Avaliar com a mesma régua o estudante de dedicação exclusiva e o aluno trabalhador da noite não é justiça; é miopia regulatória. Segundo dados do Instituto SEMESP, cerca de 75% dos estudantes da rede privada pertencem às classes C, D e E.
No período noturno, mais de 70% trabalham entre 40 e 44 horas semanais. Esses alunos chegam ao ensino superior com lacunas do ensino básico, fruto de um problema macro educacional, e não de falta de esforço individual.
Por isso, melhorar práticas pedagógicas é essencial, mas não basta. MEC, Inep e órgãos de classe, como CFC e OAB, precisam valorizar indicadores que meçam valor agregado, equidade e transformação educacional. O principal deles é o IDD.
CPC e IDD: duas leituras da qualidade
O CPC observa desempenho no Enade, titulação docente, regime de trabalho e percepção discente sobre infraestrutura. É relevante, mas tende a favorecer instituições que recebem alunos com melhores condições de partida.
O IDD, por sua vez, compara o desempenho de entrada, medido pelo Enem, com o desempenho de saída, medido pelo Enade. Ele mostra quanto a instituição agregou à trajetória do estudante.
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Indicador |
O que mede |
Limitação ou força |
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CPC |
Avalia o curso a partir de desempenho no Enade, titulação docente, regime de trabalho e percepção sobre infraestrutura. |
É relevante, mas tende a favorecer instituições que já recebem alunos com melhores condições de partida. |
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IDD |
Compara o desempenho de entrada do estudante, medido pelo Enem, com o desempenho de saída, medido pelo Enade. |
Evidencia o valor agregado pela instituição e revela a transformação educacional promovida ao longo da trajetória. |
Uma instituição que recebe um aluno com nota 9 no Enem e o entrega com nota 9 no Enade pode ter CPC alto, mas agregou pouco. Já a IES que recebe o aluno trabalhador com nota 3 e o entrega com nota 7 realizou verdadeira transformação. Essa distância percorrida é o que o IDD revela.
Para colocar a equidade no centro da regulação, proponho três medidas baseadas na centralidade do IDD.
1. Financiamento e prerrogativas públicas atreladas ao IDD
Programas de fomento, bolsas, financiamentos públicos, prazos de recredenciamento e bônus regulatórios devem considerar o desempenho no IDD. Premiar esse indicador é apoiar instituições que corrigem distorções do ensino básico e promovem ascensão social.
2. O IDD como filtro de parcerias com a Tríplice Hélice
A inserção do aluno trabalhador no mercado exige conexão entre academia, setor produtivo e poder público. Nesse modelo, o IDD pode funcionar como selo de qualidade para parcerias, estágios, fomento e empregabilidade.
3. Auditoria pedagógica interna guiada pelo IDD
Não se pode aceitar que o aluno da noite esteja condenado ao baixo desempenho no CFC, na OAB ou no Enade por causa do seu ponto de partida. O papel da IES é romper esse ciclo.
Coordenações e direções acadêmicas devem usar os microdados do IDD para identificar gargalos e metodologias eficazes. Assim, o IDD deixa de ser apenas indicador regulatório e se torna ferramenta de gestão.
A metáfora das estrelas
Os alunos trabalhadores não buscam facilitação ou diplomas vazios. Buscam dignidade, sustento para suas famílias e relevância no mercado por meio do próprio esforço.
A metáfora das estrelas traduz essa visão: algumas brilham mais, outras menos, mas todas têm luz própria. O papel da instituição, dos professores, do Estado e do mercado é criar condições para que cada aluno alcance sua máxima potência.
Conclusão
A justiça educacional não está em homogeneizar a linha de chegada pelo CPC absoluto, mas em reconhecer a distância percorrida pelo aluno, medida pelo IDD. O ensino superior privado precisa ser avaliado por regras que reconheçam a realidade do relógio do trabalhador.
Substituir a cultura regulatória punitiva por um modelo focado em valor agregado é o caminho para dar segurança ao estudante e mérito à instituição que transforma vidas. A verdadeira excelência educacional não está apenas no ponto de chegada, mas na transformação realizada no percurso.
No céu da educação brasileira, cada estrela importa, cada trajetória conta e cada transformação precisa ser medida com justiça.
Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça
Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro
