A tentação de soluções simples para problemas complexos é um risco constante na educação. Assim como a história do extermínio dos pardais na China, que gerou mais fome ao ignorar o papel dos pássaros no equilíbrio ecológico, defender a gestão privada como salvação para a educação brasileira pode ser uma miopia perigosa. A análise da especialista Priscila Cruz, publicada no globo, alerta que escolas privadas não são inerentemente melhores do que as públicas.
Atualmente, o ensino no Brasil convive com uma forte desigualdade de oportunidades. A maior parte da diferença de resultados entre escolas privadas e públicas está associada a fatores como nível socioeconômico e envolvimento das famílias, e não necessariamente à qualidade intrínseca da gestão. Quando se calcula o chamado "efeito-escola", excluindo o fator socioeconômico, as médias de aprendizagem entre redes pública e privada ficam muito próximas.
Estudos rigorosos sobre experiências de escolas charter e vouchers nos Estados Unidos, Suécia e Chile mostram efeitos mistos ou nulos em análises agregadas. Isso significa que, em larga escala, a simples transferência de recursos públicos para a gestão privada não garante melhoria da qualidade. A solução real passa por fortalecer o sistema público com investimento contínuo, valorização docente, gestão profissionalizada e planejamento de longo prazo.
A melhora do ensino superior público e privado depende, antes de tudo, da qualidade da educação básica. Investir em políticas de eficácia comprovada — como tempo integral, formação prática de professores e primeira infância — é o caminho para formar jovens mais preparados para o ensino superior. Um país que fortalece sua educação básica pública constrói a base para um ensino superior mais justo, produtivo e capaz de transformar a realidade social e econômica do Brasil.
Referência
CRUZ, Priscila. Matar pardais não vai resolver. O Globo, Rio de Janeiro, 9 abr. 2026.
