segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guerra Cognitiva: Por que a Educação é a Nova Fronteira da Soberania Nacional?

 


    No atual cenário geopolítico, marcado por conflitos armados e rivalidades entre potências, emerge um campo de batalha silencioso, porém igualmente devastador: a guerra cognitiva. Conforme alerta o relatório do Chief Scientist da Otan, esta nova forma de conflito não utiliza tanques ou mísseis, mas sim a manipulação sistemática da informação para corroer a coesão social e deslegitimar instituições. Diante dessa ameaça, a educação deixa de ser apenas uma pauta social e econômica para se tornar um pilar estratégico de defesa nacional. A soberania de uma nação moderna mede-se, essencialmente, pela sua capacidade cognitiva — ou seja, pela habilidade de seu povo de pensar criticamente e resistir à desinformação.

    A fragilidade educacional brasileira expõe o país a riscos concretos nessa guerra invisível. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Pisa revelam que mais da metade dos estudantes não possui nível adequado para solucionar problemas sociais e científicos. No Ensino Médio, nove em cada dez alunos não conseguem identificar opiniões divergentes em diferentes textos. Essa defasagem cria um terreno fértil para narrativas manipulativas, teorias conspiratórias e campanhas de polarização. Sem a capacidade de discernir fatos de opiniões, a população torna-se vulnerável a interferências que minam a confiança na ciência, na democracia e nas instituições, comprometendo o debate público e a construção de consensos essenciais.

    Internacionalmente, nações que compreenderam essa ameaça já tratam a educação como prioridade de segurança. Países como Finlândia e Estônia, por exemplo, integram em seus currículos escolares, desde os anos iniciais, o letramento midiático-digital e o pensamento crítico como ferramentas de resiliência nacional. Na Alemanha, programas educacionais específicos combatem a desinformação histórica e científica, fortalecendo a democracia. Esses países investem na formação de cidadãos capazes de navegar pela complexidade informacional, reconhecendo que a soberania cognitiva é tão vital quanto a defesa territorial. A educação, nesse contexto, atua como um escudo coletivo contra interferências externas e internas.

    Nesse sentido, o ensino superior brasileiro assume um papel central no fortalecimento da soberania nacional. Cabe às universidades, em primeiro lugar, a formação continuada e crítica de professores da educação básica, capacitando-os para trabalhar o letramento midiático e o pensamento científico em sala de aula. Além disso, o ensino superior deve liderar pesquisas sobre os efeitos da desinformação e desenvolver metodologias que integrem tecnologia e cidadania democrática. Por fim, é sua responsabilidade criar pontes com a sociedade por meio de extensões e parcerias com escolas públicas, garantindo que o conhecimento produzido na academia chegue à população. Ao assumir esse compromisso, a universidade não apenas eleva a qualidade educacional, mas também contribui diretamente para a defesa e o desenvolvimento soberano do país no século XXI.

 

Referência

CRUZ, Priscila. A educação e a guerra pela mente. O Globo, Rio de Janeiro, 12 fev. 2026. Brasil. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo