segunda-feira, 22 de junho de 2026

Da Copa do Mundo à Sala de Aula: Planejamento Estratégico contra a Evasão nas IES

 

 

    A história das Copas do Mundo de Futebol é um dos maiores laboratórios de estratégia e gestão do planeta. Nela, uma lição se repete a cada quatro anos de forma implacável: o talento isolado e o peso da camisa não são garantias de vitória.

    Se no futebol o apego a um esquema tático outrora vencedor pode eliminar uma seleção favorita ainda na fase de grupos, na gestão das Instituições de Ensino Superior (IES) o apego a matrizes curriculares rígidas e a monólitos de quatro ou cinco anos tem produzido um colapso silencioso e doloroso: a evasão precoce de alunos e o desperdício de recursos.

    A frustração de parar no meio do caminho é uma dor compartilhada. Para o estudante, representa um projeto de vida interrompido. Para a instituição, uma falha crítica de planejamento estratégico e de sustentabilidade financeira.

 

1. A Maldição do Campeão: Complacência e Obsolescência Tática

    Analise as Copas recentes e você notará um fenômeno intrigante: seleções campeãs do mundo foram eliminadas precocemente na edição seguinte: a França, em 2002; a Itália, em 2010; a Espanha, em 2014; e a Alemanha, em 2018.

    O que aconteceu com esses gigantes? Complacência. Mantiveram os jogadores, a mesma estrutura, a mesma leitura de jogo e ignoraram que os adversários haviam evoluído e aprendido a neutralizá-los.

    No Ensino Superior, muitas instituições sofrem da mesma maldição. Escoradas em marcas consolidadas e em avaliações passadas, ignoram que o mercado, o adversário, mudou as regras do jogo com o avanço do mundo BANI e da inteligência artificial. Continuar entregando ementas estáticas, esperando o resultado do passado, é repetir o roteiro dos campeões eliminados ainda na primeira rodada.

 

2. A Leitura de Jogo: Sinais que Antecipam o Futuro

    Na minha prática de gestão, carrego uma máxima que considero norteadora: “ouvir com atenção, com a intenção de entender a intenção de quem está falando”.

    Transposto para a liderança institucional, o princípio é simples: a IES precisa ler os sinais do mercado e da sociedade com a mesma atenção que dedicaria a uma pessoa, não como ruído de fundo, mas como mensagem.

    E os sinais hoje são claros. A inteligência artificial generativa encurtou o tempo entre aprender uma habilidade e ela se tornar obsoleta. A busca por formações de curta duração e por microcredenciais cresce ano a ano, enquanto cursos presenciais de longa duração perdem terreno. O estudante quer empregabilidade imediata, e não apenas um diploma ao final de um ciclo de quatro anos.

    O gestor que não lê esses sinais perde a capacidade de antecipação. O planejamento de uma IES precisa deixar de ser um documento estático, arquivado uma vez por ano, e passar a operar como um plano de jogo vivo, capaz de ler o campo e ajustar as linhas em tempo real.

 

3. A Perda de Recursos e o Custo do “Quase”

    No futebol profissional, uma eliminação precoce destrói investimentos milionários em patrocínio, logística e preparação. Na controladoria educacional, a mecânica é a mesma, mas o sangramento é contínuo, mês a mês.

    Cada aluno que evade, seja no primeiro, no segundo, no terceiro ou no quarto semestre, representa uma perda financeira para o fluxo de caixa da mantenedora. O custo de aquisição de aluno (CAC) já foi pago integralmente no esforço do vestibular.

    Quando esse estudante desiste na metade da jornada porque a matriz não entrega valor prático e flexível, a instituição perde o valor do tempo de vida do aluno (LTV) e ainda assume a ociosidade da estrutura que ficou reservada para recebê-lo.

    A falta de aprimoramento contínuo e de laboratórios práticos faz o aluno perder o envolvimento. Ele sente que está treinando para uma modalidade que já deixou de existir lá fora. O resultado é frustração, desengajamento e desperdício de recursos: captação alta, retenção baixa.

 

4. O Legado Intergeracional: Sabedoria Clássica e Novas Ferramentas

    Toda equipe campeã combina dois elementos: a leitura de jogo de uma comissão técnica experiente e a velocidade de execução de atletas em plena forma. Na evasão, muitas vezes o que se rompe é exatamente essa combinação.

    Outra máxima se impõe aqui: “se o velho pudesse e o jovem soubesse, não haveria algo que não se fizesse”. No ecossistema educacional, o "velho" é o nosso acúmulo de conhecimento estrutural, os fundamentos científicos intocáveis e a senioridade do corpo docente, ou seja, a comissão técnica que sabe como se vence um campeonato. O "jovem" é o estudante: tem energia, velocidade de absorção e domínio nativo das ferramentas digitais e de IA, mas ainda carece de direcionamento de longo prazo e de profundidade analítica.

    O segredo da governança moderna é construir essa ponte: trabalhar a matriz pedagógica para que o conhecimento consolidado da docência seja estruturado e traduzido na linguagem e nas ferramentas que o jovem já domina. Quando a fundamentação clássica da mentoria docente se alia à capacidade de execução tecnológica do aluno, damos a ele a bússola e as ferramentas certas para enfrentar as intempéries do mercado. Teoria e prática, experiência e inovação, não se anulam; multiplicam-se.

 

Conclusão

 

    A evasão não é uma força invisível do mercado. É reflexo das nossas escolhas táticas e da nossa capacidade de escuta.

    As instituições que sobreviverão e prosperarão nesta nova era são as que tiverem a sensibilidade de ler os sinais do presente para decifrar o futuro e a inteligência de integrar gerações e ferramentas em um plano coerente.

    Não podemos permitir que alunos e recursos fiquem pelo meio do caminho, seja no primeiro, seja no quarto semestre. É hora de reescrever o plano de jogo, envolver a comunidade e liderar a governança com a precisão de um técnico campeão do mundo.

    Afinal, só existe bom resultado onde houve, antes, boa preparação.

 

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro