O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) foi instituído em 2004 e integra o ciclo avaliativo dos cursos de ensino superior no Brasil. Passadas mais de duas décadas, é interessante observar como muitas instituições ainda enfrentam dificuldades com o desempenho de seus alunos, mesmo considerando que a avaliação ocorre a cada três anos. Isso nos leva a questionar: de que forma os resultados das avaliações estão sendo efetivamente utilizados para a evolução do ensino?
A prova é aplicada em todos os cursos de graduação, mas em ciclos trienais, e as notas institucionais são padronizadas em uma escala de 1 a 5. Um curso que obtém conceito 3 demonstra que, na média, o desempenho de seus formandos no ano da avaliação está alinhado à média nacional. No entanto, essa média nacional pode não refletir um desempenho satisfatório em termos de percentual de acertos — ou seja, alcançar 50% de acerto. Assim, não é raro encontrar cursos com conceito 3 cuja nota média dos estudantes ficou em torno de 30% de acertos, significando que, a cada 10 questões, o formando errou 7.
O cenário é desafiador, especialmente porque a maioria dos cursos de ensino superior no Brasil obtém bons conceitos nas visitas in loco dos avaliadores do MEC, mas ainda assim não consegue garantir a aprendizagem efetiva de seus alunos. Qual seria, então, o motivo para essa discrepância?
Uma primeira explicação para o descompasso entre a nota atribuída na visita de avaliação e o desempenho no Enade reside no fato de que o questionário utilizado pelos avaliadores pouco ou nada considera o conceito obtido pelo curso no exame ou a aprendizagem dos alunos. O foco da avaliação, portanto, acaba sendo a estrutura física e organizacional para a oferta do curso, em detrimento de uma observação mais aprofundada sobre a qualidade da aprendizagem.
A resposta para essa lacuna, no entanto, não é única. Se analisarmos o curso sob uma perspectiva acadêmica, abrem-se várias frentes para compreender a falta de qualidade média em alguns cursos superiores no país. Uma delas é que o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) tornou-se, em muitos casos, um documento irrelevante, desconectado de sua diretriz curricular nacional e com frágil relação entre a gestão do curso e o que efetivamente é ensinado em sala de aula.
Um segundo ponto que merece destaque é a falta de rigor acadêmico nos itens de flexibilização curricular, como atividades complementares, estágio, trabalho de conclusão de curso e disciplinas virtualizadas. Muitas vezes, esses componentes são utilizados como estratégia para redução de custos, e não como alternativas pedagógicas que promovam a autonomia do estudante. Em terceiro lugar, é inegável que um coordenador de curso bem formado e motivado tem o poder de fazer a diferença na construção de uma graduação de qualidade.
Ao longo de mais de 20 anos de aplicação do Enade, foi possível aprender com as avaliações e utilizar os dados para evoluir a qualidade dos cursos. Contudo, nem todas as instituições demonstram interesse em realizar essa discussão crítica e preferem, a cada três anos, sofrer com os resultados, em vez de enfrentar as causas estruturais do problema.

