sábado, 28 de fevereiro de 2026

O fim da linha: quem vai preencher as cadeiras vazias do ensino superior?

 


    Os números do Censo Escolar 2025 escancaram um encolhimento histórico: em apenas um ano, o Brasil perdeu mais de 1 milhão de matrículas na educação básica. O ensino médio, em particular, atingiu o menor patamar de alunos do século XXI, com uma redução de aproximadamente 5,39% em relação ao ano anterior. O estado de São Paulo concentra a maior queda, com 251.987 estudantes a menos nas salas de aula. O Ministério da Educação atribui o fenômeno à redução da população em idade escolar e à diminuição da repetência, mas o dado acende um alerta estrutural: há menos jovens caminhando para a etapa final da educação básica.

 

    Diante desse cenário, o governo federal lançou mão de duas estratégias para tentar segurar o jovem na escola. O programa Pé-de-Meia passou a pagar um auxílio financeiro de R$ 1.000 por ano aos aprovados no ensino médio, enquanto o Novo Ensino Médio promoveu mudanças curriculares na tentativa de tornar a etapa mais atrativa. Os resultados, no entanto, ainda não aparecem nas estatísticas: a queda de matrículas em 2025 superou até mesmo a registrada durante a pandemia, sugerindo que o problema vai além da questão econômica e toca em fatores como desinteresse e desalinhamento entre a escola e as expectativas dos adolescentes.

 

    A tendência de queda no número de concluintes do ensino médio projeta um impacto direto no ensino superior nos próximos anos. Dados do Mapa do Ensino Superior 2025 mostram que a rede privada já sente os efeitos da desaceleração: enquanto o ensino a distância (EAD) mantém crescimento de 13,4%, os cursos presenciais registraram retração de 1,0% nas matrículas. Com menos jovens saindo do ensino médio, as Instituições de Ensino Superior (IES) privadas presenciais enfrentarão uma disputa ainda mais acirrada por um público cada vez mais escasso, agravando a já preocupante taxa de evasão de 61,3% na rede privada.

 

    Para evitar o colapso de modelos de negócio inteiros, será preciso repensar a articulação entre as etapas de ensino. Políticas públicas como o FIES e o Prouni precisam ser revitalizadas para ampliar o acesso, mas as IES também devem diversificar seu público-alvo, investindo em nichos em expansão — como os cursos relacionados ao agronegócio, que registraram aumento de 26% nas matrículas presenciais e oferecem salários 9,4% mais altos. Mais do que nunca, a sobrevivência do ensino superior presencial dependerá da capacidade de atrair não apenas os jovens, mas também um contingente de adultos que ainda não completaram a graduação.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O diploma não basta: quem realmente deve certificar os médicos no Brasil?

 


    Em meio ao acirrado debate sobre a qualidade da formação médica no país, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou, nesta quarta-feira (25), o projeto que institui o Profimed, exame de proficiência sob a responsabilidade do Conselho Federal de Medicina (CFM). Por 12 votos a 8, foram rejeitadas as emendas que pretendiam transferir o comando da avaliação para o governo federal. Agora, a matéria segue diretamente para análise da Câmara dos Deputados, consolidando uma vitória política da entidade médica.

    A decisão expõe a disputa de fundo entre o CFM e o Executivo. Enquanto parlamentares da base governista defendiam que o recém-criado Enamed — exame do Ministério da Educação — cumprisse o papel de prova de proficiência, o relatório do senador Hiran Gonçalves (PP-RR) manteve o controle com o conselho. O argumento vencedor, endossado pelo presidente do CFM, José Hiran Gallo, é o de que o modelo evita a consolidação de "dois tipos de medicina no Brasil: uma para ricos e outra para pobres".

    O contexto que pressiona pela aprovação da medida vem dos números. Em janeiro, os resultados do Enamed escancararam fragilidades na formação de futuros médicos, especialmente em instituições privadas. A má performance levou à possibilidade de punição de 99 cursos de medicina, sinalizando que a expansão desordenada das vagas pode estar comprometendo a capacitação técnica e ética dos profissionais. A proposta prevê que a prova seja aplicada pelo menos duas vezes ao ano, com resultados sigilosos encaminhados aos Ministérios da Educação e da Saúde.

    Mais do que uma definição burocrática, o desfecho dessa disputa no Legislativo determinará quem terá a palavra final sobre o ingresso na prática médica no Brasil. Ao colocar o CFM como guardião do exame, o Senado fortalece a autonomia da corporação em detrimento da esfera estatal, reacendendo a discussão sobre transparência, controle social e os critérios que separam o exercício legal da medicina do acesso seguro da população a profissionais minimamente qualificados.

Referência

HERMANSON, Marcos. Senado aprova exame de proficiência em medicina organizado pelo CFM; texto terá análise da Câmara. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 fev. 2026. p. 1-2.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guerra Cognitiva: Por que a Educação é a Nova Fronteira da Soberania Nacional?

 


    No atual cenário geopolítico, marcado por conflitos armados e rivalidades entre potências, emerge um campo de batalha silencioso, porém igualmente devastador: a guerra cognitiva. Conforme alerta o relatório do Chief Scientist da Otan, esta nova forma de conflito não utiliza tanques ou mísseis, mas sim a manipulação sistemática da informação para corroer a coesão social e deslegitimar instituições. Diante dessa ameaça, a educação deixa de ser apenas uma pauta social e econômica para se tornar um pilar estratégico de defesa nacional. A soberania de uma nação moderna mede-se, essencialmente, pela sua capacidade cognitiva — ou seja, pela habilidade de seu povo de pensar criticamente e resistir à desinformação.

    A fragilidade educacional brasileira expõe o país a riscos concretos nessa guerra invisível. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Pisa revelam que mais da metade dos estudantes não possui nível adequado para solucionar problemas sociais e científicos. No Ensino Médio, nove em cada dez alunos não conseguem identificar opiniões divergentes em diferentes textos. Essa defasagem cria um terreno fértil para narrativas manipulativas, teorias conspiratórias e campanhas de polarização. Sem a capacidade de discernir fatos de opiniões, a população torna-se vulnerável a interferências que minam a confiança na ciência, na democracia e nas instituições, comprometendo o debate público e a construção de consensos essenciais.

    Internacionalmente, nações que compreenderam essa ameaça já tratam a educação como prioridade de segurança. Países como Finlândia e Estônia, por exemplo, integram em seus currículos escolares, desde os anos iniciais, o letramento midiático-digital e o pensamento crítico como ferramentas de resiliência nacional. Na Alemanha, programas educacionais específicos combatem a desinformação histórica e científica, fortalecendo a democracia. Esses países investem na formação de cidadãos capazes de navegar pela complexidade informacional, reconhecendo que a soberania cognitiva é tão vital quanto a defesa territorial. A educação, nesse contexto, atua como um escudo coletivo contra interferências externas e internas.

    Nesse sentido, o ensino superior brasileiro assume um papel central no fortalecimento da soberania nacional. Cabe às universidades, em primeiro lugar, a formação continuada e crítica de professores da educação básica, capacitando-os para trabalhar o letramento midiático e o pensamento científico em sala de aula. Além disso, o ensino superior deve liderar pesquisas sobre os efeitos da desinformação e desenvolver metodologias que integrem tecnologia e cidadania democrática. Por fim, é sua responsabilidade criar pontes com a sociedade por meio de extensões e parcerias com escolas públicas, garantindo que o conhecimento produzido na academia chegue à população. Ao assumir esse compromisso, a universidade não apenas eleva a qualidade educacional, mas também contribui diretamente para a defesa e o desenvolvimento soberano do país no século XXI.

 

Referência

CRUZ, Priscila. A educação e a guerra pela mente. O Globo, Rio de Janeiro, 12 fev. 2026. Brasil. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

 


 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Diploma Não é Mais o Fim: A Nova Arquitetura do Ensino Superior e Seus Efeitos na Gestão e no Caixa das IES

 


    O documento "Tendências para o Ensino Superior em 2026" do  SEMESP delineia um projeto de transformação profunda para as Instituições de Ensino Superior (IES), onde o modelo tradicional, centrado na transmissão de conteúdo e na obtenção de um diploma terminal, dá lugar a um ecossistema de aprendizado contínuo, personalizado e integrado às demandas da sociedade e do mercado de trabalho. A ideia central é que a faculdade deixe de ser um fim em si mesma e se torne uma plataforma de oportunidades ao longo da vida, assumindo um papel ativo na trajetória de carreira do estudante e na promoção da mobilidade social, ancorada em propósitos claros e governança robusta.

    Essa nova missão decompõe-se em eixos estruturantes interdependentes. Primeiro, a reconfiguração acadêmica, que integra modelos híbridos de qualidade, currículos flexíveis e modulares (com microcredenciais), e a incorporação ética da inteligência artificial como infraestrutura para personalizar jornadas. Segundo, a redefinição do valor institucional, que passa a ser medido pela empregabilidade e pelo impacto social dos egressos, exigindo parcerias sólidas com empresas e a comunidade. Terceiro, a consolidação de uma liderança orientada por dados e propósito, capaz de equilibrar inovação tecnológica com humanismo, promovendo uma cultura de pertencimento e desenvolvimento docente contínuo.

    Para sobreviver e prosperar nesse novo cenário, as IES precisarão abandonar estratégias reativas e adotar uma postura proativa e sistêmica. A sobrevivência dependerá da capacidade de diversificar fontes de receita para além das mensalidades, explorando serviços de educação continuada, parcerias corporativas e licenciamento. Será crucial investir em tecnologia não como um fim, mas como meio para qualificar a mediação pedagógica e a experiência do aluno, utilizando dados para a tomada de decisão e para a gestão da permanência. Além disso, a diferenciação por meio de uma identidade clara, compromisso com a sustentabilidade (ESG) e a construção de comunidades engajadas em torno da marca institucional serão fatores críticos para manter a relevância e a confiança.

    Essas mudanças impactam diretamente o fluxo de caixa das instituições ao exigir uma alocação de recursos significativamente diferente. Haverá pressão de curto prazo para investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação docente e desenvolvimento de novos produtos educacionais. No entanto, o modelo de negócio sustentável no longo prazo dependerá da capacidade de gerar receitas recorrentes com programas de lifelong learning e de reduzir custos com evasão por meio de estratégias de permanência baseadas em dados. A eficiência operacional, aliada a uma gestão financeira que priorize o investimento em inovação e qualidade, será o fator determinante para que as IES não apenas se adaptem, mas liderem a transformação do setor, assegurando sua viabilidade econômica em um ambiente de concorrência acirrada e regulação mais exigente. 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo  

 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Crise nas IES: O problema é a receita ou a estrutura?

     


 Quando uma Instituição de Ensino Superior (IES) entra no vermelho, a reação imediata é: “Precisamos de mais alunos e mais receita!” Mas será que essa é a pergunta certa? Antes de buscar o faturamento, deveríamos questionar: A nossa estrutura decisória atual sustenta um crescimento com responsabilidade? Em processos de reorganização institucional, observo três padrões que se repetem:


1️⃣ Decisões tomadas sem fluxo de caixa projetado;
2️⃣ Crescimento autorizado sem análise de risco;
3️⃣ Cultura organizacional avessa a indicadores.


    O grande desafio aqui é cultural, não apenas financeiro. Coordenadores, diretores e gestores administrativos são peças centrais, mas quando estão habituados a uma gestão pouco estruturada, a reorganização encontra barreiras invisíveis. O que é gestão vira "controle excessivo". A disciplina orçamentária é lida como "engessamento". E o improviso vira a regra. Resultado não é o mesmo que previsibilidade. Mesmo IES com balanço contábil positivo podem quebrar por falta de liquidez. A sustentabilidade real exige:


✅ Diagnóstico técnico e análise de cenários.
✅ Alinhamento entre governança e capacidade financeira.
✅ Implantação de indicadores e método.
✅ Lideranças conscientes e envolvidas.


    Reduzir custos sem mudar a cultura é apenas um paliativo. Sem maturidade de gestão, o risco sempre retorna. A sustentabilidade institucional não é sorte; é maturidade organizacional. Sua instituição enfrenta hoje um desafio financeiro ou um problema estrutural? Reflita sobre isso.


Renato Camargo de Mendonça
Especialista em reorganização financeira e governança educacional