terça-feira, 15 de setembro de 2026

Da Ilha do Conformismo ao Valor Compartilhado: Por que a sua IES Precisa de Michael Porter

 

    Há um ditado popular muito repetido no interior que resume uma armadilha perigosa para qualquer gestor: "Quem nasceu para tostão não chega a milhão". No ecossistema de gestão educacional, essa máxima expõe a cultura da acomodação, a falsa segurança do "sempre foi feito assim" e a crença limitante de que o teto de uma faculdade já está pré-determinado por seu histórico ou porte regional.

    Instituições e lideranças que permaneceram presas a essa mentalidade descobriram que a tradição, sozinha, não assegura relevância nem sustentabilidade. A experiência de um gestor não se mede apenas pelos anos acumulados no calendário, mas pela capacidade de interpretar mudanças, testar respostas e transformar evidências em decisões.

    Uma IES não é um feudo isolado da sociedade; ela é parte viva e pulsante do arranjo socioeconômico em que está inserida. Nenhuma IES prospera no longo prazo se a cidade ao seu redor estiver empobrecida, se o comércio local estiver sufocado e se as empresas da região não encontrarem profissionais capacitados para gerar produtividade. Da mesma forma, o município estagna se a instituição de ensino insistir em operar como uma "ilha isolada", emitindo diplomas puramente teóricos e sem utilidade prática imediata para o mercado.

    A tese deste artigo é direta: uma IES regional amplia sua sustentabilidade quando deixa de tratar a comunidade apenas como destinatária de ações sociais e passa a integrá-la à própria estratégia acadêmica e econômica. Nesse modelo, empregabilidade, desenvolvimento territorial, retenção estudantil e saúde financeira deixam de ser objetivos separados e passam a formar um mesmo sistema de geração de valor.

 

As 5 Forças de Porter Traduzidas para Quem Não É Administrador

 

    Muitos reitores, pró-reitores e coordenadores vêm de áreas como Direito, Saúde, Educação ou Engenharias e podem perceber a literatura de administração como um vocabulário distante. No entanto, Michael Porter, professor da Harvard Business School e uma das principais referências mundiais em estratégia, formulou o modelo das Cinco Forças Competitivas. Aplicado ao ensino superior, ele ajuda a compreender cinco pressões que afetam o caixa e a sustentabilidade de uma faculdade:

  • 1. A guerra predatória de mensalidades (Rivalidade no setor): A proliferação desordenada de polos e a concorrência baseada em guerra de preços, transformando o valor do curso superior em disputa de centavos.
  • 2. O risco de se tornar dispensável (Produtos substitutos): Cursos livres, microcertificações e bootcamps do mercado de tecnologia que prometem colocar o jovem no mercado de trabalho em poucos meses sem exigir os quatro anos de uma graduação tradicional.
  • 3. A urgência do aluno trabalhador (Poder de barganha do cliente): O estudante de hoje não tem orçamento sobrando nem tempo a perder com teorias descoladas da vida real. Se a faculdade não o ajudar a melhorar de renda no curto prazo, ele evade por sobrevivência econômica.
  • 4. A invasão dos conglomerados (Ameaça de novos entrantes): Grandes grupos educacionais de escala nacional e plataformas digitais agressivas disputando a atenção e a matrícula do aluno dentro do território da sua instituição regional.
  • 5. O custo inegociável da modernização (Pressão de fornecedores e regulação): A dependência contínua de plataformas, novos sistemas de gestão, ferramentas de inteligência artificial e os custos estruturais para atender com rigor às exigências do MEC.

    As Cinco Forças ajudam a diagnosticar onde a pressão competitiva se concentra; a Criação de Valor Compartilhado orienta como responder a essas pressões por meio de soluções que fortalecem simultaneamente a instituição e o território. O primeiro modelo revela as ameaças. O segundo transforma capacidades acadêmicas em diferenciação sustentável.

    Diante dessas cinco pressões simultâneas, uma IES que tenta se defender apenas reduzindo mensalidades ou cortando despesas essenciais compromete sua capacidade de diferenciação. A rota de saída exige abandonar a postura reativa, construir uma vantagem competitiva coerente e conectar essa estratégia ao princípio da Criação de Valor Compartilhado, formulado por Michael Porter e Mark Kramer.

 

A Distinção Cirúrgica: Filantropia Tradicional vs. Valor Compartilhado

 

    O grande equívoco da governança universitária tem sido tratar a relação com a comunidade como mera filantropia ou obrigação compensatória. Porter e Mark Kramer estabeleceram uma fronteira nítida entre fazer caridade e gerar valor econômico sustentável:

Dimensão

Responsabilidade Social / Filantropia

Criação de Valor Compartilhado (Porter)

Motivação Central

Cumprir tabela, caridade compensatória ou marketing de imagem.

Gerar valor econômico mútuo resolvendo dores estruturais do território.

Relação com o Caixa

Vista como custo descartável. Quando o orçamento aperta, é a primeira a ser cortada.

Investimento no core business. Alavanca direta de atração, retenção dos discentes

Na Extensão Universitária

Ação assistencial de sábado para juntar fotos e "bater a meta burocrática do MEC".

Estudantes utilizando ferramentas e IA instrumental para sanear a gestão de empresas locais.

Impacto no Aluno

Cansaço burocrático; a empresa local segue frágil e o aluno segue desempregado.

Empregabilidade precoce: o comércio cresce, contrata o estudante e a faculdade retém a matrícula.

 

As Três Vias de Porter Aplicadas à Gestão da IES

 

    A criação de valor compartilhado proposta por Porter se materializa por três vias operacionais:

  • 1. Fortalecimento do Ecossistema Local (O Cluster):

    Nenhuma organização sobrevive em um ambiente desértico. A IES precisa abandonar a postura de mera vendedora de horas-aula e assumir o papel de âncora do desenvolvimento regional. Seja na agropecuária, no comércio ou nos serviços, a IES deve tornar-se um polo de inteligência aplicada e automação, inclusive por meio da IA instrumental, isto é, do uso prático da inteligência artificial para analisar dados, automatizar rotinas e apoiar decisões que modernizem a cadeia produtiva local.

  • 2. Redefinição da Produtividade na Cadeia de Valor:

    O aluno trabalhador participa da cadeia econômica do município durante o dia e frequenta as aulas à noite. Ao capacitá-lo com ferramentas de IA instrumental desde o primeiro ano, a IES pode elevar sua produtividade e ampliar suas possibilidades de progressão profissional. Quando esse ganho é percebido pelo empregador e convertido em melhores oportunidades de renda, aumenta também a capacidade do estudante de permanecer no curso e manter seus compromissos financeiros.

  • 3. Reconcepção do Currículo (O Currículo Vivo):

    As maiores oportunidades de diferenciação não estão em defender matrizes engessadas do passado, mas em responder com agilidade às dores não atendidas da economia real. Matrizes flexíveis, com microcertificações progressivas voltadas para automação de rotinas, diagnóstico financeiro e consultoria prática, traduzem a formação acadêmica em renda palpável.

 

A Curricularização da Extensão com IA: Alavanca de Permanência, Receita e Sustentabilidade

 

    A exigência de destinar 10% da carga horária para a extensão universitária revela quem lidera com a lógica do passado e quem constrói valor institucional de longo prazo. O modelo burocrático gera pastas e relatórios para fiscalização do MEC, com ações assistenciais isoladas e sem impacto duradouro.

    O modelo de valor compartilhado pode transformar esses 10% em laboratórios de consultoria aplicada: estudantes de Administração, Contabilidade, Direito ou Tecnologia utilizam IA instrumental para elaborar diagnósticos de fluxo de caixa, precificação, minutas padronizadas ou estruturação de estoque para microempresários da região. Quando há acompanhamento, metas e avaliação de resultados, a iniciativa pode fortalecer as empresas atendidas, ampliar a experiência profissional dos estudantes, contribuir para a permanência discente e gerar evidências de impacto acadêmico e social.

    Para que essa proposta não permaneça apenas no campo do discurso, a IES precisa acompanhar indicadores de resultado. Entre eles estão o número de empresas atendidas, a melhoria de produtividade ou receita dos negócios parceiros, a inserção profissional dos estudantes, a redução da evasão, a regularidade financeira e a incorporação dos aprendizados ao currículo. Valor compartilhado exige impacto demonstrável para a comunidade e retorno estratégico mensurável para a instituição.

    Em síntese, a lógica de Porter permite afirmar que sustentabilidade não consiste apenas em destinar excedentes à filantropia. Ela nasce quando a organização mobiliza sua inteligência para enfrentar problemas reais da comunidade e, ao fortalecer esse ecossistema, amplia também sua receita, sua relevância e suas condições de futuro.

    A sustentabilidade universitária exige integrar o rigor financeiro da mantenedora à entrega prática da Pró-reitoria. Para sair do conformismo, a liderança da IES precisa transformar extensão, currículo e tecnologia em um sistema único de desenvolvimento regional, empregabilidade e retenção. A pergunta decisiva já não é se a instituição pode fazer isso, mas por quanto tempo ainda poderá adiar essa transformação.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Das Ilhas Isoladas às Pontes de Valor: A Curricularização da Extensão como Alavanca de Gestão, Regulação e Empregabilidade

 

"Nenhuma instituição é uma ilha, isolada em si mesma"

    A reflexão do poeta John Donne ecoa com força na gestão universitária contemporânea: a instituição que ainda se comporta como ilha isolada está colocando em risco sua relevância acadêmica, sua sustentabilidade financeira e sua capacidade de formar profissionais para um mercado em transformação acelerada. Durante décadas, muitas Instituições de Ensino Superior permaneceram fechadas em seus próprios muros, cercadas por demandas reais do setor produtivo que não atendiam e sufocadas por exigências do MEC que insistiam em enxergar apenas como burocracia punitiva.

    Em um cenário de incertezas financeiras, avanço veloz da Inteligência Artificial e profundas transformações socioeconômicas, tratar o arcabouço regulatório do MEC como simples fardo cartorial é abrir mão de uma alavanca legítima de reputação, expansão e sobrevivência institucional. A regulação, quando compreendida estrategicamente, deixa de ser ameaça e passa a ser vantagem competitiva.

    Para que essa engrenagem gire com saúde financeira e excelência pedagógica, precisamos alinhar três forças que historicamente dialogam pouco: o MEC, a IES e as empresas. O instrumento legal para essa virada já existe e tem nome: a Curricularização da Extensão.

·           Não como relatório formal para arquivar em pasta de avaliação;   mas como uma matriz curricular enxuta e proativa, conectada à vocação produtiva local; capaz de inserir o aluno no mercado de trabalho já nos primeiros meses de curso, aliviando o orçamento familiar e garantindo sua permanência em sala de aula.

    A sua instituição ainda opera como uma ilha cercada por relatórios burocráticos ou já construiu a ponte que une o órgão regulador, o setor produtivo e a sala de aula?

 

    O poeta e pensador britânico John Donne escreveu em 1624 que "nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme". Quatro séculos depois, essa máxima tornou-se um alerta direto à governança do Ensino Superior no Brasil: IES que permanecem isoladas podem até sobreviver por algum tempo, mas dificilmente serão protagonistas em um mercado educacional pressionado por evasão, tecnologia, concorrência e cobrança por resultados concretos.

    Peter Drucker, o pai da administração moderna, alertava: “O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência em si, mas agir com a lógica de ontem”. Para as IES, continuar tratando a regulação educacional como mero entrave cartorial é exatamente isso: usar a lógica de ontem para enfrentar um ambiente que já mudou de forma irreversível.

    O arcabouço normativo do Ministério da Educação (MEC) não deve ser visto como uma barreira punitiva, mas como uma oportunidade de estruturação e crescimento sustentável. Quando conduzida com inteligência de negócios e rigor pedagógico, a conformidade regulatória deixa de ser obrigação defensiva e se transforma em instrumento de autoridade acadêmica, reputação de mercado, proteção patrimonial e diferenciação competitiva.

 

1. A Visão Integrada: Rigor Regulatório a Serviço da Sustentabilidade

    Para responder aos parâmetros do MEC com excelência, a alta liderança precisa derrubar as paredes entre o financeiro e o acadêmico. O cumprimento das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e dos instrumentos de avaliação institucional exige planejamento orçamentário prévio e foco em entregas concretas:

  • Fim do Cumprimento Fictício: Preencher relatórios para visitas in loco sem transformar a prática pedagógica gera custo sem gerar retorno. O rigor regulatório precisa se refletir na qualificação do corpo docente, na infraestrutura dos laboratórios e na entrega de valor ao estudante.
  • Sustentabilidade pelo Reconhecimento: Conceitos institucionais elevados no MEC (CI e IGC) e notas de excelência no Enade/IDD não são vaidades acadêmicas; são ativos intangíveis que barateiam o Custo de Aquisição de Alunos (CAC), fortalecem a atratividade do campus e legitimam a precificação da mensalidade.

2. Matriz Curricular Enxuta e Empregabilidade no Primeiro Ano

    O estudante universitário brasileiro — predominantemente o trabalhador que estuda no período noturno — não pode esperar quatro ou cinco anos para colher os primeiros frutos da sua graduação. Ele precisa que a faculdade gere impacto financeiro imediato em sua vida:

  • Desenho Curricular Proativo: Matrizes curriculares infladas e excessivamente teóricas geram fadiga, sobrecarga de custos para a mantenedora e abandono precoce. A matriz moderna deve ser enxuta, prática e articulada com as competências demandadas pelas empresas locais. 

·            Empregabilidade como Escudo contra a Evasão: Quando o estudante adquire habilidades operacionais logo no primeiro semestre, seja em ferramentas de análise de dados, rotinas contábeis, suporte técnico ou processos assistenciais básicos, ele aumenta suas chances de conseguir um emprego melhor ou uma promoção. Esse incremento salarial alivia o orçamento doméstico e assegura a pontualidade no pagamento da mensalidade, blindando o fluxo de caixa da instituição.

 

3. O Elo Tripartite: Curricularização da Extensão, MEC e Setor Produtivo

    A exigência de destinar, no mínimo, 10% da carga horária curricular para atividades de extensão universitária é frequentemente tratada pelas coordenações como um desafio logístico inglório. Trata-se, na verdade, da maior janela de oportunidade estratégica das últimas décadas.

    A extensão é a ponte concreta entre a teoria acadêmica e a resolução de problemas reais da comunidade e do empresariado regional. Quando bem desenhada, ela deixa de ser agenda periférica e passa a ocupar o centro da estratégia institucional:

  • Criação de Valor Compartilhado (Shared Value): Como teorizou Michael Porter, a prosperidade de uma organização está intimamente conectada à saúde do ecossistema que a rodeia. A extensão curricularizada permite que estudantes e professores desenvolvam diagnósticos orçamentários, consultorias para micro e pequenas empresas, automações tecnológicas, projetos agropecuários e campanhas de saúde preventiva diretamente dentro do tecido comunitário.
  • A Mesa de Convergência (MEC, IES e Empresas): É urgente sentar-se à mesa com as lideranças empresariais e os formuladores de políticas públicas para desenhar incentivos mútuos. Empresas que abrem suas portas para projetos de extensão devem receber mão de obra qualificada e soluções inovadoras; a IES ganha campos reais de aprendizagem para seus alunos; e o MEC cumpre seu papel de fomentar uma formação humanística, técnica e cidadã.

·            Navegando a Incerteza Global e a IA: Em um momento de transformações abruptas, impulsionadas pela inteligência artificial generativa, essa articulação tripartite atua como um mecanismo orgânico de autorregulação. O currículo deixa de ser estático e passa a se atualizar dinamicamente, no ritmo em que os desafios tecnológicos e econômicos emergem no mercado de trabalho.

 

4. Da Ilha ao Continente: O Protagonismo no Desenvolvimento Regional

    IES que permanecem fechadas em seus próprios muros podem até emitir diplomas, mas dificilmente formarão profissionais relevantes para um mercado em transformação acelerada. Já as instituições integradas ao seu território tornam-se polos de atração de investimentos, incubadoras de talentos e referências em desenvolvimento regional e nacional.

    Ao harmonizar a responsabilidade regulatória perante o MEC com uma arquitetura curricular ágil e o diálogo permanente com o setor empresarial, a instituição de ensino rompe seu isolamento. Ela deixa de ser uma mera prestadora de serviços educacionais para se tornar um catalisador de mobilidade social e solidez econômica.

“A instituição que encara a regulação apenas como fardo burocrático escolhe permanecer isolada como uma ilha. A que transforma essa exigência em compromisso de qualidade, ponte com a comunidade e estratégia de empregabilidade constrói uma solidez que nenhuma incerteza de mercado consegue derrubar.”

 

Espaço de Diálogo

Na sua instituição, os 10% de curricularização da extensão já funcionam como ponte direta com o setor produtivo local ou ainda são geridos apenas como cumprimento burocrático de relatórios para o MEC? A mantenedora e as lideranças empresariais da sua região já se sentaram à mesma mesa para alinhar currículo, empregabilidade e desenvolvimento regional?

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro