outros setores, como a educação infantil.
Segundo o autor, o setor tornou-se altamente atrativo para fundos de private equity e conglomerados educacionais globais devido à alta demanda reprimida por diplomas, à estrutura de custos reduzidos — especialmente no ensino a distância (EaD) — e ao acesso a políticas públicas de financiamento, como FIES e Prouni.
Dados citados no artigo mostram que apenas 21,3% da população entre 25 e 64 anos possui ensino superior completo, percentual que sobe para 23,7% entre os jovens de 25 a 34 anos — ainda assim, cerca de metade da média dos países da OCDE. Escenário reforça a necessidade de investimento em escala, algo que o capital nacional, por si só, tem dificuldade de oferecer.
Além disso, a financeirização da educação — com decisões orientadas por métricas de rentabilidade — tem permitido a oferta de mensalidades mais acessíveis, como as de EaD, que giram em torno de R$ 348, contra R$ 1.132 na média dos cursos presenciais. Esse modelo viabiliza o acesso de parcelas da população que, de outra forma, estariam excluídas do ensino superior.
No entanto, o artigo também alerta para os riscos desse processo: a perda de controle nacional sobre a formação em áreas estratégicas como saúde e direito, a precarização do trabalho docente e a subordinação da qualidade pedagógica aos interesses financeiros.
Recentemente, o governo federal reagiu a parte dessas tendências com a edição de um decreto que regula e limita a oferta de EaD em cursos como medicina, direito, odontologia, enfermagem e psicologia — tentativa de frear a massificação sem critérios.
A desnacionalização, portanto, surge como um fenômeno ambíguo: por um lado, injeta recursos e escala em um setor estratégico; por outro, submete a educação à lógica do mercado, com impactos ainda incertos sobre sua qualidade e soberania.
by
Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues
Fonte:
Costa, Fernando Nogueira. “A desnacionalização do ensino superior privado”. A Terra é Redonda, 11/06/2025. Publicado em Outras Palavras.
