O contexto global da internacionalização do ensino superior é altamente sensível a políticas nacionais, como demonstrado de maneira dramática pelo cenário recente nos Estados Unidos. Um relatório divulgado em 2025 apontou uma queda de pelo menos 17% no número de novos estudantes internacionais matriculados em faculdades e universidades americanas entre setembro e novembro daquele ano. Esta queda abrupta é diretamente atribuída às políticas migratórias restritivas implementadas pelo governo do presidente Donald Trump, que miraram a imigração legal com o discurso de colocar a “segurança nacional americana em primeiro lugar”.
Entre as medidas citadas, destacam-se esforços para limitar matrículas, a revogação de vistos estudantis, atrasos generalizados na emissão de novos vistos e a autorização para que oficiais consulares solicitem o acesso a contas de redes sociais dos candidatos. O impacto foi imediato e severo: 96% das instituições que relataram queda nas matrículas apontaram preocupações com o processo de visto como fator relevante, e 68% citaram restrições de viagens. A nação que por décadas foi o principal destino de estudantes internacionais, atraindo cerca de 1,2 milhão deles em 2024-2025, viu sua atratividade ser comprometida por barreiras administrativas e por um ambiente percebido como hostil.
As consequências dessa política são multifacetadas e vão muito além da contabilidade de matrículas. Em primeiro lugar, há um significativo impacto econômico. Estimativas da Associação de Educadores Internacionais indicam que, até 2024, estudantes internacionais contribuíam com aproximadamente US$ 55 bilhões para a economia americana, incluindo gastos com mensalidades, moradia, alimentação e outros serviços. A queda nas matrículas representa, portanto, uma perda de receita vital para muitas instituições, especialmente as de médio porte e as públicas.
Fonte: TV SIMI
Em segundo lugar, o impacto acadêmico e científico é profundo. Os estudantes internacionais são uma fonte crucial de talento e diversidade para os campi americanos. Eles enriquecem as discussões em sala de aula, contribuem para projetos de pesquisa de ponta e, frequentemente, permanecem após a graduação para integrar a força de trabalho altamente qualificada do país, especialmente em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A redução desse fluxo compromete a capacidade de inovação dos EUA e sua posição de liderança na produção científica global. Finalmente, há um dano à imagem e ao soft power americano. A educação superior sempre foi um dos principais pilares da influência cultural e política dos EUA no mundo. Ao dificultar o acesso, o país envia uma mensagem de fechamento que pode ter repercussões de longo prazo em suas relações internacionais e na atração de talentos futuros.
Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

