segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Brilho de Cada Estrela: o IDD como métrica de justiça para o aluno trabalhador

 

    Avaliar com a mesma régua o estudante de dedicação exclusiva e o aluno trabalhador da noite não é justiça; é miopia regulatória. Segundo dados do Instituto SEMESP, cerca de 75% dos estudantes da rede privada pertencem às classes C, D e E.

    No período noturno, mais de 70% trabalham entre 40 e 44 horas semanais. Esses alunos chegam ao ensino superior com lacunas do ensino básico, fruto de um problema macro educacional, e não de falta de esforço individual.

    Por isso, melhorar práticas pedagógicas é essencial, mas não basta. MEC, Inep e órgãos de classe, como CFC e OAB, precisam valorizar indicadores que meçam valor agregado, equidade e transformação educacional. O principal deles é o IDD.

 

CPC e IDD: duas leituras da qualidade

 

    O CPC observa desempenho no Enade, titulação docente, regime de trabalho e percepção discente sobre infraestrutura. É relevante, mas tende a favorecer instituições que recebem alunos com melhores condições de partida.

    O IDD, por sua vez, compara o desempenho de entrada, medido pelo Enem, com o desempenho de saída, medido pelo Enade. Ele mostra quanto a instituição agregou à trajetória do estudante.

 

Indicador

O que mede

Limitação ou força

CPC

Avalia o curso a partir de desempenho no Enade, titulação docente, regime de trabalho e percepção sobre infraestrutura.

É relevante, mas tende a favorecer instituições que já recebem alunos com melhores condições de partida.

IDD

Compara o desempenho de entrada do estudante, medido pelo Enem, com o desempenho de saída, medido pelo Enade.

Evidencia o valor agregado pela instituição e revela a transformação educacional promovida ao longo da trajetória.

 

    Uma instituição que recebe um aluno com nota 9 no Enem e o entrega com nota 9 no Enade pode ter CPC alto, mas agregou pouco. Já a IES que recebe o aluno trabalhador com nota 3 e o entrega com nota 7 realizou verdadeira transformação. Essa distância percorrida é o que o IDD revela.

    Para colocar a equidade no centro da regulação, proponho três medidas baseadas na centralidade do IDD.

1. Financiamento e prerrogativas públicas atreladas ao IDD

    Programas de fomento, bolsas, financiamentos públicos, prazos de recredenciamento e bônus regulatórios devem considerar o desempenho no IDD. Premiar esse indicador é apoiar instituições que corrigem distorções do ensino básico e promovem ascensão social.

 

2. O IDD como filtro de parcerias com a Tríplice Hélice

    A inserção do aluno trabalhador no mercado exige conexão entre academia, setor produtivo e poder público. Nesse modelo, o IDD pode funcionar como selo de qualidade para parcerias, estágios, fomento e empregabilidade.

 

3. Auditoria pedagógica interna guiada pelo IDD

    Não se pode aceitar que o aluno da noite esteja condenado ao baixo desempenho no CFC, na OAB ou no Enade por causa do seu ponto de partida. O papel da IES é romper esse ciclo.

    Coordenações e direções acadêmicas devem usar os microdados do IDD para identificar gargalos e metodologias eficazes. Assim, o IDD deixa de ser apenas indicador regulatório e se torna ferramenta de gestão.

 

A metáfora das estrelas

 

    Os alunos trabalhadores não buscam facilitação ou diplomas vazios. Buscam dignidade, sustento para suas famílias e relevância no mercado por meio do próprio esforço.

    A metáfora das estrelas traduz essa visão: algumas brilham mais, outras menos, mas todas têm luz própria. O papel da instituição, dos professores, do Estado e do mercado é criar condições para que cada aluno alcance sua máxima potência.

 

Conclusão

 

    A justiça educacional não está em homogeneizar a linha de chegada pelo CPC absoluto, mas em reconhecer a distância percorrida pelo aluno, medida pelo IDD. O ensino superior privado precisa ser avaliado por regras que reconheçam a realidade do relógio do trabalhador.

    Substituir a cultura regulatória punitiva por um modelo focado em valor agregado é o caminho para dar segurança ao estudante e mérito à instituição que transforma vidas. A verdadeira excelência educacional não está apenas no ponto de chegada, mas na transformação realizada no percurso.

    No céu da educação brasileira, cada estrela importa, cada trajetória conta e cada transformação precisa ser medida com justiça.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro