Mostrando postagens com marcador Renato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Renato. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ensino Superior: 2027

  
  Como decidir sobre cursos, investimentos e parcerias em um período de incerteza política e regulatória? Na passagem de 2026 para 2027, as instituições precisam acompanhar as regras e se preparar, em vez de apenas esperar por definições. 
    O ensino superior contribui para a formação das pessoas e para o desenvolvimento regional. Com as margens pressionadas, manter as atividades e crescer exige uma visão tridimensional: qualidade acadêmica, equilíbrio financeiro e cumprimento das regras. Cada decisão precisa fazer sentido nessas três dimensões. 
    Cumprir as regras e usar bem os recursos devem fazer parte da mesma estratégia. É isso que chamo de hedge regulatório: uma forma de reduzir a exposição a problemas regulatórios, não um instrumento financeiro. As exigências do Ministério da Educação (MEC) e os efeitos das novas regras precisam orientar o planejamento e o diálogo com possíveis parceiros, inclusive em fusões e aquisições. Estar em conformidade, porém, não garante essas parcerias. 
    Os incentivos a seguir são propostas para debate, não benefícios já em vigor. Sua adoção dependeria de avaliação jurídica, fiscal e educacional, com regras claras e preservação da qualidade acadêmica. 
    A aproximação entre instituições de ensino, empresas e órgãos reguladores exige responsabilidades claras: 
    1. Papel do MEC: Defendo que o Ministério lidere, em diálogo com os demais órgãos competentes, a construção de regras que aproximem as empresas da formação acadêmica. Além de fiscalizar, a regulação pode estimular parcerias e reconhecer resultados das instituições e das empresas participantes.
     2. Incentivos para as empresas: Proponho avaliar benefícios financeiros, fiscais e regulatórios para empresas que compartilhem desafios e participem da formação desde os primeiros semestres. Entre as possibilidades estão deduções tributárias ligadas à pesquisa e ao desenvolvimento, prioridade em linhas de financiamento e compensações pela participação na formação dos futuros profissionais. 
    3. Benefícios para as instituições: Proponho avaliar benefícios regulatórios para IES que demonstrem contribuição para a região e bons resultados profissionais de seus formados. Entre as possibilidades estão prioridade na distribuição de vagas de programas federais e facilitação de recredenciamentos, sempre preservando as exigências de qualidade. A contribuição para a economia e a produtividade regional pode complementar, mas não substituir, a avaliação da formação. 
 
    As famílias precisam entender o que a formação oferece em aprendizagem e perspectivas profissionais. As empresas, por sua vez, precisam de conhecimento aplicado aos desafios do dia a dia. Aproximar essas necessidades justifica construir parcerias desde os primeiros semestres, sem transformar a educação em promessa de emprego garantido. Como gestor, entendo que essas decisões precisam reunir qualidade acadêmica, equilíbrio financeiro e cumprimento das regras. É com essa visão integrada que conseguimos colaborar com instituições e organizações na preparação para 2027. Antecipar mudanças regulatórias só faz sentido quando esse trabalho preserva a formação e busca benefícios concretos para a sociedade.
     Qual decisão sua instituição precisa tomar agora para unir qualidade acadêmica, equilíbrio financeiro e desenvolvimento regional na preparação para 2027? 
 
 

Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Gestor, Pesquisador de Governança e Liderança no Ensino Superior

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Da Regulação Cartorial ao Estado Indutor: o MEC na Aliança entre Ensino e Território Produtivo

  

  Durante anos, a gestão acadêmica brasileira celebrou matrículas e diplomas sem acompanhar, com o mesmo rigor, o destino profissional dos egressos. Essa lacuna tornou-se crítica: a automação e a inteligência artificial já reduzem funções operacionais que historicamente serviam de porta de entrada aos  recém-graduados.
    No 28º FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate conduzido pela Dra. Priscila Bonini Ribeiro (Unaerp), com contribuições de Edigar (Otimize), evidenciou esse risco. Ignorá-lo significa ampliar uma geração de jovens diplomados, porém subutilizados. A questão exige ação coordenada entre ensino superior, setor produtivo e Estado.


    A geografia do desvio ocupacional   

       O subemprego qualificado assume formas distintas conforme a estrutura econômica de cada região:

 

Região

Cenário predominante

Impacto sobre os egressos

Sudeste

A automação reduz vagas técnicas de entrada.

Egressos migram para funções administrativas inferiores ou para a informalidade.

Nordeste

Há menor dinamismo de setores intensivos em conhecimento.

O retorno da graduação diminui e cresce a migração de talentos.

Sul

Polos industriais e cooperativos exigem competências digitais e operacionais atualizadas.

Currículos defasados dificultam a inserção profissional qualificada.

Centro-Oeste

O agronegócio e a logística incorporam novas tecnologias em ritmo acelerado.

A oferta local de competências nem sempre acompanha a expansão, levando à contratação de profissionais de outras regiões.

Norte

Biotecnologia, bioeconomia e logística apresentam potencial de crescimento.

A formação local ainda é insuficiente em áreas estratégicas, o que limita o aproveitamento dos talentos da própria região.

 

Uma vulnerabilidade transversal

    Nenhuma área está imune à precarização. O problema aparece de formas diferentes, mas tem uma raiz comum: formação pouco conectada às práticas profissionais emergentes. 

 

Área de formação

Desafio predominante

Impacto profissional

Saúde

Vivência clínica insuficiente durante a formação.

Egressos ficam mais expostos a vínculos precários e atuação profissional limitada.

Engenharias, Arquitetura e Exatas

Distância entre teoria, ferramentas atuais e prática produtiva.

Profissionais são contratados para funções abaixo de sua qualificação formal.

Tecnologia da Informação

Automação crescente das atividades básicas de codificação.

O valor profissional desloca-se para arquitetura de sistemas, segurança e modelagem estratégica.

Humanas e Educação

Baixa remuneração e excesso de rotinas burocráticas.

Profissionais se afastam da mediação pedagógica e da transformação social.

Ciências Sociais Aplicadas

Automação de triagens, controles e processos padronizados em Direito, Administração e Contabilidade.

Cresce a necessidade de competências analíticas, estratégicas e decisórias.

 

O tempo do estudante e a formação que importa

    O estudante trabalhador não pode esperar quatro anos para perceber retorno concreto da graduação. Se os primeiros semestres não ampliarem sua capacidade de gerar valor, renda e mobilidade profissional, a evasão deixa de ser surpresa e passa a ser consequência previsível.
    A advertência de Peter Drucker permanece atual: em períodos de ruptura, o maior risco é insistir nas premissas de ontem. Isso não significa formar o aluno como mero operador de tecnologia. Como lembra Edgar Morin, informação não equivale a julgamento; sistemas computacionais organizam probabilidades,
mas não substituem deliberação crítica e responsabilidade ética. A resposta está no que Joseph Aoun denomina Humanics: integração entre domínio tecnológico, fluência em dados e alfabetização humana, apoiada em ética, criatividade e pensamento autônomo. O diferencial do egresso deve ser sua capacidade de interpretar, decidir e agir com responsabilidade.


O MEC como agente indutor


    Se o subemprego é uma questão de Estado, o MEC não pode limitar-se à fiscalização de indicadores e formulários. A regulação deve aproximar campus e economia local, premiando instituições e empresas que produzam inserção profissional qualificada.
    Essa política pode operar em duas frentes complementares:
1. Incentivos ao setor produtivo: micro, pequenas e médias empresas que funcionem como laboratórios de aprendizagem, apresentem desafios reais e acolham estagiários desde os primeiros semestres poderiam receber abatimentos fiscais, prioridade em licitações ou crédito subsidiado. Ao compartilhar a formação do jovem, a empresa atua como co-tutora e merece contrapartida econômica.
2. Bonificação às IES transformadoras: instituições com resultados comprovados de inserção qualificada, evolução salarial e impacto territorial deveriam obter reconhecimento regulatório. IGC, CPC e recredenciamento poderiam incorporar indicadores de aderência ocupacional, enquanto IES de alto desempenho receberiam prioridade em programas federais e simplificação de processos.


Empresa e IES no mesmo ecossistema

    Com respaldo regulatório e financeiro, a cooperação com o setor produtivo deve começar no ingresso do estudante e organizar-se em três movimentos:
1. Extensão como residência de produtividade territorial: usar os 10% regulatórios para conectar estudantes e docentes a problemas concretos de empresas, cooperativas e organizações locais, com diagnósticos e soluções aplicadas.
2. Capacitação instrumental com IA: introduzir, desde o ciclo inicial, ferramentas de automação, análise de dados e melhoria de processos úteis às organizações parceiras.
3. Certificações modulares: reconhecer competências a cada semestre para antecipar a empregabilidade e permitir que o estudante demonstre valor antes da conclusão do curso. Quando empresas observam estudantes resolvendo problemas reais, a distância entre academia e mercado diminui. O graduando deixa de ser visto como custo e passa a ser reconhecido como agente de produtividade e inovação.
 

    A missão dos gestores educacionais e das autoridades públicas é restituir valor concreto à jornada universitária. Educar com compromisso territorial significa fazer do diploma não apenas um símbolo, mas uma via real de emancipação, renda digna e desenvolvimento econômico. 

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Gestor, Pesquisador de Governança e Liderança no Ensino Superior

 


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Diploma, Trabalho e Futuro: O Subemprego como Desafio de Nação

 


    No 28º FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate não ficou restrito às possibilidades da tecnologia. Ele nos levou a uma questão anterior e mais incômoda: que futuro profissional estamos ajudando a construir para quem confia à educação superior anos de esforço, renda familiar e expectativa de mobilidade social?

    Ao lado da Dra. Priscila Bonini Ribeiro, Pró-Reitora da Unaerp Guarujá, que mediou a conversa com sensibilidade institucional, e de Edigar, da Otimize, construímos um diálogo que ultrapassou a agenda tecnológica. O ponto de convergência foi claro: inovação só tem valor educacional quando amplia a capacidade humana, melhora a inserção profissional e preserva a dignidade de quem se forma.

    O Edigar colocou na tela dados duros e sensíveis sobre a aceleração das dispensas corporativas provocadas pela Inteligência Artificial e, acima de tudo, acendeu o alerta vermelho sobre o avanço silencioso do subemprego entre os jovens com diploma no Brasil.

    O que está em jogo não é apenas a substituição de tarefas por sistemas inteligentes. É a possibilidade de ampliarmos um contingente de diplomados que estudou para avançar, mas encontra ocupações aquém de sua formação, de sua capacidade e do investimento realizado. Se esse descompasso já preocupa economias desenvolvidas, no Brasil ele se torna ainda mais grave: convivemos com baixa produtividade, desigualdade persistente e trajetórias profissionais mais frágeis. Por isso, o enfrentamento do subemprego qualificado não pode depender do calendário eleitoral. Precisa ser tratado como projeto de Nação.

    Esse contraste nos obriga a uma reflexão muito mais profunda do que simplesmente discutir ferramentas tecnológicas: qual é o valor real da formação que estamos entregando?

O Gigante do Subemprego: Uma Questão de Gestão e de Política Pública

    O principal risco para o Ensino Superior já não se limita à evasão. Ele aparece também depois da formatura, quando o egresso conquista um diploma, mas não encontra uma ocupação compatível com os conhecimentos, as responsabilidades e a remuneração que sua formação deveria possibilitar.

    Estudos recentes do setor e indicadores consolidados pelo Semesp apontam que uma parcela expressiva dos diplomados brasileiros ocupa postos que não exigem formação superior. Esse fenômeno reúne trajetórias distintas de funções auxiliares e vínculos precários ao trabalho mediado por aplicativos, mas produz o mesmo sinal de alerta: o país investe na formação e não consegue converter plenamente esse conhecimento em trabalho qualificado e produtividade.

    Quando quatro anos de estudo terminam em uma ocupação que não reconhece a formação adquirida, não fracassa apenas uma expectativa individual. Perdem a família que investiu, a instituição que formou e o país que deixou de transformar conhecimento em desenvolvimento.

    Edigar demonstrou que a inteligência artificial não automatiza apenas processos: ela também reduz postos operacionais que historicamente funcionaram como porta de entrada para recém-formados. A resposta, portanto, não cabe em uma disciplina isolada nem em uma iniciativa passageira. Exige governança nas IES, compromisso do setor produtivo e uma política de Estado capaz de articular educação, inovação, produtividade e geração de trabalho qualificado.

    Nas economias desenvolvidas, o avanço do subemprego entre jovens qualificados já pressiona o debate sobre produtividade, mobilidade social e retorno da educação. Em um país emergente, o efeito pode ser mais profundo. O Brasil não dispõe da mesma rede de proteção, apresenta desigualdades educacionais e regionais mais intensas e ainda precisa elevar sua produtividade. Importar a tecnologia sem construir uma estratégia própria de formação e trabalho significaria modernizar processos enquanto se ampliam frustrações sociais.

A Integridade do Ser Pensante: O Aluno Não Pode Ser Refém do Algoritmo

    Diante desse cenário, algumas instituições podem confundir atualização curricular com treinamento instrumental. Ensinar o estudante a operar ferramentas generativas é necessário, mas insuficiente quando não vem acompanhado da capacidade de formular boas perguntas, verificar respostas, interpretar contextos e assumir responsabilidade pelas decisões.

    Esse é um equívoco perigoso. O sociólogo e educador Edgar Morin, ao formular os pilares da educação do futuro, já nos alertava:

"O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo exterior; todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão."

    A Inteligência Artificial é prodigiosa em processar volumes monumentais de informação e produzir respostas sintéticas em fração de segundos. No entanto, ela fabrica correlações estatísticas, não sabedoria; gera probabilidades, não julgamento ético.

    Se ensinarmos o estudante apenas a aceitar passivamente o que o algoritmo entrega, estaremos formando um profissional dispensável alguém que pode ser substituído por uma atualização de software.

A verdadeira fronteira da empregabilidade está em formar um ser pensante, racional, íntegro e criativo:

1.     Auditoria e Ceticismo Metódico: O aluno precisa saber interrogar os dados gerados pela IA identificar viés algorítmico, alucinações conceituais e inconsistências lógicas.

2.     Capacidade Crítica de Decisão: A máquina calcula cenários; quem escolhe o caminho sob incerteza e assume a responsabilidade humana pelo impacto da escolha é o profissional.

3.     Criatividade e Sensibilidade Contextual: A máquina não compreende a dor de um pequeno comerciante do bairro, a angústia de uma família em litígio judicial ou a complexidade das relações comunitárias. A criatividade humana nasce da empatia e da leitura profunda do contexto.

    Como destacou Joseph Aoun (presidente da Northeastern University) em sua obra seminal Robot-Proof: "Para prosperar na era da automação, a educação superior precisa desenvolver o humano para integração entre a alfabetização tecnológica, a alfabetização de dados e a alfabetização humana (criatividade, empatia, pensamento crítico e ética)."

Do Conservadorismo Isolacionista à Integração Produtiva

    Durante décadas, parte do meio universitário tratou a aproximação com o mercado como ameaça à autonomia acadêmica. Preservar a reflexão crítica continua indispensável; o erro está em confundir independência intelectual com distanciamento dos problemas concretos da sociedade e do trabalho.

    O resultado desse afastamento foi uma relação de baixa confiança: empresas passaram a questionar a utilidade prática do diploma, enquanto universidades viam o setor produtivo com reserva. Reconstruir essa confiança é condição para aproximar currículo, inovação e oportunidades profissionais sem subordinar a educação às demandas imediatas do mercado.

    A superação desse distanciamento requer uma arquitetura de cooperação entre IES, setor produtivo e regulação do MEC. Cada parte tem uma responsabilidade própria: a instituição forma e produz conhecimento; as organizações apresentam problemas reais e oportunidades de aplicação; o poder público cria diretrizes, incentivos e mecanismos de acompanhamento que protejam o interesse coletivo.

  • A Regulação do MEC (com as DCNs e os 10% de curricularização da extensão) não deve ser encarada como fardo cartorial para acumular papéis, mas como a autorização legal para transformar a cidade em laboratório vivo.
  • O Setor Produtivo (o comércio local, as indústrias da comarca, os prestadores de serviço) tem carência crônica de inteligência aplicada, mas não possui recursos para contratar consultorias de grande porte.

·             A IES organiza essa cooperação: prepara os estudantes com recursos tecnológicos e rigor analítico, conecta-os a desafios reais da região e acompanha projetos capazes de diagnosticar custos, redesenhar fluxos de trabalho e implantar soluções digitais nos negócios locais.

    Quando o empresário vê um aluno do 1º ou 2º ano entrando em sua empresa, não para fazer discurso teórico, mas para organizar suas contas e aumentar sua produtividade com olhar crítico e respeito à realidade do negócio, ocorre uma transformação imediata: o estudante passa a ser apreciado, respeitado e cobiçado pelo mercado.

A empresa acredita no potencial desse jovem porque viu a sua competência gerar valor antes mesmo da formatura.

O Retorno do Investimento: O Diploma Não Pode Ser Apenas um Papel na Parede

    Para a imensa maioria dos nossos estudantes em especial o aluno trabalhador do período noturno, a faculdade não é um passatempo. É um projeto de sobrevivência e emancipação familiar.

    Cada mensalidade paga representa escolhas difíceis: é o almoço que foi economizado, a jornada dupla no transporte público, o tempo subtraído do convívio com os filhos.

    Por trás de cada matrícula existe um pacto sagrado: a família investe o que tem na esperança legítima de que aquele diploma trará o retorno esperado em dignidade, remuneração justa e sustentabilidade econômica.

    Nós, gestores de Instituições de Ensino Superior, não podemos considerar concluída nossa responsabilidade no momento da colação de grau. A formação só cumpre plenamente sua finalidade quando o conhecimento adquirido amplia a autonomia do egresso, sua capacidade de gerar valor e suas condições de construir uma trajetória profissional digna.

A nossa métrica soberana de sucesso precisa ser clara:

  • Quantos dos nossos egressos escaparam das armadilhas do subemprego?
  • Quantos deles conquistaram posições estratégicas onde suas mentes são valorizadas e bem remuneradas?
  • Quantos deles aprenderam a usar a inteligência artificial sem nunca abrir mão da própria voz, da ética e da capacidade de pensar por si mesmos?

    Essas perguntas precisam deixar de ser retóricas. Devem orientar indicadores de acompanhamento de egressos, revisão curricular, parcerias com empregadores e decisões dos Conselhos Superiores. Aquilo que a instituição não acompanha tende a permanecer invisível; e o subemprego não pode continuar sendo o resultado que o sistema prefere não medir.

A Lição de Casa para as Lideranças Universitárias

    Para transformar essa reflexão em práticas concretas nas nossas instituições a partir desta semana:

1.     Revisitar os NDEs com Foco no Pensamento Crítico: Auditar os planos de ensino e eliminar avaliações focadas em respostas padronizadas que a IA resolve em três segundos. Exigir defesa oral, resolução de problemas reais sob pressão e auditoria crítica de relatórios gerados por algoritmos.

2.     Transformar a Extensão em Vitrine de Empregabilidade: Alinhar os projetos de extensão com as associações comerciais e arranjos produtivos locais. O aluno deve atuar como consultor de inovação e produtividade desde o primeiro ano de curso.

3.         Pacto nacional pela dignidade do diploma: acompanhar a trajetória dos recém-formados e tratar a empregabilidade compatível com a área de formação como indicador central de qualidade. Esse compromisso deve ultrapassar instituições e mandatos, reunindo ensino superior, setor produtivo e poder público em metas contínuas de qualificação, produtividade e inserção profissional.

    O recado que levamos do FNESP é inequívoco: a inteligência artificial continuará avançando e as rotinas previsíveis perderão espaço. O diferencial não estará em disputar velocidade com a máquina, mas em formar pessoas capazes de interpretar consequências, decidir com integridade e converter conhecimento em valor para a sociedade.

    Essa missão não pertence apenas às instituições de ensino, às empresas ou a um governo. Ela exige um projeto de Nação: formar profissionais que conduzam a tecnologia com discernimento, transformar diplomas em trabalho qualificado e fazer da produtividade um caminho para a dignidade. Um país que educa sem criar espaço para o talento que formou não desperdiça apenas investimento; desperdiça futuro.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Da Ilha do Conformismo ao Valor Compartilhado: Por que a sua IES Precisa de Michael Porter

 

    Há um ditado popular muito repetido no interior que resume uma armadilha perigosa para qualquer gestor: "Quem nasceu para tostão não chega a milhão". No ecossistema de gestão educacional, essa máxima expõe a cultura da acomodação, a falsa segurança do "sempre foi feito assim" e a crença limitante de que o teto de uma faculdade já está pré-determinado por seu histórico ou porte regional.

    Instituições e lideranças que permaneceram presas a essa mentalidade descobriram que a tradição, sozinha, não assegura relevância nem sustentabilidade. A experiência de um gestor não se mede apenas pelos anos acumulados no calendário, mas pela capacidade de interpretar mudanças, testar respostas e transformar evidências em decisões.

    Uma IES não é um feudo isolado da sociedade; ela é parte viva e pulsante do arranjo socioeconômico em que está inserida. Nenhuma IES prospera no longo prazo se a cidade ao seu redor estiver empobrecida, se o comércio local estiver sufocado e se as empresas da região não encontrarem profissionais capacitados para gerar produtividade. Da mesma forma, o município estagna se a instituição de ensino insistir em operar como uma "ilha isolada", emitindo diplomas puramente teóricos e sem utilidade prática imediata para o mercado.

    A tese deste artigo é direta: uma IES regional amplia sua sustentabilidade quando deixa de tratar a comunidade apenas como destinatária de ações sociais e passa a integrá-la à própria estratégia acadêmica e econômica. Nesse modelo, empregabilidade, desenvolvimento territorial, retenção estudantil e saúde financeira deixam de ser objetivos separados e passam a formar um mesmo sistema de geração de valor.

 

As 5 Forças de Porter Traduzidas para Quem Não É Administrador

 

    Muitos reitores, pró-reitores e coordenadores vêm de áreas como Direito, Saúde, Educação ou Engenharias e podem perceber a literatura de administração como um vocabulário distante. No entanto, Michael Porter, professor da Harvard Business School e uma das principais referências mundiais em estratégia, formulou o modelo das Cinco Forças Competitivas. Aplicado ao ensino superior, ele ajuda a compreender cinco pressões que afetam o caixa e a sustentabilidade de uma faculdade:

  • 1. A guerra predatória de mensalidades (Rivalidade no setor): A proliferação desordenada de polos e a concorrência baseada em guerra de preços, transformando o valor do curso superior em disputa de centavos.
  • 2. O risco de se tornar dispensável (Produtos substitutos): Cursos livres, microcertificações e bootcamps do mercado de tecnologia que prometem colocar o jovem no mercado de trabalho em poucos meses sem exigir os quatro anos de uma graduação tradicional.
  • 3. A urgência do aluno trabalhador (Poder de barganha do cliente): O estudante de hoje não tem orçamento sobrando nem tempo a perder com teorias descoladas da vida real. Se a faculdade não o ajudar a melhorar de renda no curto prazo, ele evade por sobrevivência econômica.
  • 4. A invasão dos conglomerados (Ameaça de novos entrantes): Grandes grupos educacionais de escala nacional e plataformas digitais agressivas disputando a atenção e a matrícula do aluno dentro do território da sua instituição regional.
  • 5. O custo inegociável da modernização (Pressão de fornecedores e regulação): A dependência contínua de plataformas, novos sistemas de gestão, ferramentas de inteligência artificial e os custos estruturais para atender com rigor às exigências do MEC.

    As Cinco Forças ajudam a diagnosticar onde a pressão competitiva se concentra; a Criação de Valor Compartilhado orienta como responder a essas pressões por meio de soluções que fortalecem simultaneamente a instituição e o território. O primeiro modelo revela as ameaças. O segundo transforma capacidades acadêmicas em diferenciação sustentável.

    Diante dessas cinco pressões simultâneas, uma IES que tenta se defender apenas reduzindo mensalidades ou cortando despesas essenciais compromete sua capacidade de diferenciação. A rota de saída exige abandonar a postura reativa, construir uma vantagem competitiva coerente e conectar essa estratégia ao princípio da Criação de Valor Compartilhado, formulado por Michael Porter e Mark Kramer.

 

A Distinção Cirúrgica: Filantropia Tradicional vs. Valor Compartilhado

 

    O grande equívoco da governança universitária tem sido tratar a relação com a comunidade como mera filantropia ou obrigação compensatória. Porter e Mark Kramer estabeleceram uma fronteira nítida entre fazer caridade e gerar valor econômico sustentável:

Dimensão

Responsabilidade Social / Filantropia

Criação de Valor Compartilhado (Porter)

Motivação Central

Cumprir tabela, caridade compensatória ou marketing de imagem.

Gerar valor econômico mútuo resolvendo dores estruturais do território.

Relação com o Caixa

Vista como custo descartável. Quando o orçamento aperta, é a primeira a ser cortada.

Investimento no core business. Alavanca direta de atração, retenção dos discentes

Na Extensão Universitária

Ação assistencial de sábado para juntar fotos e "bater a meta burocrática do MEC".

Estudantes utilizando ferramentas e IA instrumental para sanear a gestão de empresas locais.

Impacto no Aluno

Cansaço burocrático; a empresa local segue frágil e o aluno segue desempregado.

Empregabilidade precoce: o comércio cresce, contrata o estudante e a faculdade retém a matrícula.

 

As Três Vias de Porter Aplicadas à Gestão da IES

 

    A criação de valor compartilhado proposta por Porter se materializa por três vias operacionais:

  • 1. Fortalecimento do Ecossistema Local (O Cluster):

    Nenhuma organização sobrevive em um ambiente desértico. A IES precisa abandonar a postura de mera vendedora de horas-aula e assumir o papel de âncora do desenvolvimento regional. Seja na agropecuária, no comércio ou nos serviços, a IES deve tornar-se um polo de inteligência aplicada e automação, inclusive por meio da IA instrumental, isto é, do uso prático da inteligência artificial para analisar dados, automatizar rotinas e apoiar decisões que modernizem a cadeia produtiva local.

  • 2. Redefinição da Produtividade na Cadeia de Valor:

    O aluno trabalhador participa da cadeia econômica do município durante o dia e frequenta as aulas à noite. Ao capacitá-lo com ferramentas de IA instrumental desde o primeiro ano, a IES pode elevar sua produtividade e ampliar suas possibilidades de progressão profissional. Quando esse ganho é percebido pelo empregador e convertido em melhores oportunidades de renda, aumenta também a capacidade do estudante de permanecer no curso e manter seus compromissos financeiros.

  • 3. Reconcepção do Currículo (O Currículo Vivo):

    As maiores oportunidades de diferenciação não estão em defender matrizes engessadas do passado, mas em responder com agilidade às dores não atendidas da economia real. Matrizes flexíveis, com microcertificações progressivas voltadas para automação de rotinas, diagnóstico financeiro e consultoria prática, traduzem a formação acadêmica em renda palpável.

 

A Curricularização da Extensão com IA: Alavanca de Permanência, Receita e Sustentabilidade

 

    A exigência de destinar 10% da carga horária para a extensão universitária revela quem lidera com a lógica do passado e quem constrói valor institucional de longo prazo. O modelo burocrático gera pastas e relatórios para fiscalização do MEC, com ações assistenciais isoladas e sem impacto duradouro.

    O modelo de valor compartilhado pode transformar esses 10% em laboratórios de consultoria aplicada: estudantes de Administração, Contabilidade, Direito ou Tecnologia utilizam IA instrumental para elaborar diagnósticos de fluxo de caixa, precificação, minutas padronizadas ou estruturação de estoque para microempresários da região. Quando há acompanhamento, metas e avaliação de resultados, a iniciativa pode fortalecer as empresas atendidas, ampliar a experiência profissional dos estudantes, contribuir para a permanência discente e gerar evidências de impacto acadêmico e social.

    Para que essa proposta não permaneça apenas no campo do discurso, a IES precisa acompanhar indicadores de resultado. Entre eles estão o número de empresas atendidas, a melhoria de produtividade ou receita dos negócios parceiros, a inserção profissional dos estudantes, a redução da evasão, a regularidade financeira e a incorporação dos aprendizados ao currículo. Valor compartilhado exige impacto demonstrável para a comunidade e retorno estratégico mensurável para a instituição.

    Em síntese, a lógica de Porter permite afirmar que sustentabilidade não consiste apenas em destinar excedentes à filantropia. Ela nasce quando a organização mobiliza sua inteligência para enfrentar problemas reais da comunidade e, ao fortalecer esse ecossistema, amplia também sua receita, sua relevância e suas condições de futuro.

    A sustentabilidade universitária exige integrar o rigor financeiro da mantenedora à entrega prática da Pró-reitoria. Para sair do conformismo, a liderança da IES precisa transformar extensão, currículo e tecnologia em um sistema único de desenvolvimento regional, empregabilidade e retenção. A pergunta decisiva já não é se a instituição pode fazer isso, mas por quanto tempo ainda poderá adiar essa transformação.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro