segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Da Datilografia à Inteligência Artificial: a nova régua avaliativa do Ensino Superior

 

“Quem não domina a ferramenta, vira ferramenta de quem domina”

 

    Nas décadas de 1980 e 1990, dominar a datilografia e os primeiros softwares de computador deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico de empregabilidade. Quem ignorou essa transição perdeu espaço nas rotinas produtivas. Hoje, a Inteligência Artificial Generativa coloca o Ensino Superior diante de uma encruzilhada semelhante: continuar tratando a tecnologia como ameaça ou incorporá-la como competência acadêmica, profissional e institucional.

    Para docentes, reitores, pró-reitores, coordenadores e acadêmicos, a questão central já não é se a Inteligência Artificial chegou à educação. Ela já chegou. Segundo pesquisa do Instituto Semesp, cerca de 75% dos professores entrevistados reconhecem a tecnologia e a IA como aliadas no processo de aprendizagem. Portanto, o desafio deixou de ser apenas impedir o uso inadequado da ferramenta e passou a ser formar estudantes capazes de utilizá-la com ética, criticidade, produtividade e responsabilidade acadêmica.

    Os números revelam uma mudança importante: a IA já não é hipótese distante nem simples ameaça disciplinar. Ela se tornou uma realidade acadêmica, profissional e institucional. Por isso, o debate mais relevante não está em proibir ou liberar o uso da tecnologia, mas em definir como ensinar, como orientar e como avaliar estudantes em um contexto no qual o acesso às ferramentas inteligentes será cada vez mais comum.

 

O que os dados mostram

Número-chave

Leitura estratégica

Rede de Ensino Superior no Brasil

2.580 IES

A transformação precisa alcançar escala nacional.

Matrículas no Ensino Superior

mais de 9 milhões

Milhões de estudantes já serão impactados pela IA na formação e no trabalho.

Professores favoráveis ao uso da tecnologia e da IA

cerca de 75%

A resistência absoluta já não representa a maioria do debate docente.

Diretrizes institucionais sobre IA

ainda em consolidação

Oportunidade para IES liderarem boas práticas avaliativas.

 

    A prova tradicional, centrada na memorização e na repetição de conceitos, perde força quando sistemas de IA conseguem responder rapidamente a questões teóricas. A nova régua avaliativa precisa medir julgamento, curadoria, ética, argumentação, validação de dados e capacidade de resolver problemas reais. Isso exige uma construção conjunta entre MEC, Instituições de Ensino Superior e Setor Produtivo.

    Não se trata de substituir o professor pela tecnologia, mas de reposicionar o papel docente: de fiscal do uso da IA para orientador estratégico da aprendizagem. O docente passa a ser ainda mais necessário, porque cabe a ele ensinar o estudante a perguntar melhor, comparar respostas, identificar vieses, checar fontes, tomar decisões e aplicar conhecimento em situações concretas.

    Para as IES, esse movimento também é estratégico. Uma instituição que incorpora a IA de forma responsável fortalece a empregabilidade dos estudantes, amplia a conexão com o mercado, reduz o distanciamento entre teoria e prática e cria diferenciais competitivos em um cenário de forte disputa por retenção, relevância e qualidade acadêmica.

    Assim como a datilografia e os computadores redefiniram o mercado em décadas passadas, o domínio crítico da Inteligência Artificial representa uma nova fronteira da formação superior. O valor do Ensino Superior não estará em competir com a máquina na memorização, mas em formar pessoas capazes de interpretar, decidir, criar e liderar no mundo real.

Para reflexão e debate:

1. A sua instituição ainda avalia principalmente a memorização ou já mede a capacidade de decisão dos estudantes na era da IA?

2. O uso da IA deve ser tratado como risco acadêmico, competência profissional ou ambos?

3. Como docentes, reitores, pró-reitores e acadêmicos podem construir juntos uma avaliação mais conectada ao mundo do trabalho?

 

Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

sábado, 22 de agosto de 2026

O mapa da excelência: por que o Brasil precisa (urgentemente) de uma política de qualidade baseada em dados globais

 


    A 16ª edição do QS World University Rankings by Subject avaliou mais de 21 mil programas acadêmicos em 1.900 instituições de 100 países, consolidando-se como um dos mais abrangentes termômetros da qualidade do ensino superior global. O relatório revela movimentos estratégicos: enquanto a América do Norte ainda lidera em número de cursos ranqueados, a Ásia Meridional (com 40% de disciplinas em alta) e a Oceania (37%) ganham terreno aceleradamente. Para o Brasil, esses dados não são apenas estatísticas – são um espelho das lacunas que precisam ser preenchidas com urgência.

    Uma política nacional de qualidade para o ensino superior, ancorada em indicadores internacionais como os da QS, traria benefícios concretos: primeiro, permitiria que as universidades brasileiras identificassem com precisão suas forças e fraquezas em relação aos padrões globais, especialmente nas áreas de maior crescimento, como Ciência de Dados e Inteligência Artificial – que registram o maior número de novas entradas no ranking. Segundo, estimularia a competição saudável entre instituições, elevando o patamar médio da formação oferecida. Por fim, ampliaria a visibilidade internacional da ciência brasileira, atraindo parcerias e investimentos estrangeiros.

    O relatório mostra que áreas como Engenharia e Tecnologia (+1.150 movimentos ascendentes) e Ciências da Vida e Medicina (+1.210) são as que mais progrediram globalmente – justamente os campos em que o Brasil tem carência crítica de profissionais qualificados. Isso evidencia que a formação prática dos alunos, aliada à pesquisa aplicada, é o diferencial competitivo das melhores universidades. Instituições que conseguem integrar laboratórios, estágios e projetos reais ao currículo formam egressos mais preparados para o mercado, como demonstram os casos de sucesso do Tecnológico de Monterrey (México) e das universidades comunitárias brasileiras.

    A solução passa por uma agenda coordenada entre MEC, Capes e as próprias universidades: criação de um sistema nacional de monitoramento baseado nos critérios da QS (reputação acadêmica, citações por artigo, empregabilidade dos egressos); incentivo à internacionalização dos currículos e à formação de redes de pesquisa com instituições de países emergentes que estão subindo no ranking; e, principalmente, vinculação de recursos do Fies e do Prouni ao desempenho institucional em rankings globais e nacionais, como forma de induzir a melhoria contínua. O Brasil tem ciência de qualidade, mas precisa de uma política de estado que transforme excelência isolada em sistema nacional de alta performance – antes que a lacuna para as nações que sobem no ranking se torne um abismo intransponível.

 

Referência:

 
QS QUACQUARELLI SYMONDS. QS World University Rankings by Subject 2026: results. London, 25 mar. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Quem Não se Envolve, não se Desenvolve: a Curricularização da Extensão como Motor de Retenção e Impacto Regional

 


    A obrigatoriedade de destinar no mínimo 10% da carga horária curricular à extensão (Resolução CNE/CES nº 7/2018) colocou a governança das Instituições de Ensino Superior (IES) diante de duas abordagens opostas. De um lado, o cumprimento burocrático e protocolar, restrito a relatórios e ações pontuais sem continuidade. Do outro, a visão estratégica de mercado: transformar essa carga horária no maior vetor de diferenciação competitiva, retenção discente e geração de autoridade regional.

    A premissa é simples, mas decisiva: quem não se envolve, não se desenvolve. A formação de qualidade não nasce apenas da exposição ao conteúdo, mas da capacidade de aplicar conhecimento em situações reais, com responsabilidade, orientação docente e compromisso com os resultados.

 

A Extensão Aplicada nos Cinco Eixos Estratégicos

 

    Quando a Pró-Reitoria Acadêmica e as Coordenações de Curso alinham os projetos extensionistas à matriz curricular, a Universidade passa a atuar como um centro integrado de soluções regionais:

  • Direito: Os Núcleos de Prática Jurídica (NPJ) deixam de atender apenas demandas simuladas e vão a campo estruturar câmaras de mediação comunitária, regularização fundiária urbana e rural, consultoria de governança para o Terceiro Setor e orientação de adequação à LGPD para micro e pequenas empresas locais. O acadêmico desenvolve argumentação e prática forense real desde os períodos iniciais.
  • Engenharia da Computação e Tecnologia: Os alunos transformam laboratórios em software houses acadêmicas. Desenvolvem sistemas de gestão sob medida para o comércio da região, criam aplicativos de atendimento ao cidadão para órgãos públicos, implementam sensores  para otimização de recursos no campo e prestam consultoria em segurança da informação.
  • Ciências da Saúde (Medicina, Enfermagem, Fisioterapia, Farmácia, Psicologia): A inserção precoce dos estudantes na atenção primária do SUS, em campanhas preventivas de saúde coletiva e em atendimentos especializados nas clínicas-escola desafoga as filas da rede municipal e antecipa o desenvolvimento do raciocínio clínico e da conduta ética.
  • Ciências Agrárias e Medicina Veterinária: Atuação direta nas propriedades rurais, agroindústrias e cooperativas da região. Os acadêmicos realizam análises de fertilidade de solo, manejo fitossanitário, suporte à agricultura de precisão, controle reprodutivo e programas de sanidade animal para médios e pequenos produtores.
  • Gestão, Negócios e Contabilidade: Por meio dos Núcleos de Apoio Contábil e Fiscal (NAF) e consultorias juniores, os alunos prestam suporte em planejamento tributário, gestão de custos, precificação e reestruturação financeira para empresas locais, gerando dados econômicos reais para o município. 
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Casos de Sucesso e Benchmarks Institucionais

 

    A estruturação da extensão orientada à resolução de problemas complexos fundamenta-se na metodologia internacional de Service-Learning (Aprendizagem-Serviço), amplamente consolidada por ecossistemas acadêmicos de referência:

  • O Modelo do Tecnológico de Monterrey (México): Por meio do modelo pedagógico Tec21, a instituição substituiu grande parte das aulas convencionais por desafios reais propostos por empresas e governos locais. O resultado foi um salto nos índices de empregabilidade dos egressos e uma atração recorde de investimentos corporativos para o campus.

·             Redes Comunitárias e Confessionais Brasileiras (PUCs e Universidades Comunitárias): Instituições que integram seus escritórios de prática jurídica, clínicas de saúde e núcleos de gestão à extensão comunitária permanente tendem a fortalecer o vínculo do estudante com o curso, ampliar a visibilidade institucional e melhorar sua percepção junto à comunidade e aos avaliadores externos.

·            Polos Regionais com o Programa NAF (Receita Federal): IES que mantêm o Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal ativo dentro da extensão curricular aproximam o estudante de demandas reais da área contábil, tributária e fiscal. Essa vivência melhora a empregabilidade, fortalece o repertório técnico e cria uma ponte objetiva entre sala de aula, comunidade e mercado.

 

O Impacto na Governança e na Sustentabilidade da Mantenedora

 

    Tratar a extensão com seriedade estratégica gera reflexos acadêmicos, institucionais e econômicos para a IES:

  • Blindagem Contra a Evasão (Churn): O estudante que assume a responsabilidade técnica sobre um projeto real com um cliente ou paciente desenvolve senso de utilidade imediata. Esse pertencimento extingue o sentimento de frustração que costuma gerar trancamentos de matrícula.
  • Redução do Custo de Aquisição de Alunos (CAC): A IES que presta serviços clínicos, jurídicos, veterinários, tecnológicos e contábeis de excelência ganha a melhor propaganda possível: a recomendação da própria comunidade, reduzindo a dependência de investimentos massivos em tráfego pago ou descontos predatórios.
  • Abertura de Receitas B2B e Convênios Públicos: Projetos de extensão consolidados credenciam a Universidade a captar recursos via emendas parlamentares, termos de cooperação técnica com prefeituras e contratos corporativos para capacitação in-company.

    A extensão universitária não deve ser vista como uma obrigação burocrática a ser cumprida no papel. Bem estruturada, ela é uma das pontes mais eficientes entre currículo, mundo do trabalho e desenvolvimento regional. É nesse encontro entre conhecimento, prática e responsabilidade social que a instituição mostra, de fato, o valor da formação que oferece.

“Quem não se envolve, não se desenvolve: o valor de uma Universidade não está no que ela retém dentro das quatro paredes da sala de aula, mas na capacidade dos seus alunos de transformarem o mundo real ao seu redor.”

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Menos mestrados, mais doutorados e a privatização silenciosa: qual o futuro da pós-graduação brasileira?

 


    O sistema de pós-graduação brasileiro está em plena transformação estrutural. Dados do Mapa do Ensino Superior 2026, do Instituto Semesp, revelam um movimento contraditório: o doutorado cresceu quase 16% no país, impulsionado principalmente pela rede privada (+34,6%), enquanto o mestrado sofreu retração de 15,6% nas universidades públicas. Ao mesmo tempo, a modalidade a distância avança na pós-graduação stricto sensu, já reunindo 28,4% dos mestrandos e 17,6% dos doutorandos. Esse cenário reacende o debate sobre modelos de formação e carreira acadêmica.

    A ampliação do doutorado direto — caminho que permite ao aluno pular o mestrado e ingressar diretamente no doutorado — é apontada como uma estratégia para reduzir o tempo de formação de pesquisadores. Como defende Sergio Lazzarini, do Insper, um estudante com consistente trajetória de iniciação científica pode estar preparado para o doutorado sem passar pelos dois anos de mestrado. Para Denise Pires de Carvalho, presidente da Capes, essa é uma tendência internacional que “faz sentido para estudantes que chegam ao fim da graduação já preparados para desenvolver pesquisa”. Reduzir o ciclo de formação de pesquisadores é essencial para ampliar a oferta de profissionais qualificados e tornar o sistema mais ágil.

    No entanto, a ênfase quase exclusiva na formação de pesquisadores revela uma lacuna preocupante: a pós-graduação brasileira forma predominantemente cientistas, mas negligenciar a preparação de professores para o ensino superior. Como bem observa Celso Capilongo, da PUC-SP, a procura por cursos de pós-graduação diminuiu após a pandemia — e um dos motivos pode ser o desestímulo gerado pelo formato híbrido ou virtual. Mas a questão de fundo é mais grave: muitos programas de mestrado e doutorado preparam seus alunos para a pesquisa, mas não para a docência universitária, que exige competências pedagógicas específicas.

    A solução passa por uma revisão ampla da formação superior brasileira, como sugere a própria presidente da Capes, mas com um olhar específico para a formação docente. Programas de pós-graduação deveriam incluir, como componente obrigatório, disciplinas de didática, metodologias ativas e gestão de sala de aula — especialmente em um cenário de expansão do EAD e de mudanças no perfil dos estudantes. Além disso, seria necessário repensar a duração dos cursos: no Brasil, o doutorado dura, em média, quatro anos, enquanto em outros países o ciclo é de três anos. Essa rigidez, combinada com a falta de preparação pedagógica, contribui para formar pesquisadores tecnicamente competentes, mas professores despreparados.

    Apesar da gravidade das transformações em curso, as mudanças nos programas de mestrado e doutorado são raramente debatidas com a profundidade que merecem. Discute-se a ampliação de vagas, o financiamento da Capes e o crescimento da rede privada, mas pouco se fala sobre o que se ensina e como se ensina na pós-graduação. O silêncio sobre a formação pedagógica dos futuros docentes é um sintoma de que o sistema ainda trata a pesquisa como fim último, e o ensino como subproduto. Enquanto não colocarmos a docência no centro do debate da pós-graduação, continuaremos a formar gerações de professores que sabem pesquisar, mas não sabem ensinar — e o Brasil continuará a ter uma educação superior de qualidade desigual.

 

Referência

 
VICTORINO, Adriana. Menos mestrados, mais doutorados e busca por faculdades privadas: o que mudou na pós-graduação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 29 jul. 2026. 

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues  
  Professor de Ciências Contábeis / Liderança em Educação Superior
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP