Com base na imagem que consolida os principais rankings
universitários (THE, World University Rankings, Scimago e RUF Folha),
fica evidente a ampla dominação das instituições públicas entre as
melhores universidades do Brasil. A Universidade de São Paulo (USP)
ocupa o primeiro lugar em todos os quatro rankings, confirmando sua
liderança absoluta.
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
aparece consistentemente entre as duas primeiras posições, enquanto a
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) figura no topo três em
todas as listas. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) também mantêm posições
de destaque, figurando entre as cinco melhores. A Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG) alcança o terceiro lugar no ranking THE, e a
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) aparece repetidamente
entre a sétima e oitava colocações. Universidades como Unifesp, UnB e
UFPR também figuram sistematicamente entre as dez primeiras.
A única
exceção à hegemonia pública no topo é a PUC-Rio, que aparece em quinto
lugar em dois rankings. No geral, mais de 80% das instituições entre as
dez melhores de cada levantamento são públicas. Esse cenário demonstra
que, apesar das dificuldades orçamentárias e estruturais, as
universidades públicas brasileiras seguem dominando a excelência
acadêmica e científica no país.
Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação
Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela
USP
O ranking QS World University
Ranking by Subject 2026, divulgado em março, revelou que a Universidade
de São Paulo (USP) tem 11 cursos entre os 50 mais renomados do mundo em
suas áreas. A avaliação abrangeu mais de 1,9 mil universidades em 100
países, consolidando a posição da instituição como referência global em
diversas disciplinas.
Ter
instituições brasileiras nesse seleto grupo é fundamental para a
projeção internacional da ciência nacional, para a atração de talentos e
para a credibilidade da formação acadêmica oferecida no país. A USP
demonstra que é possível competir com as melhores universidades do
mundo, ainda que com recursos frequentemente inferiores.
Entre
os cursos mais bem colocados estão Odontologia (15º), Engenharia de
Minas e Mineral (24º), História da Arte (25º), Antropologia (25º) e
Biblioteconomia & Gestão da Informação (28º). Também figuram no top
50 Engenharia de Petróleo (29º), Agricultura e Silvicultura (32º),
Medicina (43º), Farmácia e Farmacologia (43º), Arquitetura (48º) e
Sociologia (50º).
O
desempenho não é novidade, mas reforça uma tradição: todos os anos, a
USP figura entre as melhores universidades do mundo, seja por cursos
específicos, seja por áreas do conhecimento. A constância nos rankings
demonstra maturidade acadêmica e compromisso com a excelência — um
patrimônio da educação superior brasileira.
Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação
Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela
USP
No panorama contemporâneo do
ensino superior global, os rankings institucionalizaram-se como
tecnologias de governança neoliberal, desempenhando a noção de
"excelência" e reconfigurando as geopolíticas do conhecimento. Atuando
como soft power, modelos hegemônicos como o Times Higher Education (THE) e o QS World University Rankings
catalisam fluxos de capital, cérebros e prestígio, estabelecendo uma
linguagem métrica universal. No Brasil, essa lógica global se encontra com um arcabouço avaliativo estatal robusto - o Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Superior(SINAES) - gerando um campo complexo e
tensionado. Neste cenário, os rankings privados emergem como agentes
discursivos poderosos, construindo narrativas públicas alternativas
sobre a qualidade universitária. Dois artefatos destacam-se pela
penetração midiática e sofisticação metodológica: o Ranking Universitário Folha (RUF), publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, e o Ranking de Universidades do Brasil, fruto da parceria entre a plataforma Quero Educação e o jornal O Estado de S. Paulo. Estas iniciativas não se limitam a classificar; elas produzem
realidades, definindo critérios de valoração e influenciando as
estratégias institucionais.
O Ranking Universitário Folha
(RUF) constitui-se como um empreendimento metodologicamente ambicioso,
buscando operacionalizar a qualidade por meio de uma abordagem
multimodal. Sua arquitetura é sustentada por três pilares ponderados: a) Indicador de Pesquisa (40%),
calcado em métricas bibliométricas de produção (Scopus/Elsevier) e
impacto (citações), alinhando-se ao paradigma da ciência mensurável e
globalizada; b) Indicador de Mercado (35%), derivado de surveys com gestores de Recursos Humanos, capturando o capital de empregabilidade dos egressos e materializando a demanda por pertinência socioeconômica; e c) Indicador de Ensino (25%),
ancorado no Conceito ENADE, incorporando assim um dado oficial estatal.
Esta triangulação confere ao RUF uma legitimidade híbrida, situando-o
na interface entre a academia, o mercado e o Estado. Como dispositivo de
melhoria, o RUF atua como um espelho quantificado que orienta a ação
estratégica das IES: o peso da pesquisa fomenta políticas de
internacionalização e publicação em journals
de alto fator de impacto; o componente de mercado pressiona por
currículos mais alinhados às competências demandadas pelo setor
produtivo; e a presença do ENADE mantém um diálogo, ainda que indireto,
com os objetivos de formação avaliados pelo poder público. O ranking,
assim, promove uma cultura de benchmarking e accountability perante múltiplos stakeholders.
A metodologia do Guia da Faculdade
(Quero Educação e Estadão) é substancialmente mais complexa e
baseada em juízo especializado do que a premissa inicial sugeria.
Trata-se de uma avaliação por pares,
conduzida voluntariamente por mais de 6 mil coordenadores e professores
do ensino superior brasileiro. Estes avaliam cursos presenciais de
bacharelado e licenciatura que já tenham formado pelo menos uma turma,
com base em um questionário preenchido pelos coordenadores, focado em
três dimensões estruturais: projeto pedagógico, corpo docente e infraestrutura.
Cada curso recebe três notas (de 1 a 5) de seis avaliadores da mesma
área, sendo descartadas as notas máxima e mínima para calcular a média
final, convertida em um conceito de 3 a 5 estrelas. Este modelo
apresenta características e restrições distintas: i) É uma avaliação de processo e estrutura, focada na oferta e nos insumos acadêmicos, não no desempenho de entrada ou saída dos alunos; ii) A dependência do questionário autorrelatado pela coordenação do curso pode introduzir um viés de autopromoção; iii)
A avaliação por pares, embora valorizada academicamente, está sujeita a
subjetividades, possíveis conflitos de interesse (já que os avaliadores
são atores do mesmo campo) e à representatividade limitada do banco de
voluntários; iv) A exclusão
de cursos EAD e tecnólogos restringe seu escopo a uma parcela do
sistema. Portanto, o ranking oferece uma visão qualitativa interna e
especializada sobre a configuração acadêmica dos cursos, mas com
limitações inerentes ao método de coleta e ao julgamento subjetivo.
A análise comparativa entre o RUF e o Guia da Faculdade expõe dois paradigmas avaliativos radicalmente diferentes, que capturam dimensões quase ortogonais da qualidade. O RUF é um modelo baseado em resultados e impacto externo (output/outcome-oriented), medindo desempenhos objetivos (publicações, conceito ENADE) e percepções de mercado. Sua lógica é de externalidade e competitividade no cenário nacional e global. Em contraste, o Guia da Faculdade é um modelo baseado na estrutura, no processo e na percepção de pares (input/process-oriented), avaliando a qualidade da proposta pedagógica, do corpo docente e das instalações. Sua lógica é de internalidade e especialização acadêmica,
baseada no juízo de profissionais do setor. Enquanto o RUF responde à
pergunta "Quais são os resultados e a relevância externa desta
instituição/curso?", o Guia busca responder "Qual é a qualidade
percebida da estrutura e do projeto deste curso por especialistas da
área?". Um risco do primeiro é reduzir a excelência a métricas de
produtividade e empregabilidade; uma limitação do segundo é
potencialmente supervalorizar a intenção declarada (projeto) e a
reputação docente em detrimento da efetividade do ensino e da
aprendizagem do discente. São, portanto, lentes complementares: uma olha
para fora e para os fins, a outra olha para dentro e para os meios.
A coexistência de modelos tão distintos reforça a necessidade premente de uma hermenêutica crítica dos rankings
como prática fundamental para a governança democrática do ensino
superior. Nenhum índice singular, seja ele baseado em resultados
externos ou na avaliação por pares da estrutura, pode capturar a
totalidade multifacetada da qualidade educacional. A discussão informada
deve, portanto, avançar para: i) A triangulação de fontes,
utilizando rankings complementares (como RUF e Guia) em conjunto com os
dados oficiais do SINAES para formar uma visão mais holística; ii) A desconstrução das metodologias, tornando transparentes seus trade-offs epistemológicos – o que cada um ilumina, o que obscurece e quais interesses podem estar embutidos em seus critérios; iii) O desenvolvimento de uma cultura de data literacy institucional,
onde gestores e acadêmicos saibam interpretar criticamente esses dados,
extraindo insights válidos para o planejamento estratégico sem
submissão acrítica às classificações. A verdadeira melhoria do ensino
superior brasileiro depende da capacidade de transitar com sofisticação
entre esses diferentes registros avaliativos, utilizando-os não como
fins em si mesmos, mas como ferramentas para fomentar um diálogo
reflexivo, plural e contínuo sobre os múltiplos sentidos da excelência
acadêmica e do seu compromisso social.
Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues