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quarta-feira, 3 de junho de 2026

A crise silenciosa da atenção nas salas de aula

 


    Em muitas instituições de ensino, um fenômeno tem chamado a atenção de gestores, professores e pesquisadores: a dificuldade crescente dos estudantes em manter o foco durante aulas, atividades e momentos de estudo.
    Embora o acesso à informação nunca tenha sido tão amplo, a capacidade de concentração parece enfrentar desafios inéditos.
    Celulares, redes sociais, excesso de estímulos digitais e a cultura da multitarefa estão transformando a forma como os alunos aprendem.
    A chamada “crise da atenção” não se limita à educação básica. Ela também está presente no Ensino Superior, impactando o desempenho acadêmico, o engajamento em sala de aula e até mesmo a saúde mental dos estudantes.

O avanço das telas e a disputa pela atenção


    A presença constante dos dispositivos digitais mudou profundamente a dinâmica da aprendizagem.
    Hoje, muitos estudantes alternam entre conteúdos acadêmicos, mensagens, vídeos curtos e redes sociais em questão de segundos. O cérebro passa a operar sob múltiplos estímulos simultâneos, o que pode comprometer a retenção de informações e a concentração prolongada.

Figura 1. Crescimento ilustrativo do tempo médio diário de exposição a telas.

 

Quando a distração se torna um problema pedagógico


    A distração digital não representa apenas uma mudança de comportamento. Ela interfere diretamente na aprendizagem. Pesquisas recentes apontam associação entre uso excessivo de telas, redução da atenção sustentada, menor participação em sala e pior desempenho acadêmico.
    Além disso, muitos estudantes relatam sensação constante de cansaço mental e dificuldade para concluir tarefas.

Figura 2. Distribuição ilustrativa dos principais impactos percebidos no contexto acadêmico.

 

O papel das instituições e dos docentes

    A solução não está simplesmente em proibir a tecnologia, mas em utilizá-la de forma estratégica.                 Instituições de ensino vêm investindo em metodologias ativas, aprendizagem baseada em problemas,    simulações, gamificação e recursos digitais com objetivos pedagógicos bem definidos.
O desafio contemporâneo não é competir com a tecnologia, mas criar experiências educacionais capazes de gerar significado, participação e conexão com a realidade dos estudantes.

Figura 3. Estratégias educacionais frequentemente associadas ao aumento do engajamento estudantil.

 

Uma reflexão necessária para o futuro da Educação


    A crise da atenção nas salas de aula é silenciosa porque nem sempre aparece nos indicadores tradicionais.
    Ela se manifesta em comportamentos cotidianos: dificuldade de concentração, excesso de multitarefa, redução do envolvimento com as aulas e menor profundidade no aprendizado.
    Mais do que discutir celulares ou redes sociais, o debate atual exige uma reflexão sobre como os estudantes aprendem em uma sociedade hiper conectada. O futuro da Educação dependerá da capacidade das instituições de equilibrar inovação tecnológica, desenvolvimento humano e construção de ambientes que favoreçam o foco, a autonomia e o pensamento crítico.


Referências e dados utilizados

                                                                                                                                                                                                UNESCO – Global Education Monitoring Report. Estudos recentes sobre uso excessivo de telas, atenção e desempenho acadêmico em estudantes universitários.

Os gráficos apresentados possuem finalidade ilustrativa para apoio visual.

 

 


Cristiane Procópio de Oliveira 

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais.

 

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Vamos falar sobre neurodivergência no ensino superior?

 


    A neurodivergência não é uma doença, mas uma vasta e complexa variação natural do cérebro humano. O termo, cunhado no final dos anos 90, funciona como um guarda-chuva que abrange condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e a dislexia. No entanto, seu escopo é mais amplo: inclui também a discalculia (dificuldade com matemática), a dispraxia (desordem motora), o Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC) e, de forma significativa, a altas habilidades/superdotação. Este último grupo, muitas vezes invisibilizado, comprova que a neurodivergência não se relaciona apenas a desafios, mas a modos distintos, e frequentemente intensificados, de processar informações e interagir com o mundo. O paradigma proposto é uma mudança de olhar: do déficit para a diferença. No entanto, no Brasil, o caminho entre reconhecer essa diversidade e garantir suporte efetivo, especialmente na educação, é marcado por obstáculos que começam no difícil acesso ao diagnóstico.

 


 

    A principal barreira é a laudo médico. A obtenção de um diagnóstico preciso, essencial para acionar políticas de apoio, esbarra na carência de profissionais especializados no SUS, nos altos custos da rede privada e nas longas filas de espera. Para condições como TDAH e dislexia, o caminho é tortuoso; para a superdotação, é praticamente um deserto, com pouquíssimos serviços públicos especializados em sua identificação. Essa demora, que pode levar anos, tem reflexos diretos e profundos na vida escolar. Sem a identificação formal, estudantes neurodivergentes frequentemente são vistos através de estereótipos: o autista "deslocado", o aluno com TDAH "desinteressado", o disléxico "que não se esforça" ou o superdotado "problemático e disperso". A prática pedagógica uniformizada, sem as adaptações necessárias, falha em engajá-los, gerando frustração, desmotivação, evasão e um histórico de fracasso que mascara seu verdadeiro potencial.

 

                                                                Fonte: Revista Novo Tempo

    O arcabouço legal brasileiro, contudo, é robusto e assegura direitos. A Lei Brasileira de Inclusão (Estatuto da Pessoa com Deficiência - Lei 13.146/2015) é a principal delas, reconhecendo a neurodivergência como deficiência para todos os fins legais, garantindo o direito à educação inclusiva. Na educação básica, as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e o Parecer CNE/CEB 11/2020 determinam a elaboração do Plano de Ensino Individualizado (PEI), um documento crucial que deve prever currículo, métodos e avaliações adaptadas, aplicável também a alunos com altas habilidades. O descumprimento dessas normas configura violação de direito.

 


 

    No ensino superior, o desafio se desloca da identificação para a efetivação das políticas. Universidades públicas e privadas são obrigadas por lei a oferecer Núcleos de Acessibilidade e implementar os Planos de Desenvolvimento Individual (PDI), similares ao PEI. A realidade, porém, é desigual. Muitas instituições ainda limitam a inclusão a provas com tempo estendido, enquanto outras desenvolvem programas mais abrangentes. Para o neurodivergente superdotado, o ensino superior pode ser um campo minado: a falta de estimativo intelectual prévio pode levar ao tédio e à desistência, exigindo adaptações como disciplinas avançadas ou projetos de iniciação científica antecipada. O debate agora é sobre como as universidades podem ir além da adaptação para celebrar as formas únicas de pensar e criar que a neurodivergência, em toda a sua pluralidade, traz para a pesquisa e a inovação.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A IA na Sala de Aula: Instrutor ou Distração Digital?

 

  

    Estudantes universitários ao redor do mundo estão adotando a Inteligência Artificial como uma ferramenta de estudo massiva. Dados de 2024 mostram que 86% dos alunos usam IA regularmente em suas tarefas acadêmicas, desde a geração de textos até a explicação de conceitos complexos. Universidades de elite, como Tsinghua e Ohio State, já estão integrando a tecnologia em seus currículos, visando formar graduados "fluentes em IA".

    No entanto, essa revolução tecnológica divide especialistas. De um lado, entusiastas veem um potencial incrível para personalizar o aprendizado e tornar a educação mais eficiente. Um estudo de Harvard com um tutor de IA para Física mostrou que os alunos aprenderam mais em menos tempo. Do outro, céticos temem que o uso indiscriminado esteja atrofiando habilidades mentais cruciais. Uma pesquisa com escaneamento cerebral revelou que estudantes que usaram ChatGPT para escrever redações apresentaram uma conectividade significativamente menor entre as regiões do cérebro, indicando um processamento mental mais superficial.

    O dilema se estende às salas de aula, onde professores relatam mudanças dramáticas nas habilidades dos alunos. Muitos demonstram dificuldade em referenciar fontes ou construir argumentos originais, sinalizando que a dependência da IA pode estar comprometendo o desenvolvimento do pensamento crítico. Enquanto isso, as próprias instituições de ensino correm para estabelecer políticas de uso, criando um cenário de regulamentação fragmentada e, por vezes, contraditório.

    Diante deste cenário complexo, especialistas defendem que o caminho não está na proibição, mas na integração inteligente. A IA deve ser tratada como uma ferramenta para ampliar capacidades cognitivas, e não como um atalho que substitui o esforço intelectual. O verdadeiro desafio educacional será equilibrar o ganho de eficiência com a preservação das habilidades humanas fundamentais para o futuro profissional e cidadão.

 by

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 

Fontes:  

    Este texto foi baseado na reportagem "Will AI make students smarter, or stop them from thinking at all?", publicada na revista Nature (Vol 646, 23 de outubro de 2025)

    Imagem obtida em https://creajr.crea-pr.org.br/inteligencia-artificial-ia-quais-as-suas-aplicacoes-na-engenharia Acesso 27/10/2025  16:00

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

América Latina Educadora: Do Acesso à Aprendizagem de Verdade


    O Relatório Edlatam 2025 nos mostra que a América Latina está diante de uma encruzilhada histórica: alcançamos acesso quase universal à escola, mas ainda não garantimos aprendizagem de qualidade para todos. É hora de celebrar nossos avanços, mas também de corrigir rotas.

    Precisamos sair do paradigma que valoriza apenas o diploma e passar a valorizar competências reais. Isso significa investir na primeira infância, formar e valorizar nossos professores com microcredenciais e usar o tempo em sala de aula de forma inteligente, com feedback constante e ensino personalizado.

    O caminho está claro: alfabetizar todas as crianças cedo, fortalecer o ensino técnico vinculado ao trabalho e requalificar massivamente nossa população adulta. Só assim transformaremos o potencial latino-americano em prosperidade real e compartilhada. A hora de agir é agora e cabe uma discussão do papel do Sistema de Ensino Superior como contribuidor para o desenvolvimento do ensino de base.

by Angelo Davis