quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Brasil na Academia Global: um jogo de cátedras que mais instituições nacionais deveriam participar

 


    A internacionalização do ensino superior transcende o intercâmbio de estudantes. É um processo estratégico e multifacetado que integra uma instituição à comunidade acadêmica global, incorporando dimensões internacionais em seu ensino, pesquisa e extensão. Isso se materializa em parcerias formais, publicações científicas em coautoria internacional, mobilidade de docentes e discentes, oferta de currículos com perspectiva global e atração de talentos estrangeiros. Trata-se de um critério essencial para a excelência, mensurado por rankings de prestígio mundial, como o Times Higher Education (THE).

    O THE avalia essa dimensão através de três pilares: a "proporção de colaboração internacional em artigos científicos" (onde o Brasil tem seu melhor desempenho), a "proporção de acadêmicos internacionais" e a "proporção de estudantes internacionais". No cenário nacional, as universidades públicas estaduais e federais dominam as primeiras colocações. A Universidade de São Paulo (USP) lidera, seguida de perto por instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que figuram no top 200 mundial do indicador de colaboração internacional em pesquisa, demonstrando uma vigorosa integração às redes globais de conhecimento.


    Um fenômeno marcante na geopolítica do conhecimento é a ascensão meteórica da China nos rankings. O país não apenas consolidou universidades de classe mundial como também se tornou um parceiro científico incontornável. Reconhecendo essa nova realidade, o Semesp – entidade representativa de mantenedoras de ensino superior – organizou uma missão técnica à China. O objetivo é decodificar as estratégias que alçaram suas universidades ao topo, buscando aprender com políticas de atração de talentos, investimento massivo em pesquisa e modelos ágeis de gestão acadêmica que poderiam inspirar ajustes no modelo brasileiro.

                                                                         Fonte: TV SIMI

    Diante desse cenário de competição global acirrada, um questionamento se impõe: onde estão as instituições brasileiras nesse mapa da internacionalização? Sua notável ausência nas posições de destaque dos rankings revela uma desconexão preocupante com os padrões mundiais de excelência. Enquanto as públicas, mesmo com recursos limitados, avançam na colaboração internacional, o setor privado, que responde pela maior parte das matrículas, parece relegar a projeção global a um plano secundário. A pergunta que fica é se a visão meramente mercadológica, focada no âmbito doméstico, será suficiente para formar cidadãos e profissionais aptos a liderar em um mundo sem fronteiras intelectuais. A internacionalização deixou de ser um adereço de prestígio; é uma condição de sobrevivência e relevância acadêmica no século XXI.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  
 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Dia Internacional do Ensino: ponto sem volta no ensino superior brasileiro?

 


    Neste 24 de janeiro, data instituída pela ONU para celebrar o papel da educação como direito humano e bem público, o cenário global do ensino superior revela uma transformação irreversível, impulsionada a força pela pandemia e consolidada por demandas por maior acessibilidade e relevância.

    Dados da UNESCO, que lidera as celebrações deste ano sob o tema "aprendizagem para a paz", indicam que a crise sanitária acelerou em anos a adoção de tecnologias educacionais. Se, por um lado, a transição emergencial para o Ensino Remoto e o Ensino Remoto Emergencial expôs gritantes desigualdades digitais, por outro, catalisou uma reavaliação profunda dos modelos pedagógicos. O estudo "Ensino Remoto e Híbrido na Educação Superior", citado em análise, já apontava a percepção discente de que metodologias ativas e recursos audiovisuais eram subutilizados no presencial. A pandemia forçou a curva de aprendizado.

    No Brasil, a resposta governamental à aceleração digital materializou-se em ações como o programa "Conecta IF", do MEC, que investiu na infraestrutura de internet de institutos federais, e a disponibilização de recursos via CAPES para formação de professores em práticas pedagógicas digitais. A expansão de programas de assistência estudantil, como o Auxílio Permanência, buscou mitigar a evasão, enquanto editais específicos fomentaram pesquisa em tecnologias educacionais. No entanto, especialistas apontam que a efetivação de uma política de Estado robusta para a educação híbrida, com investimento contínuo e regulamentação clara, ainda é um desafio a ser superado.

    A hibridização tornou-se palavra de ordem. Instituições ao redor do mundo, do MIT a universidades públicas brasileiras, agora operam com modelos flexíveis que combinam sincronia e assincronia, presencialidade e virtualidade. Este não é mais um plano de contingência, mas um novo paradigma. A internet deixou de ser um canal alternativo para se firmar como infraestrutura central, expandindo o acesso a públicos geograficamente distantes ou com limitações de tempo, como profissionais em busca de especialização.

    Contudo, o Dia Internacional da Educação também serve de alerta. O mesmo relatório que destaca vantagens da flexibilidade e da personalização do aprendizado online adverte: a sensação de "solidão" do aluno e a "sobrecarga" do docente são desafios críticos. A educação de alto nível no século XXI, portanto, não se debate mais sobre a superioridade de um modelo sobre o outro, mas sobre como integrá-los de forma ética, inclusiva e eficaz. O futuro, como afirmam especialistas, é "híbrido e humano", exigindo investimentos massivos em formação docente e infraestrutura digital para que a promessa de uma educação verdadeiramente global e de qualidade seja, de fato, para todos. A pandemia passou, mas a revolução que ela iniciou no ensino superior apenas começo.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 

Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O Enamed é a imagem do ensino médico no país?

 


    O sistema de avaliação do ensino superior brasileiro, personificado pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) e sua versão específica para Medicina, o Enamed, constitui um instrumento fundamental de aferição da qualidade dos cursos. O Enamed, aplicado anualmente pelo Inep/MEC a concluintes, mensura o conhecimento e as habilidades clínicas dos futuros médicos, atribuindo aos seus cursos um Conceito Enade que varia de 1 (insatisfatório) a 5 (excelente), com base no percentual de alunos considerados proficientes.

    Os resultados da última edição escancaram um cenário de profunda assimetria. Enquanto 163 cursos, majoritariamente de instituições federais e estaduais, alcançaram as faixas de excelência (4 e 5), 107 (30,5% do total) obtiveram conceitos 1 ou 2, considerados insatisfatórios. A análise por categoria revela que cursos municipais e privados com fins lucrativos concentram as piores performances, com cerca de 13 mil concluintes — um terço do total — não demonstrando conhecimento mínimo, o que acarretará sanções como corte de vagas e suspensão de programas federais de financiamento.

    Diante desse quadro, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e outras entidades da categoria intensificam o clamor pela instituição de um exame obrigatório para o exercício profissional, uma "OAB da Medicina". Argumentam que a liberação para a prática sem uma comprovação efetiva de competência, especialmente diante de indicadores tão preocupantes, configura uma irresponsabilidade com a saúde pública, defendendo que o próprio Enamed possa, no futuro, assumir essa função seletiva.

    Para superar essa crise e elevar o padrão nacional, é imperativo um esforço multifacetado. Além das punições administrativas, é crucial que o MEC e as instituições estabeleçam planos de correção de rotas, com investimento em infraestrutura, qualificação docente e revisão curricular centrada em competências práticas. Paralelamente, um diálogo estruturado com o setor privado e o fomento à expansão de vagas de qualidade no setor público são essenciais para equilibrar acesso e excelência, assegurando que a formação médica no Brasil atenda, de fato, às demandas da sociedade.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 

Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O fim da liberdade de pensamento e expressão nas universidades

 


    A universidade deve ser, por essência, um espaço de livre pensamento e expressão, pois é nela que se constrói o conhecimento, se estimula a criatividade e se formam cidadãos críticos. Sem a liberdade para questionar, debater e divergir, a academia perde sua razão de existir, tornando-se um ambiente dogmático e estéril, incapaz de contribuir para o avanço da ciência e da sociedade. A diversidade de ideias, mesmo as controversas, é fundamental para o desenvolvimento intelectual e para a robustez democrática.

    No entanto, pesquisado Instituto Sivis mostra um cenário preocupante: no Brasil, 39,3% dos universitários relatam desconforto ao discutir política e eleições, seguido por temas como posse de armas (37%), aborto (29,7%) e questões transgênero (28,3%). Esses dados revelam uma autocensura significativa, em que 40% dos estudantes evitam expressar opiniões por medo de retaliações. Essa atmosfera de temor compromete o debate plural e fragiliza a formação acadêmica.

    Ameaças à liberdade acadêmica também surgem por vias institucionais. Nos EUA, a Universidade Texas A&M proibiu trechos de Platão sob diretrizes estatais que restringem discussões sobre gênero, exemplificando como o poder político pode cercear o pensamento. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal tem atuado como guardião dessa liberdade, derrubando leis que buscavam impedir a abordagem de temas como gênero e sexualidade nas salas de aula, reafirmando o papel constitucional da educação plural.

    Portanto, a liberdade de pensamento e expressão nas universidades é um pilar indispensável para uma sociedade democrática. Ela permite o confronto de ideias, o amadurecimento de convicções e a inovação intelectual. Quando as universidades se calam ou são silenciadas, toda a sociedade perde: estagnam-se o progresso científico, a reflexão ética e a capacidade de construir um futuro mais justo e esclarecido. Defender a liberdade acadêmica é, assim, defender a própria democracia.


Prof. Dr. Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo

 

 

Referências 

GRELLET, Fabio. Quais os temas que os estudantes têm medo de abordar nas universidades? Veja lista. Estadão, São Paulo, 26 ago. 2025. 

JANSEN, Roberta. Universidade dos EUA exclui Platão após diretriz de ‘ideologia de gênero’: há regra assim no Brasil? Estadão, São Paulo, 12 jan. 2026. 

A imagem é do Instituto Cesar Ramos 

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Um gigante de costas para o mundo: por que as melhores universidades da América Latina atraem tão poucos estrangeiros?

 


O contexto global da internacionalização do ensino superior é altamente sensível a políticas nacionais, como demonstrado de maneira dramática pelo cenário recente nos Estados Unidos. Um relatório divulgado em 2025 apontou uma queda de pelo menos 17% no número de novos estudantes internacionais matriculados em faculdades e universidades americanas entre setembro e novembro daquele ano. Esta queda abrupta é diretamente atribuída às políticas migratórias restritivas implementadas pelo governo do presidente Donald Trump, que miraram a imigração legal com o discurso de colocar a “segurança nacional americana em primeiro lugar”.

Entre as medidas citadas, destacam-se esforços para limitar matrículas, a revogação de vistos estudantis, atrasos generalizados na emissão de novos vistos e a autorização para que oficiais consulares solicitem o acesso a contas de redes sociais dos candidatos. O impacto foi imediato e severo: 96% das instituições que relataram queda nas matrículas apontaram preocupações com o processo de visto como fator relevante, e 68% citaram restrições de viagens. A nação que por décadas foi o principal destino de estudantes internacionais, atraindo cerca de 1,2 milhão deles em 2024-2025, viu sua atratividade ser comprometida por barreiras administrativas e por um ambiente percebido como hostil.


As consequências dessa política são multifacetadas e vão muito além da contabilidade de matrículas. Em primeiro lugar, há um significativo impacto econômico. Estimativas da Associação de Educadores Internacionais indicam que, até 2024, estudantes internacionais contribuíam com aproximadamente US$ 55 bilhões para a economia americana, incluindo gastos com mensalidades, moradia, alimentação e outros serviços. A queda nas matrículas representa, portanto, uma perda de receita vital para muitas instituições, especialmente as de médio porte e as públicas.

 Fonte: TV SIMI

Em segundo lugar, o impacto acadêmico e científico é profundo. Os estudantes internacionais são uma fonte crucial de talento e diversidade para os campi americanos. Eles enriquecem as discussões em sala de aula, contribuem para projetos de pesquisa de ponta e, frequentemente, permanecem após a graduação para integrar a força de trabalho altamente qualificada do país, especialmente em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A redução desse fluxo compromete a capacidade de inovação dos EUA e sua posição de liderança na produção científica global. Finalmente, há um dano à imagem e ao soft power americano. A educação superior sempre foi um dos principais pilares da influência cultural e política dos EUA no mundo. Ao dificultar o acesso, o país envia uma mensagem de fechamento que pode ter repercussões de longo prazo em suas relações internacionais e na atração de talentos futuros.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Patrimônio versus Propósito: as Universidades publicas precisam complementar seu orçamento

 


    Diante de orçamentos estatais frequentemente insuficientes, as universidades públicas brasileiras são compelidas a explorar caminhos alternativos de financiamento para garantir sua autonomia e excelência acadêmica. A venda, arrendamento ou parceria para exploração de seu vasto patrimônio imobiliário emerge como uma estratégia crucial, embora delicada, para injetar recursos e reduzir a dependência dos cofres governamentais, em um equilíbrio complexo entre necessidade financeira e missão social.

    Um exemplo paradigmático deste dilema desenrola-se na Universidade de Brasília (UnB). A instituição planeja leiloar a última superquadra inteiramente virgem do Plano Piloto, a SQN 207, um terreno de 8.800 m² cobiçado pelo setor imobiliário de alto padrão. Com potencial para abrigar 12 edifícios residenciais, o negócio, estimado em bilhões, visa reforçar o orçamento da universidade, que historicamente financia cerca de 40% de suas despesas com rendas patrimoniais. O processo, contudo, é atravessado por disputas sobre o modelo de parceria, pressões do mercado e uma recente lei que desvincula 30% da receita para o Tesouro Nacional, gerando hesitação na atual gestão.

    No cenário internacional, universidades de elite também administram vastos portfólios imobiliários e patrimoniais como pilar de sua independência financeira. Harvard, nos Estados Unidos, mantém um fundo de doações que supera os US$ 50 bilhões, investindo parte significativa em propriedades e desenvolvimentos urbanos. Essa gestão profissional e de longo prazo gera rendimentos perenes que subsidiam pesquisa, bolsas e operações, oferecendo um contraponto ao modelo de venda pontual de ativos.


                                                                        Fonte: SBT News

    A busca por modelos sustentáveis de financiamento é, portanto, imperativa. A melhoria crônica do orçamento das universidades públicas demanda não apenas mais recursos estatais, mas também uma gestão patrimonial ágil, inovadora e alinhada ao interesse público. É preciso transcender a lógica emergencial da venda de ativos e construir um ecossistema financeiro robusto, que permita às universidades cumprirem sua missão de produzir conhecimento e promover inclusão social, sem abrir mão de seu legado urbanístico e comunitário.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

 

Referência 

MARQUESINI, L.; OLIVEIRA, T. Universidade de Brasília planeja vender patrimônio bilionário em 2026. Folha de S.Paulo, Brasília, 4 jan. 2026. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Como foi nosso 2025 e qual nossa expectativa para 2026

 



    Nosso Blog está apenas começando sua jornada: com pouco mais de três meses de vida, já alcançamos números que nos enchem de orgulho. Em um cenário de divulgação 100% orgânica e com um foco especializado em Gestão do Ensino Superior, recebemos quase 600 visitantes até agora.

    A trajetória tem sido dinâmica: alguns dias com acesso mais moderado, outros com picos de até 50 leitores explorando nossas reflexões. Já publicamos 34 artigos, cobrindo temas variados dentro do universo acadêmico.

Os cinco artigos mais acessados foram:

  1. Inovar ou Perecer;

  2. Capital Externo Fortalece o Ensino Superior Privado no Brasil;

  3. A IA na Sala de Aula;

  4. A Governança por Números;

  5. O Laboratório do Adoecimento.

     

    É interessante notar que cada texto abordou um assunto distinto, o que sugere um público diversificado: alunos, docentes, funcionários e gestores do ensino superior. Essa pluralidade nos motiva a seguir adiante com ainda mais propósito.

    Para o próximo semestre, manteremos nossa periodicidade de publicações: segundas, quartas e sextas. Além disso, estamos preparando novidades para ampliar nosso alcance e aprofundar o debate:

  • Toda sexta-feira, teremos vídeos comentando as notícias da semana;

  • Abriremos espaço para discussões sobre o sistema público de ensino superior;

  • E pretendemos contar com a colaboração de outros especialistas, enriquecendo ainda mais a qualidade das discussões.

    Agradeço imensamente a cada visitante que tem nos acompanhado. Prometo continuar me dedicando para tornar este espaço cada vez mais relevante e útil para todos que se interessam pelo futuro da educação superior.

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