O relato da professora Marta, ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos, e o caso da educadora Michelle Bernardes, que teve um dedo decepado ao tentar conter um aluno em crise, são a ponta do iceberg de uma epidemia silenciosa. Dados do Centro do Professorado Paulista revelam que 65% dos professores brasileiros já sofreram alguma forma de agressão, e o Brasil lidera o ranking da OCDE de violência contra educadores, com 47% deles relatando abusos verbais como fonte de estresse – contra uma média global de 18%.
Valorizar o docente não é apenas uma questão de justiça ou bem-estar; é a base de qualquer política consistente de qualidade do ensino. Um professor que trabalha sob ameaça, com salários defasados e jornadas exaustivas, não consegue desenvolver práticas pedagógicas inovadoras nem estabelecer vínculos significativos com os alunos. Como observa a psicóloga Renata Paparelli, da PUC-SP, a precarização das condições de trabalho alimenta o abismo entre educadores e comunidade, tornando a escola um lugar que "vai perdendo sentido para os estudantes".
As instituições de ensino superior, que formam os futuros professores, precisam colocar o respeito à docência no centro de seus projetos pedagógicos. Não se trata apenas de disciplinas sobre didática, mas de construir uma cultura que reconheça o professor como profissional intelectual, com autonomia, formação continuada e condições dignas de trabalho. A solução exige políticas públicas integradas: redução do número de alunos por turma, suporte psicológico nas escolas, mediação de conflitos e diálogo efetivo com as comunidades.
Apesar da gravidade do problema, o incentivo ao docente raramente figura nas pautas prioritárias da educação nacional. Discute-se currículo, tecnologia e avaliação, mas silencia-se sobre o profissional que está na linha de frente. Enquanto o Brasil tratar a violência contra professores como um problema isolado, e não como um sintoma de desvalorização estrutural, continuaremos a formar gerações em um ambiente hostil – e a perder, como mostra a pesquisa, professores por adoecimento mental, como burnout e estresse pós-traumático, em números alarmantes.
Referência
BBC. A epidemia de violência contra professores no Brasil: 'Fui ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos'. G1, São Paulo, 21 jul. 2026.

