Mostrando postagens com marcador qualidade acadêmica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador qualidade acadêmica. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de agosto de 2026

O mapa da excelência: por que o Brasil precisa (urgentemente) de uma política de qualidade baseada em dados globais

 


    A 16ª edição do QS World University Rankings by Subject avaliou mais de 21 mil programas acadêmicos em 1.900 instituições de 100 países, consolidando-se como um dos mais abrangentes termômetros da qualidade do ensino superior global. O relatório revela movimentos estratégicos: enquanto a América do Norte ainda lidera em número de cursos ranqueados, a Ásia Meridional (com 40% de disciplinas em alta) e a Oceania (37%) ganham terreno aceleradamente. Para o Brasil, esses dados não são apenas estatísticas – são um espelho das lacunas que precisam ser preenchidas com urgência.

    Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, ancorada em indicadores internacionais como os da QS, traria benefícios concretos: primeiro, permitiria que as universidades brasileiras identificassem com precisão suas forças e fraquezas em relação aos padrões globais, especialmente nas áreas de maior crescimento, como Ciência de Dados e Inteligência Artificial – que registram o maior número de novas entradas no ranking. Segundo, estimularia a competição saudável entre instituições, elevando o patamar médio da formação oferecida. Por fim, ampliaria a visibilidade internacional da ciência brasileira, atraindo parcerias e investimentos estrangeiros.

    O relatório mostra que áreas como Engenharia e Tecnologia (+1.150 movimentos ascendentes) e Ciências da Vida e Medicina (+1.210) são as que mais progrediram globalmente – justamente os campos em que o Brasil tem carência crítica de profissionais qualificados. Isso evidencia que a formação prática dos alunos, aliada à pesquisa aplicada, é o diferencial competitivo das melhores universidades. Instituições que conseguem integrar laboratórios, estágios e projetos reais ao currículo formam egressos mais preparados para o mercado, como demonstram os casos de sucesso do Tecnológico de Monterrey (México) e das universidades comunitárias brasileiras.

    A solução passa por uma agenda coordenada entre MEC, Capes e as próprias universidades: criação de um sistema nacional de monitoramento baseado nos critérios da QS (reputação acadêmica, citações por artigo, empregabilidade dos egressos); incentivo à internacionalização dos currículos e à formação de redes de pesquisa com instituições de países emergentes que estão subindo no ranking; e, principalmente, vinculação de recursos do Fies e do Prouni ao desempenho institucional em rankings globais e nacionais, como forma de induzir a melhoria contínua. O Brasil tem ciência de qualidade, mas precisa de uma política de estado que transforme excelência isolada em sistema nacional de alta performance – antes que a lacuna para as nações que sobem no ranking se torne um abismo intransponível.

 

Referência:

 
QS QUACQUARELLI SYMONDS. QS World University Rankings by Subject 2026: results. London, 25 mar. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O modelo do ensino superior atual acabou

      

    O modelo de ensino superior privado do país passa por muitas modificações, e este novo cenário nos faz perceber que a atual forma como o Ministério da Educação avalia os cursos está defasada, pois o modelo vigente não prioriza a aprendizagem, mas sim a estrutura do curso — o que pode ser notado pelo instrumento de avaliação atual, bem como pelas notas discrepantes entre a avaliação dos cursos e a avaliação da aprendizagem dos alunos (Enade ou Enamed).

    É inegável que existe um problema e que a avaliação realizada deixa escapar a aprendizagem do aluno ao contemplar outros objetivos que deveriam ser o cerne do processo avaliativo. Por que enfrentamos esse problema no presente?

    A rede privada é um conjunto complexo de instituições, no qual se torna muito difícil representá-la por uma média ou imagem, pois temos grandes grupos com ações na bolsa, grupos internacionais, grandes universidades com presença nas capitais, fundações, igrejas, grandes instituições do interior e pequenas instituições.

    Assim, entender o instrumento de avaliação e aplicá-lo não é difícil quando se possui recurso, pois o questionário atual é pequeno, e a maioria dos pedidos pode ser atendida para um ou mais cursos — ou seja, seu custo pode ser dividido internamente.

    Neste momento, devemos refletir sobre o motivo de termos cursos com nota máxima na avaliação do MEC, mas com notas insuficientes na avaliação da aprendizagem de seus alunos. Para quem leciona, a resposta é fácil: a nota passa pelo docente.

    O docente é o fator mais importante do ensino superior, pois ele transmite seu esforço e paixão ao processo de ensino e aprendizagem do aluno. O professor decide sobre o respeito ao Projeto Pedagógico, sobre a atualização do seu Plano de Ensino, acerca da metodologia atualizada para cada tópico ementário de sua disciplina e por utilizar ou não o livro base, a biblioteca ou o laboratório.

    Ao observarmos o docente universitário, entenderemos o motivo do ensino superior privado estar em crise, pois a virtualização pode ser entendida como uma tentativa de retirar sua necessidade ou mesmo de substituí-lo por profissionais menos qualificados ou por um simples PDF. Sua forma de contratação como horista é boa para a instituição, mas terrível para quem planeja ter uma família, pois não garante sequer o salário mínimo — há docentes que não recebem por mês o valor do salário mínimo, sem falar que a convenção coletiva parte do pressuposto de que os docentes não precisam se alimentar, já que não contempla vale-alimentação ou refeição, ao menos em São Paulo.

    Tenho visto muita discussão sobre o novo instrumento de avaliação do MEC, sobre qualidade do ensino, sobre instituições que passam por dificuldades financeiras, sobre falta de docentes, queda nas matrículas, mas vejo pouca gente discutindo como tratar o docente com respeito e dignidade.




Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

     

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Excelência acadêmica começa nos bastidores da gestão

 

    Quando se fala em excelência acadêmica, é comum que os olhares se voltem para salas de aula modernas, professores qualificados, metodologias inovadoras e bons resultados em avaliações externas. Embora todos esses fatores sejam fundamentais, existe uma dimensão muitas vezes invisível para alunos e sociedade: os bastidores da gestão educacional.

    A qualidade de uma instituição de Ensino Superior não acontece por acaso. Ela é construída diariamente por meio de planejamento estratégico, organização acadêmica, tomada de decisões, acompanhamento de indicadores, desenvolvimento docente e alinhamento entre setores. Antes de um curso conquistar reconhecimento, bons conceitos no MEC ou destaque no mercado, existe uma gestão comprometida em estruturar processos sólidos e sustentáveis.

    Nos bastidores, equipes trabalham continuamente para garantir que projetos pedagógicos estejam atualizados, que os currículos acompanhem as demandas do mercado, que os estudantes tenham suporte acadêmico adequado e que a instituição mantenha um padrão de qualidade compatível com as exigências regulatórias e sociais. É nesse cenário que a gestão deixa de ser apenas administrativa e passa a ocupar um papel estratégico na formação de profissionais preparados para os desafios contemporâneos.

    Outro ponto essencial é que excelência acadêmica também está diretamente relacionada à experiência do aluno. Ambientes acolhedores, processos organizados, comunicação eficiente, apoio psicopedagógico e ações de permanência estudantil são resultados de decisões de gestão que impactam diretamente o desempenho e o vínculo do estudante com a instituição.

    Além disso, em um cenário cada vez mais competitivo, inovar tornou-se indispensável. Instituições que investem em tecnologia, capacitação docente, metodologias ativas, internacionalização e cultura de avaliação contínua conseguem se posicionar de forma mais sólida e sustentável. E toda inovação exige liderança, visão estratégica e capacidade de adaptação.

    Mais do que administrar rotinas, gerir uma instituição de Ensino Superior significa conduzir pessoas, desenvolver talentos, fortalecer cultura organizacional e construir um ambiente capaz de transformar vidas por meio da educação. A excelência acadêmica, portanto, não nasce apenas na sala de aula, ela começa muito antes, nos bastidores de uma gestão comprometida com propósito, qualidade e futuro.

    Equipes precisam de gestão forte, metas claras e cultura de resultado, mas também necessitam de respeito, escuta, reconhecimento e condições saudáveis de trabalho. Empresas que conseguem unir desempenho e humanização tendem a apresentar maior engajamento, retenção de talentos e fortalecimento institucional.

    Porque instituições fortes são construídas por lideranças que entendem que educar vai muito além de ensinar.

 

Conclusão

 

    Em um cenário em constante transformação, instituições que desejam crescer de forma sólida precisam compreender que excelência acadêmica não é resultado de ações isoladas, mas de uma gestão estratégica, humana e comprometida com inovação, qualidade e propósito. São os bastidores bem estruturados que sustentam grandes resultados, fortalecem a credibilidade institucional e impactam diretamente a formação de profissionais mais preparados, éticos e alinhados às demandas da sociedade. Afinal, educar é, antes de tudo, construir ambientes capazes de desenvolver pessoas, transformar trajetórias e gerar impacto duradouro.

    A tendência é que o mercado caminhe para modelos de gestão mais estratégicos, humanos e emocionalmente inteligentes. O gestor contemporâneo precisa entregar resultados sem transformar pressão em sofrimento constante.

 

 

 

Cristiane Procópio de Oliveira 

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais