O seminário "A USP Pensa a Universidade Brasileira", promovido pela Cátedra Paschoal Senise em agosto de 2026, colocou em evidência um debate essencial para o futuro do ensino superior no país. Reunindo pesquisadores, autoridades acadêmicas e especialistas, o encontro partiu de quatro perguntas fundamentais: qual universidade queremos, qual é possível, qual é necessária e qual é o seu papel no futuro? A vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci lembrou que a quinta revolução tecnológica coloca o ser humano e a sociedade no centro, e que as universidades têm a "obrigação de reduzir diferenças sociais e criar conhecimento para eliminar a pobreza através da excelência".
Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, construída a partir de diagnósticos como o apresentado no seminário, traria benefícios concretos. O pró-reitor de Pós-Graduação, Carlos Eduardo Ambrósio, revelou que a USP renovou um terço de seu quadro docente (cerca de 1.400 novos professores) e atingiu 81% de excelência em seus programas de pós-graduação (notas 6 e 7 da Capes). No entanto, Luiz Roberto Liza Curi, titular da Cátedra, alertou para um descompasso grave: o Brasil é o 13º produtor de pesquisa qualificada no mundo desde 2002, mas convive com currículos de graduação defasados, alguns datados dos anos 1970, enquanto a inteligência artificial avança rapidamente. Uma política de estado que articule avaliação, financiamento e renovação curricular poderia transformar esse cenário.
As faculdades brasileiras precisam abordar urgentemente a desarticulação entre ensino, pesquisa e extensão, apontada por Curi como um dos principais entraves. O seminário mostrou que a regulação atual avalia de forma idêntica grandes universidades federais e faculdades isoladas, sem considerar suas especificidades e impactos regionais. O caminho apontado é o de uma modernização do sistema avaliativo, transformando-o de instrumento burocrático em indutor do desenvolvimento — como defendeu o próprio Curi. Modelos que associam ensino ao desenvolvimento da nação, integrando inteligência artificial, pesquisa e formação acadêmica, foram discutidos na primeira mesa-redonda, com participação de representantes da UFPE, Unifesp, Unicamp e Insper.
A solução exige uma agenda coordenada entre universidades, agências de fomento (como Inep, Finep e Capes) e o próprio MEC. O seminário apontou a necessidade de discutir limites da regulação na perspectiva da autonomia, prioridades no financiamento estudantil e políticas curriculares que integrem graduação, pós-graduação e extensão. Como bem sintetizou a vice-reitora da USP, o papel das universidades é formar "pessoas e dirigentes capazes de fazerem decisões sábias para toda a sociedade". Mais do que uma reforma administrativa, trata-se de um projeto de nação — que exige coragem para desengessar regimentos, enfrentar o descolamento entre pesquisa e ensino, e colocar a universidade brasileira no centro do desenvolvimento humano, econômico e cultural do país.
Referência
JORNAL
DA USP. Impacto da educação superior no desenvolvimento do País pauta
encontro de pesquisadores. São Paulo, 27 ago. 2026.







