O cenário atual dos cursos de Medicina no Brasil é marcado por uma expansão desordenada e uma crescente judicialização. Enquanto o Ministério da Educação (MEC) tenta frear a abertura indiscriminada de novas vagas, as faculdades recorrem a liminares para burlar as regras. Segundo dados recentes, já foram autorizadas judicialmente mais de 4,3 mil vagas, número que se aproxima do total oferecido pelo programa Mais Médicos em uma década. Esse fenomeno cria um mercado paralelo de graduações, muitas sem credenciamento adequado, enquanto o MEC suspende editais para reavaliar a disponibilidade de leitos no SUS — sobrecarregados pelos próprios alunos desses cursos.
Com o boom de vagas — que saltou de 38,8 mil para quase 51 mil em cinco anos, 80% delas em instituições privadas —, surgem preocupações sobre a qualidade da formação e a saturação do mercado. A mensalidade média de R$ 13 mil já enfrenta problemas de inadimplência, um cenário impensável há alguns anos. Em resposta, o Congresso Nacional debate a criação do “Profimed”, uma espécie de “OAB dos médicos”, que pretende barrar na porta da profissão aqueles que não atingirem um padrão mínimo de conhecimento. A proposta, que inclui também o “Enamed” para avaliar as instituições de ensino, busca impor um controle de qualidade em um setor onde a quantidade tem superado a excelência.
No entanto, formar um médico vai além da graduação. A etapa crucial da residência — que transforma o generalista em especialista — está estagnada: enquanto as vagas de graduação cresceram 25% entre 2018 e 2024, as de residência avançaram apenas 9,3%. O motivo é claro: a residência é cara. Enquanto um aluno de graduação gera receita, o residente custa — são necessárias bolsas de ao menos R$ 4 mil, infraestrutura hospitalar complexa e a proibição de cobrança de mensalidades. Faculdades abertas por liminares nem sequer são obrigadas a ofertar vagas de residência, o que empurra milhares de recém-formados para cursos de especialização “lato sensu”, mais baratos e com carga horária reduzida, mas que não conferem o título de especialista reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina.
Fonte: Jornalismo Bandeirantes
O futuro da Medicina no Brasil, portanto, está em uma encruzilhada. De um lado, a massificação do ensino superior na área, impulsionada por interesses econômicos e brechas legais, pode levar a um exército de profissionais mal formados, sem especialização reconhecida e disputando um mercado já saturado nas grandes cidades. De outro, a regulação tenta reagir — com novas provas nacionais, pressão por mais vagas de residência e tentativas de frear a judicialização. O risco é que, na corrida pelo diploma, a sociedade fique com médicos em quantidade, mas sem a qualidade e a expertise necessárias para salvar vidas.
Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues
Referências
BERGAMO, Mônica. ‘OAB dos médicos’ pode ter duas provas a partir de 2026. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 nov. 2025.
ALFANO, Bruno. Edital do MEC que facilita a oferta de cursos de Medicina gera reação e disputa interna na rede privada. O Globo, Rio de Janeiro, 24 out. 2025.
KOIKE, Beth. Curso de medicina tem nova onda de liminares. Valor Econômico, São Paulo, 25 nov. 2025.
BRANNUCCI, Felipe; SCHROEDER, Barbara. Estagnação da residência médica impulsiona especializações sem avaliação do MEC. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 dez. 2025.


