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sábado, 22 de agosto de 2026

O mapa da excelência: por que o Brasil precisa (urgentemente) de uma política de qualidade baseada em dados globais

 


    A 16ª edição do QS World University Rankings by Subject avaliou mais de 21 mil programas acadêmicos em 1.900 instituições de 100 países, consolidando-se como um dos mais abrangentes termômetros da qualidade do ensino superior global. O relatório revela movimentos estratégicos: enquanto a América do Norte ainda lidera em número de cursos ranqueados, a Ásia Meridional (com 40% de disciplinas em alta) e a Oceania (37%) ganham terreno aceleradamente. Para o Brasil, esses dados não são apenas estatísticas – são um espelho das lacunas que precisam ser preenchidas com urgência.

    Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, ancorada em indicadores internacionais como os da QS, traria benefícios concretos: primeiro, permitiria que as universidades brasileiras identificassem com precisão suas forças e fraquezas em relação aos padrões globais, especialmente nas áreas de maior crescimento, como Ciência de Dados e Inteligência Artificial – que registram o maior número de novas entradas no ranking. Segundo, estimularia a competição saudável entre instituições, elevando o patamar médio da formação oferecida. Por fim, ampliaria a visibilidade internacional da ciência brasileira, atraindo parcerias e investimentos estrangeiros.

    O relatório mostra que áreas como Engenharia e Tecnologia (+1.150 movimentos ascendentes) e Ciências da Vida e Medicina (+1.210) são as que mais progrediram globalmente – justamente os campos em que o Brasil tem carência crítica de profissionais qualificados. Isso evidencia que a formação prática dos alunos, aliada à pesquisa aplicada, é o diferencial competitivo das melhores universidades. Instituições que conseguem integrar laboratórios, estágios e projetos reais ao currículo formam egressos mais preparados para o mercado, como demonstram os casos de sucesso do Tecnológico de Monterrey (México) e das universidades comunitárias brasileiras.

    A solução passa por uma agenda coordenada entre MEC, Capes e as próprias universidades: criação de um sistema nacional de monitoramento baseado nos critérios da QS (reputação acadêmica, citações por artigo, empregabilidade dos egressos); incentivo à internacionalização dos currículos e à formação de redes de pesquisa com instituições de países emergentes que estão subindo no ranking; e, principalmente, vinculação de recursos do Fies e do Prouni ao desempenho institucional em rankings globais e nacionais, como forma de induzir a melhoria contínua. O Brasil tem ciência de qualidade, mas precisa de uma política de estado que transforme excelência isolada em sistema nacional de alta performance – antes que a lacuna para as nações que sobem no ranking se torne um abismo intransponível.

 

Referência:

 
QS QUACQUARELLI SYMONDS. QS World University Rankings by Subject 2026: results. London, 25 mar. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Internacionalização no Ensino Superior: moda passageira ou estratégia de modernização?

 


    A internacionalização do ensino superior deixou de ser um diferencial restrito às grandes universidades globais e passou a ocupar posição estratégica nas instituições de ensino de diferentes portes e regiões. Em um cenário marcado pela intensa circulação de conhecimento, inovação tecnológica e cooperação científica internacional, discutir internacionalização não é mais apenas uma questão de prestígio acadêmico, mas de competitividade institucional, desenvolvimento regional e formação qualificada de profissionais.

    Entretanto, ainda persiste uma pergunta importante: a internacionalização no ensino superior é apenas uma tendência impulsionada pela globalização — uma “moda acadêmica” — ou representa um processo real de modernização das universidades?

 

Muito além do intercâmbio

 

    Quando se fala em internacionalização, muitas pessoas associam imediatamente o conceito a programas de intercâmbio estudantil. Embora a mobilidade acadêmica seja uma dimensão importante, a internacionalização é significativamente mais ampla.

     Ela envolve a inserção da dimensão internacional nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão universitária. Isso inclui:

* cooperação científica internacional;

* desenvolvimento de pesquisas multicêntricas;

* publicações em colaboração com pesquisadores estrangeiros;

* oferta de disciplinas em língua estrangeira;

* dupla titulação;

* participação em redes internacionais de inovação;

* atração de estudantes e docentes estrangeiros;

* adaptação curricular para competências globais.

 

Na prática, internacionalizar significa preparar a universidade — e seus estudantes — para atuar em um ambiente acadêmico, científico e profissional cada vez mais conectado.

 

A internacionalização como instrumento de modernização

 

    Sob a perspectiva das Relações Internacionais, a internacionalização do ensino superior pode ser compreendida como um mecanismo de inserção estratégica dos países na economia do conhecimento. Universidades internacionalizadas tendem a ampliar sua capacidade de inovação, fortalecer sua produção científica e aumentar sua relevância institucional.

     Além disso, a cooperação internacional favorece o acesso a:

* novas metodologias de ensino;

* tecnologias emergentes;

* financiamento internacional;

* infraestrutura colaborativa;

* formação avançada de recursos humanos.

 

    Em países em desenvolvimento, como o Brasil, a internacionalização também exerce papel importante na redução de assimetrias científicas e tecnológicas. A participação em redes globais de pesquisa permite acelerar processos de atualização acadêmica e ampliar a visibilidade internacional das instituições. Nesse sentido, a internacionalização não deve ser vista como um elemento periférico, mas como parte integrante da modernização universitária.

 

O risco da internacionalização superficial

 

    Apesar dos avanços observados nos últimos anos, ainda existem iniciativas de internacionalização baseadas mais em marketing institucional do que em transformação estrutural.

    Em alguns casos, a internacionalização é reduzida a ações pontuais, como convênios pouco ativos, participação esporádica em eventos internacionais ou utilização do termo como ferramenta de posicionamento institucional.

    Esse modelo superficial pode gerar baixa efetividade acadêmica e poucos impactos reais para estudantes, pesquisadores e para a própria instituição.

    A internacionalização efetiva exige planejamento estratégico, investimento institucional e integração com os objetivos acadêmicos da universidade. Não se trata apenas de “parecer internacional”, mas de incorporar práticas globais de excelência de maneira consistente e sustentável.

 

Formação do cidadão do futuro

 

    A internacionalização do ensino superior também possui impacto direto na formação cidadã. Em um mundo marcado por transformações tecnológicas aceleradas, desafios globais compartilhados e crescente interdependência entre países, formar profissionais tecnicamente qualificados já não é suficiente.

    As universidades contemporâneas são cada vez mais desafiadas a formar cidadãos capazes de compreender realidades multiculturais, dialogar com diferentes perspectivas e atuar de maneira ética em contextos globais complexos.

    A experiência internacional — seja por meio da mobilidade acadêmica, da participação em redes globais de pesquisa ou da interação com ambientes multiculturais — contribui para o desenvolvimento de competências humanas fundamentais, como:

* empatia intercultural;

* pensamento crítico;

* comunicação global;

* capacidade de adaptação;

* colaboração internacional;

* responsabilidade social;

* compreensão de desafios globais compartilhados.

 

    Além disso, a internacionalização favorece a formação de indivíduos mais preparados para lidar com temas transnacionais, como sustentabilidade, saúde global, inovação tecnológica, desigualdades sociais e diplomacia científica.

    Sob a ótica das Relações Internacionais, a universidade internacionalizada também exerce papel importante na formação de uma cidadania global, capaz de reconhecer a importância da cooperação entre países e da produção coletiva do conhecimento.

    Mais do que formar profissionais para o mercado de trabalho, a internacionalização contribui para formar cidadãos aptos a atuar em sociedades cada vez mais conectadas, diversas e dinâmicas.

 

Formação de profissionais globais

 

    Outro aspecto relevante é o impacto da internacionalização na formação dos estudantes. O mercado de trabalho contemporâneo valoriza cada vez mais competências interculturais, capacidade de colaboração internacional, domínio de idiomas e adaptação a contextos multiculturais.

     Profissionais formados em ambientes acadêmicos internacionalizados tendem a desenvolver:

* maior capacidade crítica;

* visão global de problemas complexos;

* competências de comunicação intercultural;

* maior adaptabilidade profissional;

* familiaridade com inovação e diversidade.

 

    Essas competências são particularmente importantes em áreas como saúde, tecnologia, engenharia, negócios, biotecnologia e pesquisa científica.

 

Exemplos brasileiros de internacionalização

 

    Diversas universidades brasileiras têm demonstrado que a internacionalização pode gerar impactos concretos na produção científica, na inovação e na formação acadêmica.

    A Universidade de São Paulo,"USP", por exemplo, consolidou-se como uma das principais instituições latino-americanas em cooperação internacional, com forte presença em publicações científicas multicêntricas, programas de dupla titulação e redes globais de pesquisa.

    A Universidade Estadual de Campinas,"UNICAMP" ampliou significativamente suas parcerias estratégicas em áreas como biotecnologia, engenharia e inovação tecnológica, fortalecendo sua inserção em projetos colaborativos internacionais.

    Já a Fundação Oswaldo Cruz,"Fiocruz" tornou-se referência internacional em saúde pública e pesquisa translacional, especialmente por meio de cooperações científicas em epidemiologia, vacinas e doenças infecciosas.

    Outro exemplo relevante é a Universidade Federal de Minas Gerais, "UFMG"], que desenvolve programas de internacionalização voltados tanto à mobilidade acadêmica quanto à atração de pesquisadores estrangeiros e participação em consórcios internacionais de pesquisa.

    Além das grandes universidades, instituições localizadas fora dos principais centros econômicos também vêm ampliando sua atuação global. Universidades estaduais e centros de pesquisa do interior têm estabelecido colaborações internacionais em áreas específicas, demonstrando que a excelência científica não está restrita às capitais.

    Esse movimento evidencia que a internacionalização pode atuar como ferramenta de fortalecimento regional, ampliando a visibilidade internacional da ciência produzida no Brasil.

 

Internacionalização regional e interiorização do conhecimento

 

    Um ponto frequentemente negligenciado é que a internacionalização não deve ser exclusividade das grandes capitais ou universidades centrais.

    Instituições localizadas no interior também possuem potencial significativo para cooperação internacional, especialmente quando apresentam expertise em áreas específicas de pesquisa, inovação ou impacto regional.

    A construção de parcerias internacionais pode fortalecer ecossistemas locais de inovação, atrair investimentos, ampliar a formação de pesquisadores e aumentar a inserção global da produção científica regional.

    Nesse contexto, internacionalizar também significa democratizar oportunidades acadêmicas e científicas.

 

Redes acadêmicas e programas de internacionalização

 

    A consolidação da internacionalização no ensino superior brasileiro também depende fortemente da participação das instituições em redes nacionais e internacionais de cooperação.

    Essas redes permitem compartilhar experiências, desenvolver projetos multicêntricos, ampliar a mobilidade acadêmica e fortalecer a inserção global das universidades brasileiras.

    Nesse contexto, a Associação Brasileira de Educação Internacional,"FAUBAI"desempenha papel central no fortalecimento da internacionalização universitária no Brasil. A entidade atua na articulação entre universidades, agências de fomento e instituições estrangeiras, promovendo eventos, capacitações e conexões estratégicas voltadas à cooperação acadêmica internacional.

    A atuação da FAUBAI contribuiu significativamente para profissionalizar os escritórios de relações internacionais das universidades brasileiras e ampliar a discussão sobre políticas institucionais de internacionalização.

    Outro avanço importante foi o desenvolvimento de programas nacionais voltados à internacionalização da pós-graduação e da pesquisa científica. Entre eles, destaca-se o programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior,"CAPES"PrInt (Programa Institucional de Internacionalização), frequentemente associado ao movimento conhecido como “CAPES Global”.

    O CAPES PrInt incentivou universidades brasileiras a estruturarem planos institucionais de internacionalização de longo prazo, estimulando:

* mobilidade internacional de docentes e discentes;

* atração de pesquisadores estrangeiros;

* criação de redes internacionais de pesquisa;

* internacionalização curricular;

* fortalecimento da produção científica colaborativa.

 

    Mais do que financiar intercâmbios, o programa estimulou mudanças institucionais mais profundas, exigindo planejamento estratégico e metas de internacionalização integradas aos programas de pós-graduação.

    Além disso, redes internacionais de pesquisa têm se tornado fundamentais para enfrentar desafios globais complexos, como pandemias, mudanças climáticas, segurança alimentar e inovação em saúde.

    Nesse cenário, universidades capazes de atuar em redes colaborativas internacionais ampliam não apenas sua visibilidade científica, mas também sua capacidade de gerar impacto social e tecnológico.

 

Conclusão

 

    A internacionalização do ensino superior não deve ser interpretada como uma moda acadêmica temporária. Trata-se de um processo estratégico de modernização institucional e inserção global do conhecimento.

    Universidades que investem em cooperação internacional de forma estruturada ampliam sua capacidade científica, fortalecem a formação de seus estudantes e se tornam mais preparadas para enfrentar os desafios contemporâneos.

    Mais do que um selo de prestígio, a internacionalização representa uma ferramenta de transformação acadêmica, científica e social.

    Em um mundo cada vez mais interdependente, universidades isoladas tendem a perder relevância. Já aquelas capazes de construir pontes internacionais tornam-se protagonistas na produção de conhecimento e inovação.

    A pergunta, portanto, talvez não seja mais se a internacionalização é necessária, mas como implementá-la de maneira estratégica, inclusiva e sustentável.

 

 Dra. Giovana A. Gonçalves Vidotti

PHD em Ciências FMUSP e Especialista em Relações Internacionais

Convidada Especial  

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Rankings que medem passado não preparam o futuro: a hora de inovar é agora

 


    De acordo com o professor sul-coreano Dong-Sung Cho, criador do ranking Wuri, as universidades precisam deixar de ser avaliadas exclusivamente por conquistas passadas — como publicações e titulações — e passar a medir seu impacto no mundo real. A inovação não é um fim em si mesma, mas parte de um propósito maior: resolver problemas concretos da sociedade. Para Cho, o foco institucional deve migrar do prestígio abstrato para a criação de valor tangível.

    O professor defende que a inovação deve ser compreendida sob três perspectivas: como parte de um propósito maior, como um processo dinâmico e contínuo, e como uma construção sistêmica. Essa abordagem se estrutura no modelo SER-M (Sujeito, Ambiente, Recurso e Mecanismo), no qual o principal elemento é o mecanismo que transforma ideias em resultados palpáveis. Dessa forma, as universidades podem aprender, replicar e escalar a inovação.


    Cho alerta que as instituições ainda operam de forma isolada e compartimentalizada, o que dificulta a interdisciplinaridade e a colaboração. Para avançar, o ensino superior precisa romper com estruturas rígidas e adotar modelos flexíveis, que integrem tecnologia, inteligência artificial e novos desenhos pedagógicos. O autor destaca que a inovação não ocorre de forma isolada, mas inserida em ecossistemas dinâmicos que conectam universidades, centros de pesquisa, empresas e necessidades públicas.

    No Brasil, o potencial é enorme, mas exige alinhamento estratégico. Segundo Cho, iniciativas como a do Inteli, única instituição brasileira no ranking Wuri, mostram que é possível combinar tecnologia, liderança e acesso social por meio de projetos concretos. As universidades brasileiras podem protagonizar esse movimento se alinharem seus programas com prioridades nacionais — como a Amazônia, a biodiversidade e a defesa constitucional da universidade pública —, produzindo casos de inovação com influência global.

Referência

 
LEITE, Lucas. Universidades devem focar no futuro, não no prestígio, afirma professor sul-coreano Dong-Sung Cho. Folha de S.Paulo, São Paulo, 8 maio 2026. 

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária /Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

De Pequim e Xangai ao Brasil: A Sinergia Estratégica entre Infraestrutura e Capital Humano

    


 A participação na 16ª Missão Internacional do SEMESP foi uma imersão profunda nos bastidores de uma nação que decidiu projetar e acelerar o futuro. Ao percorrer universidades em Pequim e Xangai — metrópoles que impressionam pela magnitude de sua gestão, abrigando respectivamente cerca de 22 milhões e mais de 27 milhões de habitantes —, a percepção imediata é a de um ecossistema operando em uma velocidade e escala sem precedentes.


    É notável observar um país que investiu massivamente em tecnologia voltada à energia verde e em modais de transporte que surpreendem pela pontualidade e eficiência extrema. Contudo, sob a ótica da gestão educacional, o impacto transcende a engenharia urbana; ele reside no que considero o "DNA do progresso": a educação como o motor de transformação sistêmica. Minha tese é clara: ferramentas e inovações, por mais disruptivas que sejam, sem o capital humano preparado para utilizá-las estrategicamente, constituem apenas despesa. O verdadeiro avanço exige competência instalada.


    Um dos pontos mais profundos da revolução educacional chinesa é o rigor e a agilidade de execução de sua infraestrutura. Impressiona o ciclo de planejamento de dois anos, seguido por uma construção recorde de apenas três anos, para a entrega de complexos universitários inteiramente projetados para as demandas da contemporaneidade.


    Esses edifícios são concebidos como Espaços de Aprendizagem de Nova Geração. Como defende o arquiteto e educador David Thornburg, tais ambientes são desenhados para fomentar a fluidez entre teoria e prática, integrando laboratórios de ponta e Inteligência Artificial no coração da arquitetura pedagógica. O prédio deixa de ser um custo imobiliário passivo para se tornar um acelerador de competências e um diferencial competitivo fundamental para a retenção do aluno.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Educação e Projeto de Nação: Notas a partir da Missão Técnica Internacional do Semesp à China

     


    Na Missão Técnica da qual estou participando nestes dias, aqui na China, tenho feito uma reflexão sobre a educação em nosso país. Percebo que, para a transformação de uma nação, o planejamento é algo essencial. Esse planejamento na área educacional deve transpor os limites de um período de governo , levando-se em consideração um projeto de educação para a transformação do país a curto, médio e longo prazo.Nosso país não carece de diretrizes educacionais; dispomos de marcos normativos relevantes e de uma comunidade acadêmica altamente qualificada. No entanto, persiste um desafio estrutural: há uma dificuldade de transformar diretrizes em coerência sistêmica ao longo dos anos. 

 


    O que acontece hoje no Brasil é uma desconexão; ou seja, “o ensino se torna uma ilha”. Na prática, observa-se uma fragmentação entre os diferentes níveis de ensino. Educação Básica, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior operam em diferentes frequências, a partir de lógicas próprias, nem sempre articuladas entre si.Esse desalinhamento compromete a fluidez da trajetória formativa do estudante. Quando começamos algo com erro de milímetros, no final do processo, isso pode chegar a quilômetros. Na educação brasileira, esse erro acaba refletindo-se mais evidentemente no Ensino Superior, que passa a atuar, em muitos casos, como instância de recomposição formativa. Em vez de se consolidar como espaço de aprofundamento e produção de conhecimento, assume parcialmente um papel corretivo de nivelamento.Quem perde com isso somos todos nós, brasileiros. Sem profissionais totalmente aptos e qualificados, o desenvolvimento da nação fica comprometido, gerando consequências no desenvolvimento social do país. 


 

    A educação, quando pensada de forma integrada, deixa de ser apenas um campo setorial e passa a atuar como eixo estruturante do desenvolvimento nacional.Nesse sentido, torna-se imprescindível avançar na construção de mecanismos de articulação efetiva entre o poder público, as instituições de ensino em todos os níveis e as entidades representativas da área educacional. Mais do que um alinhamento pontual, o desafio está na construção de uma continuidade institucional capaz de sustentar políticas educacionais que ultrapassem ciclos de governo e se consolidem como políticas de Estado. As reflexões aqui apresentadas são parte de um percurso em construção, que envolve observação em campo, aprofundamento acadêmico e diálogo constante com profissionais da área. 

 

    E talvez a questão mais incômoda e necessária seja esta: se já sabemos onde estão as falhas de articulação, o que, de fato, ainda nos impede de corrigi-las? Estamos diante de limitações técnicas, institucionais ou de falta de convergência entre os próprios atores que compõem o sistema? Provocar esse debate com responsabilidade e profundidade talvez seja, hoje, tão importante quanto propor soluções.Fica o convite à reflexão, especialmente àqueles que acreditam que pensar a educação é, inevitavelmente, pensar no futuro do país,

 

Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Brasil na Academia Global: um jogo de cátedras que mais instituições nacionais deveriam participar

 


    A internacionalização do ensino superior transcende o intercâmbio de estudantes. É um processo estratégico e multifacetado que integra uma instituição à comunidade acadêmica global, incorporando dimensões internacionais em seu ensino, pesquisa e extensão. Isso se materializa em parcerias formais, publicações científicas em coautoria internacional, mobilidade de docentes e discentes, oferta de currículos com perspectiva global e atração de talentos estrangeiros. Trata-se de um critério essencial para a excelência, mensurado por rankings de prestígio mundial, como o Times Higher Education (THE).

    O THE avalia essa dimensão através de três pilares: a "proporção de colaboração internacional em artigos científicos" (onde o Brasil tem seu melhor desempenho), a "proporção de acadêmicos internacionais" e a "proporção de estudantes internacionais". No cenário nacional, as universidades públicas estaduais e federais dominam as primeiras colocações. A Universidade de São Paulo (USP) lidera, seguida de perto por instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que figuram no top 200 mundial do indicador de colaboração internacional em pesquisa, demonstrando uma vigorosa integração às redes globais de conhecimento.


    Um fenômeno marcante na geopolítica do conhecimento é a ascensão meteórica da China nos rankings. O país não apenas consolidou universidades de classe mundial como também se tornou um parceiro científico incontornável. Reconhecendo essa nova realidade, o Semesp – entidade representativa de mantenedoras de ensino superior – organizou uma missão técnica à China. O objetivo é decodificar as estratégias que alçaram suas universidades ao topo, buscando aprender com políticas de atração de talentos, investimento massivo em pesquisa e modelos ágeis de gestão acadêmica que poderiam inspirar ajustes no modelo brasileiro.

                                                                         Fonte: TV SIMI

    Diante desse cenário de competição global acirrada, um questionamento se impõe: onde estão as instituições brasileiras nesse mapa da internacionalização? Sua notável ausência nas posições de destaque dos rankings revela uma desconexão preocupante com os padrões mundiais de excelência. Enquanto as públicas, mesmo com recursos limitados, avançam na colaboração internacional, o setor privado, que responde pela maior parte das matrículas, parece relegar a projeção global a um plano secundário. A pergunta que fica é se a visão meramente mercadológica, focada no âmbito doméstico, será suficiente para formar cidadãos e profissionais aptos a liderar em um mundo sem fronteiras intelectuais. A internacionalização deixou de ser um adereço de prestígio; é uma condição de sobrevivência e relevância acadêmica no século XXI.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  
 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Dia Internacional do Ensino: ponto sem volta no ensino superior brasileiro?

 


    Neste 24 de janeiro, data instituída pela ONU para celebrar o papel da educação como direito humano e bem público, o cenário global do ensino superior revela uma transformação irreversível, impulsionada a força pela pandemia e consolidada por demandas por maior acessibilidade e relevância.

    Dados da UNESCO, que lidera as celebrações deste ano sob o tema "aprendizagem para a paz", indicam que a crise sanitária acelerou em anos a adoção de tecnologias educacionais. Se, por um lado, a transição emergencial para o Ensino Remoto e o Ensino Remoto Emergencial expôs gritantes desigualdades digitais, por outro, catalisou uma reavaliação profunda dos modelos pedagógicos. O estudo "Ensino Remoto e Híbrido na Educação Superior", citado em análise, já apontava a percepção discente de que metodologias ativas e recursos audiovisuais eram subutilizados no presencial. A pandemia forçou a curva de aprendizado.

    No Brasil, a resposta governamental à aceleração digital materializou-se em ações como o programa "Conecta IF", do MEC, que investiu na infraestrutura de internet de institutos federais, e a disponibilização de recursos via CAPES para formação de professores em práticas pedagógicas digitais. A expansão de programas de assistência estudantil, como o Auxílio Permanência, buscou mitigar a evasão, enquanto editais específicos fomentaram pesquisa em tecnologias educacionais. No entanto, especialistas apontam que a efetivação de uma política de Estado robusta para a educação híbrida, com investimento contínuo e regulamentação clara, ainda é um desafio a ser superado.

    A hibridização tornou-se palavra de ordem. Instituições ao redor do mundo, do MIT a universidades públicas brasileiras, agora operam com modelos flexíveis que combinam sincronia e assincronia, presencialidade e virtualidade. Este não é mais um plano de contingência, mas um novo paradigma. A internet deixou de ser um canal alternativo para se firmar como infraestrutura central, expandindo o acesso a públicos geograficamente distantes ou com limitações de tempo, como profissionais em busca de especialização.

    Contudo, o Dia Internacional da Educação também serve de alerta. O mesmo relatório que destaca vantagens da flexibilidade e da personalização do aprendizado online adverte: a sensação de "solidão" do aluno e a "sobrecarga" do docente são desafios críticos. A educação de alto nível no século XXI, portanto, não se debate mais sobre a superioridade de um modelo sobre o outro, mas sobre como integrá-los de forma ética, inclusiva e eficaz. O futuro, como afirmam especialistas, é "híbrido e humano", exigindo investimentos massivos em formação docente e infraestrutura digital para que a promessa de uma educação verdadeiramente global e de qualidade seja, de fato, para todos. A pandemia passou, mas a revolução que ela iniciou no ensino superior apenas começo.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 

Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Um gigante de costas para o mundo: por que as melhores universidades da América Latina atraem tão poucos estrangeiros?

 


O contexto global da internacionalização do ensino superior é altamente sensível a políticas nacionais, como demonstrado de maneira dramática pelo cenário recente nos Estados Unidos. Um relatório divulgado em 2025 apontou uma queda de pelo menos 17% no número de novos estudantes internacionais matriculados em faculdades e universidades americanas entre setembro e novembro daquele ano. Esta queda abrupta é diretamente atribuída às políticas migratórias restritivas implementadas pelo governo do presidente Donald Trump, que miraram a imigração legal com o discurso de colocar a “segurança nacional americana em primeiro lugar”.

Entre as medidas citadas, destacam-se esforços para limitar matrículas, a revogação de vistos estudantis, atrasos generalizados na emissão de novos vistos e a autorização para que oficiais consulares solicitem o acesso a contas de redes sociais dos candidatos. O impacto foi imediato e severo: 96% das instituições que relataram queda nas matrículas apontaram preocupações com o processo de visto como fator relevante, e 68% citaram restrições de viagens. A nação que por décadas foi o principal destino de estudantes internacionais, atraindo cerca de 1,2 milhão deles em 2024-2025, viu sua atratividade ser comprometida por barreiras administrativas e por um ambiente percebido como hostil.


As consequências dessa política são multifacetadas e vão muito além da contabilidade de matrículas. Em primeiro lugar, há um significativo impacto econômico. Estimativas da Associação de Educadores Internacionais indicam que, até 2024, estudantes internacionais contribuíam com aproximadamente US$ 55 bilhões para a economia americana, incluindo gastos com mensalidades, moradia, alimentação e outros serviços. A queda nas matrículas representa, portanto, uma perda de receita vital para muitas instituições, especialmente as de médio porte e as públicas.

 Fonte: TV SIMI

Em segundo lugar, o impacto acadêmico e científico é profundo. Os estudantes internacionais são uma fonte crucial de talento e diversidade para os campi americanos. Eles enriquecem as discussões em sala de aula, contribuem para projetos de pesquisa de ponta e, frequentemente, permanecem após a graduação para integrar a força de trabalho altamente qualificada do país, especialmente em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A redução desse fluxo compromete a capacidade de inovação dos EUA e sua posição de liderança na produção científica global. Finalmente, há um dano à imagem e ao soft power americano. A educação superior sempre foi um dos principais pilares da influência cultural e política dos EUA no mundo. Ao dificultar o acesso, o país envia uma mensagem de fechamento que pode ter repercussões de longo prazo em suas relações internacionais e na atração de talentos futuros.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues