terça-feira, 14 de abril de 2026

A Inteligência Financeira por trás da Retenção: A Integração entre o Acadêmico e o Financeiro

    

     A gestão desempenha um papel fundamental na continuidade e sustentabilidade das Instituições de Ensino Superior (IES). Para que essa engrenagem funcione plenamente, não podem existir “ilhas”. É impossível separar o Acadêmico do Financeiro; ambos possuem pesos e medidas que devem ser analisados estrategicamente, transformando o operacional de cada setor em uma força única de trabalho.       

     Como Diretor Financeiro, aprendi que a evasão é um sintoma doloroso. Existem bastidores complexos para garantir que o aluno se apaixone pela instituição e pelo curso que escolheu. Sob as óticas financeira e econômica, a conta mais cara não é a folha de pagamento ou a infraestrutura; é a cadeira vazia. Se o aluno não percebe o retorno sobre o investimento (ROI) do seu tempo e dinheiro, ele racionalmente corta gastos. É uma decisão financeira baseada na percepção de valor.

 
    Como bem disse Peter Drucker, o pai da administração moderna: a qualidade de um produto ou serviço não é o que o fornecedor coloca nele. É o que o cliente obtém dele e pelo que está disposto a pagar.

    Dados do Semesp demonstram que perdemos até 30% dos alunos logo no primeiro ano. O fluxo de caixa sangra ao suportar um Custo de Aquisição (CAC) elevado, visto que o retorno financeiro de um estudante geralmente só ocorre a partir do segundo ou terceiro ano de curso. Evadir cedo significa consolidar um prejuízo que pode perdurar por todo o ciclo da graduação. 

    No ensino presencial, a cadeira vazia representa o maior prejuízo operacional de uma IES. Ela simboliza um marketing que funcionou, mas uma entrega que falhou. Monitorar a frequência e o engajamento físico via Inteligência Artificial não é controle de portaria é gestão de ativos. O aluno não é um boleto a ser quitado mensalmente; ele é o ativo intelectual mais precioso da instituição. 

    Nesse sentido, não podemos gerir a instituição olhando apenas pelo retrovisor, onde enxergamos apenas a  e a evasão que já se consolidaram. Precisamos focar no para-brisa, utilizando ferramentas preditivas para antecipar comportamentos e mitigar riscos antes que a possível evasão se torne um prejuízo definitivo no caixa. É neste ponto que a IA deixa de ser apenas “tecnologia” e torna-se proteção de receita. 

    A evasão nunca acontece no dia em que o aluno procura a secretaria para trancar a matrícula; ele começa a dar sinais muito antes. Professores e coordenadores devem estar atentos ao desengajamento silencioso. O sinal de alerta mais forte costuma ser a inatividade no acesso ao portal (normalmente entre 5 a 7 dias). Outro alerta crítico no presencial é a mudança no padrão de assiduidade: o aluno que era presente e começa a faltar em dias determinados, ou deixa de frequentar a biblioteca, ainda que virtual.

    O papel do CFO moderno não é apenas contar o dinheiro que entra, mas garantir que a entrega pedagógica seja tão valiosa que o aluno sinta que está perdendo um grande ativo se decidir sair. A inovação é o maior seguro contra a insolvência.
    Por isso, afirmo: Financeiro e Acadêmico devem ser um só grupo. O professor deve estar atento para entender por que o aluno está faltando. O TI pode monitorar o tempo de acesso ao portal, enquanto o Financeiro orienta o Coordenador sobre atrasos nas mensalidades. Tudo isso deve ser investigado de forma sutil e acolhedora, antes que o vínculo se quebre.
    Quando trabalhamos com o “saber resolver”, o aluno tende a permanecer até o final. Ele fica porque sente que está se tornando competente para enfrentar o mercado. Quando o aluno aprende a resolver problemas reais, ele enxerga valor imediato na mensalidade. O conhecimento deixa de ser um “gasto passivo” e vira um “investimento ativo”.
    Enquanto o Brasil discute “cortes de gastos”, líderes globais na Finlândia e em Singapura discutem “investimentos em competências”. Eles entenderam a lógica mais simples da nossa gestão: aluno satisfeito e preparado é aluno adimplente. A cadeira vazia é o custo mais alto de uma instituição, mas a solução
não está no setor de cobrança, e sim na integração estratégica
. Na sua IES, o Financeiro e o Acadêmico jogam no mesmo time ou ainda vivem em ilhas isoladas?

 

Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

sábado, 11 de abril de 2026

O dilema do ensino superior privado de capital aberto no Brasil

   


    O relatório "Hoper Analisa – 4º Trimestre de 2025" avaliou os resultados das principais empresas de educação de capital aberto no Brasil: Afya, Ânima, Cogna, Cruzeiro do Sul, Ser Educacional, Vitru e YDUQS. O documento revela que o setor entrou em uma nova fase, priorizando rentabilidade, geração de caixa e disciplina operacional, em vez do crescimento acelerado e descontrolado da base de alunos. A vertical de saúde, especialmente Medicina, consolidou-se como o principal motor de valor, com tickets elevados e baixa evasão.

    Atualmente, o ensino superior privado com capital aberto passa por um movimento de reconfiguração do digital: após anos de expansão acelerada da EAD, as empresas passaram a priorizar ticket médio, qualidade e retenção. Empresas como Afya, Cogna e YDUQS apresentaram forte geração de caixa e desalavancagem, enquanto Ser Educacional e Cruzeiro do Sul avançaram na redução de dívidas. O setor tornou-se mais seletivo, orientado a valor e não apenas a volume.

    As empresas analisadas somam milhões de alunos: Cogna tem cerca de 1,55 milhão de estudantes; YDUQS, 1,38 milhão; Vitru, 915 mil; Cruzeiro do Sul, 572 mil; Ânima, 360 mil; Ser Educacional, 343,5 mil; e Afya, 303,6 mil usuários em seu ecossistema. No total, apenas essas sete companhias atendem a aproximadamente 5,4 milhões de alunos no ensino superior privado brasileiro, a maior parte na modalidade EAD e semipresencial.

    A melhora do ensino superior privado é fundamental para o país porque forma a maior parte dos profissionais que ingressam no mercado de trabalho brasileiro. Com mais eficiência, qualidade e foco em empregabilidade, essas instituições podem reduzir a evasão, ampliar a formação técnica e contribuir para o desenvolvimento econômico e social. Investir em inovação, infraestrutura e integração com o mercado de trabalho é o caminho para transformar o lucro em legado educacional.

Referência

PAYVA, Thiago. HoperAnalisa: resultados das empresas de educação – 4º trimestre de 2025. Foz do Iguaçu: Hoper Educação, 2026. 27 p.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária /Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

   

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Do “Saber fazer” ao “Saber Resolver”: O diploma é uma licença não o destino final

     

     Conforme mencionado no artigo anterior, sobre o saber fazer e o saber resolver, vamos expor alguns pontos importantes. Procurei estudar mais afundo sobre o tema. Vivo diariamente em um equilíbrio constante: de um lado a precisão dos números; de outro, a complexidade do desenvolvimento humano. Foi publicado pelo IPEA¹ (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), um dado que demonstra uma métrica alarmante para esse balanço: 38% dos trabalhadores com ensino superior no Brasil ocupam cargos que não exigem graduação. Na qualidade de gestor e educador, a pergunta que faço não é apenas “onde está o emprego”? , mas sim: “por que o mercado não está absorvendo e reconhecendo o valor desses diplomas”. Eu acredito que a resposta reside na enfermidade pedagógica que ainda prioriza o “modelo pronto” em vez da capacidade de resolução.

    Por décadas, o ensino superior focou no SABER FAZER. Formamos excelentes operadores de ferramentas e seguidores de manuais. No entanto, em 2026, a inteligência Artificial já faz essas tarefas com eficiência e rapidez. Referência: IPEA. Boletim de Mercado de Trabalho: Conjuntura e Análise. Brasília: Ipea, 2024. (Seção: "Sobre educação e Descompasso Educacional no Brasil"). As Instituições de Ensino, estão desalinhadas com as necessidades mercadológicas. O mercado hoje não busca apenas quem carregue uma “caixa de ferramentas” (teorias); busca quem saiba o que construir com elas. Saber fazer é uma etapa operacional; saber resolver é o diferencial estratégico que o mundo corporativo exige.

    Em minha vivência como professor universitário, percebo uma dualidade clara na percepção de aprendizagem dos alunos, muitas vezes derivada de suas bases escolares. Estudantes com base em escolas particulares, tendem a chegar nas IES com uma mentalidade mais próxima do “solucionador”. Foram estimulados ao debate, ao improviso e a buscar saídas diante de problemas abertos. Estudantes com base em escolas públicas, em muitos casos, chegam com a concepção de que o aprendizado depende estritamente de um modelo pronto. Buscam o “passo a passo” para se sentirem seguros. É preciso ser enfático; e dizer que não me refiro a condições financeiras, mas sim a uma arquitetura mental de aprendizado. O sistema público, muitas vezes engessado por currículos massificados, condiciona o jovem a ser um excelente “seguidor de processos”, enquanto o mercado exige “criadores de soluções” a Universidade deve ser o grande equalizador, desmamando” o aluno da dependência de modelos para torná-lo profissional autônomo e proativo.

    Fui buscar informações, para saber se tem países que já superaram essa fase do saber fazer para o saber resolver. Na busca encontrei dois países que hoje são referências nesse novo modelo. A Finlândia e o Phenomenon – Based Learning (aprendizado baseado em Fenômenos): o conhecimento não é fragmentado em “gavetas” de disciplinas. O aluno estuda um fenômeno real e precisa integrar contabilidade, lógica e ética para propor uma solução. O resultado? Profissionais com alta capacidade de aprendizado autodirigido. Singapura e o Ensino aplicado; por meio do programa Skills future, as IES co-desenham o currículo pedagógico com as indústrias. O aluno acumula micro credenciais práticas. O recém-formado chega ao mercado de trabalho com segurança de quem não trava diante da ambiguidade.

    Em minha visão para sanar o desperdício de talentos no Brasil, as IES precisam de novos protocolos: Aprendizado baseado em problemas (ABP) Aprendizagem Baseado em problemas: o erro deve ser visto como laboratório não como falha. IA como Copiloto Estratégico: Delegar o trabalho “braçal” à tecnologia para avaliar o aluno pela sua capacidade de análise crítica e critério de resolução. Precisamos ser honestos com nossos alunos: o diploma nos dá uma licença para trabalhar, uma autorização formal para entrar no jogo. No entanto, a autoridade profissional e o conhecimento real são conquistados na prática e no aprendizado contínuo. Essa “licença” precisa estar conectada ao mundo real. Uma Universidade que não simula o “caos” do mercado entrega apenas um papel, não uma carreira. O diploma é o ponto de partida, mas a capacidade de resolução é o que define quem realmente permanece no jogo e transforma realidade.

 

Referência: IPEA. Boletim de Mercado de Trabalho: Conjuntura e Análise. Brasília: Ipea, 2024. (Seção: "Sobre educação e Descompasso Educacional no Brasil"). 

 

Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 


 

terça-feira, 7 de abril de 2026

A elite acadêmica brasileira é pública

     


Com base na imagem que consolida os principais rankings universitários (THE, World University Rankings, Scimago e RUF Folha), fica evidente a ampla dominação das instituições públicas entre as melhores universidades do Brasil. A Universidade de São Paulo (USP) ocupa o primeiro lugar em todos os quatro rankings, confirmando sua liderança absoluta. 

    A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aparece consistentemente entre as duas primeiras posições, enquanto a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) figura no topo três em todas as listas. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) também mantêm posições de destaque, figurando entre as cinco melhores. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) alcança o terceiro lugar no ranking THE, e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) aparece repetidamente entre a sétima e oitava colocações. Universidades como Unifesp, UnB e UFPR também figuram sistematicamente entre as dez primeiras. 

    A única exceção à hegemonia pública no topo é a PUC-Rio, que aparece em quinto lugar em dois rankings. No geral, mais de 80% das instituições entre as dez melhores de cada levantamento são públicas. Esse cenário demonstra que, apesar das dificuldades orçamentárias e estruturais, as universidades públicas brasileiras seguem dominando a excelência acadêmica e científica no país.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP 

 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Uma nova lei para o ensino básico no país: devemos ter esperança?

 


    A nova lei publicada no “Diário Oficial da União” em 26 de março de 2026 estabelece requisitos mínimos obrigatórios para as escolas públicas da Educação Básica. Entre as exigências estão número adequado de alunos por turma, biblioteca, laboratórios de ciências e informática com acesso à internet, quadra poliesportiva coberta, cozinha, refeitório, banheiros, acessibilidade e serviços essenciais como energia elétrica, água tratada e esgotamento sanitário.

 


    Apesar da determinação legal, a realidade ainda está distante do ideal. Dados do Painel de Estatísticas da Educação Básica de 2025 mostram que apenas 52% das 178.766 escolas brasileiras possuem biblioteca ou sala de leitura, 2,7% ainda não contam com banheiro, somente 11% têm laboratório de ciências e apenas 28,3% dispõem de laboratório de informática. As quadras de esportes estão presentes em 38,7% das unidades.



    O Brasil conta com cerca de 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo que a rede pública atende a grande maioria dos estudantes — aproximadamente 80% — enquanto a rede privada responde pelos 20% restantes. Essa distribuição revela a enorme responsabilidade do poder público na garantia de condições mínimas de ensino para a maior parte da população.

    Investir na estrutura da educação básica é fundamental para qualificar o ensino superior, pois forma a base sobre a qual todo o conhecimento acadêmico será construído. Escolas bem equipadas e com condições adequadas formam estudantes mais preparados, reduzem a evasão e contribuem para um ciclo virtuoso de desenvolvimento educacional. Mais do que uma obrigação legal, garantir escolas públicas de qualidade é o caminho mais sólido para construir o futuro do país.

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária / Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP