sexta-feira, 29 de maio de 2026

O modelo do ensino superior atual acabou

      

    O modelo de ensino superior privado do país passa por muitas modificações, e este novo cenário nos faz perceber que a atual forma como o Ministério da Educação avalia os cursos está defasada, pois o modelo vigente não prioriza a aprendizagem, mas sim a estrutura do curso — o que pode ser notado pelo instrumento de avaliação atual, bem como pelas notas discrepantes entre a avaliação dos cursos e a avaliação da aprendizagem dos alunos (Enade ou Enamed).

    É inegável que existe um problema e que a avaliação realizada deixa escapar a aprendizagem do aluno ao contemplar outros objetivos que deveriam ser o cerne do processo avaliativo. Por que enfrentamos esse problema no presente?

    A rede privada é um conjunto complexo de instituições, no qual se torna muito difícil representá-la por uma média ou imagem, pois temos grandes grupos com ações na bolsa, grupos internacionais, grandes universidades com presença nas capitais, fundações, igrejas, grandes instituições do interior e pequenas instituições.

    Assim, entender o instrumento de avaliação e aplicá-lo não é difícil quando se possui recurso, pois o questionário atual é pequeno, e a maioria dos pedidos pode ser atendida para um ou mais cursos — ou seja, seu custo pode ser dividido internamente.

    Neste momento, devemos refletir sobre o motivo de termos cursos com nota máxima na avaliação do MEC, mas com notas insuficientes na avaliação da aprendizagem de seus alunos. Para quem leciona, a resposta é fácil: a nota passa pelo docente.

    O docente é o fator mais importante do ensino superior, pois ele transmite seu esforço e paixão ao processo de ensino e aprendizagem do aluno. O professor decide sobre o respeito ao Projeto Pedagógico, sobre a atualização do seu Plano de Ensino, acerca da metodologia atualizada para cada tópico ementário de sua disciplina e por utilizar ou não o livro base, a biblioteca ou o laboratório.

    Ao observarmos o docente universitário, entenderemos o motivo do ensino superior privado estar em crise, pois a virtualização pode ser entendida como uma tentativa de retirar sua necessidade ou mesmo de substituí-lo por profissionais menos qualificados ou por um simples PDF. Sua forma de contratação como horista é boa para a instituição, mas terrível para quem planeja ter uma família, pois não garante sequer o salário mínimo — há docentes que não recebem por mês o valor do salário mínimo, sem falar que a convenção coletiva parte do pressuposto de que os docentes não precisam se alimentar, já que não contempla vale-alimentação ou refeição, ao menos em São Paulo.

    Tenho visto muita discussão sobre o novo instrumento de avaliação do MEC, sobre qualidade do ensino, sobre instituições que passam por dificuldades financeiras, sobre falta de docentes, queda nas matrículas, mas vejo pouca gente discutindo como tratar o docente com respeito e dignidade.




Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

     

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Internacionalização no Ensino Superior: moda passageira ou estratégia de modernização?

 


    A internacionalização do ensino superior deixou de ser um diferencial restrito às grandes universidades globais e passou a ocupar posição estratégica nas instituições de ensino de diferentes portes e regiões. Em um cenário marcado pela intensa circulação de conhecimento, inovação tecnológica e cooperação científica internacional, discutir internacionalização não é mais apenas uma questão de prestígio acadêmico, mas de competitividade institucional, desenvolvimento regional e formação qualificada de profissionais.

    Entretanto, ainda persiste uma pergunta importante: a internacionalização no ensino superior é apenas uma tendência impulsionada pela globalização — uma “moda acadêmica” — ou representa um processo real de modernização das universidades?

 

Muito além do intercâmbio

 

    Quando se fala em internacionalização, muitas pessoas associam imediatamente o conceito a programas de intercâmbio estudantil. Embora a mobilidade acadêmica seja uma dimensão importante, a internacionalização é significativamente mais ampla.

     Ela envolve a inserção da dimensão internacional nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão universitária. Isso inclui:

* cooperação científica internacional;

* desenvolvimento de pesquisas multicêntricas;

* publicações em colaboração com pesquisadores estrangeiros;

* oferta de disciplinas em língua estrangeira;

* dupla titulação;

* participação em redes internacionais de inovação;

* atração de estudantes e docentes estrangeiros;

* adaptação curricular para competências globais.

 

Na prática, internacionalizar significa preparar a universidade — e seus estudantes — para atuar em um ambiente acadêmico, científico e profissional cada vez mais conectado.

 

A internacionalização como instrumento de modernização

 

    Sob a perspectiva das Relações Internacionais, a internacionalização do ensino superior pode ser compreendida como um mecanismo de inserção estratégica dos países na economia do conhecimento. Universidades internacionalizadas tendem a ampliar sua capacidade de inovação, fortalecer sua produção científica e aumentar sua relevância institucional.

     Além disso, a cooperação internacional favorece o acesso a:

* novas metodologias de ensino;

* tecnologias emergentes;

* financiamento internacional;

* infraestrutura colaborativa;

* formação avançada de recursos humanos.

 

    Em países em desenvolvimento, como o Brasil, a internacionalização também exerce papel importante na redução de assimetrias científicas e tecnológicas. A participação em redes globais de pesquisa permite acelerar processos de atualização acadêmica e ampliar a visibilidade internacional das instituições. Nesse sentido, a internacionalização não deve ser vista como um elemento periférico, mas como parte integrante da modernização universitária.

 

O risco da internacionalização superficial

 

    Apesar dos avanços observados nos últimos anos, ainda existem iniciativas de internacionalização baseadas mais em marketing institucional do que em transformação estrutural.

    Em alguns casos, a internacionalização é reduzida a ações pontuais, como convênios pouco ativos, participação esporádica em eventos internacionais ou utilização do termo como ferramenta de posicionamento institucional.

    Esse modelo superficial pode gerar baixa efetividade acadêmica e poucos impactos reais para estudantes, pesquisadores e para a própria instituição.

    A internacionalização efetiva exige planejamento estratégico, investimento institucional e integração com os objetivos acadêmicos da universidade. Não se trata apenas de “parecer internacional”, mas de incorporar práticas globais de excelência de maneira consistente e sustentável.

 

Formação do cidadão do futuro

 

    A internacionalização do ensino superior também possui impacto direto na formação cidadã. Em um mundo marcado por transformações tecnológicas aceleradas, desafios globais compartilhados e crescente interdependência entre países, formar profissionais tecnicamente qualificados já não é suficiente.

    As universidades contemporâneas são cada vez mais desafiadas a formar cidadãos capazes de compreender realidades multiculturais, dialogar com diferentes perspectivas e atuar de maneira ética em contextos globais complexos.

    A experiência internacional — seja por meio da mobilidade acadêmica, da participação em redes globais de pesquisa ou da interação com ambientes multiculturais — contribui para o desenvolvimento de competências humanas fundamentais, como:

* empatia intercultural;

* pensamento crítico;

* comunicação global;

* capacidade de adaptação;

* colaboração internacional;

* responsabilidade social;

* compreensão de desafios globais compartilhados.

 

    Além disso, a internacionalização favorece a formação de indivíduos mais preparados para lidar com temas transnacionais, como sustentabilidade, saúde global, inovação tecnológica, desigualdades sociais e diplomacia científica.

    Sob a ótica das Relações Internacionais, a universidade internacionalizada também exerce papel importante na formação de uma cidadania global, capaz de reconhecer a importância da cooperação entre países e da produção coletiva do conhecimento.

    Mais do que formar profissionais para o mercado de trabalho, a internacionalização contribui para formar cidadãos aptos a atuar em sociedades cada vez mais conectadas, diversas e dinâmicas.

 

Formação de profissionais globais

 

    Outro aspecto relevante é o impacto da internacionalização na formação dos estudantes. O mercado de trabalho contemporâneo valoriza cada vez mais competências interculturais, capacidade de colaboração internacional, domínio de idiomas e adaptação a contextos multiculturais.

     Profissionais formados em ambientes acadêmicos internacionalizados tendem a desenvolver:

* maior capacidade crítica;

* visão global de problemas complexos;

* competências de comunicação intercultural;

* maior adaptabilidade profissional;

* familiaridade com inovação e diversidade.

 

    Essas competências são particularmente importantes em áreas como saúde, tecnologia, engenharia, negócios, biotecnologia e pesquisa científica.

 

Exemplos brasileiros de internacionalização

 

    Diversas universidades brasileiras têm demonstrado que a internacionalização pode gerar impactos concretos na produção científica, na inovação e na formação acadêmica.

    A Universidade de São Paulo,"USP", por exemplo, consolidou-se como uma das principais instituições latino-americanas em cooperação internacional, com forte presença em publicações científicas multicêntricas, programas de dupla titulação e redes globais de pesquisa.

    A Universidade Estadual de Campinas,"UNICAMP" ampliou significativamente suas parcerias estratégicas em áreas como biotecnologia, engenharia e inovação tecnológica, fortalecendo sua inserção em projetos colaborativos internacionais.

    Já a Fundação Oswaldo Cruz,"Fiocruz" tornou-se referência internacional em saúde pública e pesquisa translacional, especialmente por meio de cooperações científicas em epidemiologia, vacinas e doenças infecciosas.

    Outro exemplo relevante é a Universidade Federal de Minas Gerais, "UFMG"], que desenvolve programas de internacionalização voltados tanto à mobilidade acadêmica quanto à atração de pesquisadores estrangeiros e participação em consórcios internacionais de pesquisa.

    Além das grandes universidades, instituições localizadas fora dos principais centros econômicos também vêm ampliando sua atuação global. Universidades estaduais e centros de pesquisa do interior têm estabelecido colaborações internacionais em áreas específicas, demonstrando que a excelência científica não está restrita às capitais.

    Esse movimento evidencia que a internacionalização pode atuar como ferramenta de fortalecimento regional, ampliando a visibilidade internacional da ciência produzida no Brasil.

 

Internacionalização regional e interiorização do conhecimento

 

    Um ponto frequentemente negligenciado é que a internacionalização não deve ser exclusividade das grandes capitais ou universidades centrais.

    Instituições localizadas no interior também possuem potencial significativo para cooperação internacional, especialmente quando apresentam expertise em áreas específicas de pesquisa, inovação ou impacto regional.

    A construção de parcerias internacionais pode fortalecer ecossistemas locais de inovação, atrair investimentos, ampliar a formação de pesquisadores e aumentar a inserção global da produção científica regional.

    Nesse contexto, internacionalizar também significa democratizar oportunidades acadêmicas e científicas.

 

Redes acadêmicas e programas de internacionalização

 

    A consolidação da internacionalização no ensino superior brasileiro também depende fortemente da participação das instituições em redes nacionais e internacionais de cooperação.

    Essas redes permitem compartilhar experiências, desenvolver projetos multicêntricos, ampliar a mobilidade acadêmica e fortalecer a inserção global das universidades brasileiras.

    Nesse contexto, a Associação Brasileira de Educação Internacional,"FAUBAI"desempenha papel central no fortalecimento da internacionalização universitária no Brasil. A entidade atua na articulação entre universidades, agências de fomento e instituições estrangeiras, promovendo eventos, capacitações e conexões estratégicas voltadas à cooperação acadêmica internacional.

    A atuação da FAUBAI contribuiu significativamente para profissionalizar os escritórios de relações internacionais das universidades brasileiras e ampliar a discussão sobre políticas institucionais de internacionalização.

    Outro avanço importante foi o desenvolvimento de programas nacionais voltados à internacionalização da pós-graduação e da pesquisa científica. Entre eles, destaca-se o programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior,"CAPES"PrInt (Programa Institucional de Internacionalização), frequentemente associado ao movimento conhecido como “CAPES Global”.

    O CAPES PrInt incentivou universidades brasileiras a estruturarem planos institucionais de internacionalização de longo prazo, estimulando:

* mobilidade internacional de docentes e discentes;

* atração de pesquisadores estrangeiros;

* criação de redes internacionais de pesquisa;

* internacionalização curricular;

* fortalecimento da produção científica colaborativa.

 

    Mais do que financiar intercâmbios, o programa estimulou mudanças institucionais mais profundas, exigindo planejamento estratégico e metas de internacionalização integradas aos programas de pós-graduação.

    Além disso, redes internacionais de pesquisa têm se tornado fundamentais para enfrentar desafios globais complexos, como pandemias, mudanças climáticas, segurança alimentar e inovação em saúde.

    Nesse cenário, universidades capazes de atuar em redes colaborativas internacionais ampliam não apenas sua visibilidade científica, mas também sua capacidade de gerar impacto social e tecnológico.

 

Conclusão

 

    A internacionalização do ensino superior não deve ser interpretada como uma moda acadêmica temporária. Trata-se de um processo estratégico de modernização institucional e inserção global do conhecimento.

    Universidades que investem em cooperação internacional de forma estruturada ampliam sua capacidade científica, fortalecem a formação de seus estudantes e se tornam mais preparadas para enfrentar os desafios contemporâneos.

    Mais do que um selo de prestígio, a internacionalização representa uma ferramenta de transformação acadêmica, científica e social.

    Em um mundo cada vez mais interdependente, universidades isoladas tendem a perder relevância. Já aquelas capazes de construir pontes internacionais tornam-se protagonistas na produção de conhecimento e inovação.

    A pergunta, portanto, talvez não seja mais se a internacionalização é necessária, mas como implementá-la de maneira estratégica, inclusiva e sustentável.

 

 Dra. Giovana A. Gonçalves Vidotti

PHD em Ciências FMUSP e Especialista em Relações Internacionais

Convidada Especial  

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

O Passaporte para a Empregabilidade: O que o Brasil precisa aprender com a Ásia e a Colômbia sobre IA e Retenção

 

    No ensino superior brasileiro, a Inteligência Artificial tem sido tratada majoritariamente como uma ferramenta de compliance acadêmico ou de alerta de risco de evasão. É um primeiro passo válido, mas excessivamente defensivo. Estamos usando tecnologia de ponta apenas para "tapar os buracos" do navio, quando deveríamos estar usando-a para acelerar os motores.

    Para resolver a raiz da evasão e da inadimplência, precisamos mudar a lente e olhar para fora de nossas fronteiras. Em imersões técnicas internacionais, observando de perto os modelos operacionais de potências tecnológicas na China (como Pequim e Xangai) e a inovação social e acadêmica na Colômbia (em polos como Bogotá, através de instituições como Los Andes e UNIMINUTO), fica evidente uma constatação que muda o jogo: a evasão desaparece quando a instituição de ensino se torna o principal hub de empregabilidade e negócios do aluno.

 

O Modelo Asiático: A Universidade como "Venture Capital" e Ecossistema

 

    Na China, a separação entre "sala de aula" e "chão de fábrica" ou "startup" foi praticamente abolida. As universidades não apenas formam para o mercado; elas são o mercado.

  • A Prática com IA: A Inteligência Artificial não é usada apenas para dar notas, mas como um motor de matchmaking. A tecnologia mapeia as competências que o aluno está desenvolvendo e as cruza, em tempo real, com as demandas das empresas e do governo local.
  • O Resultado: O currículo é vivo. Se uma nova linguagem de programação ou habilidade em inteligência contábil surge no mercado, o algoritmo sugere micro certificações imediatas. O aluno não evade porque a IES atua como uma aceleradora de carreiras e de startups. O valor percebido do diploma é garantido desde o primeiro semestre.
  •  

O Modelo Colombiano: Integração Comunitária e Ascensão Rápida

 

    Se a Ásia nos ensina sobre escala tecnológica, a Colômbia nos dá uma aula magistral sobre integração social e pertencimento, fundamentais para a realidade latino-americana.

  • A Prática com IA e Dados: Utilizando inteligência de dados locais, as instituições colombianas identificam as carências exatas da indústria regional e estruturam formações técnicas e tecnológicas (muitas vezes em ciclos mais curtos e integrados à graduação) que elevam a renda do estudante quase imediatamente.
  • O Resultado: Cria-se um ciclo de lealdade. A instituição entende a história daquele aluno trabalhador e entrega a ele não apenas teorias, mas ferramentas práticas de transformação de vida. A conexão com o setor produtivo é tão visceral que o estudante percebe o ambiente acadêmico como o seu principal pilar de segurança e crescimento.

 

A Controladoria Visionária: O Fim da Inadimplência pelo ROI

 

    Como CFO, analiso essas integrações sob a ótica da controladoria financeira. Quando a instituição adota esse modelo de "ponte algorítmica" entre o aluno e a indústria, o conceito de inadimplência sofre uma mutação.

    O aluno que consegue um estágio qualificado, uma vaga em uma startup ou que desenvolve seu próprio negócio dentro do ecossistema da universidade no terceiro ou quarto semestre não atrasa a mensalidade. Para ele, o pagamento da IES passa a ser contabilizado como o Custo do Produto Vendido (CPV) do próprio sucesso dele. O ROI (Retorno sobre Investimento) é claro, tangível e imediato.

 

A Inovação que Precisamos Implementar

 

    O que separa as nossas instituições desse modelo global não é a falta de tecnologia, mas a mentalidade de gestão. Precisamos urgentemente:

  1. Parar de olhar apenas para dentro: Usar a IA para analisar o mercado local de inovação e retroalimentar nossas matrizes curriculares.
  2. Aproximar o setor produtivo: Transformar os campi em verdadeiros centros de inovação aberta, onde empresas trazem problemas reais para os alunos resolverem usando ferramentas modernas.
  3. Garantir o Retorno: Medir o sucesso não apenas pela nota do MEC, mas pelo índice de empregabilidade e pelo aumento da renda do nosso aluno antes mesmo da colação de grau.

    O nosso corpo docente, os verdadeiros anjos e mentores dessa jornada, precisa ser municiado com essas informações mercadológicas para guiar os alunos não apenas na teoria, mas na prática da sobrevivência corporativa.

    A pergunta que deixo para os conselhos de reitoria e diretoria financeira no Brasil é simples: Estamos usando a tecnologia para prender o aluno na cadeira, ou para construir a ponte que o levará ao sucesso profissional? O mercado global já fez a sua escolha.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

sábado, 23 de maio de 2026

Mensalidades em queda: vamos pensar sobre os reais motivos?

 


O estudo da Hoper Educação em parceria com a Abmes, divulgado em 22 de maio de 2026 com base na análise de 80% dos cursos do país, revela uma inflexão histórica no mercado de ensino superior privado brasileiro. Pela primeira vez desde 2015, os valores medianos das mensalidades caíram tanto no presencial (queda de 4,3%) quanto EAD (queda de 1,8 % ) descontada a inflação. A grande questão é entender o motivo da depreciação do mercado em relação ao valor da mensalidade do ensino superior, dado que os custos para oferta não param de subir.           


A engenharia foi um dos cursos com quedas mais expressivas: a mediana despencou de R$ 1.743 para R$ 967 em 2026. O movimento reflete a migração de alunos para o EAD e para o modelo semipresencial. O estudo aponta que a grande competitividade entre instituições, aliada à pressão inflacionária e à perda de poder aquisitivo das famílias, força as IES a conceder mais descontos. “Quem não mostrar diferencial precisa disputar preço”, resume Caio Polizel, Executivo da Hoper.


Diante da queda generalizada dos preços e da escalada dos custos operacionais, entender o motivo do seu curso estar concorrendo no mercado somente pelo preço pode ser a melhor forma de enfrentar esta crise financeira, que poder funcionar como um sinal de alerta para uma crise maior, que é a falta de qualidade de muitos cursos universitários no país.

Assim, se o seu curso está nesta situação, uma forma de enfrentar o problema é agregar valor ao serviço prestado por meio da revisão do seu Projeto Pedagógico, escolha de uma equipe de docente bem formada, bem como montar um programa de estágio que seja capaz de auxiliar o aluno na construção da sua carreira. A  grande questão por baixo da queda do valor da mensalidade  média é entender o motivo do curso não possuir boa avaliação por parte do mercado e do MEC.



Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

quarta-feira, 20 de maio de 2026

EAD supera o presencial: o que esse dado revela sobre o futuro da Educação Superior?

 

    A Educação Superior brasileira acaba de atravessar um marco histórico. Pela primeira vez na série analisada pelo Mapa do Ensino Superior 2026, do Instituto Semesp, a modalidade de Educação a Distância superou o ensino presencial em número de matrículas. Em 2024, a EAD passou a concentrar 50,7% dos estudantes do Ensino Superior no Brasil, enquanto o presencial ficou com 49,3%. O dado confirma uma transformação que vinha se desenhando há anos e que agora se consolida como uma mudança estrutural no setor educacional. 

 

    Mais do que um movimento numérico, esse resultado revela uma mudança profunda no comportamento do estudante brasileiro. A busca por flexibilidade, mensalidades mais acessíveis, possibilidade de conciliar estudo e trabalho e maior familiaridade com tecnologias digitais ajudou a impulsionar a expansão da EAD. No entanto, o crescimento da modalidade já demonstra sinais de desaceleração: segundo o Semesp, a EAD cresceu 5,6% em 2024, abaixo dos patamares observados em anos anteriores, enquanto o presencial apresentou queda discreta de 0,5%.

 

 

 

    Esse cenário exige uma leitura madura por parte das instituições de ensino. O EAD não pode mais ser tratada como uma modalidade secundária, complementar ou apenas operacional. Ela se tornou protagonista no acesso ao Ensino Superior brasileiro. Ao mesmo tempo, seu crescimento impõe uma pergunta essencial: estamos ampliando apenas o número de matrículas ou estamos garantindo uma formação de qualidade, com acompanhamento, vínculo acadêmico, aprendizagem efetiva e permanência estudantil?

    O próprio Semesp alerta que, apesar do crescimento do setor, os desafios de permanência continuam relevantes. Em 2024, a taxa de evasão nos cursos presenciais foi de 24,8%, enquanto na EAD atingiu 41,6%. Esse dado mostra que a expansão da modalidade precisa vir acompanhada de estratégias consistentes de retenção, tutoria, mediação pedagógica, acolhimento, acompanhamento de desempenho e fortalecimento do vínculo entre estudante, curso e instituição. 

 

 

    Outro ponto relevante é o perfil dos ingressantes. Segundo o Mapa do Ensino Superior 2026, pelo quinto ano consecutivo o número de novos alunos na EAD foi maior do que no presencial. Além disso, a participação da EAD entre os ingressantes chegou a 73,5%, indicando que a modalidade absorveu grande parte do público que antes buscava o ensino presencial noturno, especialmente estudantes trabalhadores que precisam de maior flexibilidade para permanecer na graduação.

    Diante desse novo cenário, a discussão não deve ser reduzida a uma disputa entre EAD e presencial. O futuro da Educação Superior tende a ser cada vez mais híbrido, flexível, tecnológico e orientado por dados. O presencial continuará tendo papel essencial em cursos que demandam práticas laboratoriais, vivências clínicas, experiências presenciais intensivas e desenvolvimento de competências relacionais. Já a EAD tende a ocupar espaço estratégico quando bem estruturada, com desenho pedagógico adequado, professores preparados, tutores atuantes, recursos tecnológicos eficientes e avaliação de aprendizagem consistente.

    Para os gestores educacionais, o dado traz uma mensagem clara: não basta ofertar EAD; é necessário governar a EAD. Isso significa acompanhar indicadores de acesso, permanência, evasão, desempenho, satisfação discente, empregabilidade, qualidade dos materiais, interação docente-estudante e efetividade da aprendizagem. A modalidade que cresce sem controle acadêmico corre o risco de ampliar matrículas sem consolidar trajetórias formativas.

    Portanto, o fato de a EAD ter superado o presencial não deve ser lido apenas como uma vitória da tecnologia ou da flexibilidade. Deve ser interpretado como um chamado à responsabilidade institucional. A Educação Superior brasileira está mudando, e as instituições que conseguirem equilibrar inovação, qualidade, acompanhamento pedagógico e sustentabilidade acadêmica estarão mais preparadas para responder às demandas do novo estudante e do novo mercado de trabalho.

    O futuro da Educação Superior não será definido apenas pela modalidade de oferta, mas pela capacidade das instituições de entregarem formação relevante, acessível, humana e de qualidade seja no presencial, na EAD ou em modelos híbridos cada vez mais integrados.

Fonte: https://www.semesp.org.br/mapa/edicao-16

 

 


 Cristiane Procópio de Oliveira 

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais