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segunda-feira, 6 de julho de 2026

O Peso da Pedra e o Destino da Cinza: O Desafio de Preparar o Aluno Trabalhador para o Mata-Mata do Mercado

 

    A tese central deste artigo é simples: preparar o aluno trabalhador para avaliações como ENADE, CFC e OAB não depende apenas de mais cobrança, mas de uma governança acadêmica capaz de reconhecer lacunas reais, integrar nivelamento à rotina das disciplinas e transformar esforço individual em resultado institucional sustentável.

    Na minha última reflexão, discuti como o recesso de julho é o período em que a alta gestão das Instituições de Ensino Superior (IES) aplica o ditado "enquanto descansa, carrega pedra", planejando o segundo semestre. No entanto, quando olhamos para a realidade das nossas salas de aula, percebemos que esse ditado é a rotina viva e diária dos nossos estudantes.

    O nosso aluno que cumpre uma jornada de 44 horas semanais de trabalho, enfrenta o transporte público e senta-se na cadeira da faculdade à noite, carrega o peso invisível de uma engrenagem exaustiva.

    O empenho e a garra desse público para obter boas notas e buscar o sucesso nas provações académicas e mercadológicas são admiráveis. Porém, há um nó crítico que a Academia, os Professores e os Gestores precisam encarar de frente: as graves lacunas pedagógicas deixadas pelas etapas anteriores (Fundamental e Médio).

 

1. O Perfil Real do Ensino Superior: Os Dados Alarmantes do SEMESP

 

    Os dados históricos consolidados pelo Instituto SEMESP e pelo Censo da Educação Superior revelam um cenário incontestável: o perfil do estudante mudou radicalmente nas últimas décadas. Se no passado a universidade era um privilégio de poucos, a democratização do acesso inverteu a pirâmide.

    Hoje, das classes C, D e E, vêm cerca de 70% a 75% do total de estudantes matriculados na rede privada de ensino superior do país.

    Quando afunilamos essa métrica para quem estuda no período noturno, o dado é ainda mais avassalador: mais de 70% de todos os universitários da noite trabalham em tempo integral, cumprindo jornadas de 40 a 44 horas semanais.

    Estamos a falar da esmagadora maioria da força discente do Brasil. Esse público não tem o privilégio da dedicação exclusiva aos estudos, de passar as tardes na biblioteca ou de realizar simulados extensos aos finais de semana. Para eles, o ensino superior não é apenas um rito de passagem social; é o projeto de sustento de suas famílias, o vetor de desenvolvimento de sua região e o motor de sustentabilidade para o país.

 

2. O Choque dos Ditados Populares e a Realidade do Sistema

 

    A sabedoria popular costuma ser implacável. Dois ditados refletem bem o ceticismo diante desse cenário: "cipó se torce quando é novo" e "pau que nasce torto até a cinza é torta". Se aceitarmos essa lógica determinista, assumiremos que um aluno que ingressa na faculdade com dificuldades de interpretação de texto, leitura analítica ou raciocínio lógico estará condenado ao fracasso na linha de chegada.

    Antes de avançarmos, cabe uma diferenciação fundamental e justa: quando apontamos lacunas do Ensino Fundamental e Médio, não estamos responsabilizando individualmente o magistério. Professores da educação básica realizam um trabalho heroico em condições frequentemente adversas. O diagnóstico central recai sobre o modelo estrutural de ensino do país: um sistema historicamente engessado, excessivamente conteudista e pouco conectado ao desenvolvimento de competências de interpretação, análise e resolução de problemas.

    A função do Ensino Superior de vanguarda é justamente subverter o determinismo desse sistema. Não podemos trabalhar com uma cultura retorcida que simplesmente pune o aluno por aquilo que o modelo macro educacional não lhe forneceu no passado. É óbvio que a nossa metodologia académica deve impor desafios, provocar o pensamento crítico e despertar o interesse profundo pela profissão. Mas isso precisa ser feito em doses homeopáticas.

    A engenharia pedagógica moderna consiste em preencher as defasagens do modelo anterior no momento presente, diluindo o nivelamento cognitivo dentro da prática diária das disciplinas, permitindo que o aluno ganhe desenvoltura e segurança em tempo real.

 

3. O Paradoxo Regulatório no "Mata-Mata": ENADE, CFC e OAB

 

    Aqui reside uma ferida que precisa ser tocada: exames nacionais de larga escala, como o ENADE, bem como provas de conselhos de classe, como o Exame de Suficiência do CFC e a OAB, exigem elevada capacidade de interpretação, análise de cenários complexos e aplicação de conceitos sob pressão. Na prática, essas avaliações cobram prontidão acadêmica de públicos que chegam ao ensino superior em condições muito diferentes de tempo, base formativa e disponibilidade para estudo.

    O segundo semestre funciona como o “mata-mata” definitivo dessas avaliações. Um desempenho fraco nesses exames rebaixa os índices institucionais da IES, destruindo o poder de atratividade comercial para os ciclos seguintes. Esse público diferenciado, mapeado pelo SEMESP, precisa ser visto pelas autoridades competentes sob uma nova ótica. É urgente pensar em formatos avaliativos que agreguem valor ao desempenho desse estudante, reconhecendo a sua bagagem prática de trabalho como um ativo cognitivo, e não ignorando a sua realidade socioeconômica.

 

4. A Construção a Várias Mãos: O Papel da Governança e do Caixa

 

    Resolver essa equação exige um pacto institucional trabalhado a várias mãos, onde a controladoria e o pedagógico convergem sob uma mesma governança:

 

  • A Academia (Direção e NDE): Precisa desenhar matrizes curriculares ágeis (como as microcertificações), que incorporem o treino para essas grandes avaliações dentro da carga horária regular da sala de aula, eliminando a dependência de atividades extracurriculares excludentes;
  • Os Professores: Precisam atuar como mentores de carreira, dosando os desafios conceituais de alta ordem com o suporte necessário para fechar os gargalos do modelo escolar prévio;
  • A Controladoria Financeira (CFO): Deve compreender que investir em ferramentas de acessibilidade cognitiva, inteligência artificial para aprendizagem personalizada e programas de monitoria não é uma despesa assistencialista. Trata-se de proteção de receita e de permanência estudantil. Cada aluno das classes C, D e E que evade nos primeiros semestres representa perda acadêmica, social e financeira, inclusive porque o Custo de Aquisição de Aluno já foi realizado no processo de captação. 

 

Conclusão

 

    O aluno que trabalha e carrega sua pedra diariamente não busca facilitação nem diplomas sem valor. Ele busca condições reais, justas e factíveis para competir no mercado com dignidade. Quando a governança da IES compreende esse estudante em sua totalidade, ela rompe o ciclo do determinismo e mostra que a educação superior pode corrigir trajetórias, superar parte das falhas do modelo educacional brasileiro e gerar desenvolvimento para o país.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O ensino superior está envelhecendo. Sua instituição está preparada para essa nova realidade?

 

O ensino superior está envelhecendo. Sua instituição está preparada para essa nova realidade?

Durante décadas, o ensino superior foi estruturado para um perfil bastante específico de estudante: jovem, recém-egresso do ensino médio, disponível para aulas presenciais e com poucas responsabilidades profissionais ou familiares. Essa realidade, porém, está mudando rapidamente.

O envelhecimento populacional e a crescente presença de estudantes chamados “não tradicionais” adultos, profissionais em atividade, pessoas em transição de carreira, pais e mães de família e indivíduos que retornam aos estudos após anos afastados estão redefinindo o papel das instituições de ensino superior. Essa tendência já é observada no Brasil e no mundo e deve se intensificar nos próximos anos. 

Quem são os estudantes não tradicionais?

O conceito de estudante não tradicional vai além da idade. Ele engloba pessoas com trajetórias acadêmicas interrompidas, trabalhadores em tempo integral, indivíduos que são os primeiros da família a ingressar na universidade, estudantes com responsabilidades familiares ou pertencentes a grupos historicamente sub-representados no ensino superior. 

Esses alunos chegam à universidade trazendo experiências profissionais e de vida que enriquecem o ambiente acadêmico, mas também apresentam necessidades diferentes daquelas para as quais muitas instituições foram originalmente planejadas.

A longevidade está transformando a educação

O aumento da expectativa de vida e a rápida transformação das profissões fazem com que aprender deixe de ser uma etapa restrita à juventude para se tornar um processo contínuo.

Cada vez mais profissionais retornam à universidade para atualizar competências, buscar uma nova graduação, especialização ou simplesmente reinventar suas carreiras diante das mudanças tecnológicas e do mercado de trabalho

 

 

O desafio das instituições de ensino

A questão que se impõe não é apenas como atrair esses estudantes, mas principalmente como garantir sua permanência e sucesso acadêmico. Instituições que pretendem crescer de forma sustentável precisarão repensar seus modelos pedagógicos e administrativos. Isso envolve flexibilizar currículos, ampliar ofertas híbridas e digitais, reconhecer conhecimentos adquiridos ao longo da vida profissional, oferecer serviços de apoio psicopedagógico e criar políticas institucionais voltadas para diferentes perfis de estudantes.

Mais do que adaptar horários, será necessário adaptar culturas institucionais.

A experiência como diferencial competitivo

A convivência entre gerações dentro da universidade representa uma oportunidade única. Enquanto estudantes mais jovens contribuem com familiaridade tecnológica e novas formas de comunicação, alunos mais maduros agregam experiência profissional, visão estratégica e capacidade de resolução de problemas.

Esse ambiente intergeracional fortalece a aprendizagem colaborativa e aproxima a formação acadêmica das demandas reais da sociedade e do mercado de trabalho. A própria ABMES destaca que a integração entre diferentes gerações constitui um importante papel social das instituições de ensino superior. 

Preparar-se para um novo perfil de aluno é preparar-se para o futuro

As instituições que compreenderem essa transformação terão vantagem competitiva significativa. Mais do que ampliar matrículas, estarão construindo ambientes educacionais inclusivos, flexíveis e conectados com as novas dinâmicas sociais.

O futuro da educação superior não será definido apenas pela tecnologia ou pela inovação curricular, mas pela capacidade de reconhecer que o estudante do século XXI é diverso, possui múltiplas trajetórias e continuará aprendendo durante toda a vida.

As universidades que entenderem essa mudança deixarão de formar apenas profissionais e passarão a formar pessoas em constante evolução.

 

 

Para refletir

Sua instituição ainda está estruturada para o estudante de 18 anos ou já está preparada para receber o profissional de 45 que busca reinventar sua carreira?

Essa resposta pode definir o futuro da educação superior nos próximos anos.

 


Cristiane Procópio de Oliveira

 

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A crise silenciosa da atenção nas salas de aula

 


    Em muitas instituições de ensino, um fenômeno tem chamado a atenção de gestores, professores e pesquisadores: a dificuldade crescente dos estudantes em manter o foco durante aulas, atividades e momentos de estudo.
    Embora o acesso à informação nunca tenha sido tão amplo, a capacidade de concentração parece enfrentar desafios inéditos.
    Celulares, redes sociais, excesso de estímulos digitais e a cultura da multitarefa estão transformando a forma como os alunos aprendem.
    A chamada “crise da atenção” não se limita à educação básica. Ela também está presente no Ensino Superior, impactando o desempenho acadêmico, o engajamento em sala de aula e até mesmo a saúde mental dos estudantes.

O avanço das telas e a disputa pela atenção


    A presença constante dos dispositivos digitais mudou profundamente a dinâmica da aprendizagem.
    Hoje, muitos estudantes alternam entre conteúdos acadêmicos, mensagens, vídeos curtos e redes sociais em questão de segundos. O cérebro passa a operar sob múltiplos estímulos simultâneos, o que pode comprometer a retenção de informações e a concentração prolongada.

Figura 1. Crescimento ilustrativo do tempo médio diário de exposição a telas.

 

Quando a distração se torna um problema pedagógico


    A distração digital não representa apenas uma mudança de comportamento. Ela interfere diretamente na aprendizagem. Pesquisas recentes apontam associação entre uso excessivo de telas, redução da atenção sustentada, menor participação em sala e pior desempenho acadêmico.
    Além disso, muitos estudantes relatam sensação constante de cansaço mental e dificuldade para concluir tarefas.

Figura 2. Distribuição ilustrativa dos principais impactos percebidos no contexto acadêmico.

 

O papel das instituições e dos docentes

    A solução não está simplesmente em proibir a tecnologia, mas em utilizá-la de forma estratégica.                 Instituições de ensino vêm investindo em metodologias ativas, aprendizagem baseada em problemas,    simulações, gamificação e recursos digitais com objetivos pedagógicos bem definidos.
O desafio contemporâneo não é competir com a tecnologia, mas criar experiências educacionais capazes de gerar significado, participação e conexão com a realidade dos estudantes.

Figura 3. Estratégias educacionais frequentemente associadas ao aumento do engajamento estudantil.

 

Uma reflexão necessária para o futuro da Educação


    A crise da atenção nas salas de aula é silenciosa porque nem sempre aparece nos indicadores tradicionais.
    Ela se manifesta em comportamentos cotidianos: dificuldade de concentração, excesso de multitarefa, redução do envolvimento com as aulas e menor profundidade no aprendizado.
    Mais do que discutir celulares ou redes sociais, o debate atual exige uma reflexão sobre como os estudantes aprendem em uma sociedade hiper conectada. O futuro da Educação dependerá da capacidade das instituições de equilibrar inovação tecnológica, desenvolvimento humano e construção de ambientes que favoreçam o foco, a autonomia e o pensamento crítico.


Referências e dados utilizados

                                                                                                                                                                                                UNESCO – Global Education Monitoring Report. Estudos recentes sobre uso excessivo de telas, atenção e desempenho acadêmico em estudantes universitários.

Os gráficos apresentados possuem finalidade ilustrativa para apoio visual.

 

 


Cristiane Procópio de Oliveira 

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais.

 

 

terça-feira, 31 de março de 2026

O Brasil e o abismo entre o Ensino Médio e o Superior: Por que o país “atrasa” seus talentos?

 

 

 

            Comemora-se, com frequência, o fato de o Brasil ter alcançado a marca histórica de 10 milhões de alunos matriculados no ensino superior. À primeira vista, o número impressiona pela relevância estatística, mas quando abrimos a “caixa preta” desses dados, encontramos uma realidade incômoda: mais de 50% dos alunos matrículas são pessoas com 25 anos ou mais; estamos atrasando a formação dos nossos jovens.

     O Brasil possui cerca de 22,3 milhões de jovens na faixa de ingresso universitário (18 a 24 anos). No entanto, desse montante, somente 22,9% conseguem ingressar no Ensino superior no período considerado ideal. Onde estão os outros 77,10%?

    A resposta é dura; o sistema “expulsa” o jovem de 18 anos para o mercado de trabalho. Ele só consegue retornar ao sistema de ensino quando atinge uma relativa estabilidade financeira, geralmente após os 25 anos.

    O olhar se volta para a nossa maior dor no momento: o fator socioeconômico. Esses jovens não desistiram de estudar, eles apenas precisaram adiar esse projeto para sobreviver. Atualmente, metade dos nossos universitários tem 25 anos ou mais. O contexto deixa claro que o jovem de baixa renda raramente consegue dar continuidade aos estudos imediatamente após o ensino médio.

        Essa barreira gera um fenômeno do “Universitário Maduro por Necessidade”. Quase metade dos nossos alunos carrega o peso de jornadas duplas, lacunas na formação básica e a constante pressão financeira.

    O gráfico abaixo demonstra o ingresso dos jovens no período coerente com a idade.  Abrir as portas das universidades deve ser uma meta crescente, tratada com políticas públicas e meios de financiamento mais adequado à realidade da população. Quando analisamos o gráfico percebemos que o Brasil esta na lanterna da continuidade do ensino médio para o Superior.

 

    A conversão dos países sul-americanos demonstra uma eficiência em comparação ao Brasil. O ponto crucial não é somente a entrada, mas a continuidade até a formatura. Este é um desafio hercúleo para as Instituições de Ensino Superior (IES). O panorama na América do Sul nos traz dados que precisam ser estudados com urgência para que a evasão seja sanada de forma gradativa e consistente

 

 

    “Será que a evasão não é um sintoma final de uma Instituição que insiste em ensinar o  em vez do “Saber resolver”. Esse gráfico deveria tirar o sono de qualquer gestor educacional. O contraste é violento, especialmente na Argentina, que detém o maior índice de ingresso imediato (72%), mas onde somente 30% chegam à formatura. No Brasil, sofremos de uma dupla falha: além da menor transição imediata, o funil da evasão continua vivo, mesmo para quem decide adiar o sonho em prol do trabalho.

    É fácil culpar o aluno que “falta esforço”. Mas a provocação que este gráfico faz às IES é mais profunda: que o exige e os alunos valorizam)?”

Como gestores, precisamos unir forças entre as IES do Brasil para buscar alternativas financeiras que aumentem o ingresso, mas acompanhadas de um verdadeiro “Choque de didática” para estancar a evasão. Essa mudança deve ser gradativa, porém focada.

     O contexto, a modernização com inteligências Sociais e Artificiais é fundamental para o desenvolvimento e engajamento dos estudantes. Afinal, a dinâmica mudou: não vivemos mais a era em que o mais importante era apenas “saber fazer”. Hoje, o valor real está em “saber como faze e ter capacidade de resolução”.

 

Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
 
Editor e Fundador do Blog