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terça-feira, 7 de abril de 2026

A elite acadêmica brasileira é pública

     


Com base na imagem que consolida os principais rankings universitários (THE, World University Rankings, Scimago e RUF Folha), fica evidente a ampla dominação das instituições públicas entre as melhores universidades do Brasil. A Universidade de São Paulo (USP) ocupa o primeiro lugar em todos os quatro rankings, confirmando sua liderança absoluta. 

    A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aparece consistentemente entre as duas primeiras posições, enquanto a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) figura no topo três em todas as listas. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) também mantêm posições de destaque, figurando entre as cinco melhores. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) alcança o terceiro lugar no ranking THE, e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) aparece repetidamente entre a sétima e oitava colocações. Universidades como Unifesp, UnB e UFPR também figuram sistematicamente entre as dez primeiras. 

    A única exceção à hegemonia pública no topo é a PUC-Rio, que aparece em quinto lugar em dois rankings. No geral, mais de 80% das instituições entre as dez melhores de cada levantamento são públicas. Esse cenário demonstra que, apesar das dificuldades orçamentárias e estruturais, as universidades públicas brasileiras seguem dominando a excelência acadêmica e científica no país.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

sábado, 28 de março de 2026

A USP no topo do mundo

 


    O ranking QS World University Ranking by Subject 2026, divulgado em março, revelou que a Universidade de São Paulo (USP) tem 11 cursos entre os 50 mais renomados do mundo em suas áreas. A avaliação abrangeu mais de 1,9 mil universidades em 100 países, consolidando a posição da instituição como referência global em diversas disciplinas.

    Ter instituições brasileiras nesse seleto grupo é fundamental para a projeção internacional da ciência nacional, para a atração de talentos e para a credibilidade da formação acadêmica oferecida no país. A USP demonstra que é possível competir com as melhores universidades do mundo, ainda que com recursos frequentemente inferiores.

    Entre os cursos mais bem colocados estão Odontologia (15º), Engenharia de Minas e Mineral (24º), História da Arte (25º), Antropologia (25º) e Biblioteconomia & Gestão da Informação (28º). Também figuram no top 50 Engenharia de Petróleo (29º), Agricultura e Silvicultura (32º), Medicina (43º), Farmácia e Farmacologia (43º), Arquitetura (48º) e Sociologia (50º).

    O desempenho não é novidade, mas reforça uma tradição: todos os anos, a USP figura entre as melhores universidades do mundo, seja por cursos específicos, seja por áreas do conhecimento. A constância nos rankings demonstra maturidade acadêmica e compromisso com a excelência — um patrimônio da educação superior brasileira.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A Governança por Números: Uma Análise Discursiva dos Rankings Privados como Dispositivos de Poder no Ensino Superior Brasileiro

 


    No panorama contemporâneo do ensino superior global, os rankings institucionalizaram-se como tecnologias de governança neoliberal, desempenhando a noção de "excelência" e reconfigurando as geopolíticas do conhecimento. Atuando como soft power, modelos hegemônicos como o Times Higher Education (THE) e o QS World University Rankings catalisam fluxos de capital, cérebros e prestígio, estabelecendo uma linguagem métrica universal. No Brasil, essa lógica global se encontra  com um arcabouço avaliativo estatal robusto - o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior(SINAES) - gerando um campo complexo e tensionado. Neste cenário, os rankings privados emergem como agentes discursivos poderosos, construindo narrativas públicas alternativas sobre a qualidade universitária. Dois artefatos destacam-se pela penetração midiática e sofisticação metodológica: o Ranking Universitário Folha (RUF), publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, e o Ranking de Universidades do Brasil, fruto da parceria entre a plataforma Quero Educação e o jornal O Estado de S. Paulo. Estas iniciativas não se limitam a classificar; elas produzem realidades, definindo critérios de valoração e influenciando as estratégias institucionais.


    O Ranking Universitário Folha (RUF) constitui-se como um empreendimento metodologicamente ambicioso, buscando operacionalizar a qualidade por meio de uma abordagem multimodal. Sua arquitetura é sustentada por três pilares ponderados: a) Indicador de Pesquisa (40%), calcado em métricas bibliométricas de produção (Scopus/Elsevier) e impacto (citações), alinhando-se ao paradigma da ciência mensurável e globalizada; b) Indicador de Mercado (35%), derivado de surveys com gestores de Recursos Humanos, capturando o capital de empregabilidade dos egressos e materializando a demanda por pertinência socioeconômica; e c) Indicador de Ensino (25%), ancorado no Conceito ENADE, incorporando assim um dado oficial estatal. Esta triangulação confere ao RUF uma legitimidade híbrida, situando-o na interface entre a academia, o mercado e o Estado. Como dispositivo de melhoria, o RUF atua como um espelho quantificado que orienta a ação estratégica das IES: o peso da pesquisa fomenta políticas de internacionalização e publicação em journals de alto fator de impacto; o componente de mercado pressiona por currículos mais alinhados às competências demandadas pelo setor produtivo; e a presença do ENADE mantém um diálogo, ainda que indireto, com os objetivos de formação avaliados pelo poder público. O ranking, assim, promove uma cultura de benchmarking e accountability perante múltiplos stakeholders.

 


 

    A metodologia do Guia da Faculdade (Quero Educação e Estadão) é substancialmente mais complexa e baseada em juízo especializado do que a premissa inicial sugeria. Trata-se de uma avaliação por pares, conduzida voluntariamente por mais de 6 mil coordenadores e professores do ensino superior brasileiro. Estes avaliam cursos presenciais de bacharelado e licenciatura que já tenham formado pelo menos uma turma, com base em um questionário preenchido pelos coordenadores, focado em três dimensões estruturais: projeto pedagógico, corpo docente e infraestrutura. Cada curso recebe três notas (de 1 a 5) de seis avaliadores da mesma área, sendo descartadas as notas máxima e mínima para calcular a média final, convertida em um conceito de 3 a 5 estrelas. Este modelo apresenta características e restrições distintas: i) É uma avaliação de processo e estrutura, focada na oferta e nos insumos acadêmicos, não no desempenho de entrada ou saída dos alunos; ii) A dependência do questionário autorrelatado pela coordenação do curso pode introduzir um viés de autopromoção; iii) A avaliação por pares, embora valorizada academicamente, está sujeita a subjetividades, possíveis conflitos de interesse (já que os avaliadores são atores do mesmo campo) e à representatividade limitada do banco de voluntários; iv) A exclusão de cursos EAD e tecnólogos restringe seu escopo a uma parcela do sistema. Portanto, o ranking oferece uma visão qualitativa interna e especializada sobre a configuração acadêmica dos cursos, mas com limitações inerentes ao método de coleta e ao julgamento subjetivo.


    A análise comparativa entre o RUF e o Guia da Faculdade expõe dois paradigmas avaliativos radicalmente diferentes, que capturam dimensões quase ortogonais da qualidade. O RUF é um modelo baseado em resultados e impacto externo (output/outcome-oriented), medindo desempenhos objetivos (publicações, conceito ENADE) e percepções de mercado. Sua lógica é de externalidade e competitividade no cenário nacional e global. Em contraste, o Guia da Faculdade é um modelo baseado na estrutura, no processo e na percepção de pares (input/process-oriented), avaliando a qualidade da proposta pedagógica, do corpo docente e das instalações. Sua lógica é de internalidade e especialização acadêmica, baseada no juízo de profissionais do setor. Enquanto o RUF responde à pergunta "Quais são os resultados e a relevância externa desta instituição/curso?", o Guia busca responder "Qual é a qualidade percebida da estrutura e do projeto deste curso por especialistas da área?". Um risco do primeiro é reduzir a excelência a métricas de produtividade e empregabilidade; uma limitação do segundo é potencialmente supervalorizar a intenção declarada (projeto) e a reputação docente em detrimento da efetividade do ensino e da aprendizagem do discente. São, portanto, lentes complementares: uma olha para fora e para os fins, a outra olha para dentro e para os meios.

 


    A coexistência de modelos tão distintos reforça a necessidade premente de uma hermenêutica crítica dos rankings como prática fundamental para a governança democrática do ensino superior. Nenhum índice singular, seja ele baseado em resultados externos ou na avaliação por pares da estrutura, pode capturar a totalidade multifacetada da qualidade educacional. A discussão informada deve, portanto, avançar para: i) A triangulação de fontes, utilizando rankings complementares (como RUF e Guia) em conjunto com os dados oficiais do SINAES para formar uma visão mais holística; ii) A desconstrução das metodologias, tornando transparentes seus trade-offs epistemológicos – o que cada um ilumina, o que obscurece e quais interesses podem estar embutidos em seus critérios; iii) O desenvolvimento de uma cultura de data literacy institucional, onde gestores e acadêmicos saibam interpretar criticamente esses dados, extraindo insights válidos para o planejamento estratégico sem submissão acrítica às classificações. A verdadeira melhoria do ensino superior brasileiro depende da capacidade de transitar com sofisticação entre esses diferentes registros avaliativos, utilizando-os não como fins em si mesmos, mas como ferramentas para fomentar um diálogo reflexivo, plural e contínuo sobre os múltiplos sentidos da excelência acadêmica e do seu compromisso social.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues