segunda-feira, 8 de junho de 2026

O mercado corre na velocidade da Inteligência Artificial: se a sua IES ainda caminha na linearidade do século passado, o colapso é uma questão de tempo

 

    Você não pode resolver o problema da evasão e da obsolescência do aluno no mundo BANI apenas costurando um "puxadinho" pedagógico sobre uma matriz engessada. Isso, como bem descreve a sabedoria milenar, é "colocar um remendo novo em pano velho". A costura racha, o tecido cede e o estrago institucional é ainda maior.

    Para que as microcertificações funcionem e gerem receita, todo o ecossistema da secretaria acadêmica à controladoria financeira deve convergir. Isso exige uma engenharia de Governança que poucos gestores sabem como desenhar na prática.

    No meu novo artigo, discuto a estrutura estratégica para modularizar o PPC usando a autonomia da sua instituição, sem depender das amarras regulatórias do MEC, e apresento os indicadores que blindam o caixa da mantenedora.

 

Remendo novo em pano velho: Por que as Microcertificações exigem governança e convergência institucional

 

    Na minha última reflexão, discutimos como o mundo BANI (Frágil, Ansioso, Não-linear e Incompreensível) e o caos das constantes mudanças tributárias e das normas IFRS estão colapsando a saúde mental de alunos e professores presos a matrizes curriculares lineares de quatro ou cinco anos. Propus as microcertificações como o antídoto operacional.

    A repercussão foi imediata, e um comentário de um leitor me chamou a atenção pela precisão analítica: “Implantar a microcertificação sem o apoio e as condições da alta gestão é como colocar um remendo novo em pano velho”.

    Ele tem toda razão. Se tentarmos costurar a agilidade das microcertificações em um tecido institucional desgastado por processos burocráticos, silos organizacionais e sistemas rígidos de registro acadêmico, a estrutura vai rachar. Para que o currículo vivo pulse, todo o cenário acadêmico e administrativo deve convergir para esta etapa. A governança institucional é o "Passo Zero" para que a transformação seja sustentável.

    Para entender como a convergência institucional funciona na prática, olhemos para o caso de uma IES regional que enfrentava uma evasão crônica de 24% no primeiro ano dos cursos de negócios. Os alunos justificavam a saída pela falta de retorno financeiro imediato diante das mensalidades.

    A virada não ocorreu por um decreto isolado da coordenação de curso. Ela nasceu quando a Controladoria Financeira e o Núcleo Docente Estruturante (NDE) sentaram-se à mesa sob um mandato claro de governança corporativa:

  • Juntos, reorganizaram a ordem das disciplinas existentes sem alterar a matriz final do Bacharelado aprovada pelo MEC. No primeiro ano, concentraram matérias práticas de escrita fiscal, departamento pessoal e rotinas de escritório.
  • Ao final do segundo semestre, a instituição passou a emitir automaticamente uma medalha digital e um certificado de extensão universitária em nível de aperfeiçoamento profissional em "Analista de Rotinas Trabalhistas e Fiscais".
  • O impacto real: No ciclo seguinte, a evasão inicial despencou para 9%. O mercado local passou a absorver esses alunos mais cedo, o valor percebido da mensalidade aumentou e o caixa da IES foi protegido pelo aumento expressivo do valor do tempo do estudante.

Isso é governança educacional: alinhar a saúde financeira da mantenedora com a entrega de empregabilidade real na ponta

 

    Muitos gestores recuam diante das microcertificações por medo da morosidade regulatória. O que poucos exploram é que a legislação brasileira através da LDB nº 9.394/96 e das diretrizes de extensão (Resolução CNE/CES nº 7/2018), já concede autonomia para as instituições criarem certificações intermediárias sem a necessidade de novos atos autorizativos do ministério.

    Se a sua governança está alinhada, o passo a passo prático para a implantação envolve quatro etapas fundamentais:

 

Passo 1: O Diagnóstico do Recorte Geográfico: a ementa do currículo vivo deve curar a dor do empresário local. Se a instituição está no interior ou em um polo regional, a governança deve direcionar as microcertificações para o adensamento das cadeias produtivas locais (ex: Gestão de Custos Agrícolas). Se está em uma grande capital, o foco migra para a hiperespecialização e economia digital (Engenharia de Prompt, Compliance/LGPD).

 

Passo 2: A Clusterização por Competências: o NDE analisa o PPC e agrupa disciplinas correlatas de dois ou três semestres sob um "guarda-chuva" de entrega prática. O bloco de horas deve equivaler a uma qualificação profissional real de mercado.

 

3. Blindagem Normativa e Jurídica Interna: aqui atua a alta governança. O Conselho Superior da instituição aprova uma Resolução Interna de Certificação Intermediária e Extensão. Esse documento valida juridicamente que os créditos cursados no bacharelado equivalem cumulativamente a um Certificado de Extensão Universitária.

 

4. Rastreabilidade de Valor (Medalhas Digitais): o valor precisa ser visto para ser percebido. A IES deve implementar a tecnologia de medalhas digitais criptografadas que os alunos anexam ao LinkedIn. Quando o mercado clica no selo, enxerga detalhadamente quais competências técnicas (auditoria SPED ou regras IFRS) o aluno domina.

 

    Para garantir que a inovação não seja apenas um discurso de marketing, a controladoria e o pedagógico devem monitorar indicadores rigorosos de sucesso:

 

KPI de Sucesso Institucional

Meta de Mercado Recomendada

Taxa de Retenção de Calouros

Redução esperada de 15% a 20% na evasão de calouros nos primeiros 12 meses.

Índice de Empregabilidade Precoce

Mínimo de 35% dos alunos atuando na área até o 4º semestre.

Valor do tempo de vida do aluno (LTV)

Aumento de 15% no valor total gerado pelo aluno durante sua permanência na IES.

Satisfação do Empregador Local (NPS)

 Empregabilidade acima de 50 (Escala 0-100) sobre a qualidade do microcertificado.

 

 

    Implantar microcertificações isoladas em um sistema antigo é apenas perpetuar o erro do pano velho. O verdadeiro papel da gestão moderna não é gerenciar o status quo de ementas estáticas, mas sim liderar a convergência estrutural da sua instituição.

    Quando a governança desenha as condições ideais, protegemos o caixa da organização, valorizamos o professor como mentor de carreira e entregamos ao estudante as ferramentas exatas para enfrentar a volatilidade do mercado.

   

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro


quarta-feira, 3 de junho de 2026

A crise silenciosa da atenção nas salas de aula

 


    Em muitas instituições de ensino, um fenômeno tem chamado a atenção de gestores, professores e pesquisadores: a dificuldade crescente dos estudantes em manter o foco durante aulas, atividades e momentos de estudo.
    Embora o acesso à informação nunca tenha sido tão amplo, a capacidade de concentração parece enfrentar desafios inéditos.
    Celulares, redes sociais, excesso de estímulos digitais e a cultura da multitarefa estão transformando a forma como os alunos aprendem.
    A chamada “crise da atenção” não se limita à educação básica. Ela também está presente no Ensino Superior, impactando o desempenho acadêmico, o engajamento em sala de aula e até mesmo a saúde mental dos estudantes.

O avanço das telas e a disputa pela atenção


    A presença constante dos dispositivos digitais mudou profundamente a dinâmica da aprendizagem.
    Hoje, muitos estudantes alternam entre conteúdos acadêmicos, mensagens, vídeos curtos e redes sociais em questão de segundos. O cérebro passa a operar sob múltiplos estímulos simultâneos, o que pode comprometer a retenção de informações e a concentração prolongada.

Figura 1. Crescimento ilustrativo do tempo médio diário de exposição a telas.

 

Quando a distração se torna um problema pedagógico


    A distração digital não representa apenas uma mudança de comportamento. Ela interfere diretamente na aprendizagem. Pesquisas recentes apontam associação entre uso excessivo de telas, redução da atenção sustentada, menor participação em sala e pior desempenho acadêmico.
    Além disso, muitos estudantes relatam sensação constante de cansaço mental e dificuldade para concluir tarefas.

Figura 2. Distribuição ilustrativa dos principais impactos percebidos no contexto acadêmico.

 

O papel das instituições e dos docentes

    A solução não está simplesmente em proibir a tecnologia, mas em utilizá-la de forma estratégica.                 Instituições de ensino vêm investindo em metodologias ativas, aprendizagem baseada em problemas,    simulações, gamificação e recursos digitais com objetivos pedagógicos bem definidos.
O desafio contemporâneo não é competir com a tecnologia, mas criar experiências educacionais capazes de gerar significado, participação e conexão com a realidade dos estudantes.

Figura 3. Estratégias educacionais frequentemente associadas ao aumento do engajamento estudantil.

 

Uma reflexão necessária para o futuro da Educação


    A crise da atenção nas salas de aula é silenciosa porque nem sempre aparece nos indicadores tradicionais.
    Ela se manifesta em comportamentos cotidianos: dificuldade de concentração, excesso de multitarefa, redução do envolvimento com as aulas e menor profundidade no aprendizado.
    Mais do que discutir celulares ou redes sociais, o debate atual exige uma reflexão sobre como os estudantes aprendem em uma sociedade hiper conectada. O futuro da Educação dependerá da capacidade das instituições de equilibrar inovação tecnológica, desenvolvimento humano e construção de ambientes que favoreçam o foco, a autonomia e o pensamento crítico.


Referências e dados utilizados

                                                                                                                                                                                                UNESCO – Global Education Monitoring Report. Estudos recentes sobre uso excessivo de telas, atenção e desempenho acadêmico em estudantes universitários.

Os gráficos apresentados possuem finalidade ilustrativa para apoio visual.

 

 


Cristiane Procópio de Oliveira 

Psicóloga/ Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais.