quarta-feira, 17 de junho de 2026

Educação Superior e Copa do Mundo 2026: o que as universidades podem aprender com o maior campeonato do planeta

 

    Enquanto milhões de pessoas acompanham a emoção da Copa do Mundo de 2026, uma reflexão interessante surge para gestores, professores e líderes acadêmicos: o que o maior evento esportivo do mundo pode ensinar às instituições de Ensino Superior?

    À primeira vista, futebol e educação parecem universos distintos. No entanto, ambos compartilham desafios semelhantes: preparação contínua, formação de talentos, trabalho em equipe, capacidade de inovação e busca por resultados sustentáveis.

    Em um cenário cada vez mais competitivo, as universidades que desejam crescer podem encontrar na lógica das grandes seleções uma importante inspiração para sua gestão.

 

Planejamento vence tradição

 

    Na Copa do Mundo, o peso da camisa já não garante vitórias. Seleções historicamente vencedoras já foram surpreendidas por equipes que investiram em planejamento, ciência do esporte e organização.

    No Ensino Superior, ocorre o mesmo fenômeno. Instituições que confiam apenas em sua história ou em seu prestígio correm o risco de perder espaço para organizações mais inovadoras, ágeis e conectadas às demandas da sociedade.

    Hoje, excelência acadêmica exige atualização permanente, investimentos em tecnologia, fortalecimento da pesquisa, qualificação docente e foco na experiência do estudante.

    A tradição continua sendo um patrimônio importante, mas é a capacidade de evoluir que mantém uma instituição competitiva.

 

 

Nenhuma equipe conquista títulos sozinha

 

    Uma seleção campeã é resultado do trabalho conjunto entre atletas, comissão técnica, analistas de desempenho, equipe médica, psicólogos e gestores.

    Nas universidades, o sucesso também depende da integração entre diferentes setores. Reitoria, coordenações, professores, equipes administrativas, tecnologia, marketing, comunicação e atendimento ao estudante precisam atuar de forma alinhada para alcançar objetivos institucionais.

    Quando cada área compreende seu papel e trabalha de maneira colaborativa, a instituição fortalece sua identidade e entrega mais qualidade aos alunos.

    A educação, assim como o futebol, é um esporte coletivo.

 

Quem domina os dados toma melhores decisões

 

    O futebol moderno é cada vez mais orientado por estatísticas. Distância percorrida, intensidade física, posicionamento tático e análise de adversários fazem parte da rotina das equipes de alto desempenho.

    No Ensino Superior, a gestão baseada em dados tornou-se igualmente indispensável.

    Indicadores como evasão, retenção, desempenho acadêmico, empregabilidade dos egressos, satisfação discente e resultados das avaliações externas fornecem informações estratégicas para orientar decisões mais assertivas.

    Instituições que utilizam inteligência analítica conseguem antecipar problemas, otimizar recursos e desenvolver políticas mais eficientes para permanência e sucesso dos estudantes.

 

O estudante é o protagonista da partida

 

    As grandes seleções investem no desenvolvimento integral de seus atletas, oferecendo suporte técnico, físico e emocional para potencializar resultados.

    Da mesma forma, as instituições de ensino precisam compreender que o estudante deve ocupar o centro de todas as decisões acadêmicas.

    Mais do que transmitir conteúdos, é necessário criar ambientes de aprendizagem acolhedores, utilizar metodologias ativas, promover acompanhamento individualizado e estimular competências que serão essenciais para o mercado de trabalho e para a vida em sociedade.

    Uma universidade forte é aquela que compreende que seu maior patrimônio são as pessoas que forma.

    A Copa do Mundo de 2026 nos lembra que vencer exige estratégia, preparação e adaptação constante. No Ensino Superior, essas mesmas características diferenciam as instituições que lideram daquelas que apenas sobrevivem.

    Porque, no fim das contas, tanto no futebol quanto na educação, o verdadeiro campeão é quem consegue preparar pessoas para superar desafios e alcançar resultados extraordinários.

 


Cristiane Procópio de Oliveira

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Bússola no Caos: O Diagnóstico BANI nas IES e a Reconciliação entre Teoria, Prática e Sustentabilidade Financeira

 

    Conduzir uma embarcação em mar aberto durante uma tempestade já é um desafio. Fazê-lo sem uma bússola torna o naufrágio apenas uma questão de tempo.

    Essa metáfora ajuda a compreender a realidade enfrentada atualmente por muitas Instituições de Ensino Superior (IES). Pressionadas por mudanças tecnológicas aceleradas, transformações no comportamento dos estudantes e desafios crescentes de sustentabilidade financeira, inúmeras instituições operam em um ambiente marcado pela incerteza e pela imprevisibilidade.

    A análise apresentada neste artigo resulta de uma correlação estratégica realizada pelo autor entre indicadores de evasão, comportamento e percepção divulgados pelo Instituto SEMESP e as características conceituais do modelo BANI (Brittle, Anxious, Nonlinear e Incomprehensible), proposto por Jamais Cascio. As interpretações aqui desenvolvidas representam uma análise autoral fundamentada nesses referenciais.

    Sob essa perspectiva, emerge um diagnóstico preocupante: fragilidade, ansiedade, não-linearidade e incompreensibilidade deixaram de ser fenômenos isolados e passaram a compor o cotidiano de gestores, professores e estudantes.

    Diante desse cenário, torna-se indispensável construir uma nova bússola institucional capaz de reconciliar teoria e prática, fortalecer a aprendizagem e promover a consistência financeira das organizações educacionais.

 

O Ensino Superior sob a Ótica do Mundo BANI

    O conceito BANI surgiu como uma evolução dos modelos tradicionais de análise de cenários. Enquanto o mundo VUCA procurava explicar ambientes voláteis e incertos, o modelo BANI descreve uma realidade ainda mais complexa, caracterizada pela fragilidade dos sistemas, pela ansiedade permanente, pela dinâmica não-linear dos acontecimentos e pela dificuldade crescente de compreender o excesso de informações disponíveis.

    Ao observar os indicadores divulgados pelo Instituto SEMESP sob essa lente, percebemos que os desafios enfrentados pelas IES vão além das questões pedagógicas. Trata-se de uma transformação estrutural que exige novas formas de liderança, gestão e desenvolvimento acadêmico.

 

F – Fragilidade: Quando o Conhecimento Parece Derreter

 

    A fragilidade manifesta-se tanto entre docentes quanto entre estudantes.

    Os professores convivem com a pressão constante de acompanhar mudanças tecnológicas, metodológicas e regulatórias cada vez mais frequentes. Os alunos, por sua vez, enfrentam a sensação de estarem construindo conhecimento sobre um terreno instável, questionando se aquilo que aprendem hoje continuará relevante diante da evolução da Inteligência Artificial e das transformações do mercado de trabalho.

    O antídoto para a fragilidade não é a rigidez, mas a profundidade.

    Como ensina Edgar Morin, devemos navegar em um oceano de incertezas por meio de arquipélagos de certezas. O papel da instituição é justamente oferecer esses arquipélagos: fundamentos sólidos, pensamento crítico, capacidade analítica e competências humanas que permanecem valiosas independentemente das mudanças tecnológicas.

 

A – Ansiedade: A Urgência de Conectar Teoria e Realidade

 

    Entre todos os fatores observados, a ansiedade talvez seja o mais preocupante.

    Vivemos uma época em que o conhecimento parece envelhecer rapidamente. Muitos estudantes carregam a sensação de que, ao concluírem sua formação, parte significativa do conteúdo aprendido já terá sido substituída por novas ferramentas, novas tecnologias ou novas exigências profissionais.

    Nesse contexto, ganha força uma máxima frequentemente repetida na gestão: a teoria dá certo na prática.

    A educação contemporânea não pode mais tratar teoria e prática como momentos distintos do processo formativo. Elas precisam coexistir desde o início da jornada acadêmica. Quando o estudante consegue aplicar imediatamente os conceitos aprendidos, a ansiedade diminui e surge a confiança decorrente da experiência vivida.

    Mais do que transmitir conteúdos, a instituição passa a desenvolver competências efetivamente utilizáveis em contextos reais.

 

N – Não-Linearidade: Preparar para o Inesperado

 

    Durante décadas, a evolução profissional seguiu trajetórias relativamente previsíveis. Hoje, essa lógica foi substituída por mudanças exponenciais, rupturas repentinas e transformações difíceis de antecipar. Embora os cenários mudem rapidamente, os fundamentos permanecem.

    Princípios científicos, raciocínio lógico, estruturas matemáticas, fundamentos éticos e metodologias consolidadas continuam sendo a base da construção do conhecimento. O desafio não está em preservar esses fundamentos, mas em ensinar os estudantes a aplicá-los em ambientes cada vez mais dinâmicos.

    A incorporação de estudos de caso, projetos integradores, simulações e desafios reais de mercado permite que os alunos compreendam que, mesmo diante de mudanças não-lineares, a capacidade de interpretar e decidir continua sendo seu principal diferencial.

 

I – Incompreensibilidade: Transformando Informação em Conhecimento

 

    Nunca tivemos acesso a tantos dados. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil compreender o que realmente importa.

    A abundância de informações gera sobrecarga cognitiva, dificulta a tomada de decisão e amplia a sensação de insegurança.

    Nesse cenário, o papel da educação superior vai muito além da transmissão de conteúdo. Sua missão passa a ser a construção de sentido. Informações isoladas possuem pouco valor. O diferencial está na capacidade de organizá-las, contextualizá-las e transformá-las em conhecimento aplicável.

    Assim como um médico não trata apenas sintomas, mas investiga suas causas, a formação acadêmica deve estimular a análise crítica, a investigação e a interpretação estruturada da realidade. É esse processo que transforma informação em inteligência para a tomada de decisão.

 

    O Nexo entre Aprendizagem e Sustentabilidade Financeira

 

    Frequentemente, as discussões acadêmicas e financeiras são conduzidas em compartimentos separados. Contudo, essa separação já não faz sentido. Instituições que conseguem integrar teoria e prática de forma consistente produzem benefícios simultâneos para alunos, professores e para a própria organização.

    No ambiente acadêmico, reduzem a ansiedade, fortalecem a percepção de valor da formação e ampliam o engajamento dos estudantes. Na gestão institucional, contribuem para reduzir a evasão, fortalecer a reputação da marca, aumentar a atratividade dos cursos e gerar maior previsibilidade financeira.

    A sustentabilidade econômica das IES não é consequência apenas de boas práticas administrativas. Ela também depende da capacidade de entregar experiências educacionais relevantes, atualizadas e conectadas às demandas do mundo contemporâneo.

 

Considerações Finais

 

    O diagnóstico BANI não deve ser visto apenas como uma ferramenta de interpretação do cenário atual. Ele pode servir como uma bússola estratégica para orientar decisões institucionais em um contexto de crescente complexidade.

    A verdadeira vantagem competitiva das Instituições de Ensino Superior não estará em possuir mais tecnologia do que seus concorrentes, mas em formar profissionais capazes de compreender, interpretar e aplicar o conhecimento de maneira crítica, ética e relevante.

    Em um mundo marcado pela fragilidade, ansiedade, não-linearidade e incompreensibilidade, a educação continua sendo o instrumento mais poderoso para transformar incerteza em direção.

 

Canal de Debate

 

    Como sua instituição tem enfrentado os desafios impostos pelo excesso de informações, pelas mudanças tecnológicas aceleradas e pela necessidade de aproximar teoria e prática? Os silos entre o pedagógico e o financeiro já estão preparados para construir essa bússola conjuntamente?

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O ensino superior está envelhecendo. Sua instituição está preparada para essa nova realidade?

 

O ensino superior está envelhecendo. Sua instituição está preparada para essa nova realidade?

Durante décadas, o ensino superior foi estruturado para um perfil bastante específico de estudante: jovem, recém-egresso do ensino médio, disponível para aulas presenciais e com poucas responsabilidades profissionais ou familiares. Essa realidade, porém, está mudando rapidamente.

O envelhecimento populacional e a crescente presença de estudantes chamados “não tradicionais” adultos, profissionais em atividade, pessoas em transição de carreira, pais e mães de família e indivíduos que retornam aos estudos após anos afastados estão redefinindo o papel das instituições de ensino superior. Essa tendência já é observada no Brasil e no mundo e deve se intensificar nos próximos anos. 

Quem são os estudantes não tradicionais?

O conceito de estudante não tradicional vai além da idade. Ele engloba pessoas com trajetórias acadêmicas interrompidas, trabalhadores em tempo integral, indivíduos que são os primeiros da família a ingressar na universidade, estudantes com responsabilidades familiares ou pertencentes a grupos historicamente sub-representados no ensino superior. 

Esses alunos chegam à universidade trazendo experiências profissionais e de vida que enriquecem o ambiente acadêmico, mas também apresentam necessidades diferentes daquelas para as quais muitas instituições foram originalmente planejadas.

A longevidade está transformando a educação

O aumento da expectativa de vida e a rápida transformação das profissões fazem com que aprender deixe de ser uma etapa restrita à juventude para se tornar um processo contínuo.

Cada vez mais profissionais retornam à universidade para atualizar competências, buscar uma nova graduação, especialização ou simplesmente reinventar suas carreiras diante das mudanças tecnológicas e do mercado de trabalho

 

 

O desafio das instituições de ensino

A questão que se impõe não é apenas como atrair esses estudantes, mas principalmente como garantir sua permanência e sucesso acadêmico. Instituições que pretendem crescer de forma sustentável precisarão repensar seus modelos pedagógicos e administrativos. Isso envolve flexibilizar currículos, ampliar ofertas híbridas e digitais, reconhecer conhecimentos adquiridos ao longo da vida profissional, oferecer serviços de apoio psicopedagógico e criar políticas institucionais voltadas para diferentes perfis de estudantes.

Mais do que adaptar horários, será necessário adaptar culturas institucionais.

A experiência como diferencial competitivo

A convivência entre gerações dentro da universidade representa uma oportunidade única. Enquanto estudantes mais jovens contribuem com familiaridade tecnológica e novas formas de comunicação, alunos mais maduros agregam experiência profissional, visão estratégica e capacidade de resolução de problemas.

Esse ambiente intergeracional fortalece a aprendizagem colaborativa e aproxima a formação acadêmica das demandas reais da sociedade e do mercado de trabalho. A própria ABMES destaca que a integração entre diferentes gerações constitui um importante papel social das instituições de ensino superior. 

Preparar-se para um novo perfil de aluno é preparar-se para o futuro

As instituições que compreenderem essa transformação terão vantagem competitiva significativa. Mais do que ampliar matrículas, estarão construindo ambientes educacionais inclusivos, flexíveis e conectados com as novas dinâmicas sociais.

O futuro da educação superior não será definido apenas pela tecnologia ou pela inovação curricular, mas pela capacidade de reconhecer que o estudante do século XXI é diverso, possui múltiplas trajetórias e continuará aprendendo durante toda a vida.

As universidades que entenderem essa mudança deixarão de formar apenas profissionais e passarão a formar pessoas em constante evolução.

 

 

Para refletir

Sua instituição ainda está estruturada para o estudante de 18 anos ou já está preparada para receber o profissional de 45 que busca reinventar sua carreira?

Essa resposta pode definir o futuro da educação superior nos próximos anos.

 


Cristiane Procópio de Oliveira

 

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

“Não há educação sem cultura”: o alerta que as faculdades não podem ignorar

 


    No Festival LED, promovido pelo g1 e pela Globo, a atriz Fernanda Montenegro proferiu uma frase que deveria ecoar em todas as reuniões de colegiado do ensino superior brasileiro: “Não há educação sem cultura”. Ao lado dos escritores Raphael Montes e Socorro Acioli, e da cantora Linn da Quebrada, ela defendeu o diálogo entre artes e ensino como condição para uma formação verdadeiramente humana. O evento evidenciou que a cultura não é enfeite ou atividade extracurricular — é parte estruturante do processo educativo.

    A relação entre cultura e educação é intrinsecamente dialética. Enquanto a educação transmite saberes sistematizados, a cultura oferece os significados, as narrativas e as sensibilidades que dão sentido a esses saberes. Uma faculdade que forma profissionais tecnicamente competentes, mas culturalmente empobrecidos, forma mão de obra, não cidadãos. A literatura, o teatro, a música e as artes visuais desenvolvem pensamento crítico, empatia e capacidade simbólica — habilidades essenciais até mesmo para a inovação nas áreas técnicas e científicas.

    A necessidade de as faculdades brasileiras incorporarem a cultura em seus currículos tornou-se urgente. Em um mundo dominado por algoritmos, inteligência artificial e métricas frias de produtividade, a cultura é o antídoto contra o empobrecimento da experiência humana. Instituições de ensino superior que desprezam a formação cultural formam profissionais robotizados, incapazes de lidar com a ambiguidade, a criatividade e a ética — justamente o que as máquinas ainda não conseguem fazer.

    A solução pode começar sem grandes investimentos: incluir uma disciplina obrigatória de “Arte, Literatura e Pensamento Crítico” nos currículos de todas as graduações; promover uma hora cultural semanal com debates sobre filmes, livros e exposições; e integrar museus, teatros e centros culturais como extensão obrigatória da sala de aula. Não se trata de formar artistas, mas de formar seres humanos completos. Como bem lembrou Fernanda Montenegro, sem cultura, o diploma pode até existir — mas a educação, não.

Referência ABNT:

ALFANO, Bruno. ‘Não há educação sem cultura’: Fernanda Montenegro e escritores defendem diálogo entre artes e ensino no LED. O Globo, Rio de Janeiro, 21 maio 2026.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Professor de Ciências Contábeis 
Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP