Um artigo publicado na Folha de S.Paulo, intitulado “A universidade como a conhecemos vai acabar (e isso é uma boa notícia)”, escrito na seção Tendências/Debates, provoca uma reflexão profunda sobre o futuro do ensino superior. O texto argumenta que o modelo atual, baseado em aulas expositivas, semestres rígidos e avaliações de memorização, está obsoleto perante uma geração nascida na era da inteligência artificial. A proposta é radical: substituir a transmissão passiva de conteúdo por experiências imersivas, mentoria personalizada e validação prática de competências, com a IA atuando como um assistente educacional sofisticado e auditável.
Essa visão não é isolada. Internacionalmente, instituições pioneiras já estão desenhando campi como laboratórios vivos. A Universidade de Tecnologia e Design de Singapura (SUTD) elimina departamentos tradicionais e organiza o currículo em torno de grandes desafios interdisciplinares, com forte uso de simulações e prototipagem. Na Europa, a Universidade de Eindhoven (Países Baixos) aboliu quase totalmente as aulas tradicionais, priorizando aprendizado baseado em problemas (PBL) e projetos para empresas reais. Nos EUA, a Minerva University, totalmente online e global, utiliza uma plataforma adaptativa de alta tecnologia para seminários socráticos ao vivo, deslocando o foco para o desenvolvimento de habilidades cognitivas críticas, enquanto os alunos vivenciam imersões culturais em diversos países.
No Brasil, embora a transformação seja desigual, surgem focos de inovação alinhados a essa tendência. O artigo cita o curso de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG), que superou medicina em disputa por vagas, indicando uma mudança no imaginário do prestígio acadêmico. Instituições como a USP, através de núcleos como o Nutera (Núcleo de Terapia Avançada), integem pesquisa de ponta, atendimento clínico e formação de forma prática. Iniciativas de microcredenciais, trilhas flexíveis e parcerias com o setor produtivo começam a ganhar espaço, sugerindo uma lenta, porém perceptível, reconfiguração do ecossistema universitário nacional.
O que esperar, então, para o futuro do ensino superior? A universidade não desaparecerá, mas se reconfigurará em um ecossistema híbrido e fluido. O presencial será valorizado não para a exposição de conteúdo, mas para a convivência, a criação colaborativa, a mentoria e a validação pública de competências em “bancas” reais. A IA será ubíqua, não como substituta do professor, mas como uma infraestrutura inteligente que libera o docente para funções mais complexas: designer de aprendizagem, curador de conhecimento e líder de projetos de impacto. O diploma estático cederá lugar a um portfólio dinâmico e verificável de competências. A questão final, como instiga o artigo da Folha, é de adaptação ou irrelevância: as instituições que insistirem no modelo industrial do século XX simplesmente sairão do horizonte de interesse das novas gerações. O futuro pertence à universidade-estúdio, à universidade-clínica, à universidade como arena pública de solução de problemas.
Por Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues

