segunda-feira, 20 de julho de 2026

O Antídoto para o IDD: Como a Taxonomia de Bloom Salva as IES do Colapso do "Cuspe e Giz"

 

    No ecossistema das Instituições de Ensino Superior (IES), os dados do Instituto SEMESP trazem um choque de realidade indispensável: 75% dos universitários da rede privada pertencem às classes C, D e E, e mais de 70% das turmas da noite cumprem jornadas de trabalho de 40 a 44 horas semanais. Esse estudante traz consigo o cansaço do corpo e as sequelas de um modelo de ensino básico nacional deficitário.

    No meu artigo anterior, propus que a métrica de justiça para esse público e para as mantenedoras é o IDD (Indicador de Diferença entre os Desempenhos), que mede o valor real que a faculdade agregou ao aluno, da entrada (ENEM) à saída (ENADE). Para fazer o IDD crescer, a instituição precisa aplicar um nivelamento em doses homeopáticas.

    Muitos gestores imaginam que isso é uma teoria complexa demais para o dia a dia. No entanto, o mercado já mostra o contrário: instituições de vanguarda pelo país já estão dando testemunhos reais de que essa dosagem homeopática, estruturada por meio da Engenharia Reversa com a Taxonomia de Bloom, tem um poder esmagador de mudar a percepção do estudante trabalhador.

 

1. O Risco Vital do "Cuspe e Giz": O Sangramento Educacional e Financeiro

 

    As instituições que continuarem presas ao modelo analógico do "cuspe e giz", focado em ementas enciclopédicas e professores apenas despejando conteúdo de forma passiva, enfrentarão grandes problemas em duas frentes implacáveis:

  • O Colapso Educacional: O aluno trabalhador, exausto após o expediente, não tem energia para absorver teorias abstratas desconectadas da prática. Se a aula for um monólogo de memorização, o engajamento cai a zero, o bloqueio cognitivo se instala e o resultado inevitável é a reprovação em massa no ENADE, CFC e OAB.
  • O Desastre Financeiro: Aluno desengajado e frustrado desiste do curso. A permanência despenca, a evasão dispara e o caixa da mantenedora sangra logo nos primeiros semestres. O "cuspe e giz" faliu comercialmente.
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2. A Engenharia Reversa na Prática: Exemplos Reais que Mudam a Percepção

 

    Os exames do “mata-mata” mercadológico e regulatório testam a capacidade de analisar cenários e avaliar soluções, privilegiando a essência sobre a forma. As IES que estão revolucionando seus índices de retenção e IDD inverteram o vetor da aula tradicional usando os níveis superiores da Taxonomia de Bloom (Analisar e Avaliar).

Vejamos como duas faculdades de vanguarda aplicam essa engenharia reversa no cotidiano:

 

  • Caso 1: Ciências Contábeis e Gestão Financeira

o    O modelo antigo (Cuspe e Giz): O professor passava quatro semanas explicando conceitos teóricos de depreciação de ativos e lançamentos contábeis em slides exaustivos. O aluno da noite dormia ou evadia.

o    A Engenharia Reversa em Ação: No primeiro minuto da aula, o professor projeta o balanço patrimonial real de uma empresa local que está sofrendo uma auditoria fiscal por inconsistência de dados. O desafio colocado na mesa é: “Encontrem onde está o vazamento de caixa que pode quebrar essa empresa”. Ao tentar analisar o problema, o aluno esbarra em uma lacuna básica de raciocínio lógico ou matemática. É aí que o professor entra com a dose homeopática: para por dez minutos, resgata o fundamento essencial que faltava, aplica-o na solução do balanço e retorna ao desafio macro. O aluno fixa o conteúdo básico porque entende a utilidade prática imediata de salvar um negócio.

 

  • Caso 2: Curso de Direito

o    O modelo antigo (Cuspe e Giz): Semanas lendo artigos isolados do Código de Processo Civil e calculando prazos processuais de forma mecânica.

o    A Engenharia Reversa em Ação: A aula começa com uma notificação judicial real de despejo iminente recebida por uma família de baixa renda. A missão do estudante é: “Temos 48 horas para estruturar a tese principal de defesa e evitar o despejo”. Diante da urgência do caso, o aluno precisa interpretar o texto, analisar a vulnerabilidade e avaliar a melhor saída jurídica. Se ele demonstra dificuldades de interpretação textual, herança de um ensino básico fragilizado, o professor faz a intervenção homeopática ali, ensinando a decodificar a linguagem jurídica no momento presente. A percepção do estudante muda completamente: ele se sente advogado desde o primeiro semestre.

 

3. O Testemunho Prático da Governança de Resultados

 

    Os relatos de sucesso de mantenedores que adotaram essa virada de chave trazem indicadores incontestáveis. Ao redesenhar as matrizes pedagógicas sob a engenharia de Bloom, essas instituições perceberam que o IDD deixou de ser apenas um índice burocrático do MEC e passou a ser o maior validador da qualidade do negócio.

    Quando a controladoria apoia o acadêmico na troca do giz pelas metodologias ativas e pelo treino tático focado nas competências de alta ordem cognitiva, o ecossistema se estabiliza. O aluno percebe que a faculdade o está capacitando para o mercado real e decide ficar. A retenção sobe, as notas nos conselhos de classe se elevam e a marca institucional se consolida como referência regional.

    O aluno trabalhador possui uma garra invejável e uma inteligência prática moldada pela necessidade de sustentar sua família. Ele não quer facilitação; ele quer um ambiente que respeite o seu tempo e potencialize o seu brilho próprio.

    As instituições que insistirem em ignorar o relógio desse estudante e continuarem escoradas no planejamento estático do passado colherão cadeiras vazias e conceitos baixos. O caminho da sustentabilidade exige coragem para tirar os planos da gaveta, treinar os professores e aplicar o antídoto da dose homeopática baseada em desafios reais.


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Brilho de Cada Estrela: o IDD como métrica de justiça para o aluno trabalhador

 

    Avaliar com a mesma régua o estudante de dedicação exclusiva e o aluno trabalhador da noite não é justiça; é miopia regulatória. Segundo dados do Instituto SEMESP, cerca de 75% dos estudantes da rede privada pertencem às classes C, D e E.

    No período noturno, mais de 70% trabalham entre 40 e 44 horas semanais. Esses alunos chegam ao ensino superior com lacunas do ensino básico, fruto de um problema macro educacional, e não de falta de esforço individual.

    Por isso, melhorar práticas pedagógicas é essencial, mas não basta. MEC, Inep e órgãos de classe, como CFC e OAB, precisam valorizar indicadores que meçam valor agregado, equidade e transformação educacional. O principal deles é o IDD.

 

CPC e IDD: duas leituras da qualidade

 

    O CPC observa desempenho no Enade, titulação docente, regime de trabalho e percepção discente sobre infraestrutura. É relevante, mas tende a favorecer instituições que recebem alunos com melhores condições de partida.

    O IDD, por sua vez, compara o desempenho de entrada, medido pelo Enem, com o desempenho de saída, medido pelo Enade. Ele mostra quanto a instituição agregou à trajetória do estudante.

 

Indicador

O que mede

Limitação ou força

CPC

Avalia o curso a partir de desempenho no Enade, titulação docente, regime de trabalho e percepção sobre infraestrutura.

É relevante, mas tende a favorecer instituições que já recebem alunos com melhores condições de partida.

IDD

Compara o desempenho de entrada do estudante, medido pelo Enem, com o desempenho de saída, medido pelo Enade.

Evidencia o valor agregado pela instituição e revela a transformação educacional promovida ao longo da trajetória.

 

    Uma instituição que recebe um aluno com nota 9 no Enem e o entrega com nota 9 no Enade pode ter CPC alto, mas agregou pouco. Já a IES que recebe o aluno trabalhador com nota 3 e o entrega com nota 7 realizou verdadeira transformação. Essa distância percorrida é o que o IDD revela.

    Para colocar a equidade no centro da regulação, proponho três medidas baseadas na centralidade do IDD.

1. Financiamento e prerrogativas públicas atreladas ao IDD

    Programas de fomento, bolsas, financiamentos públicos, prazos de recredenciamento e bônus regulatórios devem considerar o desempenho no IDD. Premiar esse indicador é apoiar instituições que corrigem distorções do ensino básico e promovem ascensão social.

 

2. O IDD como filtro de parcerias com a Tríplice Hélice

    A inserção do aluno trabalhador no mercado exige conexão entre academia, setor produtivo e poder público. Nesse modelo, o IDD pode funcionar como selo de qualidade para parcerias, estágios, fomento e empregabilidade.

 

3. Auditoria pedagógica interna guiada pelo IDD

    Não se pode aceitar que o aluno da noite esteja condenado ao baixo desempenho no CFC, na OAB ou no Enade por causa do seu ponto de partida. O papel da IES é romper esse ciclo.

    Coordenações e direções acadêmicas devem usar os microdados do IDD para identificar gargalos e metodologias eficazes. Assim, o IDD deixa de ser apenas indicador regulatório e se torna ferramenta de gestão.

 

A metáfora das estrelas

 

    Os alunos trabalhadores não buscam facilitação ou diplomas vazios. Buscam dignidade, sustento para suas famílias e relevância no mercado por meio do próprio esforço.

    A metáfora das estrelas traduz essa visão: algumas brilham mais, outras menos, mas todas têm luz própria. O papel da instituição, dos professores, do Estado e do mercado é criar condições para que cada aluno alcance sua máxima potência.

 

Conclusão

 

    A justiça educacional não está em homogeneizar a linha de chegada pelo CPC absoluto, mas em reconhecer a distância percorrida pelo aluno, medida pelo IDD. O ensino superior privado precisa ser avaliado por regras que reconheçam a realidade do relógio do trabalhador.

    Substituir a cultura regulatória punitiva por um modelo focado em valor agregado é o caminho para dar segurança ao estudante e mérito à instituição que transforma vidas. A verdadeira excelência educacional não está apenas no ponto de chegada, mas na transformação realizada no percurso.

    No céu da educação brasileira, cada estrela importa, cada trajetória conta e cada transformação precisa ser medida com justiça.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Ciência fechada a sete chaves: o Brasil financia, mas não pode ler?

 


    O Brasil investe bilhões em pesquisa científica, mas grande parte do conhecimento produzido com recursos públicos permanece trancado atrás de paywalls internacionais. Em artigo publicado no Jornal da USP, o professor André Vereta Nahoum denuncia a contradição: pagamos para produzir ciência, mas não garantimos seu livre acesso. Apesar de o país ter sido pioneiro com o SciELO, a internacionalização da ciência brasileira criou novos muros — agora, as editoras cobram taxas de publicação (APCs) que podem chegar a milhares de dólares por artigo, inviabilizando o acesso aberto para a maioria dos pesquisadores.

    O acesso aberto não é apenas um luxo acadêmico: artigos publicados nessa modalidade alcançam mais leitores, recebem mais citações e geram maior impacto científico e social. Quando a produção científica brasileira circula livremente, ela pauta debates internacionais, reduz assimetrias entre países e instituições e permite que cidadãos e formuladores de políticas públicas utilizem o conhecimento produzido. Como bem lembra Nahoum, "se a sociedade financia a pesquisa, seus resultados não deveriam permanecer restritos por barreiras de acesso impostas por editoras comerciais".

    A formação de novos cientistas e a consolidação da pesquisa no país dependem de um ambiente acadêmico que valorize a circulação do conhecimento. As universidades públicas têm o dever de formar pesquisadores críticos, capazes de produzir ciência de impacto, mas também de atuar ativamente na democratização do saber. Incentivar a publicação em acesso aberto e debater os modelos de negócio das editoras científicas é tão importante quanto ensinar metodologia ou redação acadêmica — é formar cidadãos científicos comprometidos com o bem público.

    A solução, como propõe o autor, passa por uma ação coletiva e estratégica: universidades como USP, Unicamp, Unesp e Fapesp, em conjunto com a Capes, podem usar seu peso institucional para ampliar acordos nacionais com as grandes editoras. Em vez de financiar milhares de pagamentos individuais, instituições brasileiras podem negociar condições mais justas e ampliar a cobertura do acesso aberto, reduzindo custos e tornando mais equitativa a circulação internacional do conhecimento produzido com recursos públicos.

Referência:
 

NAHOUM, A. V. O acesso aberto precisa se tornar uma política das universidades públicas. Jornal da USP, São Paulo, 7 jul. 2026. 

#A imagem foi obtida via internet e pertence ao canal Ciência Oculta;  

 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP