domingo, 30 de agosto de 2026

“Ver o Que Nos Une e Não o Que Nos Separa”: O “Zigue-Zague” entre as Exigências do MEC, a Realidade do Aluno e o Caixa da Mantenedora

 

 

    Ao convocar o Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII imortalizou uma das diretrizes mais lúcidas de liderança e convergência: “Vamos ver o que nos une e não o que nos separa”. No ecossistema do Ensino Superior brasileiro, poucas reflexões são tão urgentes e necessárias. Historicamente, muitas instituições construíram barreiras invisíveis entre dois pilares indissociáveis: a governança acadêmica e a sustentabilidade econômico-financeira da mantenedora.

    Quando as dificuldades de caixa se misturam aos desafios pedagógicos sem uma visão estratégica    unificada, a instituição perde tração. O acadêmico corre o risco de enxergar o financeiro como uma barreira fiscalizatória fria; o financeiro, por sua vez, tende a enxergar as demandas de infraestrutura e corpo docente apenas sob a ótica da despesa.

    Essa cisão enfraquece a IES. A decisão assertiva da alta gestão precisa fazer convergir, de forma concomitante, duas metas inegociáveis: a continuidade perene da missão educacional e a geração de recursos suficientes para honrar custos operacionais, cobrir despesas e bancar os investimentos estruturais da Mantenedora.

1. O “Zigue-Zague” do Ensino Superior: Entre o Rigor do MEC e a Urgência do Aluno

    Quem vivencia a rotina de uma faculdade reconhece que liderar uma IES no Brasil exige o fôlego de um guerreiro para navegar o constante zigue-zague do setor:

  • O Trabalho Árduo com as Exigências do MEC: Manter comissões próprias de avaliação ativas, estruturar matrizes aderentes às novas DCNs, cumprir os 10% de extensão curricular, obter conceitos de excelência no Enade e responder a processos de regulação e recredenciamento demandam esforço técnico contínuo e rigor documental diário da Pró-Reitoria e dos coordenadores.
  • A Luta do Aluno Trabalhador e o Orçamento Familiar: Na outra ponta desse zigue-zague está o protagonista da sala de aula brasileira: o estudante trabalhador. Ele necessita de uma formação ágil e aplicável, que aumente sua empregabilidade imediata. Conseguir uma promoção ou um novo emprego não é apenas uma vitória profissional; é a garantia de renda para ajudar nas despesas de casa e manter o pagamento das mensalidades em dia para seguir seus estudos até a colação de grau.

    O cumprimento das normas do MEC perde sentido se for puramente burocrático; ele precisa ser a garantia de que o aluno está sendo preparado para gerar valor econômico real em sua vida e em sua comunidade.

2. A Equação da Continuidade: O Fluxo de Caixa a Serviço da Formação

    Folha de pagamento qualificada, laboratórios modernos, equipamentos de tecnologia e conservação predial não se sustentam sem um fluxo de caixa rigorosamente planejado. Ao mesmo tempo, um caixa equilibrado só existe quando o produto acadêmico entrega valor percebido e retém o acadêmico.

    A verdadeira sustentabilidade nasce da complementaridade:

  • O Acadêmico como Alavanca de LTV: Matrizes conectadas ao mercado, extensão aplicada que resolve dores da região e uso instrumental de tecnologias tornam a faculdade indispensável para o aluno, blindando a matrícula contra a evasão e protegendo o Lifetime Value.
  • O Financeiro como Guardião da Infraestrutura: O controle rigoroso do capital de giro e o gerenciamento assertivo de custos e despesas não visam sufocar a pedagogia, mas assegurar recursos para que a Mantenedora invista em clínicas, fazendas experimentais, bibliotecas e ambientes de inovação.

3. A Visão Sistêmica: O Todo sem Exclusão de Cursos ou Estruturas

    A superação dos desafios institucionais exige abandonar a análise fragmentada de departamentos. Julgar cursos isoladamente como "lucrativos" ou "deficitários" ignora o ecossistema integrado que compõe uma instituição de ensino:

  • Interdependência dos Eixos do Saber: As Ciências da Saúde, Agrárias, Jurídicas, Exatas e de Negócios formam um mosaico de impacto socioeconômico regional. O reconhecimento social e a reputação construídos por uma área abrem portas comerciais para todas as outras.
  • Integração de Ponta a Ponta: Da portaria à tesouraria, da secretaria acadêmica ao suporte de TI, cada ponto de contato impacta diretamente a jornada do aluno. Uma falha de atendimento ou um processo burocrático engessado reflete imediatamente no desengajamento do estudante e na perda de receita da mantenedora.

    Encarar os desafios do Ensino Superior exige a resiliência do guerreiro para equilibrar o rigor regulatório do MEC com a dura realidade financeira do aluno trabalhador.

    Ao buscar o que une a paixão educacional à disciplina financeira, a instituição preserva seu propósito, garante a sustentabilidade da Mantenedora e cumpre sua missão maior: transformar o esforço diário do estudante em dignidade profissional e ascensão social.

    “Na gestão universitária, quem separa o rigor financeiro da missão acadêmica compromete o futuro da instituição. A continuidade da IES reside na capacidade de ver o que nos une, enfrentar o zigue-zague da realidade com a coragem do guerreiro e liderar o todo com equilíbrio, sustentabilidade e propósito.”

    Espaço de Diálogo

    Como a sua instituição equilibra o trabalho árduo das exigências do MEC com a necessidade de gerar empregabilidade rápida para o aluno trabalhador manter seus estudos? A Pró-Reitoria e a Mantenedoria têm operado como parceiras unificadas na gestão de custos, despesas e investimentos?

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A universidade que queremos versus a universidade que temos: o diagnóstico que não pode esperar

 


    O seminário "A USP Pensa a Universidade Brasileira", promovido pela Cátedra Paschoal Senise em agosto de 2026, colocou em evidência um debate essencial para o futuro do ensino superior no país. Reunindo pesquisadores, autoridades acadêmicas e especialistas, o encontro partiu de quatro perguntas fundamentais: qual universidade queremos, qual é possível, qual é necessária e qual é o seu papel no futuro? A vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci lembrou que a quinta revolução tecnológica coloca o ser humano e a sociedade no centro, e que as universidades têm a "obrigação de reduzir diferenças sociais e criar conhecimento para eliminar a pobreza através da excelência".

    Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, construída a partir de diagnósticos como o apresentado no seminário, traria benefícios concretos. O pró-reitor de Pós-Graduação, Carlos Eduardo Ambrósio, revelou que a USP renovou um terço de seu quadro docente (cerca de 1.400 novos professores) e atingiu 81% de excelência em seus programas de pós-graduação (notas 6 e 7 da Capes). No entanto, Luiz Roberto Liza Curi, titular da Cátedra, alertou para um descompasso grave: o Brasil é o 13º produtor de pesquisa qualificada no mundo desde 2002, mas convive com currículos de graduação defasados, alguns datados dos anos 1970, enquanto a inteligência artificial avança rapidamente. Uma política de estado que articule avaliação, financiamento e renovação curricular poderia transformar esse cenário.

    As faculdades brasileiras precisam abordar urgentemente a desarticulação entre ensino, pesquisa e extensão, apontada por Curi como um dos principais entraves. O seminário mostrou que a regulação atual avalia de forma idêntica grandes universidades federais e faculdades isoladas, sem considerar suas especificidades e impactos regionais. O caminho apontado é o de uma modernização do sistema avaliativo, transformando-o de instrumento burocrático em indutor do desenvolvimento — como defendeu o próprio Curi. Modelos que associam ensino ao desenvolvimento da nação, integrando inteligência artificial, pesquisa e formação acadêmica, foram discutidos na primeira mesa-redonda, com participação de representantes da UFPE, Unifesp, Unicamp e Insper.

    A solução exige uma agenda coordenada entre universidades, agências de fomento (como Inep, Finep e Capes) e o próprio MEC. O seminário apontou a necessidade de discutir limites da regulação na perspectiva da autonomia, prioridades no financiamento estudantil e políticas curriculares que integrem graduação, pós-graduação e extensão. Como bem sintetizou a vice-reitora da USP, o papel das universidades é formar "pessoas e dirigentes capazes de fazerem decisões sábias para toda a sociedade". Mais do que uma reforma administrativa, trata-se de um projeto de nação — que exige coragem para desengessar regimentos, enfrentar o descolamento entre pesquisa e ensino, e colocar a universidade brasileira no centro do desenvolvimento humano, econômico e cultural do país.

 

Referência

 
JORNAL DA USP. Impacto da educação superior no desenvolvimento do País pauta encontro de pesquisadores. São Paulo, 27 ago. 2026. 

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Da Datilografia à Inteligência Artificial: a nova régua avaliativa do Ensino Superior

 

“Quem não domina a ferramenta, vira ferramenta de quem domina”

 

    Nas décadas de 1980 e 1990, dominar a datilografia e os primeiros softwares de computador deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico de empregabilidade. Quem ignorou essa transição perdeu espaço nas rotinas produtivas. Hoje, a Inteligência Artificial Generativa coloca o Ensino Superior diante de uma encruzilhada semelhante: continuar tratando a tecnologia como ameaça ou incorporá-la como competência acadêmica, profissional e institucional.

    Para docentes, reitores, pró-reitores, coordenadores e acadêmicos, a questão central já não é se a Inteligência Artificial chegou à educação. Ela já chegou. Segundo pesquisa do Instituto Semesp, cerca de 75% dos professores entrevistados reconhecem a tecnologia e a IA como aliadas no processo de aprendizagem. Portanto, o desafio deixou de ser apenas impedir o uso inadequado da ferramenta e passou a ser formar estudantes capazes de utilizá-la com ética, criticidade, produtividade e responsabilidade acadêmica.

    Os números revelam uma mudança importante: a IA já não é hipótese distante nem simples ameaça disciplinar. Ela se tornou uma realidade acadêmica, profissional e institucional. Por isso, o debate mais relevante não está em proibir ou liberar o uso da tecnologia, mas em definir como ensinar, como orientar e como avaliar estudantes em um contexto no qual o acesso às ferramentas inteligentes será cada vez mais comum.

 

O que os dados mostram

Número-chave

Leitura estratégica

Rede de Ensino Superior no Brasil

2.580 IES

A transformação precisa alcançar escala nacional.

Matrículas no Ensino Superior

mais de 9 milhões

Milhões de estudantes já serão impactados pela IA na formação e no trabalho.

Professores favoráveis ao uso da tecnologia e da IA

cerca de 75%

A resistência absoluta já não representa a maioria do debate docente.

Diretrizes institucionais sobre IA

ainda em consolidação

Oportunidade para IES liderarem boas práticas avaliativas.

 

    A prova tradicional, centrada na memorização e na repetição de conceitos, perde força quando sistemas de IA conseguem responder rapidamente a questões teóricas. A nova régua avaliativa precisa medir julgamento, curadoria, ética, argumentação, validação de dados e capacidade de resolver problemas reais. Isso exige uma construção conjunta entre MEC, Instituições de Ensino Superior e Setor Produtivo.

    Não se trata de substituir o professor pela tecnologia, mas de reposicionar o papel docente: de fiscal do uso da IA para orientador estratégico da aprendizagem. O docente passa a ser ainda mais necessário, porque cabe a ele ensinar o estudante a perguntar melhor, comparar respostas, identificar vieses, checar fontes, tomar decisões e aplicar conhecimento em situações concretas.

    Para as IES, esse movimento também é estratégico. Uma instituição que incorpora a IA de forma responsável fortalece a empregabilidade dos estudantes, amplia a conexão com o mercado, reduz o distanciamento entre teoria e prática e cria diferenciais competitivos em um cenário de forte disputa por retenção, relevância e qualidade acadêmica.

    Assim como a datilografia e os computadores redefiniram o mercado em décadas passadas, o domínio crítico da Inteligência Artificial representa uma nova fronteira da formação superior. O valor do Ensino Superior não estará em competir com a máquina na memorização, mas em formar pessoas capazes de interpretar, decidir, criar e liderar no mundo real.

Para reflexão e debate:

1. A sua instituição ainda avalia principalmente a memorização ou já mede a capacidade de decisão dos estudantes na era da IA?

2. O uso da IA deve ser tratado como risco acadêmico, competência profissional ou ambos?

3. Como docentes, reitores, pró-reitores e acadêmicos podem construir juntos uma avaliação mais conectada ao mundo do trabalho?

 

Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro