segunda-feira, 11 de maio de 2026

Além do boleto: o dialogo franco que salva a instituição

 

 


    Nos primeiros meses de 2026, entramos em um período de análise crítica para a sustentabilidade de qualquer Instituição de Ensino Superior (IES). Como gestores, precisamos compreender a evasão não é um evento súbito, mas um processo com marcos temporais distintos. Há uma diferença vital entre o “divisor de águas “acadêmico e financeiro. Ignorar essa distinção é o primeiro passo para o esvaziamento silencioso das salas de aulas.

    Mês de Março é o divisor das águas comportamental e pedagógico. É o momento do “choque de realidade”, onde o entusiasmo da matrícula encontra a densidade do conteúdo e a primeira bateria de avaliações. É em março que o aluno emite sinais precoces: a queda na frequência, o isolamento em trabalhos em grupo e o desengajamento nas plataformas digitais.

    Já o mês de abril atua como um divisor de águas financeiro e administrativo. É quando o aluno, muitas vezes já desconectado emocionalmente da Instituição desde março, formaliza sua saída ao enfrentar o vencimento das mensalidades. Se esperarmos o relatório de abril para agir, realizaremos apenas a “autópsia” de uma evasão que já aconteceu no campo pedagógico semana antes.

 

    Para Fundamentar esse diálogo, precisamos olhar para os números do 16º Mapa de Ensino Superior (Instituto SEMESP). A taxa de evasão na rede privada presencial situa-se em 26,6%, mas o dado que realmente deve pautar nossas reuniões de conselho é a desistência acumulada (ciclo de 5 anos): assustadores 64,7%.

 

    Ao categorizarmos os motivos dessa saída, os dados descontroem o mito de que “o problema é apenas o boleto”.

A conclusão é matemática e urgente: Enquanto 35% da evasão foge do controle direto, os 65% dos motivos de saída residem em falhas que podemos corrigir internamente.

Não podemos tratar evasão como uma “fatalidade econômica”. Precisamos de uma conversa honesta entre Reitores, Pró-reitora Acadêmica, Coordenadores e professores sobre:

1.    A Matriz Curricular:  corremos o risco de estar ensinando para o mercado de 2026 e replicando modelos de 2010? Se o aluno não percebe o ROI (retorno sobre o Investimento) do seu tempo, ele abandona a jornada.

2.    O Acolhimento do Ingressante: O aluno com lacunas de aprendizado. Se a abordagem inicial for excessivamente burocrática ou distante, a instituição torna-se um obstáculo, não um suporte.

3.    O “Efeito Dominó” Financeiro: Como CFO, entendo que a inércia acadêmica destrói o caixa. Uma turma que encolhe em março torna-se deficitária em abril, comprometendo investimentos em laboratórios e na própria folha de pagamento.

    Para reverter esses índices, a inteligência Artificial deve ser nossa sentinela. Ferramentas como Civitas Learning, Dropout Detective e sistemas de Análise de Sentimento permitem identificar o “Churn Educacional” (taxa de rotatividade ou perda de alunos), ainda em Março. Monitorar o engajamento e a frequência em tempo real não é mais um luxo tecnológico, mas uma necessidade de sobrevivência financeira.

    Como defende Vincent Tinto, referência em retenção Estudantil: “ O aluno não abandona apenas a faculdade; ele abandona uma comunidade da qual não se sente parte”.

    Nossa missão nestes dois meses finais de semestre é fortalecer essa comunidade. Se não agirmos sobe os sintomas acadêmicos de março, o financeiro de abril será apenas o relator de uma perda que poderia ter sido evitada com diálogo franco, acolhimento e ajuste de rota.

Deixo a provocação aos colegas gestores: onde a sua Instituição está focando suas energias hoje? Na recuperação de boletos de abril ou no resgate do propósito acadêmico de março?

 

 

Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

De Pequim e Xangai ao Brasil: A Sinergia Estratégica entre Infraestrutura e Capital Humano

    


 A participação na 16ª Missão Internacional do SEMESP foi uma imersão profunda nos bastidores de uma nação que decidiu projetar e acelerar o futuro. Ao percorrer universidades em Pequim e Xangai — metrópoles que impressionam pela magnitude de sua gestão, abrigando respectivamente cerca de 22 milhões e mais de 27 milhões de habitantes —, a percepção imediata é a de um ecossistema operando em uma velocidade e escala sem precedentes.


    É notável observar um país que investiu massivamente em tecnologia voltada à energia verde e em modais de transporte que surpreendem pela pontualidade e eficiência extrema. Contudo, sob a ótica da gestão educacional, o impacto transcende a engenharia urbana; ele reside no que considero o "DNA do progresso": a educação como o motor de transformação sistêmica. Minha tese é clara: ferramentas e inovações, por mais disruptivas que sejam, sem o capital humano preparado para utilizá-las estrategicamente, constituem apenas despesa. O verdadeiro avanço exige competência instalada.


    Um dos pontos mais profundos da revolução educacional chinesa é o rigor e a agilidade de execução de sua infraestrutura. Impressiona o ciclo de planejamento de dois anos, seguido por uma construção recorde de apenas três anos, para a entrega de complexos universitários inteiramente projetados para as demandas da contemporaneidade.


    Esses edifícios são concebidos como Espaços de Aprendizagem de Nova Geração. Como defende o arquiteto e educador David Thornburg, tais ambientes são desenhados para fomentar a fluidez entre teoria e prática, integrando laboratórios de ponta e Inteligência Artificial no coração da arquitetura pedagógica. O prédio deixa de ser um custo imobiliário passivo para se tornar um acelerador de competências e um diferencial competitivo fundamental para a retenção do aluno.

 


Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

NR-1: Muito além da burocracia — o novo olhar sobre segurança, saúde e bem-estar no trabalho



    A atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que inclui a obrigatoriedade de gestão de riscos psicossociais, entra em vigor no dia 26 de maio de 2026. As empresas terão que incluir riscos à saúde mental no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) a partir dessa data.

    A segurança e a saúde no ambiente de trabalho deixaram de ser apenas uma exigência legal para se tornarem um dos pilares estratégicos das organizações modernas. Nesse contexto, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) assume um papel central ao estabelecer as diretrizes gerais que orientam todas as demais normas de segurança e saúde ocupacional no Brasil.

    Mais do que uma norma introdutória, a NR-1 representa uma mudança de mentalidade: sair do modelo reativo e caminhar para uma gestão preventiva, estruturada e integrada — agora incluindo também a saúde mental como elemento essencial.

 

O que é a NR-1 e por que ela é tão importante?

    A NR-1 estabelece disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho, sendo a base para a aplicação de todas as demais Normas Regulamentadoras. É nela que estão definidos conceitos fundamentais, responsabilidades e a forma como as empresas devem estruturar sua gestão de riscos.

    Com as atualizações mais recentes, a norma amplia seu escopo ao reconhecer que o adoecimento no trabalho não é apenas físico — ele também pode ser emocional e psicológico.

 

O grande avanço: o GRO, o PGR e os riscos psicossociais

    Um dos principais marcos da NR-1 foi a introdução do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

    Hoje, esses instrumentos não se limitam a riscos físicos e químicos, mas também devem considerar os chamados riscos psicossociais, como:

* Estresse ocupacional

* Sobrecarga de trabalho

* Assédio moral

* Pressão por metas

* Falta de suporte organizacional

Essa ampliação representa um avanço significativo na proteção integral do trabalhador.

 

 

 

O papel estratégico do psicólogo na gestão de riscos

    Diante desse novo cenário, a atuação do psicólogo torna-se essencial dentro das organizações. O profissional de Psicologia contribui diretamente para:

1. Identificação de riscos psicossociais

* Avaliação do clima organizacional

* Mapeamento de fatores de estresse e adoecimento

* Análise de comportamentos e relações de trabalho

 

2. Prevenção do adoecimento mental

* Desenvolvimento de programas de promoção de saúde mental

* Ações de educação emocional e gestão do estresse

* Intervenções em equipes com conflitos ou alta pressão

 

3. Apoio na construção do PGR

* Inclusão de indicadores psicossociais no inventário de riscos

* Proposição de medidas preventivas e corretivas

* Monitoramento contínuo do impacto das ações

 

4. Fortalecimento da cultura organizacional

* Promoção de ambientes mais saudáveis e humanizados

* Desenvolvimento de lideranças mais conscientes

* Estímulo à comunicação e ao suporte entre equipes

 

    A inclusão dos riscos psicossociais no contexto da NR-1 reflete uma realidade cada vez mais evidente: o adoecimento mental já é uma das principais causas de afastamento do trabalho.

 

 

    Ignorar esses fatores não apenas compromete a saúde do colaborador, mas também impacta diretamente os resultados organizacionais. A integração da saúde mental à gestão de riscos promove:

* Redução de afastamentos e absenteísmo

* Melhoria do clima organizacional

* Aumento do engajamento e produtividade

* Redução de conflitos internos

* Fortalecimento da imagem institucional

 

    Empresas que investem nesse cuidado demonstram maturidade organizacional e responsabilidade social.

 

Conclusão

 

    A NR-1 marca uma evolução importante na forma como o Brasil enxerga a segurança no trabalho. Ao incorporar os riscos psicossociais e valorizar a atuação multiprofissional, a norma amplia o conceito de cuidado com o trabalhador.

    Nesse cenário, o psicólogo assume um papel fundamental: ajudar as organizações a enxergarem além do risco físico, promovendo saúde integral, equilíbrio e sustentabilidade nas relações de trabalho.

 

 

    Cuidar da saúde mental não é mais uma escolha — é uma exigência do presente e um diferencial competitivo para o futuro.

 

 
 
Cristiane Procópio de Oliveira
 
Psicóloga/Consultora Educacional/Especialista em Planejamento e Processos Educacionais 

 

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

O dilema da IA no EUA: todo mundo usa e toda faculdade proibe

 


    Um relatório inédito da Lumina Foundation em parceria com o Gallup, divulgado em outubro de 2025, revela o paradoxo da inteligência artificial no ensino superior americano. Realizado com 3.801 estudantes de cursos de associado e bacharelado nos Estados Unidos, o estudo mostra que o uso da IA já é massivo, mas as regras nas universidades seguem confusas ou inexistentes. A conclusão central é que instituições e alunos vivem realidades desconectadas.

 

    O primeiro grande achado está no Gráfico 1: 57% dos estudantes utilizam ferramentas de IA pelo menos uma vez por semana, e apenas 13% afirmam nunca recorrer a elas. O uso diário ou semanal é ainda maior entre homens (65%) e alunos de negócios (70%) ou tecnologia (68%). Isso derruba a ideia de que a IA seria um recurso marginal ou restrito a poucos.

 

    O Gráfico 2 revela as motivações: entre os usuários frequentes, 46% apontam a compreensão de matérias complexas como razão “extremamente importante”, seguida por ganho de tempo (40%) e melhoria de notas (34%). Por outro lado, entre os não usuários, 74% evitam a IA por considerá-la antiética ou equivalente a trapaça, e 68% porque a faculdade desencoraja ou proíbe o uso.

    O dado mais preocupante, porém, é a falta de preparo institucional. Apesar da ampla adoção, 29% dos estudantes dizem que a faculdade não oferece treinamento suficiente sobre IA. Superar essa barreira exige políticas claras por curso, capacitação docente e diálogo entre universidades e mercado, para que o aluno saia da graduação apto a usar a ferramenta de forma ética e produtiva.

 

Referência


LUMINA FOUNDATION; GALLUP. AI in Higher Education: widespread use, unclear rules. Washington, D.C.: Lumina Foundation, 2026. 16 p.

 

Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária /Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP

 

domingo, 3 de maio de 2026

1500 olhares, 3 vozes, 69 provocações: o diálogo acadêmico que o Brasil precisa

 

   O Blog Diálogo Acadêmico acaba de bater 1500 visualizações em apenas 7 meses — um número que representa muito mais do que estatística: são pessoas reais buscando conteúdo qualificado sobre educação, gestão e políticas públicas.

    Somos três articulistas que escrevem com regularidade: às segundas, quartas e sextas, garantindo um fluxo contínuo de reflexões e análises para nossos leitores. Até o momento, já publicamos 69 artigos, abordando desde gestão financeira em IES até rankings universitários, passando por inteligência artificial, formação médica (ENAMED) e experiências internacionais (Missão Semesp na China).

    Cada texto é uma oportunidade de provocar o pensamento crítico e fortalecer o debate sobre a educação brasileira.


 

    Agradecemos a cada leitor que dedicou alguns minutos do seu dia para aprender conosco. Vocês são a razão de continuarmos escrevendo e  convidamos quem ainda não conhece: leia e compartilhe. O diálogo só cresce quando mais vozes se juntam a ele.

🔗 Acesse o Blog Diálogo Acadêmico e faça parte dessa conversa!

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Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues 
Liderança em Educação Superior / Estratégia Acadêmica, Inovação Curricular e Gestão Universitária /Graduação, Mestrado e Doutorado pela USP