segunda-feira, 6 de julho de 2026

O Peso da Pedra e o Destino da Cinza: O Desafio de Preparar o Aluno Trabalhador para o Mata-Mata do Mercado

 

    A tese central deste artigo é simples: preparar o aluno trabalhador para avaliações como ENADE, CFC e OAB não depende apenas de mais cobrança, mas de uma governança acadêmica capaz de reconhecer lacunas reais, integrar nivelamento à rotina das disciplinas e transformar esforço individual em resultado institucional sustentável.

    Na minha última reflexão, discuti como o recesso de julho é o período em que a alta gestão das Instituições de Ensino Superior (IES) aplica o ditado "enquanto descansa, carrega pedra", planejando o segundo semestre. No entanto, quando olhamos para a realidade das nossas salas de aula, percebemos que esse ditado é a rotina viva e diária dos nossos estudantes.

    O nosso aluno que cumpre uma jornada de 44 horas semanais de trabalho, enfrenta o transporte público e senta-se na cadeira da faculdade à noite, carrega o peso invisível de uma engrenagem exaustiva.

    O empenho e a garra desse público para obter boas notas e buscar o sucesso nas provações académicas e mercadológicas são admiráveis. Porém, há um nó crítico que a Academia, os Professores e os Gestores precisam encarar de frente: as graves lacunas pedagógicas deixadas pelas etapas anteriores (Fundamental e Médio).

 

1. O Perfil Real do Ensino Superior: Os Dados Alarmantes do SEMESP

 

    Os dados históricos consolidados pelo Instituto SEMESP e pelo Censo da Educação Superior revelam um cenário incontestável: o perfil do estudante mudou radicalmente nas últimas décadas. Se no passado a universidade era um privilégio de poucos, a democratização do acesso inverteu a pirâmide.

    Hoje, das classes C, D e E, vêm cerca de 70% a 75% do total de estudantes matriculados na rede privada de ensino superior do país.

    Quando afunilamos essa métrica para quem estuda no período noturno, o dado é ainda mais avassalador: mais de 70% de todos os universitários da noite trabalham em tempo integral, cumprindo jornadas de 40 a 44 horas semanais.

    Estamos a falar da esmagadora maioria da força discente do Brasil. Esse público não tem o privilégio da dedicação exclusiva aos estudos, de passar as tardes na biblioteca ou de realizar simulados extensos aos finais de semana. Para eles, o ensino superior não é apenas um rito de passagem social; é o projeto de sustento de suas famílias, o vetor de desenvolvimento de sua região e o motor de sustentabilidade para o país.

 

2. O Choque dos Ditados Populares e a Realidade do Sistema

 

    A sabedoria popular costuma ser implacável. Dois ditados refletem bem o ceticismo diante desse cenário: "cipó se torce quando é novo" e "pau que nasce torto até a cinza é torta". Se aceitarmos essa lógica determinista, assumiremos que um aluno que ingressa na faculdade com dificuldades de interpretação de texto, leitura analítica ou raciocínio lógico estará condenado ao fracasso na linha de chegada.

    Antes de avançarmos, cabe uma diferenciação fundamental e justa: quando apontamos lacunas do Ensino Fundamental e Médio, não estamos responsabilizando individualmente o magistério. Professores da educação básica realizam um trabalho heroico em condições frequentemente adversas. O diagnóstico central recai sobre o modelo estrutural de ensino do país: um sistema historicamente engessado, excessivamente conteudista e pouco conectado ao desenvolvimento de competências de interpretação, análise e resolução de problemas.

    A função do Ensino Superior de vanguarda é justamente subverter o determinismo desse sistema. Não podemos trabalhar com uma cultura retorcida que simplesmente pune o aluno por aquilo que o modelo macro educacional não lhe forneceu no passado. É óbvio que a nossa metodologia académica deve impor desafios, provocar o pensamento crítico e despertar o interesse profundo pela profissão. Mas isso precisa ser feito em doses homeopáticas.

    A engenharia pedagógica moderna consiste em preencher as defasagens do modelo anterior no momento presente, diluindo o nivelamento cognitivo dentro da prática diária das disciplinas, permitindo que o aluno ganhe desenvoltura e segurança em tempo real.

 

3. O Paradoxo Regulatório no "Mata-Mata": ENADE, CFC e OAB

 

    Aqui reside uma ferida que precisa ser tocada: exames nacionais de larga escala, como o ENADE, bem como provas de conselhos de classe, como o Exame de Suficiência do CFC e a OAB, exigem elevada capacidade de interpretação, análise de cenários complexos e aplicação de conceitos sob pressão. Na prática, essas avaliações cobram prontidão acadêmica de públicos que chegam ao ensino superior em condições muito diferentes de tempo, base formativa e disponibilidade para estudo.

    O segundo semestre funciona como o “mata-mata” definitivo dessas avaliações. Um desempenho fraco nesses exames rebaixa os índices institucionais da IES, destruindo o poder de atratividade comercial para os ciclos seguintes. Esse público diferenciado, mapeado pelo SEMESP, precisa ser visto pelas autoridades competentes sob uma nova ótica. É urgente pensar em formatos avaliativos que agreguem valor ao desempenho desse estudante, reconhecendo a sua bagagem prática de trabalho como um ativo cognitivo, e não ignorando a sua realidade socioeconômica.

 

4. A Construção a Várias Mãos: O Papel da Governança e do Caixa

 

    Resolver essa equação exige um pacto institucional trabalhado a várias mãos, onde a controladoria e o pedagógico convergem sob uma mesma governança:

 

  • A Academia (Direção e NDE): Precisa desenhar matrizes curriculares ágeis (como as microcertificações), que incorporem o treino para essas grandes avaliações dentro da carga horária regular da sala de aula, eliminando a dependência de atividades extracurriculares excludentes;
  • Os Professores: Precisam atuar como mentores de carreira, dosando os desafios conceituais de alta ordem com o suporte necessário para fechar os gargalos do modelo escolar prévio;
  • A Controladoria Financeira (CFO): Deve compreender que investir em ferramentas de acessibilidade cognitiva, inteligência artificial para aprendizagem personalizada e programas de monitoria não é uma despesa assistencialista. Trata-se de proteção de receita e de permanência estudantil. Cada aluno das classes C, D e E que evade nos primeiros semestres representa perda acadêmica, social e financeira, inclusive porque o Custo de Aquisição de Aluno já foi realizado no processo de captação. 

 

Conclusão

 

    O aluno que trabalha e carrega sua pedra diariamente não busca facilitação nem diplomas sem valor. Ele busca condições reais, justas e factíveis para competir no mercado com dignidade. Quando a governança da IES compreende esse estudante em sua totalidade, ela rompe o ciclo do determinismo e mostra que a educação superior pode corrigir trajetórias, superar parte das falhas do modelo educacional brasileiro e gerar desenvolvimento para o país.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Qual o real motivo de tanta dificuldade das Instituições de Ensino Superior com o Enade?

    

     


    O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) foi instituído em 2004 e integra o ciclo avaliativo dos cursos de ensino superior no Brasil. Passadas mais de duas décadas, é interessante observar como muitas instituições ainda enfrentam dificuldades com o desempenho de seus alunos, mesmo considerando que a avaliação ocorre a cada três anos. Isso nos leva a questionar: de que forma os resultados das avaliações estão sendo efetivamente utilizados para a evolução do ensino?

    A prova é aplicada em todos os cursos de graduação, mas em ciclos trienais, e as notas institucionais são padronizadas em uma escala de 1 a 5. Um curso que obtém conceito 3 demonstra que, na média, o desempenho de seus formandos no ano da avaliação está alinhado à média nacional. No entanto, essa média nacional pode não refletir um desempenho satisfatório em termos de percentual de acertos — ou seja, alcançar 50% de acerto. Assim, não é raro encontrar cursos com conceito 3 cuja nota média dos estudantes ficou em torno de 30% de acertos, significando que, a cada 10 questões, o formando errou 7.

    O cenário é desafiador, especialmente porque a maioria dos cursos de ensino superior no Brasil obtém bons conceitos nas visitas in loco dos avaliadores do MEC, mas ainda assim não consegue garantir a aprendizagem efetiva de seus alunos. Qual seria, então, o motivo para essa discrepância?

    Uma primeira explicação para o descompasso entre a nota atribuída na visita de avaliação e o desempenho no Enade reside no fato de que o questionário utilizado pelos avaliadores pouco ou nada considera o conceito obtido pelo curso no exame ou a aprendizagem dos alunos. O foco da avaliação, portanto, acaba sendo a estrutura física e organizacional para a oferta do curso, em detrimento de uma observação mais aprofundada sobre a qualidade da aprendizagem.

    A resposta para essa lacuna, no entanto, não é única. Se analisarmos o curso sob uma perspectiva acadêmica, abrem-se várias frentes para compreender a falta de qualidade média em alguns cursos superiores no país. Uma delas é que o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) tornou-se, em muitos casos, um documento irrelevante, desconectado de sua diretriz curricular nacional e com frágil relação entre a gestão do curso e o que efetivamente é ensinado em sala de aula.

    Um segundo ponto que merece destaque é a falta de rigor acadêmico nos itens de flexibilização curricular, como atividades complementares, estágio, trabalho de conclusão de curso e disciplinas virtualizadas. Muitas vezes, esses componentes são utilizados como estratégia para redução de custos, e não como alternativas pedagógicas que promovam a autonomia do estudante. Em terceiro lugar, é inegável que um coordenador de curso bem formado e motivado tem o poder de fazer a diferença na construção de uma graduação de qualidade.

Ao longo de mais de 20 anos de aplicação do Enade, foi possível aprender com as avaliações e utilizar os dados para evoluir a qualidade dos cursos. Contudo, nem todas as instituições demonstram interesse em realizar essa discussão crítica e preferem, a cada três anos, sofrer com os resultados, em vez de enfrentar as causas estruturais do problema.

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Novas Diretrizes Curriculares da Enfermagem: o que muda para as Instituições de Ensino Superior e quais os próximos desafios?

 

   


 

     Após mais de duas décadas de vigência das Diretrizes Curriculares Nacionais publicadas em 2001, a formação em Enfermagem no Brasil entra em uma nova fase. A publicação da Resolução CNE/CES nº 1, de 15 de maio de 2026, representa uma das mais significativas reformulações já realizadas no ensino da profissão, atualizando as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para os cursos de graduação em Enfermagem bacharelado e licenciatura em consonância com as novas demandas da assistência em saúde, da educação superior e da sociedade brasileira. (MEC Normas)

    Mais do que uma atualização normativa, trata-se de uma mudança de paradigma. As novas DCNs ampliam a responsabilidade das Instituições de Ensino Superior (IES) na formação de enfermeiros capazes de atuar em cenários cada vez mais complexos, tecnológicos e interprofissionais, sem perder de vista os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), a humanização do cuidado e o compromisso ético com a população.

 

Uma resposta às transformações da saúde

 

    Desde a publicação das diretrizes anteriores, em 2001, o cenário da saúde sofreu profundas transformações. O envelhecimento populacional, o aumento das doenças crônicas, as emergências sanitárias, como a pandemia de COVID-19, a expansão das tecnologias digitais, da teleassistência e da inteligência artificial modificaram significativamente o perfil profissional esperado do enfermeiro.

    As novas DCNs procuram responder a esse novo contexto ao propor uma formação mais integrada, centrada no desenvolvimento de competências, no raciocínio clínico, na tomada de decisão baseada em evidências e na atuação colaborativa entre diferentes profissões da saúde.

 

As principais mudanças

 

    Entre os principais avanços previstos pela nova resolução, destacam-se:

·         fortalecimento da formação presencial, considerando as especificidades da aprendizagem prática da Enfermagem;

·         maior integração entre teoria, prática e extensão ao longo de todo o curso;

·         valorização dos cenários reais de aprendizagem desde os primeiros períodos;

·         fortalecimento das competências relacionadas à segurança do paciente, gestão do cuidado, liderança e trabalho em equipe;

·         incorporação das tecnologias digitais como ferramentas de apoio à assistência e à gestão em saúde;

·         ampliação da formação voltada para atenção primária, redes de atenção e necessidades epidemiológicas da população brasileira;

·         consolidação da formação baseada em competências, substituindo modelos excessivamente centrados apenas em conteúdos disciplinares. (MEC Normas)

 

O impacto para as Instituições de Ensino Superior

 

    Para as IES, as mudanças vão muito além da atualização do Projeto Pedagógico do Curso (PPC). Será necessário revisar matrizes curriculares, metodologias de ensino, processos avaliativos, integração ensino-serviço, infraestrutura de laboratórios, campos de prática e programas de desenvolvimento docente. Trata-se de um movimento institucional que envolve coordenação, Núcleo Docente Estruturante (NDE), colegiados, mantenedoras e serviços de saúde parceiros.

    A implementação das novas DCNs exigirá planejamento estratégico e gestão acadêmica eficiente, especialmente durante o período de transição regulatória.

    A revisão das DCNs da Enfermagem também sinaliza uma tendência mais ampla do sistema educacional brasileiro.

    Nos últimos anos, diversos cursos da área da saúde passaram por processos semelhantes de atualização curricular, buscando aproximar a formação universitária das necessidades reais da sociedade, incorporar competências digitais, fortalecer a educação baseada em evidências e ampliar a integração com o SUS.

 

Mais do que cumprir uma norma, é hora de repensar a formação!

 

    As instituições que enxergarem as novas DCNs apenas como uma obrigação regulatória provavelmente limitarão seu potencial de transformação.

    Por outro lado, aquelas que utilizarem este momento para revisar seus modelos pedagógicos, fortalecer a inovação, investir na qualificação docente e aproximar ainda mais a formação da realidade dos serviços de saúde poderão construir cursos mais modernos, competitivos e alinhados às necessidades do país.

    A nova Resolução CNE/CES nº 1/2026 não representa apenas a substituição de uma diretriz publicada há 25 anos. Ela convida as Instituições de Ensino Superior a assumirem protagonismo na preparação de profissionais capazes de responder aos desafios sanitários das próximas décadas.


 


Cristiane Procópio de Oliveira

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Enquanto Descansa, Carrega Pedra: O Trabalho Oculto de Julho no Mata-Mata do Ensino Superior

 

    Para a comunidade acadêmica, o mês de julho representa o merecido descanso, o silêncio nos corredores e a pausa nas salas de aula. No entanto, para a alta gestão de uma Instituição de Ensino Superior (IES), julho é o reflexo prático de um ditado popular muito conhecido no ambiente corporativo: “Enquanto descansa, carrega pedra”.

    Essa é a grande verdade da educação. O recesso escolar é uma ilusão de ótica para quem vê de fora. Por dentro, é o período mais estratégico e intenso do ano. É o momento crítico de calibração, de rever o que foi feito, mapear com coragem o que falhou e ajustar o leme para que o segundo semestre navegue o mais próximo possível do norte da nossa bússola institucional. Se o mercado desacelera, a governança acelera o trabalho pesado.

 

1. A Avaliação Institucional como Bússola de Navegação

    Nenhum capitão lúcido ignora os instrumentos de navegação em mar aberto. No ecossistema educacional, as pedras que precisamos carregar em julho começam pela análise fria dos dados. A Avaliação Institucional não é um mero relatório burocrático para cumprir protocolos regulatórios; ela é a base das informações vitais que necessitamos para o planejamento estratégico.

    É por meio desse diagnóstico que ouvimos, com atenção plena, o que nossos alunos, professores e coordenadores vivenciaram na ponta ao longo do primeiro semestre. A avaliação nos mostra onde a matriz pedagógica gerou valor e onde o suporte administrativo ou financeiro falhou. Ignorar esses dados agora significa iniciar o segundo semestre tateando no escuro, repetindo erros antigos e empurrando a instituição para o ralo da evasão.

 

2. O Desafio do Vestibular: Metas e Sustentabilidade de Caixa

    Julho também traz consigo o peso de um dos maiores desafios operacionais do período: o vestibular de meio de ano. Em um mercado educacional altamente competitivo e volátil, a captação de novos estudantes neste ciclo é vital para a oxigenação do fluxo de caixa e para a manutenção da sustentabilidade financeira da mantenedora.

    Rever as metas de captação agora exige realismo. Não se trata apenas de atrair alunos por meio de campanhas de marketing agressivas, mas de garantir que o Custo de Aquisição de Aluno (CAC) seja compensado por uma entrega acadêmica robusta, capaz de assegurar a permanência desse estudante desde o primeiro dia de aula.

 

3. O Treino Oculto para o "Mata-Mata": ENADE, ENAMED, CFC e OAB

    Se o primeiro semestre funciona como uma fase de grupos, onde há alguma margem para ajustes, o segundo semestre é o "mata-mata" definitivo do Ensino Superior. É o período em que as instituições enfrentam as avaliações mais rigorosas e de maior impacto para a reputação e sustentabilidade do negócio:

  • O ENADE e o ENAMED: Avaliações de larga escala que definem os conceitos dos cursos e os indicadores de qualidade da IES perante o MEC e o mercado.
  • Os Exames do CFC e da OAB: Os verdadeiros termômetros de empregabilidade real, onde o sucesso do formando chancela publicamente a qualidade técnica da instituição.

    O mata-mata não perdoa equipes mal preparadas. Um desempenho fraco nesses exames rebaixa os índices institucionais da IES, comprometendo o poder de atratividade comercial para os ciclos seguintes. É por isso que julho carrega pedras: é o período em que a comissão técnica coordenação e direção desenha os simulados, estrutura os nivelamentos e garante que o corpo docente entre em sala, em agosto, focado nas competências críticas que serão cobradas no campo de jogo.

 

4. Acadêmico e Financeiro: O Diálogo Franco que Quebra Silos

    O maior obstáculo para a eficiência de uma IES é a histórica queda de braço entre o setor pedagógico e a controladoria financeira. Enquanto um lado é acusado de focar apenas em custos, o outro é visto como idealista e desconectado da realidade do caixa. No Mundo BANI, essa divisão é fatal.

    Carregar pedra em julho exige que os projetos sejam retirados da gaveta e levados à mesa. É tempo de promover um diálogo aberto, franco e transparente entre o Diretor Acadêmico e o CFO.

  • O Acadêmico precisa entender as restrições e metas orçamentárias que garantem a saúde do negócio.
  • O Financeiro precisa compreender que o investimento na qualidade pedagógica, no aprimoramento docente e na preparação para os exames nacionais é o maior escudo contra a evasão de receita.

    Quando esses dois mundos convergem sob uma mesma governança, os silos se quebram. O planejamento deixa de ser uma peça de ficção e passa a ser um plano tático unificado.

 

5. O Checklist de Julho: O Trabalho Pesado da Gestão

    Para garantir que a transição para o segundo semestre seja bem-sucedida, a alta liderança deve auditar quatro pontos focais nesta pausa de julho:

 

Dimensão Estratégica

Ação Crítica de Julho (As Pedras da Gestão)

Pessoas (Professores e Coordenação)

Realinhamento de carga horária e capacitação para os exames nacionais (ENADE/CFC/OAB).

Processos (Secretaria e Atendimento)

Correção dos gargalos apontados na Avaliação Institucional no primeiro semestre.

Finanças (Controladoria)

Recalibração do orçamento do 2º semestre com base nos resultados de captação do vestibular atual.

Pedagógico (Currículo Vivo)

Ajuste imediato da aplicabilidade prática das ementas para elevar o engajamento do aluno.

Conclusão

    O sucesso no mata-mata do segundo semestre não será decidido no dia das provas ou no início das aulas em agosto; ele está sendo decidido agora, no silêncio estratégico e no trabalho pesado das salas de reunião de julho. Como gestores e líderes, nosso papel é garantir que cada engrenagem da instituição esteja lubrificada, alinhada e pronta para o jogo.

    Não há espaço para improvisos ou complacência. Afinal, como sempre fazemos questão de lembrar na nossa rotina de gestão:

“Só dá bom resultado aquilo que foi previamente bem-preparado.”

    Se a sua mantenedora precisa de um diagnóstico cirúrgico de governança para cruzar os dados da Avaliação Institucional com a eficiência do fluxo de caixa e preparar a equipe para os desafios regulatórios do mata-mata que se aproxima, mande uma mensagem no privado. Vamos desenhar juntos esse plano de voo para o segundo semestre.

   


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Da Copa do Mundo à Sala de Aula: Planejamento Estratégico contra a Evasão nas IES

 

 

    A história das Copas do Mundo de Futebol é um dos maiores laboratórios de estratégia e gestão do planeta. Nela, uma lição se repete a cada quatro anos de forma implacável: o talento isolado e o peso da camisa não são garantias de vitória.

    Se no futebol o apego a um esquema tático outrora vencedor pode eliminar uma seleção favorita ainda na fase de grupos, na gestão das Instituições de Ensino Superior (IES) o apego a matrizes curriculares rígidas e a monólitos de quatro ou cinco anos tem produzido um colapso silencioso e doloroso: a evasão precoce de alunos e o desperdício de recursos.

    A frustração de parar no meio do caminho é uma dor compartilhada. Para o estudante, representa um projeto de vida interrompido. Para a instituição, uma falha crítica de planejamento estratégico e de sustentabilidade financeira.

 

1. A Maldição do Campeão: Complacência e Obsolescência Tática

    Analise as Copas recentes e você notará um fenômeno intrigante: seleções campeãs do mundo foram eliminadas precocemente na edição seguinte: a França, em 2002; a Itália, em 2010; a Espanha, em 2014; e a Alemanha, em 2018.

    O que aconteceu com esses gigantes? Complacência. Mantiveram os jogadores, a mesma estrutura, a mesma leitura de jogo e ignoraram que os adversários haviam evoluído e aprendido a neutralizá-los.

    No Ensino Superior, muitas instituições sofrem da mesma maldição. Escoradas em marcas consolidadas e em avaliações passadas, ignoram que o mercado, o adversário, mudou as regras do jogo com o avanço do mundo BANI e da inteligência artificial. Continuar entregando ementas estáticas, esperando o resultado do passado, é repetir o roteiro dos campeões eliminados ainda na primeira rodada.

 

2. A Leitura de Jogo: Sinais que Antecipam o Futuro

    Na minha prática de gestão, carrego uma máxima que considero norteadora: “ouvir com atenção, com a intenção de entender a intenção de quem está falando”.

    Transposto para a liderança institucional, o princípio é simples: a IES precisa ler os sinais do mercado e da sociedade com a mesma atenção que dedicaria a uma pessoa, não como ruído de fundo, mas como mensagem.

    E os sinais hoje são claros. A inteligência artificial generativa encurtou o tempo entre aprender uma habilidade e ela se tornar obsoleta. A busca por formações de curta duração e por microcredenciais cresce ano a ano, enquanto cursos presenciais de longa duração perdem terreno. O estudante quer empregabilidade imediata, e não apenas um diploma ao final de um ciclo de quatro anos.

    O gestor que não lê esses sinais perde a capacidade de antecipação. O planejamento de uma IES precisa deixar de ser um documento estático, arquivado uma vez por ano, e passar a operar como um plano de jogo vivo, capaz de ler o campo e ajustar as linhas em tempo real.

 

3. A Perda de Recursos e o Custo do “Quase”

    No futebol profissional, uma eliminação precoce destrói investimentos milionários em patrocínio, logística e preparação. Na controladoria educacional, a mecânica é a mesma, mas o sangramento é contínuo, mês a mês.

    Cada aluno que evade, seja no primeiro, no segundo, no terceiro ou no quarto semestre, representa uma perda financeira para o fluxo de caixa da mantenedora. O custo de aquisição de aluno (CAC) já foi pago integralmente no esforço do vestibular.

    Quando esse estudante desiste na metade da jornada porque a matriz não entrega valor prático e flexível, a instituição perde o valor do tempo de vida do aluno (LTV) e ainda assume a ociosidade da estrutura que ficou reservada para recebê-lo.

    A falta de aprimoramento contínuo e de laboratórios práticos faz o aluno perder o envolvimento. Ele sente que está treinando para uma modalidade que já deixou de existir lá fora. O resultado é frustração, desengajamento e desperdício de recursos: captação alta, retenção baixa.

 

4. O Legado Intergeracional: Sabedoria Clássica e Novas Ferramentas

    Toda equipe campeã combina dois elementos: a leitura de jogo de uma comissão técnica experiente e a velocidade de execução de atletas em plena forma. Na evasão, muitas vezes o que se rompe é exatamente essa combinação.

    Outra máxima se impõe aqui: “se o velho pudesse e o jovem soubesse, não haveria algo que não se fizesse”. No ecossistema educacional, o "velho" é o nosso acúmulo de conhecimento estrutural, os fundamentos científicos intocáveis e a senioridade do corpo docente, ou seja, a comissão técnica que sabe como se vence um campeonato. O "jovem" é o estudante: tem energia, velocidade de absorção e domínio nativo das ferramentas digitais e de IA, mas ainda carece de direcionamento de longo prazo e de profundidade analítica.

    O segredo da governança moderna é construir essa ponte: trabalhar a matriz pedagógica para que o conhecimento consolidado da docência seja estruturado e traduzido na linguagem e nas ferramentas que o jovem já domina. Quando a fundamentação clássica da mentoria docente se alia à capacidade de execução tecnológica do aluno, damos a ele a bússola e as ferramentas certas para enfrentar as intempéries do mercado. Teoria e prática, experiência e inovação, não se anulam; multiplicam-se.

 

Conclusão

 

    A evasão não é uma força invisível do mercado. É reflexo das nossas escolhas táticas e da nossa capacidade de escuta.

    As instituições que sobreviverão e prosperarão nesta nova era são as que tiverem a sensibilidade de ler os sinais do presente para decifrar o futuro e a inteligência de integrar gerações e ferramentas em um plano coerente.

    Não podemos permitir que alunos e recursos fiquem pelo meio do caminho, seja no primeiro, seja no quarto semestre. É hora de reescrever o plano de jogo, envolver a comunidade e liderar a governança com a precisão de um técnico campeão do mundo.

    Afinal, só existe bom resultado onde houve, antes, boa preparação.

 

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro