

Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça
Gestor, Pesquisador de Governança e Liderança no Ensino Superior
Construindo pontes entre a academia e a sociedade por meio da liberdade de pensamento


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça
Gestor, Pesquisador de Governança e Liderança no Ensino Superior

Durante anos, a gestão acadêmica brasileira celebrou matrículas e diplomas sem acompanhar, com o mesmo rigor, o destino profissional dos egressos. Essa lacuna tornou-se crítica: a automação e a inteligência artificial já reduzem funções operacionais que historicamente serviam de porta de entrada aos recém-graduados.
No 28º FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate conduzido pela Dra. Priscila Bonini Ribeiro (Unaerp), com contribuições de Edigar (Otimize), evidenciou esse risco. Ignorá-lo significa ampliar uma geração de jovens diplomados, porém subutilizados. A questão exige ação coordenada entre ensino superior, setor produtivo e Estado.
A geografia do desvio ocupacional
O subemprego qualificado assume formas distintas conforme a estrutura econômica de cada região:
Região | Cenário predominante | Impacto sobre os egressos |
Sudeste | A automação reduz vagas técnicas de entrada. | Egressos migram para funções administrativas inferiores ou para a informalidade. |
Nordeste | Há menor dinamismo de setores intensivos em conhecimento. | O retorno da graduação diminui e cresce a migração de talentos. |
Sul | Polos industriais e cooperativos exigem competências digitais e operacionais atualizadas. | Currículos defasados dificultam a inserção profissional qualificada. |
Centro-Oeste | O agronegócio e a logística incorporam novas tecnologias em ritmo acelerado. | A oferta local de competências nem sempre acompanha a expansão, levando à contratação de profissionais de outras regiões. |
Norte | Biotecnologia, bioeconomia e logística apresentam potencial de crescimento. | A formação local ainda é insuficiente em áreas estratégicas, o que limita o aproveitamento dos talentos da própria região. |
Uma vulnerabilidade transversal
Nenhuma área está imune à precarização. O problema aparece de formas diferentes, mas tem uma raiz comum: formação pouco conectada às práticas profissionais emergentes.
Área de formação | Desafio predominante | Impacto profissional |
Saúde | Vivência clínica insuficiente durante a formação. | Egressos ficam mais expostos a vínculos precários e atuação profissional limitada. |
Engenharias, Arquitetura e Exatas | Distância entre teoria, ferramentas atuais e prática produtiva. | Profissionais são contratados para funções abaixo de sua qualificação formal. |
Tecnologia da Informação | Automação crescente das atividades básicas de codificação. | O valor profissional desloca-se para arquitetura de sistemas, segurança e modelagem estratégica. |
Humanas e Educação | Baixa remuneração e excesso de rotinas burocráticas. | Profissionais se afastam da mediação pedagógica e da transformação social. |
Ciências Sociais Aplicadas | Automação de triagens, controles e processos padronizados em Direito, Administração e Contabilidade. | Cresce a necessidade de competências analíticas, estratégicas e decisórias. |
O tempo do estudante e a formação que importa
O estudante trabalhador não pode esperar quatro anos para perceber retorno concreto da graduação. Se os primeiros semestres não ampliarem sua capacidade de gerar valor, renda e mobilidade profissional, a evasão deixa de ser surpresa e passa a ser consequência previsível.
A advertência de Peter Drucker permanece atual: em períodos de ruptura, o maior risco é insistir nas premissas de ontem. Isso não significa formar o aluno como mero operador de tecnologia. Como lembra Edgar Morin, informação não equivale a julgamento; sistemas computacionais organizam probabilidades,
mas não substituem deliberação crítica e responsabilidade ética. A resposta está no que Joseph Aoun denomina Humanics: integração entre domínio tecnológico, fluência em dados e alfabetização humana, apoiada em ética, criatividade e pensamento autônomo. O diferencial do egresso deve ser sua capacidade de interpretar, decidir e agir com responsabilidade.
O MEC como agente indutor
Se o subemprego é uma questão de Estado, o MEC não pode limitar-se à fiscalização de indicadores e formulários. A regulação deve aproximar campus e economia local, premiando instituições e empresas que produzam inserção profissional qualificada.
Essa política pode operar em duas frentes complementares:
1. Incentivos ao setor produtivo: micro, pequenas e médias empresas que funcionem como laboratórios de aprendizagem, apresentem desafios reais e acolham estagiários desde os primeiros semestres poderiam receber abatimentos fiscais, prioridade em licitações ou crédito subsidiado. Ao compartilhar a formação do jovem, a empresa atua como co-tutora e merece contrapartida econômica.
2. Bonificação às IES transformadoras: instituições com resultados comprovados de inserção qualificada, evolução salarial e impacto territorial deveriam obter reconhecimento regulatório. IGC, CPC e recredenciamento poderiam incorporar indicadores de aderência ocupacional, enquanto IES de alto desempenho receberiam prioridade em programas federais e simplificação de processos.
Empresa e IES no mesmo ecossistema
Com respaldo regulatório e financeiro, a cooperação com o setor produtivo deve começar no ingresso do estudante e organizar-se em três movimentos:
1. Extensão como residência de produtividade territorial: usar os 10% regulatórios para conectar estudantes e docentes a problemas concretos de empresas, cooperativas e organizações locais, com diagnósticos e soluções aplicadas.
2. Capacitação instrumental com IA: introduzir, desde o ciclo inicial, ferramentas de automação, análise de dados e melhoria de processos úteis às organizações parceiras.
3. Certificações modulares: reconhecer competências a cada semestre para antecipar a empregabilidade e permitir que o estudante demonstre valor antes da conclusão do curso. Quando empresas observam estudantes resolvendo problemas reais, a distância entre academia e mercado diminui. O graduando deixa de ser visto como custo e passa a ser reconhecido como agente de produtividade e inovação.
A missão dos gestores educacionais e das autoridades públicas é restituir valor concreto à jornada universitária. Educar com compromisso territorial significa fazer do diploma não apenas um símbolo, mas uma via real de emancipação, renda digna e desenvolvimento econômico.
Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça
Gestor, Pesquisador de Governança e Liderança no Ensino Superior