quarta-feira, 1 de abril de 2026

Uma nova lei para o ensino básico no país: devemos ter esperança?

 


    A nova lei publicada no “Diário Oficial da União” em 26 de março de 2026 estabelece requisitos mínimos obrigatórios para as escolas públicas da Educação Básica. Entre as exigências estão número adequado de alunos por turma, biblioteca, laboratórios de ciências e informática com acesso à internet, quadra poliesportiva coberta, cozinha, refeitório, banheiros, acessibilidade e serviços essenciais como energia elétrica, água tratada e esgotamento sanitário.

 


    Apesar da determinação legal, a realidade ainda está distante do ideal. Dados do Painel de Estatísticas da Educação Básica de 2025 mostram que apenas 52% das 178.766 escolas brasileiras possuem biblioteca ou sala de leitura, 2,7% ainda não contam com banheiro, somente 11% têm laboratório de ciências e apenas 28,3% dispõem de laboratório de informática. As quadras de esportes estão presentes em 38,7% das unidades.



    O Brasil conta com cerca de 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo que a rede pública atende a grande maioria dos estudantes — aproximadamente 80% — enquanto a rede privada responde pelos 20% restantes. Essa distribuição revela a enorme responsabilidade do poder público na garantia de condições mínimas de ensino para a maior parte da população.

    Investir na estrutura da educação básica é fundamental para qualificar o ensino superior, pois forma a base sobre a qual todo o conhecimento acadêmico será construído. Escolas bem equipadas e com condições adequadas formam estudantes mais preparados, reduzem a evasão e contribuem para um ciclo virtuoso de desenvolvimento educacional. Mais do que uma obrigação legal, garantir escolas públicas de qualidade é o caminho mais sólido para construir o futuro do país.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

terça-feira, 31 de março de 2026

O Brasil e o abismo entre o Ensino Médio e o Superior: Por que o país “atrasa” seus talentos?

 

 

 

            Comemora-se, com frequência, o fato de o Brasil ter alcançado a marca histórica de 10 milhões de alunos matriculados no ensino superior. À primeira vista, o número impressiona pela relevância estatística, mas quando abrimos a “caixa preta” desses dados, encontramos uma realidade incômoda: mais de 50% dos alunos matrículas são pessoas com 25 anos ou mais; estamos atrasando a formação dos nossos jovens.

     O Brasil possui cerca de 22,3 milhões de jovens na faixa de ingresso universitário (18 a 24 anos). No entanto, desse montante, somente 22,9% conseguem ingressar no Ensino superior no período considerado ideal. Onde estão os outros 77,10%?

    A resposta é dura; o sistema “expulsa” o jovem de 18 anos para o mercado de trabalho. Ele só consegue retornar ao sistema de ensino quando atinge uma relativa estabilidade financeira, geralmente após os 25 anos.

    O olhar se volta para a nossa maior dor no momento: o fator socioeconômico. Esses jovens não desistiram de estudar, eles apenas precisaram adiar esse projeto para sobreviver. Atualmente, metade dos nossos universitários tem 25 anos ou mais. O contexto deixa claro que o jovem de baixa renda raramente consegue dar continuidade aos estudos imediatamente após o ensino médio.

        Essa barreira gera um fenômeno do “Universitário Maduro por Necessidade”. Quase metade dos nossos alunos carrega o peso de jornadas duplas, lacunas na formação básica e a constante pressão financeira.

    O gráfico abaixo demonstra o ingresso dos jovens no período coerente com a idade.  Abrir as portas das universidades deve ser uma meta crescente, tratada com políticas públicas e meios de financiamento mais adequado à realidade da população. Quando analisamos o gráfico percebemos que o Brasil esta na lanterna da continuidade do ensino médio para o Superior.

 

    A conversão dos países sul-americanos demonstra uma eficiência em comparação ao Brasil. O ponto crucial não é somente a entrada, mas a continuidade até a formatura. Este é um desafio hercúleo para as Instituições de Ensino Superior (IES). O panorama na América do Sul nos traz dados que precisam ser estudados com urgência para que a evasão seja sanada de forma gradativa e consistente

 

 

    Será que a evasão não é um sintoma final de uma Instituição que insiste em ensinar o  em vez do “Saber resolver”. Esse gráfico deveria tirar o sono de qualquer gestor educacional. O contraste é violento, especialmente na Argentina, que detém o maior índice de ingresso imediato (72%), mas onde somente 30% chegam à formatura. No Brasil, sofremos de uma dupla falha: além da menor transição imediata, o funil da evasão continua vivo, mesmo para quem decide adiar o sonho em prol do trabalho.

    É fácil culpar o aluno que “falta esforço”. Mas a provocação que este gráfico faz às IES é mais profunda: que o exige e os alunos valorizam)?”

Como gestores, precisamos unir forças entre as IES do Brasil para buscar alternativas financeiras que aumentem o ingresso, mas acompanhadas de um verdadeiro “Choque de didática” para estancar a evasão. Essa mudança deve ser gradativa, porém focada.

     O contexto, a modernização com inteligências Sociais e Artificiais é fundamental para o desenvolvimento e engajamento dos estudantes. Afinal, a dinâmica mudou: não vivemos mais a era em que o mais importante era apenas “saber fazer”. Hoje, o valor real está em “saber como faze e ter capacidade de resolução”.

 

Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
 
Editor e Fundador do Blog

sábado, 28 de março de 2026

A USP no topo do mundo

 


    O ranking QS World University Ranking by Subject 2026, divulgado em março, revelou que a Universidade de São Paulo (USP) tem 11 cursos entre os 50 mais renomados do mundo em suas áreas. A avaliação abrangeu mais de 1,9 mil universidades em 100 países, consolidando a posição da instituição como referência global em diversas disciplinas.

    Ter instituições brasileiras nesse seleto grupo é fundamental para a projeção internacional da ciência nacional, para a atração de talentos e para a credibilidade da formação acadêmica oferecida no país. A USP demonstra que é possível competir com as melhores universidades do mundo, ainda que com recursos frequentemente inferiores.

    Entre os cursos mais bem colocados estão Odontologia (15º), Engenharia de Minas e Mineral (24º), História da Arte (25º), Antropologia (25º) e Biblioteconomia & Gestão da Informação (28º). Também figuram no top 50 Engenharia de Petróleo (29º), Agricultura e Silvicultura (32º), Medicina (43º), Farmácia e Farmacologia (43º), Arquitetura (48º) e Sociologia (50º).

    O desempenho não é novidade, mas reforça uma tradição: todos os anos, a USP figura entre as melhores universidades do mundo, seja por cursos específicos, seja por áreas do conhecimento. A constância nos rankings demonstra maturidade acadêmica e compromisso com a excelência — um patrimônio da educação superior brasileira.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

O retrato do ensino superior no Brasil

 


    O Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026, produzido pelo Instituto Semesp, revela que o país atingiu 10,23 milhões de matrículas na graduação em 2024, um crescimento de 2,5% em relação ao ano anterior. A rede privada mantém sua hegemonia, concentrando 79,8% dos estudantes, enquanto a pública responde por apenas 20,2%. Pela primeira vez na série histórica, a educação a distância superou o presencial, com 50,7% das matrículas, embora seu ritmo de expansão tenha desacelerado para 5,6% no período.

    Os cursos mais procurados na modalidade EAD revelam a forte presença das licenciaturas: Pedagogia lidera com 508.660 concluintes nos últimos cinco anos, seguida por Administração (194.867) e Gestão de Pessoas (179.907). No ensino presencial, a preferência se volta para áreas tradicionais: Direito (561.465 concluintes), Administração (228.394) e Enfermagem (219.855) ocupam os primeiros lugares, evidenciando a persistência de carreiras consolidadas na escolha dos jovens que optam pelo formato presencial.

    Na rede pública, que enfrenta limitação de vagas e cresceu apenas 0,2% no número de instituições entre 2023 e 2024, os cursos com maior número de matrículas são Pedagogia (45.098), Administração (18.253) e Letras (15.572). A concentração de licenciaturas na esfera pública reflete seu papel histórico na formação de professores, enquanto a evasão acumulada na rede privada chega a 64,7% no ciclo 2020-2024, um indicador preocupante de permanência.

    As perspectivas para o ensino superior brasileiro apontam para um sistema cada vez mais polarizado entre grandes grupos privados — 1,4% das mantenedoras já concentram 47,1% das matrículas — e instituições menores em processo de retração. O desafio central será conciliar expansão com qualidade, enfrentar as altas taxas de evasão e fortalecer políticas públicas como Fies e Prouni, cujo impacto permanece limitado diante da escala do setor privado.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

A conta chegará em 6 Anos: o impacto invisível do ingresso de hoje nas notas do ENAMED

 

   Na semana passada o Semesp trouxe o Mapa do Ensino Superior demonstrando um choque de realidade para o setor educacional, pois apenas 20% dos jovens frequentam salas de aula de IES. Vivemos um tempo em que o funil de acesso se encontra cada vez mais estreito, provocando reações imediatas de captação de alunos para preencher as turmas, impulsionadas pela realidade implacável do fluxo de caixa.

    A realidade nos coloca em uma posição em que nos debruçamos sobre planilhas de análise de vestibulares e captação referentes a 2025 e 2026, buscando mitigar a pressão da capacidade instalada versus matrículas efetivadas. A pergunta que fica é: a que custo?

    Recentemente, tivemos a publicação das sanções às IES que não obtiveram bons resultados no ENAMED. Esse é, sem dúvida, o grande divisor de águas da nossa geração de gestores. Essa avaliação atua como um filtro de qualidade que não permite atalhos. Flexibilizar de forma imprudente a qualidade na porta de entrada — seja por necessidade de caixa ou falta de estratégia — provisiona um passivo institucional gravíssimo. E o impacto vai além da reputação: as sanções do ENAMED tendem a proporcionar restrições severas ao PROUNI, penalizando ainda mais a sustentabilidade e a operação da IES.

    Esse passivo não representa somente o impacto de um semestre ou um ano, mas sim de todo o período de formação — ou seja, um eco de 6 anos. O ciclo educacional é longo e complexo; não podemos geri-lo com a miopia do fechamento de metas mensais.

   Assim, participando de missões educacionais recentes, como a imersão na Colômbia com a EDUCONECTA e o Semesp, e acompanhando os debates de alto nível promovidos por entidades do setor, uma constatação se torna unânime: o mercado regulatório e profissional não tolera mais amadorismo.

    Vamos fazer uma conta rápida do impacto financeiro. Imagine uma IES que oferece 60 vagas e, por não ter um bom desempenho no exame, sofre a suspensão do próximo vestibular ou uma redução severa de vagas. Trabalhando com um ticket médio de R$ 10.000,00:

  • Faturamento anual perdido (100% da turma): R$ 10.000,00 x 60 vagas x 12 meses = R$ 7.200.000,00
  • Impacto no ciclo de 6 anos: R$ 7.200.000,00 x 6 anos = R$ 43.200.000,00

(Obs: Isso sem considerar as taxas de evasão, inadimplência e o impacto das penalizações no PROUNI. Mesmo com reduções parciais de 25% ou 50% das vagas, o rombo financeiro é devastador).

    Enfim, sobreviver e prosperar neste cenário exige das lideranças educacionais um alto nível de maturidade de gestão. Mais do que nunca, precisamos fomentar o aprendizado contínuo dentro das nossas diretorias e conselhos. Precisamos entender, de uma vez por todas, que a captação e a excelência acadêmica não são áreas isoladas, mas engrenagens interdependentes.

    Para finalizar, fica aqui a pergunta estratégica que deve guiar as reuniões de conselho. Não apenas "Quantos alunos matriculamos?", mas sim: Os alunos que estamos captando hoje têm a base e o acompanhamento necessários para sustentar a nossa qualidade no ENAMED daqui a 6 anos?

    


Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
 
Editor e Fundador do Blog