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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Qual o real motivo de tanta dificuldade das Instituições de Ensino Superior com o Enade?

    

     


    O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) foi instituído em 2004 e integra o ciclo avaliativo dos cursos de ensino superior no Brasil. Passadas mais de duas décadas, é interessante observar como muitas instituições ainda enfrentam dificuldades com o desempenho de seus alunos, mesmo considerando que a avaliação ocorre a cada três anos. Isso nos leva a questionar: de que forma os resultados das avaliações estão sendo efetivamente utilizados para a evolução do ensino?

    A prova é aplicada em todos os cursos de graduação, mas em ciclos trienais, e as notas institucionais são padronizadas em uma escala de 1 a 5. Um curso que obtém conceito 3 demonstra que, na média, o desempenho de seus formandos no ano da avaliação está alinhado à média nacional. No entanto, essa média nacional pode não refletir um desempenho satisfatório em termos de percentual de acertos — ou seja, alcançar 50% de acerto. Assim, não é raro encontrar cursos com conceito 3 cuja nota média dos estudantes ficou em torno de 30% de acertos, significando que, a cada 10 questões, o formando errou 7.

    O cenário é desafiador, especialmente porque a maioria dos cursos de ensino superior no Brasil obtém bons conceitos nas visitas in loco dos avaliadores do MEC, mas ainda assim não consegue garantir a aprendizagem efetiva de seus alunos. Qual seria, então, o motivo para essa discrepância?

    Uma primeira explicação para o descompasso entre a nota atribuída na visita de avaliação e o desempenho no Enade reside no fato de que o questionário utilizado pelos avaliadores pouco ou nada considera o conceito obtido pelo curso no exame ou a aprendizagem dos alunos. O foco da avaliação, portanto, acaba sendo a estrutura física e organizacional para a oferta do curso, em detrimento de uma observação mais aprofundada sobre a qualidade da aprendizagem.

    A resposta para essa lacuna, no entanto, não é única. Se analisarmos o curso sob uma perspectiva acadêmica, abrem-se várias frentes para compreender a falta de qualidade média em alguns cursos superiores no país. Uma delas é que o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) tornou-se, em muitos casos, um documento irrelevante, desconectado de sua diretriz curricular nacional e com frágil relação entre a gestão do curso e o que efetivamente é ensinado em sala de aula.

    Um segundo ponto que merece destaque é a falta de rigor acadêmico nos itens de flexibilização curricular, como atividades complementares, estágio, trabalho de conclusão de curso e disciplinas virtualizadas. Muitas vezes, esses componentes são utilizados como estratégia para redução de custos, e não como alternativas pedagógicas que promovam a autonomia do estudante. Em terceiro lugar, é inegável que um coordenador de curso bem formado e motivado tem o poder de fazer a diferença na construção de uma graduação de qualidade.

Ao longo de mais de 20 anos de aplicação do Enade, foi possível aprender com as avaliações e utilizar os dados para evoluir a qualidade dos cursos. Contudo, nem todas as instituições demonstram interesse em realizar essa discussão crítica e preferem, a cada três anos, sofrer com os resultados, em vez de enfrentar as causas estruturais do problema.

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

“Não há educação sem cultura”: o alerta que as faculdades não podem ignorar

 


    No Festival LED, promovido pelo g1 e pela Globo, a atriz Fernanda Montenegro proferiu uma frase que deveria ecoar em todas as reuniões de colegiado do ensino superior brasileiro: “Não há educação sem cultura”. Ao lado dos escritores Raphael Montes e Socorro Acioli, e da cantora Linn da Quebrada, ela defendeu o diálogo entre artes e ensino como condição para uma formação verdadeiramente humana. O evento evidenciou que a cultura não é enfeite ou atividade extracurricular — é parte estruturante do processo educativo.

    A relação entre cultura e educação é intrinsecamente dialética. Enquanto a educação transmite saberes sistematizados, a cultura oferece os significados, as narrativas e as sensibilidades que dão sentido a esses saberes. Uma faculdade que forma profissionais tecnicamente competentes, mas culturalmente empobrecidos, forma mão de obra, não cidadãos. A literatura, o teatro, a música e as artes visuais desenvolvem pensamento crítico, empatia e capacidade simbólica — habilidades essenciais até mesmo para a inovação nas áreas técnicas e científicas.

    A necessidade de as faculdades brasileiras incorporarem a cultura em seus currículos tornou-se urgente. Em um mundo dominado por algoritmos, inteligência artificial e métricas frias de produtividade, a cultura é o antídoto contra o empobrecimento da experiência humana. Instituições de ensino superior que desprezam a formação cultural formam profissionais robotizados, incapazes de lidar com a ambiguidade, a criatividade e a ética — justamente o que as máquinas ainda não conseguem fazer.

    A solução pode começar sem grandes investimentos: incluir uma disciplina obrigatória de “Arte, Literatura e Pensamento Crítico” nos currículos de todas as graduações; promover uma hora cultural semanal com debates sobre filmes, livros e exposições; e integrar museus, teatros e centros culturais como extensão obrigatória da sala de aula. Não se trata de formar artistas, mas de formar seres humanos completos. Como bem lembrou Fernanda Montenegro, sem cultura, o diploma pode até existir — mas a educação, não.

Referência ABNT:

ALFANO, Bruno. ‘Não há educação sem cultura’: Fernanda Montenegro e escritores defendem diálogo entre artes e ensino no LED. O Globo, Rio de Janeiro, 21 maio 2026.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

 

sábado, 23 de maio de 2026

Mensalidades em queda: vamos pensar sobre os reais motivos?

 


O estudo da Hoper Educação em parceria com a Abmes, divulgado em 22 de maio de 2026 com base na análise de 80% dos cursos do país, revela uma inflexão histórica no mercado de ensino superior privado brasileiro. Pela primeira vez desde 2015, os valores medianos das mensalidades caíram tanto no presencial (queda de 4,3%) quanto EAD (queda de 1,8 % ) descontada a inflação. A grande questão é entender o motivo da depreciação do mercado em relação ao valor da mensalidade do ensino superior, dado que os custos para oferta não param de subir.           


A engenharia foi um dos cursos com quedas mais expressivas: a mediana despencou de R$ 1.743 para R$ 967 em 2026. O movimento reflete a migração de alunos para o EAD e para o modelo semipresencial. O estudo aponta que a grande competitividade entre instituições, aliada à pressão inflacionária e à perda de poder aquisitivo das famílias, força as IES a conceder mais descontos. “Quem não mostrar diferencial precisa disputar preço”, resume Caio Polizel, Executivo da Hoper.


Diante da queda generalizada dos preços e da escalada dos custos operacionais, entender o motivo do seu curso estar concorrendo no mercado somente pelo preço pode ser a melhor forma de enfrentar esta crise financeira, que poder funcionar como um sinal de alerta para uma crise maior, que é a falta de qualidade de muitos cursos universitários no país.

Assim, se o seu curso está nesta situação, uma forma de enfrentar o problema é agregar valor ao serviço prestado por meio da revisão do seu Projeto Pedagógico, escolha de uma equipe de docente bem formada, bem como montar um programa de estágio que seja capaz de auxiliar o aluno na construção da sua carreira. A  grande questão por baixo da queda do valor da mensalidade  média é entender o motivo do curso não possuir boa avaliação por parte do mercado e do MEC.



Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP