O Brasil investe bilhões em pesquisa científica, mas grande parte do conhecimento produzido com recursos públicos permanece trancado atrás de paywalls internacionais. Em artigo publicado no Jornal da USP, o professor André Vereta Nahoum denuncia a contradição: pagamos para produzir ciência, mas não garantimos seu livre acesso. Apesar de o país ter sido pioneiro com o SciELO, a internacionalização da ciência brasileira criou novos muros — agora, as editoras cobram taxas de publicação (APCs) que podem chegar a milhares de dólares por artigo, inviabilizando o acesso aberto para a maioria dos pesquisadores.
O acesso aberto não é apenas um luxo acadêmico: artigos publicados nessa modalidade alcançam mais leitores, recebem mais citações e geram maior impacto científico e social. Quando a produção científica brasileira circula livremente, ela pauta debates internacionais, reduz assimetrias entre países e instituições e permite que cidadãos e formuladores de políticas públicas utilizem o conhecimento produzido. Como bem lembra Nahoum, "se a sociedade financia a pesquisa, seus resultados não deveriam permanecer restritos por barreiras de acesso impostas por editoras comerciais".
A formação de novos cientistas e a consolidação da pesquisa no país dependem de um ambiente acadêmico que valorize a circulação do conhecimento. As universidades públicas têm o dever de formar pesquisadores críticos, capazes de produzir ciência de impacto, mas também de atuar ativamente na democratização do saber. Incentivar a publicação em acesso aberto e debater os modelos de negócio das editoras científicas é tão importante quanto ensinar metodologia ou redação acadêmica — é formar cidadãos científicos comprometidos com o bem público.
A solução, como propõe o autor, passa por uma ação coletiva e estratégica: universidades como USP, Unicamp, Unesp e Fapesp, em conjunto com a Capes, podem usar seu peso institucional para ampliar acordos nacionais com as grandes editoras. Em vez de financiar milhares de pagamentos individuais, instituições brasileiras podem negociar condições mais justas e ampliar a cobertura do acesso aberto, reduzindo custos e tornando mais equitativa a circulação internacional do conhecimento produzido com recursos públicos.
Referência:
NAHOUM, A. V. O acesso aberto precisa se tornar uma política das universidades públicas. Jornal da USP, São Paulo, 7 jul. 2026.
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