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sexta-feira, 29 de maio de 2026

O modelo do ensino superior atual acabou

      

    O modelo de ensino superior privado do país passa por muitas modificações, e este novo cenário nos faz perceber que a atual forma como o Ministério da Educação avalia os cursos está defasada, pois o modelo vigente não prioriza a aprendizagem, mas sim a estrutura do curso — o que pode ser notado pelo instrumento de avaliação atual, bem como pelas notas discrepantes entre a avaliação dos cursos e a avaliação da aprendizagem dos alunos (Enade ou Enamed).

    É inegável que existe um problema e que a avaliação realizada deixa escapar a aprendizagem do aluno ao contemplar outros objetivos que deveriam ser o cerne do processo avaliativo. Por que enfrentamos esse problema no presente?

    A rede privada é um conjunto complexo de instituições, no qual se torna muito difícil representá-la por uma média ou imagem, pois temos grandes grupos com ações na bolsa, grupos internacionais, grandes universidades com presença nas capitais, fundações, igrejas, grandes instituições do interior e pequenas instituições.

    Assim, entender o instrumento de avaliação e aplicá-lo não é difícil quando se possui recurso, pois o questionário atual é pequeno, e a maioria dos pedidos pode ser atendida para um ou mais cursos — ou seja, seu custo pode ser dividido internamente.

    Neste momento, devemos refletir sobre o motivo de termos cursos com nota máxima na avaliação do MEC, mas com notas insuficientes na avaliação da aprendizagem de seus alunos. Para quem leciona, a resposta é fácil: a nota passa pelo docente.

    O docente é o fator mais importante do ensino superior, pois ele transmite seu esforço e paixão ao processo de ensino e aprendizagem do aluno. O professor decide sobre o respeito ao Projeto Pedagógico, sobre a atualização do seu Plano de Ensino, acerca da metodologia atualizada para cada tópico ementário de sua disciplina e por utilizar ou não o livro base, a biblioteca ou o laboratório.

    Ao observarmos o docente universitário, entenderemos o motivo do ensino superior privado estar em crise, pois a virtualização pode ser entendida como uma tentativa de retirar sua necessidade ou mesmo de substituí-lo por profissionais menos qualificados ou por um simples PDF. Sua forma de contratação como horista é boa para a instituição, mas terrível para quem planeja ter uma família, pois não garante sequer o salário mínimo — há docentes que não recebem por mês o valor do salário mínimo, sem falar que a convenção coletiva parte do pressuposto de que os docentes não precisam se alimentar, já que não contempla vale-alimentação ou refeição, ao menos em São Paulo.

    Tenho visto muita discussão sobre o novo instrumento de avaliação do MEC, sobre qualidade do ensino, sobre instituições que passam por dificuldades financeiras, sobre falta de docentes, queda nas matrículas, mas vejo pouca gente discutindo como tratar o docente com respeito e dignidade.




Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

     

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O curso é Nota 5 no MEC e o aluno é nota 1 no Enade/Enamed

 


O sistema de avaliação do ensino superior no Brasil, coordenado pelo Ministério da Educação (MEC) por meio do Inep, consolidou nas últimas décadas um aparato técnico-institucional composto por indicadores como Enade, CPC, IGC, IDD e, mais recentemente, o Enamed. Esses instrumentos orientam decisões regulatórias, subsidiam políticas públicas e alimentam o discurso da transparência e da qualidade educacional. No entanto, a profusão de métricas não tem sido acompanhada de clareza conceitual sobre o que exatamente se pretende avaliar — e com qual finalidade. Avaliar indivíduos não é o mesmo que avaliar instituições, e a confusão entre essas dimensões tem produzido distorções graves no sistema.

As instituições de ensino superior são avaliadas presencialmente por comissões do MEC em visitas de curta duração, que analisam documentos, instalações físicas, titulação docente e regimes de trabalho. Esses processos, embora relevantes para a regulação, são estruturalmente limitados para captar a complexidade dos processos pedagógicos e seus efeitos cumulativos sobre a aprendizagem. O resultado é paradoxal: cursos com desempenho pífio no Enamed, obtendo conceitos 1 ou 2 no exame, alcançam média 4,68 no Conceito de Curso (CC) — praticamente o teto da escala. A contradição é empiricamente incontornável: o sistema certifica excelência institucional onde o aprendizado não se materializa, gerando uma ilusão de qualidade que beneficia mais as instituições do que os estudantes ou a sociedade.

Paralelamente, os alunos são avaliados por exames padronizados como o Enade e o Enamed, que utilizam a Teoria de Resposta ao Item (TRI) para medir desempenho individual. No entanto, o MEC utiliza esses resultados como proxy da qualidade institucional, reduzindo a avaliação de cursos e universidades à média das notas de seus estudantes. Um aluno bem preparado formado em uma instituição mal avaliada deve ser impedido de exercer a profissão? E o inverso: um médico malformado, egresso de uma instituição com nota máxima, deve ser automaticamente autorizado a clinicar? Confundir avaliação coletiva com certificação individual pode ser administrativamente conveniente, mas não responde à principal demanda social: assegurar a competência profissional de quem exerce a Medicina e outras profissões.

Para romper com essa esquizofrenia avaliativa, é preciso avançar em duas frentes complementares. Primeiro, as avaliações institucionais precisam superar o foco em insumos e documentos, incorporando de fato a análise dos processos pedagógicos e seus resultados. Segundo, é indispensável instituir exames nacionais de proficiência individual, com etapas práticas, que acompanhem o diploma e sejam publicamente acessíveis — como já ocorre em outros países e, no Brasil, com o exame da OAB e CRC. Enquanto o país não for capaz de avaliar com profundidade e coerência, continuaremos a proteger um sistema que explora comercialmente selos de qualidade ilusórios, enquanto o paciente, o cliente ou o cidadão permanece desprotegido diante de profissionais cuja competência nunca foi devidamente aferida.

Referência

LOBO, R.; RIVERA, C.; LOBO, M. B.. ENAMED: Nota 1 no exame, mas 5 na visita de comissões do MEC: quem estamos avaliando — e a quem estamos protegendo? Globo, Rio de Janeiro, 12 fev. 2026 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Avaliação In Loco: O MEC e a busca por uma régua mais justa para a qualidade do Ensino Superior

 

    A política de avaliação do ensino superior brasileiro, alicerçada pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), está prestes a passar por uma de suas mais significativas reformulações. Sob a liderança da Diretoria de Avaliação da Educação Superior, o Ministério da Educação (MEC) propõe a customização dos instrumentos de avaliação in loco, abandonando a abordagem genérica em favor de critérios específicos por Área Geral da Classificação Internacional Normalizada da Educação (Cine Brasil). Esta mudança paradigmática, longe de ser um mero ajuste burocrático, representa um esforço estratégico para capturar a complexidade e a diversidade do ecossistema educacional contemporâneo, notadamente diante da expansão vertiginosa da Educação a Distância (EaD) e dos Cursos Superiores de Tecnologia (CST).

    Os motivos para tal refinamento são multifacetados. A premissa central é que a qualidade de um curso de Engenharia de Produção não pode ser aferida pelos mesmos parâmetros que avaliam um curso de Direito ou de Artes Cênicas. A aplicação de um instrumento único, de caráter generalista, mostrou-se progressivamente anacrônica e insuficiente para diagnosticar virtudes e deficiências intrínsecas a cada área do conhecimento. A nova política reconhece que competências laborais, infraestrutura necessária, metodologias de ensino e perfis de egressos variam substancialmente entre as grandes áreas. Ao criar indicadores setoriais, o MEC busca aumentar a validade e a confiabilidade do processo avaliativo, transformando-o em uma ferramenta de gestão mais precisa para as Instituições de Ensino Superior (IES) e em um guia mais confiável para a sociedade.


     O impacto mais imediato e profundo recairá sobre os cursos e as instituições. Para as IES, a mudança exige um processo de adaptação interna. Comitês de autoavaliação serão desafiados a compreender e aplicar critérios específicos de sua área, exigindo um aprofundamento conceitual que vai além do cumprimento de uma lista de verificação genérica. Cursos que antes podiam se "esconder" atrás de indicadores quantitativos amplos, como os do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), estarão agora sujeitos a um escrutínio qualitativo mais especializado e, portanto, potencialmente mais rigoroso. Por outro lado, cursos inovadores ou com projetos pedagógicos bem estruturados, mas que não se encaixavam bem no modelo anterior, terão a oportunidade de demonstrar sua excelência por meio de métricas que realmente reflitam sua proposta.

    A ênfase em características específicas da EaD e dos CST é outro ponto de destaque. A avaliação deverá considerar elementos cruciais para a modalidade, como a qualidade dos ambientes virtuais de aprendizagem, a formação de tutores, a mediação pedagógica em plataformas digitais e a eficácia dos sistemas de tutoria. Isso sinaliza uma maturidade do sistema em não apenas legitimar a EaD, mas em exigir dela um padrão de qualidade tão alto e tão bem definido quanto o do ensino presencial.


                                                             Fonte: ABMES

    A promessa de divulgação de microdados da avaliação in loco amplifica ainda mais os impactos. Ao disponibilizar um nível de detalhe inédito, o MEC fomenta a transparência e abre um vasto campo para pesquisas acadêmicas sobre a qualidade do ensino superior. A sociedade civil, os estudantes e o mercado de trabalho poderão ter insights mais granulares sobre as instituições, promovendo uma concorrência baseada em qualidade e não apenas em marketing.

    Contudo, ao se debruçar sobre essa necessária customização, é inevitável questionar: esta nova "régua" setorizada, embora mais justa, não arrisca fragmentar excessivamente a noção de qualidade, criando silos de excelência que não conversam entre si? A busca pela precisão técnica, em última análise, conseguirá preservar o princípio fundamental de que uma educação superior de qualidade, em qualquer área, deve formar não apenas técnicos competentes, mas cidadãos éticos e críticos, capazes de transcender as fronteiras de sua própria disciplina? O sucesso desta ambiciosa reforma será medido não apenas pela sofisticação de seus indicadores, mas por sua capacidade de responder afirmativamente a este último e crucial questionamento.

Por Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues