Mostrando postagens com marcador Desigualdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Desigualdade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Vamos falar sobre docentes negros no Brasil

 

  


  Apenas 21% dos professores universitários no Brasil se autodeclaram pretos ou pardos, uma realidade gritante frente aos 55,5% da população brasileira que integram esse grupo. Os dados do Censo da Educação Superior de 2023 expõem uma subrepresentação profunda, agravada nas regiões Sudeste e Sul, onde os docentes brancos podem chegar a quase 80% do quadro. Mesmo com a Lei de Cotas em vigor desde 2014, o avanço é lento e revela um abismo entre a democratização do acesso discente e a composição do corpo docente, com impactos diretos no senso de pertencimento dos estudantes e na pluralidade do conhecimento produzido.

 

    Na Universidade de São Paulo (USP), epicentro desse debate, a política afirmativa para contratações tem sido alvo de críticas e ações judiciais. A Defensoria Pública questiona a eficácia da Resolução 8434/2023, que aplica bonificações apenas em novos concursos, resultando em um tímido crescimento de 2,64% para 3,96% de docentes negros entre 2022 e 2025. A Pro-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) busca reverter essa lógica com iniciativas como uma lista de pesquisadores pretos para compor bancas, visando diversificar os processos seletivos. No entanto, a efetividade dessas medidas foi colocada em xeque pelo conturbado caso da professora Érica Bispo. Aprovada em um concurso para literaturas africanas em 2024, ela teve sua nomeação revogada pela USP sob alegação de suspeição da banca por amizade com avaliadoras – ela nega e alega racismo. A Justiça, posteriormente, determinou o cancelamento do novo edital aberto para a vaga, evidenciando as tensões e complexidades na implementação prática das políticas de inclusão.

 

    Em contraponto à estratégia gradualista, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) adotou uma medida mais incisiva em 2025, ampliando para 40% a reserva de vagas para docentes negros em seus concursos. A decisão, aprovada após consulta à Procuradoria Federal, é uma resposta direta ao histórico da instituição: entre 2014 e 2023, apenas 5% das vagas de concurso foram ocupadas por cotistas pretos ou pardos, muito abaixo da cota legal de 20%. A reitoria defende a medida como uma reparação histórica necessária, já que a universidade atende um público discente majoritariamente formado por pretos e pardos, e busca garantir que seu quadro docente finalmente reflita essa realidade.

 Fonte: Canal Futura

    A luta por representatividade docente não é uma exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, universidades da Ivy League, como Harvard, têm programas agressivos de "diversity hiring" e metas para diversificar seus corpos docentes, enfrentando, porém, ações judiciais que questionam a constitucionalidade dessas ações. No Reino Unido, a campanha #WhyIsMyCurriculumWhite ganhou força nas universidades, pressionando por maior diversidade tanto no conteúdo ensinado quanto no perfil dos professores. Já na África do Sul, após o fim do apartheid, universidades como a da Cidade do Cabo (UCT) implementaram políticas de equidade de emprego (Employment Equity Act) para corrigir desequilíbrios raciais herdados, um processo contínuo e desafiador que ecoa os esforços em curso no Brasil.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

Referências

NAHAS, Isabela (sob supervisão de Silvana Salles). Ação judicial crítica política afirmativa da USP na contratação de docentes. Jornal da USP, São Paulo, 15 ago. 2025. 

BRASIL DE FATO (Redação). UFRB amplia para 40% a reserva de vagas para negros(as) em concursos para docentes. Brasil de Fato, Salvador, 17 fev. 2025. 

LUCCA, Bruno. Justiça determina que USP cancele concurso aberto após candidata negra perder vaga. Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 dez. 2025. 

FIGUEM SABENDO. Apenas 21% dos docentes do ensino superior são negros. CRUB - Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, Brasília, 18 nov. 2024. 

YAMAMOTO, Erika. USP disponibiliza lista de docentes pretos, pardos e indígenas aptos a integrar bancas de seleção. Jornal da USP, São Paulo, 8 dez. 2022. Atualizado em: 2 jul. 2025. 

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Docentes Negros Importam

 

                                                
 

    A presença de professores negros em sala de aula pode ser um fator decisivo para o sucesso acadêmico e profissional de estudantes negros. É o que sugere uma pesquisa conduzida no Brasil, que acompanhou milhões de alunos ao longo de mais de uma década, analisando os efeitos de curto e longo prazo da representatividade racial no corpo docente.

    Atualmente, a desigualdade racial persiste no sistema educacional brasileiro. Dados do Censo Escolar de 2024 indicam que apenas 44,4% dos professores são negros, em contraste com 55% da população nacional que se declara preta ou parda. Essa subrepresentação é ainda mais acentuada no ensino superior, onde apenas 15,2% dos docentes em universidades públicas são negros.

 


    A pesquisa, realizada pelo economista Pedro Lopes, revela que aumentar a proporção de professores negros de 0% para 50% em uma sala de aula eleva a probabilidade de alunos negros concluírem o ensino médio em 1,99 pontos percentuais, ingressarem na faculdade em 3,9% e se formarem até os 25 anos em 5,2%. O estudo também constatou ganhos salariais na idade adulta e uma redução de até 60% na disparidade de renda entre estudantes brancos e negros da mesma escola, sem impactos negativos para os alunos brancos.


 

    Iniciativas para fomentar a diversidade docente vêm ganhando espaço globalmente. Nos Estados Unidos, programas como o “Call Me Mister” buscam recrutar e formar professores negros. No Reino Unido, a campanha “BAMEed Network” promove a igualdade racial na educação. Esses esforços apontam para a importância de políticas públicas focadas não apenas no recrutamento, mas também na retenção e no apoio à carreira de educadores negros, reconhecendo seu papel crucial na quebra de ciclos de desigualdade.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

 

Referências

LOPES, P. The short- and long-run impacts of black teachers: evidence from Brazil. São Paulo: Sao Paulo School of Economics - FGV, 2025. Working paper. Disponível em: [Link não disponível - aguardando publicação formal]. Acesso em: 16 dez. 2025.

OSAKABE, M. Presença de professor negro pode levar alunos mais longe. Valor Econômico, São Paulo, 9 dez. 2025. Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2025/12/09/presenca-de-professor-negro-pode-levar-alunos-mais-longe.html. Acesso em: 16 dez. 2025.

A fonte da primeira e da segunda imagem são da UFSM e o vídeo pertence ao Canal Futura. 

 

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Desigualdade no Acesso ao Ensino Superior: Um Retrato do Brasil


 

    Dados de uma pesquisa realizada pelo British Council, divulgados em outubro de 2025, escancaram uma realidade persistente: a desigualdade racial é um dos maiores obstáculos educacionais no Brasil. O estudo revela que, entre os jovens que interrompem os estudos antes de chegar à universidade, 3 em cada 5 são negros (pretos e pardos).

    Esse grupo representa 63% dos que param de estudar até o ensino médio, um número desproporcional, já que os negros constituem 55,5% da população brasileira. A pesquisa, que ouviu mais de 3.000 jovens, evidencia que a população negra não só é minoria entre os diplomados no ensino superior, como compõe a maioria daqueles que são forçados a abandonar a sala de aula.

    O principal motivo para a evasão escolar é a restrição financeira, apontada por 39% dos entrevistados. Na sequência, aparecem responsabilidades familiares e problemas de transporte (19% cada). A falta de apoio dos professores e o acesso limitado a cursos de qualidade também foram citados como fatores decisivos.

    As consequências dessa exclusão educacional se refletem diretamente no mercado de trabalho. O relatório mostra que jovens brancos possuem uma renda 19% acima da média, enquanto os jovens pretos ganham, em média, 31% a menos. Mais da metade dos jovens pretos entrevistados recebe menos de 1,5 salário mínimo mensal.

    Além das barreiras econômicas, o racismo estrutural se impõe no cotidiano. Um dado chocante indica que 86% dos jovens pretos e 71% dos pardos já vivenciaram situações de discriminação. As experiências vão desde ouvir piadas sobre a aparência e ser alvo de apelidos racistas até ter sua capacidade intelectual subestimada.

    A pesquisa conclui que a superação desse cenário exige políticas públicas robustas, incluindo a promoção de um acesso equitativo à cultura, a formação pedagógica antirracista e, sobretudo, a criação de um processo mais participativo, onde os próprios jovens possam contribuir ativamente na formulação das políticas que lhes dizem respeito. O futuro do país depende diretamente de conseguirmos romper esse ciclo de desigualdade.

    Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues