A primeira chamada do Sisu 2026 escancarou um fenômeno inédito nos cursos de medicina das universidades federais: vagas historicamente disputadas migraram em massa para a lista de espera. Na UFRJ, 97 das 200 vagas do campus da capital não foram preenchidas na chamada regular, contra 47 no ano anterior. Em Macaé, o salto foi de 15 para 39. Na UFMG, 133 das 320 cadeiras seguiram o mesmo caminho, ante 95 em 2025. O movimento atingiu também outros cursos concorridos, como direito, e acendeu o alerta de educadores e gestores.
Os números revelam uma mudança de comportamento dos candidatos. Na UFRJ, 57 dos aprovados no Rio usaram notas de edições anteriores do Enem; em Minas, foram 52. A principal hipótese é a nova regra que permite ao estudante escolher a melhor nota entre os três últimos exames. Segundo o consultor João Vianney, a ausência de mecanismos de compromisso imediato transformou a inscrição em uma espécie de “game”, em que candidatos testam suas chances sem intenção real de matrícula.
Especialistas apontam que a novidade, somada ao custo de vida nas capitais e à possibilidade de manter vínculo com outra instituição, estimulou escolhas estratégicas pouco refletidas. Para o sociólogo Gustavo Bruno de Paula, a regra pode ter reforçado um comportamento já incentivado pelo Sisu, que permite acompanhar notas de corte em tempo real. O resultado foi uma explosão de vagas ociosas na primeira etapa, sem que houvesse queda na procura pelo curso.
A saída, defendem coordenadores pedagógicos, passa por uma transição gradual. A aplicação repentina da regra pegou alunos e escolas de surpresa, sem previsibilidade para o planejamento dos vestibulandos. O MEC afirma que acompanha os indicadores, mas é preciso ir além: estabelecer normas que exijam compromisso dos candidatos e garantir que a ampliação do acesso não se converta em distorções que comprometam a ocupação das vagas públicas.
Referência
GONÇALVES, Gustavo. Medicina tem explosão de vagas não preenchidas na 1ª chamada após mudanças no Sisu. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1º mar. 2026.
*A imagem é da Internet
** O gráficos é da reportagem
