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quarta-feira, 29 de abril de 2026

ENAMED 2026/2027: uma mudança silenciosa, mas estratégica na formação médica


    O Exame Nacional de Avaliação de Formação Médica (Enamed) é um exame unificado com objetivo de avaliar a formação médica no Brasil, além de ser uma porta de entrada para a residência médica de Acesso Direto, como o seletivo do ENARE. A partir de 2026, o ENAMED passa a incluir estudantes do 4º ano de Medicina, além dos concluintes.

    *Define-se estudantes do 4° ano como aqueles que tenham previsão de matrícula no 7° ou 8° semestres do curso de medicina em 31 de agosto de 2026.

 

    A formação médica brasileira entra, em 2026, em uma nova etapa de acompanhamento. O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED), que começou a ser aplicado em 2025, passa agora a incluir também os estudantes do 4º ano de Medicina, além dos concluintes. A mudança insere a avaliação em um momento considerado estratégico da graduação: o período que antecede o internato. Segundo o governo federal, a proposta é permitir um acompanhamento mais precoce da formação, com possibilidade de correções institucionais antes da etapa final do curso. 

    Criado para fortalecer a qualidade da educação médica no país, o ENAMED foi estruturado para unificar referências do Enade para Medicina e da prova objetiva de acesso direto do Enare (exame nacional de residência). Na prática, isso significa que o exame cumpre dupla função: avaliar o processo formativo dos estudantes e, ao mesmo tempo, dialogar com o ingresso na residência médica. Para o Inep, a iniciativa tem “relevância estratégica nacional por fornecer subsídios para o aprimoramento dos cursos e contribuir para a formação de profissionais mais preparados para atuar no sistema de saúde”. 

 

    Avaliação passa a ocorrer antes do internato

 

    A principal novidade está justamente na inclusão do 4º ano. Até então, a avaliação se concentrava no fim da graduação. Com a ampliação anunciada pelo MEC, o exame passa a acompanhar também uma fase intermediária do curso, em que ainda há tempo para ajustes pedagógicos e fortalecimento de competências essenciais. Segundo informações oficiais, a aplicação antes do internato foi pensada para identificar fragilidades mais cedo, ampliar a qualidade da formação e oferecer mais segurança à população atendida pelos futuros médicos. 

    Essa mudança também altera o peso simbólico e prático do exame dentro da trajetória acadêmica. O ENAMED deixa de ser visto apenas como uma avaliação terminal e assume um papel mais contínuo no monitoramento da aprendizagem, tornando-se parte de uma política mais ampla de regulação e qualificação dos cursos de Medicina no país. 

 

        Nota do 4º ano terá impacto no Enare?

    O que temos é uma nota de 2025 da Assessoria de Comunicação do Ministério da Educação, mencionando que a nota dos estudantes do 4° ano valeria 20% da nota do ENARE.

    Com isso, o desempenho passaria a ter repercussão concreta já durante a graduação, especialmente para os alunos que pretendem disputar vagas em programas de residência médica de acesso direto.

    Até o momento, não tivemos atualizações acerca desse assunto, ficando a dúvida.     

 

    Prova terá 100 questões objetivas

    Em relação ao formato, a regulamentação publicada em 2025 definiu que o ENAMED contará com 100 questões objetivas de múltipla escolha, distribuídas de forma equilibrada entre as áreas da Medicina contempladas no exame. Também integram o processo questionários obrigatórios, como o questionário contextual e o de percepção de prova. 

    A estrutura busca avaliar não apenas o domínio dos conteúdos, mas também competências e habilidades previstas nas (DCNS) Diretrizes Curriculares Nacionais da graduação em Medicina. Com isso, o exame se consolida como um instrumento de análise mais ampla da formação, alinhado às exigências contemporâneas da educação médica.  

 

     Mudança reposiciona o exame na formação médica

    Mais do que uma alteração operacional, a chegada do ENAMED ao 4º ano reposiciona o exame dentro da formação médica brasileira. A avaliação passa a acompanhar o estudante em momentos-chave da graduação, conectando desempenho acadêmico, qualidade institucional. Para as faculdades, a mudança exige atenção ainda maior ao currículo, ao acompanhamento discente e à consistência da formação oferecida. Para os estudantes, representa o início de uma nova lógica, em que a avaliação já no meio do curso pode repercutir diretamente em sua trajetória profissional. 

    Em síntese, o ENAMED no 4º ano inaugura um modelo de acompanhamento mais precoce, estratégico e com efeitos concretos sobre a graduação em Medicina. Em um contexto de forte debate sobre expansão, qualidade e responsabilidade na formação médica, a medida reforça a avaliação como ferramenta central para o futuro do ensino médico no Brasil.

 

    Mas o ponto mais relevante não é apenas quem será avaliado — e sim por quê.

👉 essa nova etapa tem caráter formativo;

👉 Foco no acompanhamento da evolução das competências;

👉 Apoio direto à autoavaliação institucional.

 

    Estamos diante de uma mudança de paradigma:

 

➡ Saímos de um modelo que avalia apenas o “produto final”;

➡ Para um modelo que monitora o processo formativo ao longo da graduação.

➡ Isso amplia a responsabilidade das instituições — e também a maturidade da regulação.

 

     Para as IES, o recado é claro:

✔ Não basta preparar o aluno para o final do curso;

✔ É necessário acompanhar a construção das competências desde os primeiros anos;

✔ A gestão acadêmica passa a ser ainda mais estratégica e baseada em evidências.

 

     Minha leitura como Consultora Educacional:

 

 

    Essa mudança fortalece a qualidade da formação médica e cria oportunidades reais de melhoria contínua, mas também exige:

✔ Revisão de práticas pedagógicas;

✔ Monitoramento mais estruturado dos estudantes;

✔ Integração efetiva entre coordenação, docentes, discentes e avaliação institucional.

 

    A pergunta que fica é: sua instituição já está preparada para essa nova lógica de avaliação?

#EducaçãoSuperior #Medicina #ENADE #GestãoAcadêmica #EnsinoMédico #INEP #MEC #QualidadeNaEducação #LiderançaEducacional

 


 

Cristiane Procópio de Oliveira
 
Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais 

 



quinta-feira, 5 de março de 2026

A Captação para IES Públicas mundou: Por que 97 vagas de medicina na UFRJ foram parar na lista de espera?


    A primeira chamada do Sisu 2026 escancarou um fenômeno inédito nos cursos de medicina das universidades federais: vagas historicamente disputadas migraram em massa para a lista de espera. Na UFRJ, 97 das 200 vagas do campus da capital não foram preenchidas na chamada regular, contra 47 no ano anterior. Em Macaé, o salto foi de 15 para 39. Na UFMG, 133 das 320 cadeiras seguiram o mesmo caminho, ante 95 em 2025. O movimento atingiu também outros cursos concorridos, como direito, e acendeu o alerta de educadores e gestores.

    Os números revelam uma mudança de comportamento dos candidatos. Na UFRJ, 57 dos aprovados no Rio usaram notas de edições anteriores do Enem; em Minas, foram 52. A principal hipótese é a nova regra que permite ao estudante escolher a melhor nota entre os três últimos exames. Segundo o consultor João Vianney, a ausência de mecanismos de compromisso imediato transformou a inscrição em uma espécie de “game”, em que candidatos testam suas chances sem intenção real de matrícula.

 

    Especialistas apontam que a novidade, somada ao custo de vida nas capitais e à possibilidade de manter vínculo com outra instituição, estimulou escolhas estratégicas pouco refletidas. Para o sociólogo Gustavo Bruno de Paula, a regra pode ter reforçado um comportamento já incentivado pelo Sisu, que permite acompanhar notas de corte em tempo real. O resultado foi uma explosão de vagas ociosas na primeira etapa, sem que houvesse queda na procura pelo curso.

    A saída, defendem coordenadores pedagógicos, passa por uma transição gradual. A aplicação repentina da regra pegou alunos e escolas de surpresa, sem previsibilidade para o planejamento dos vestibulandos. O MEC afirma que acompanha os indicadores, mas é preciso ir além: estabelecer normas que exijam compromisso dos candidatos e garantir que a ampliação do acesso não se converta em distorções que comprometam a ocupação das vagas públicas.

Referência

GONÇALVES, Gustavo. Medicina tem explosão de vagas não preenchidas na 1ª chamada após mudanças no Sisu. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1º mar. 2026.

*A imagem é da Internet 

** O gráficos é da reportagem

  

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O diploma não basta: quem realmente deve certificar os médicos no Brasil?

 


    Em meio ao acirrado debate sobre a qualidade da formação médica no país, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou, nesta quarta-feira (25), o projeto que institui o Profimed, exame de proficiência sob a responsabilidade do Conselho Federal de Medicina (CFM). Por 12 votos a 8, foram rejeitadas as emendas que pretendiam transferir o comando da avaliação para o governo federal. Agora, a matéria segue diretamente para análise da Câmara dos Deputados, consolidando uma vitória política da entidade médica.

    A decisão expõe a disputa de fundo entre o CFM e o Executivo. Enquanto parlamentares da base governista defendiam que o recém-criado Enamed — exame do Ministério da Educação — cumprisse o papel de prova de proficiência, o relatório do senador Hiran Gonçalves (PP-RR) manteve o controle com o conselho. O argumento vencedor, endossado pelo presidente do CFM, José Hiran Gallo, é o de que o modelo evita a consolidação de "dois tipos de medicina no Brasil: uma para ricos e outra para pobres".

    O contexto que pressiona pela aprovação da medida vem dos números. Em janeiro, os resultados do Enamed escancararam fragilidades na formação de futuros médicos, especialmente em instituições privadas. A má performance levou à possibilidade de punição de 99 cursos de medicina, sinalizando que a expansão desordenada das vagas pode estar comprometendo a capacitação técnica e ética dos profissionais. A proposta prevê que a prova seja aplicada pelo menos duas vezes ao ano, com resultados sigilosos encaminhados aos Ministérios da Educação e da Saúde.

    Mais do que uma definição burocrática, o desfecho dessa disputa no Legislativo determinará quem terá a palavra final sobre o ingresso na prática médica no Brasil. Ao colocar o CFM como guardião do exame, o Senado fortalece a autonomia da corporação em detrimento da esfera estatal, reacendendo a discussão sobre transparência, controle social e os critérios que separam o exercício legal da medicina do acesso seguro da população a profissionais minimamente qualificados.

Referência

HERMANSON, Marcos. Senado aprova exame de proficiência em medicina organizado pelo CFM; texto terá análise da Câmara. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 fev. 2026. p. 1-2.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Revogação de edital escancara crise na formação médica

 


A revogação do edital do Programa Mais Médicos que autorizaria até 5,9 mil novas vagas em cursos privados, publicada em edição extra do Diário Oficial da União na última terça-feira, jogou luz sobre um sistema de formação médica em estado de ruptura. O Ministério da Educação justificou a decisão com base na “alteração significativa do contexto fático, social e regulatório” — mas o que os bastidores revelam é uma política pública refém de judicialização em massa, sucessivos adiamentos e ausência crônica de planejamento. Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgados semanas antes, expuseram a face mais aguda do problema: 38,8% dos formandos de instituições privadas não atingiram a proficiência mínima exigida, o equivalente a 9.489 estudantes de um universo de 24.487 avaliados.

O Brasil chegou a esse impasse após mais de uma década de expansão acelerada e pouco criteriosa. Levantamento do Conselho Federal de Medicina revela que 56% dos cursos classificados com os piores conceitos (1 e 2 no Enamed) foram criados a partir de 2014, ano seguinte à promulgação da Lei do Mais Médicos. Das 351 graduações avaliadas, 107 tiveram desempenho insatisfatório — e destas, 87 são ofertadas por universidades particulares. O quadro agravou-se com a judicialização: só nos últimos 18 meses, muitas vagas foram pleiteadas por meio de liminares, sem qualquer contrapartida em infraestrutura hospitalar ou campos de estágio adequados.

A qualidade dos novos cursos esbarra em obstáculos que a profusão de editais e decisões judiciais não foi capaz de resolver. O Conselho Federal de Medicina alerta para localidades onde três ou quatro faculdades concentram-se no mesmo território, sem estrutura hospitalar compatível com o volume de alunos. A proporção legal de leitos por estudante, quando respeitada, mostra-se insuficiente diante da multiplicação de vagas — fenômeno que compromete não apenas a aprendizagem, mas a segurança dos pacientes atendidos nesses cenários. Em nota, o CFM enfatizou que “a política de abertura de cursos não pode ser orientada por interesses políticos ou financeiros” e que os resultados do Enamed indicam “fragilidades relevantes na formação de parcela significativa dos estudantes”.

O Ministério da Educação, por sua vez, afirma que a revogação do edital “não representa a interrupção da política pública de expansão da formação médica”, mas sim uma reavaliação técnica que assegure alinhamento às novas Diretrizes Curriculares Nacionais e às necessidades do Sistema Único de Saúde. Não há prazo para novos editais — e o setor privado, por meio da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, já fala em “instabilidade regulatória” e “insegurança jurídica”. O que está em jogo, porém, vai além dos interesses de mercado: é a qualidade da medicina que será praticada nas próximas décadas no país.

Referências

G1. MEC revoga edital que permitia criação de novos cursos de Medicina. G1, Rio de Janeiro, 11 fev. 2026. 

O GLOBO. Governo Lula cancela edital que previa abertura de até 5,9 mil novas vagas em cursos privados de Medicina. O Globo, Rio de Janeiro, 11 fev. 2026. 

O GLOBO. 'Instabilidade regulatória': associação de universidades privadas critica revogação de edital do Mais Médicos. O Globo, Rio de Janeiro, 11 fev. 2026. 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo