terça-feira, 8 de setembro de 2026

Das Ilhas Isoladas às Pontes de Valor: A Curricularização da Extensão como Alavanca de Gestão, Regulação e Empregabilidade

 

"Nenhuma instituição é uma ilha, isolada em si mesma"

    A reflexão do poeta John Donne ecoa com força na gestão universitária contemporânea: a instituição que ainda se comporta como ilha isolada está colocando em risco sua relevância acadêmica, sua sustentabilidade financeira e sua capacidade de formar profissionais para um mercado em transformação acelerada. Durante décadas, muitas Instituições de Ensino Superior permaneceram fechadas em seus próprios muros, cercadas por demandas reais do setor produtivo que não atendiam e sufocadas por exigências do MEC que insistiam em enxergar apenas como burocracia punitiva.

    Em um cenário de incertezas financeiras, avanço veloz da Inteligência Artificial e profundas transformações socioeconômicas, tratar o arcabouço regulatório do MEC como simples fardo cartorial é abrir mão de uma alavanca legítima de reputação, expansão e sobrevivência institucional. A regulação, quando compreendida estrategicamente, deixa de ser ameaça e passa a ser vantagem competitiva.

    Para que essa engrenagem gire com saúde financeira e excelência pedagógica, precisamos alinhar três forças que historicamente dialogam pouco: o MEC, a IES e as empresas. O instrumento legal para essa virada já existe e tem nome: a Curricularização da Extensão.

·           Não como relatório formal para arquivar em pasta de avaliação;   mas como uma matriz curricular enxuta e proativa, conectada à vocação produtiva local; capaz de inserir o aluno no mercado de trabalho já nos primeiros meses de curso, aliviando o orçamento familiar e garantindo sua permanência em sala de aula.

    A sua instituição ainda opera como uma ilha cercada por relatórios burocráticos ou já construiu a ponte que une o órgão regulador, o setor produtivo e a sala de aula?

 

    O poeta e pensador britânico John Donne escreveu em 1624 que "nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme". Quatro séculos depois, essa máxima tornou-se um alerta direto à governança do Ensino Superior no Brasil: IES que permanecem isoladas podem até sobreviver por algum tempo, mas dificilmente serão protagonistas em um mercado educacional pressionado por evasão, tecnologia, concorrência e cobrança por resultados concretos.

    Peter Drucker, o pai da administração moderna, alertava: “O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência em si, mas agir com a lógica de ontem”. Para as IES, continuar tratando a regulação educacional como mero entrave cartorial é exatamente isso: usar a lógica de ontem para enfrentar um ambiente que já mudou de forma irreversível.

    O arcabouço normativo do Ministério da Educação (MEC) não deve ser visto como uma barreira punitiva, mas como uma oportunidade de estruturação e crescimento sustentável. Quando conduzida com inteligência de negócios e rigor pedagógico, a conformidade regulatória deixa de ser obrigação defensiva e se transforma em instrumento de autoridade acadêmica, reputação de mercado, proteção patrimonial e diferenciação competitiva.

 

1. A Visão Integrada: Rigor Regulatório a Serviço da Sustentabilidade

    Para responder aos parâmetros do MEC com excelência, a alta liderança precisa derrubar as paredes entre o financeiro e o acadêmico. O cumprimento das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e dos instrumentos de avaliação institucional exige planejamento orçamentário prévio e foco em entregas concretas:

  • Fim do Cumprimento Fictício: Preencher relatórios para visitas in loco sem transformar a prática pedagógica gera custo sem gerar retorno. O rigor regulatório precisa se refletir na qualificação do corpo docente, na infraestrutura dos laboratórios e na entrega de valor ao estudante.
  • Sustentabilidade pelo Reconhecimento: Conceitos institucionais elevados no MEC (CI e IGC) e notas de excelência no Enade/IDD não são vaidades acadêmicas; são ativos intangíveis que barateiam o Custo de Aquisição de Alunos (CAC), fortalecem a atratividade do campus e legitimam a precificação da mensalidade.

2. Matriz Curricular Enxuta e Empregabilidade no Primeiro Ano

    O estudante universitário brasileiro — predominantemente o trabalhador que estuda no período noturno — não pode esperar quatro ou cinco anos para colher os primeiros frutos da sua graduação. Ele precisa que a faculdade gere impacto financeiro imediato em sua vida:

  • Desenho Curricular Proativo: Matrizes curriculares infladas e excessivamente teóricas geram fadiga, sobrecarga de custos para a mantenedora e abandono precoce. A matriz moderna deve ser enxuta, prática e articulada com as competências demandadas pelas empresas locais. 

·            Empregabilidade como Escudo contra a Evasão: Quando o estudante adquire habilidades operacionais logo no primeiro semestre, seja em ferramentas de análise de dados, rotinas contábeis, suporte técnico ou processos assistenciais básicos, ele aumenta suas chances de conseguir um emprego melhor ou uma promoção. Esse incremento salarial alivia o orçamento doméstico e assegura a pontualidade no pagamento da mensalidade, blindando o fluxo de caixa da instituição.

 

3. O Elo Tripartite: Curricularização da Extensão, MEC e Setor Produtivo

    A exigência de destinar, no mínimo, 10% da carga horária curricular para atividades de extensão universitária é frequentemente tratada pelas coordenações como um desafio logístico inglório. Trata-se, na verdade, da maior janela de oportunidade estratégica das últimas décadas.

    A extensão é a ponte concreta entre a teoria acadêmica e a resolução de problemas reais da comunidade e do empresariado regional. Quando bem desenhada, ela deixa de ser agenda periférica e passa a ocupar o centro da estratégia institucional:

  • Criação de Valor Compartilhado (Shared Value): Como teorizou Michael Porter, a prosperidade de uma organização está intimamente conectada à saúde do ecossistema que a rodeia. A extensão curricularizada permite que estudantes e professores desenvolvam diagnósticos orçamentários, consultorias para micro e pequenas empresas, automações tecnológicas, projetos agropecuários e campanhas de saúde preventiva diretamente dentro do tecido comunitário.
  • A Mesa de Convergência (MEC, IES e Empresas): É urgente sentar-se à mesa com as lideranças empresariais e os formuladores de políticas públicas para desenhar incentivos mútuos. Empresas que abrem suas portas para projetos de extensão devem receber mão de obra qualificada e soluções inovadoras; a IES ganha campos reais de aprendizagem para seus alunos; e o MEC cumpre seu papel de fomentar uma formação humanística, técnica e cidadã.

·            Navegando a Incerteza Global e a IA: Em um momento de transformações abruptas, impulsionadas pela inteligência artificial generativa, essa articulação tripartite atua como um mecanismo orgânico de autorregulação. O currículo deixa de ser estático e passa a se atualizar dinamicamente, no ritmo em que os desafios tecnológicos e econômicos emergem no mercado de trabalho.

 

4. Da Ilha ao Continente: O Protagonismo no Desenvolvimento Regional

    IES que permanecem fechadas em seus próprios muros podem até emitir diplomas, mas dificilmente formarão profissionais relevantes para um mercado em transformação acelerada. Já as instituições integradas ao seu território tornam-se polos de atração de investimentos, incubadoras de talentos e referências em desenvolvimento regional e nacional.

    Ao harmonizar a responsabilidade regulatória perante o MEC com uma arquitetura curricular ágil e o diálogo permanente com o setor empresarial, a instituição de ensino rompe seu isolamento. Ela deixa de ser uma mera prestadora de serviços educacionais para se tornar um catalisador de mobilidade social e solidez econômica.

“A instituição que encara a regulação apenas como fardo burocrático escolhe permanecer isolada como uma ilha. A que transforma essa exigência em compromisso de qualidade, ponte com a comunidade e estratégia de empregabilidade constrói uma solidez que nenhuma incerteza de mercado consegue derrubar.”

 

Espaço de Diálogo

Na sua instituição, os 10% de curricularização da extensão já funcionam como ponte direta com o setor produtivo local ou ainda são geridos apenas como cumprimento burocrático de relatórios para o MEC? A mantenedora e as lideranças empresariais da sua região já se sentaram à mesma mesa para alinhar currículo, empregabilidade e desenvolvimento regional?

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

 

domingo, 30 de agosto de 2026

“Ver o Que Nos Une e Não o Que Nos Separa”: O “Zigue-Zague” entre as Exigências do MEC, a Realidade do Aluno e o Caixa da Mantenedora

 

 

    Ao convocar o Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII imortalizou uma das diretrizes mais lúcidas de liderança e convergência: “Vamos ver o que nos une e não o que nos separa”. No ecossistema do Ensino Superior brasileiro, poucas reflexões são tão urgentes e necessárias. Historicamente, muitas instituições construíram barreiras invisíveis entre dois pilares indissociáveis: a governança acadêmica e a sustentabilidade econômico-financeira da mantenedora.

    Quando as dificuldades de caixa se misturam aos desafios pedagógicos sem uma visão estratégica    unificada, a instituição perde tração. O acadêmico corre o risco de enxergar o financeiro como uma barreira fiscalizatória fria; o financeiro, por sua vez, tende a enxergar as demandas de infraestrutura e corpo docente apenas sob a ótica da despesa.

    Essa cisão enfraquece a IES. A decisão assertiva da alta gestão precisa fazer convergir, de forma concomitante, duas metas inegociáveis: a continuidade perene da missão educacional e a geração de recursos suficientes para honrar custos operacionais, cobrir despesas e bancar os investimentos estruturais da Mantenedora.

1. O “Zigue-Zague” do Ensino Superior: Entre o Rigor do MEC e a Urgência do Aluno

    Quem vivencia a rotina de uma faculdade reconhece que liderar uma IES no Brasil exige o fôlego de um guerreiro para navegar o constante zigue-zague do setor:

  • O Trabalho Árduo com as Exigências do MEC: Manter comissões próprias de avaliação ativas, estruturar matrizes aderentes às novas DCNs, cumprir os 10% de extensão curricular, obter conceitos de excelência no Enade e responder a processos de regulação e recredenciamento demandam esforço técnico contínuo e rigor documental diário da Pró-Reitoria e dos coordenadores.
  • A Luta do Aluno Trabalhador e o Orçamento Familiar: Na outra ponta desse zigue-zague está o protagonista da sala de aula brasileira: o estudante trabalhador. Ele necessita de uma formação ágil e aplicável, que aumente sua empregabilidade imediata. Conseguir uma promoção ou um novo emprego não é apenas uma vitória profissional; é a garantia de renda para ajudar nas despesas de casa e manter o pagamento das mensalidades em dia para seguir seus estudos até a colação de grau.

    O cumprimento das normas do MEC perde sentido se for puramente burocrático; ele precisa ser a garantia de que o aluno está sendo preparado para gerar valor econômico real em sua vida e em sua comunidade.

2. A Equação da Continuidade: O Fluxo de Caixa a Serviço da Formação

    Folha de pagamento qualificada, laboratórios modernos, equipamentos de tecnologia e conservação predial não se sustentam sem um fluxo de caixa rigorosamente planejado. Ao mesmo tempo, um caixa equilibrado só existe quando o produto acadêmico entrega valor percebido e retém o acadêmico.

    A verdadeira sustentabilidade nasce da complementaridade:

  • O Acadêmico como Alavanca de LTV: Matrizes conectadas ao mercado, extensão aplicada que resolve dores da região e uso instrumental de tecnologias tornam a faculdade indispensável para o aluno, blindando a matrícula contra a evasão e protegendo o Lifetime Value.
  • O Financeiro como Guardião da Infraestrutura: O controle rigoroso do capital de giro e o gerenciamento assertivo de custos e despesas não visam sufocar a pedagogia, mas assegurar recursos para que a Mantenedora invista em clínicas, fazendas experimentais, bibliotecas e ambientes de inovação.

3. A Visão Sistêmica: O Todo sem Exclusão de Cursos ou Estruturas

    A superação dos desafios institucionais exige abandonar a análise fragmentada de departamentos. Julgar cursos isoladamente como "lucrativos" ou "deficitários" ignora o ecossistema integrado que compõe uma instituição de ensino:

  • Interdependência dos Eixos do Saber: As Ciências da Saúde, Agrárias, Jurídicas, Exatas e de Negócios formam um mosaico de impacto socioeconômico regional. O reconhecimento social e a reputação construídos por uma área abrem portas comerciais para todas as outras.
  • Integração de Ponta a Ponta: Da portaria à tesouraria, da secretaria acadêmica ao suporte de TI, cada ponto de contato impacta diretamente a jornada do aluno. Uma falha de atendimento ou um processo burocrático engessado reflete imediatamente no desengajamento do estudante e na perda de receita da mantenedora.

    Encarar os desafios do Ensino Superior exige a resiliência do guerreiro para equilibrar o rigor regulatório do MEC com a dura realidade financeira do aluno trabalhador.

    Ao buscar o que une a paixão educacional à disciplina financeira, a instituição preserva seu propósito, garante a sustentabilidade da Mantenedora e cumpre sua missão maior: transformar o esforço diário do estudante em dignidade profissional e ascensão social.

    “Na gestão universitária, quem separa o rigor financeiro da missão acadêmica compromete o futuro da instituição. A continuidade da IES reside na capacidade de ver o que nos une, enfrentar o zigue-zague da realidade com a coragem do guerreiro e liderar o todo com equilíbrio, sustentabilidade e propósito.”

    Espaço de Diálogo

    Como a sua instituição equilibra o trabalho árduo das exigências do MEC com a necessidade de gerar empregabilidade rápida para o aluno trabalhador manter seus estudos? A Pró-Reitoria e a Mantenedoria têm operado como parceiras unificadas na gestão de custos, despesas e investimentos?

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A universidade que queremos versus a universidade que temos: o diagnóstico que não pode esperar

 


    O seminário "A USP Pensa a Universidade Brasileira", promovido pela Cátedra Paschoal Senise em agosto de 2026, colocou em evidência um debate essencial para o futuro do ensino superior no país. Reunindo pesquisadores, autoridades acadêmicas e especialistas, o encontro partiu de quatro perguntas fundamentais: qual universidade queremos, qual é possível, qual é necessária e qual é o seu papel no futuro? A vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci lembrou que a quinta revolução tecnológica coloca o ser humano e a sociedade no centro, e que as universidades têm a "obrigação de reduzir diferenças sociais e criar conhecimento para eliminar a pobreza através da excelência".

    Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, construída a partir de diagnósticos como o apresentado no seminário, traria benefícios concretos. O pró-reitor de Pós-Graduação, Carlos Eduardo Ambrósio, revelou que a USP renovou um terço de seu quadro docente (cerca de 1.400 novos professores) e atingiu 81% de excelência em seus programas de pós-graduação (notas 6 e 7 da Capes). No entanto, Luiz Roberto Liza Curi, titular da Cátedra, alertou para um descompasso grave: o Brasil é o 13º produtor de pesquisa qualificada no mundo desde 2002, mas convive com currículos de graduação defasados, alguns datados dos anos 1970, enquanto a inteligência artificial avança rapidamente. Uma política de estado que articule avaliação, financiamento e renovação curricular poderia transformar esse cenário.

    As faculdades brasileiras precisam abordar urgentemente a desarticulação entre ensino, pesquisa e extensão, apontada por Curi como um dos principais entraves. O seminário mostrou que a regulação atual avalia de forma idêntica grandes universidades federais e faculdades isoladas, sem considerar suas especificidades e impactos regionais. O caminho apontado é o de uma modernização do sistema avaliativo, transformando-o de instrumento burocrático em indutor do desenvolvimento — como defendeu o próprio Curi. Modelos que associam ensino ao desenvolvimento da nação, integrando inteligência artificial, pesquisa e formação acadêmica, foram discutidos na primeira mesa-redonda, com participação de representantes da UFPE, Unifesp, Unicamp e Insper.

    A solução exige uma agenda coordenada entre universidades, agências de fomento (como Inep, Finep e Capes) e o próprio MEC. O seminário apontou a necessidade de discutir limites da regulação na perspectiva da autonomia, prioridades no financiamento estudantil e políticas curriculares que integrem graduação, pós-graduação e extensão. Como bem sintetizou a vice-reitora da USP, o papel das universidades é formar "pessoas e dirigentes capazes de fazerem decisões sábias para toda a sociedade". Mais do que uma reforma administrativa, trata-se de um projeto de nação — que exige coragem para desengessar regimentos, enfrentar o descolamento entre pesquisa e ensino, e colocar a universidade brasileira no centro do desenvolvimento humano, econômico e cultural do país.

 

Referência

 
JORNAL DA USP. Impacto da educação superior no desenvolvimento do País pauta encontro de pesquisadores. São Paulo, 27 ago. 2026. 

 


Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP