Fonte: Udemy
O ensino superior brasileiro se expande, mas seus caminhos se tornam cada vez mais complexos e fragmentados. Segundo o "Mapa do Ensino Superior no Brasil 2025", do Instituto Semesp, o país atingiu a marca de quase 10 milhões de matrículas, com crescimento de 5,6% de 2022 para 2023, puxado sobretudo pela rede privada. A Educação a Distância (EAD) já representa 49,3% dos alunos, aproximando-se da modalidade presencial (50,7%), enquanto a rede privada concentra 79,3% das matrículas. Por trás dos números, no entanto, escondem-se desafios históricos: a evasão em alguns cursos supera 60%, a taxa de escolarização líquida dos jovens permanece baixa e a concentração de alunos em grandes grupos educacionais privados aumentou 16,9 pontos percentuais na última década, com 3,5% das mantenedoras detendo 69,4% das matrículas.
Nesse cenário, a globalização molda parte significativa do setor. Experiências como a da francesa Skema Business School, que inaugurará uma graduação em São Paulo em 2027 em parceria com a Belas Artes, oferecendo dupla diplomação internacional, ilustram a atração por modelos "glocais". Ao mesmo tempo, a expansão da EAD, que cresceu 13,4% em 2023 (embora em desaceleração), foi impulsionada por grandes grupos educacionais, muitos com capital estrangeiro ou sob gestão de fundos de investimento internacionais, que buscam escala e eficiência em um mercado em transformação. Esse movimento amplia o acesso, mas também consolida um modelo de educação.
Paralelamente, emergem iniciativas que apontam para outra direção: a da especialização e da reparação histórica via políticas públicas. O governo federal enviou ao Congresso projetos para criar a Universidade Federal Indígena (Unind) e a Universidade Federal do Esporte (UFEsporte), focadas em públicos específicos e na produção de conhecimento especializado. Enquanto essas propostas apostam na expansão e na diversificação da rede pública, a crise da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), com um pedido de conversão de sua recuperação judicial em falência devido a uma dívida de R$ 40 milhões em aluguéis, expõe a vulnerabilidade de grandes players do setor privado. O caso, que envolve 60 mil alunos, simboliza os riscos de um modelo altamente alavancado e a possibilidade de reorganização traumática do mercado, com a transferência de "carteiras de alunos" para outras instituições.
Fonte: Instituto Multiversa
Diante dessas forças contraditórias — consolidação financeira globalizada, expansão de nichos públicos e crises de grandes operadores privados —, o ensino superior brasileiro em 2026 deve seguir um caminho de bifurcação e ajuste. A tendência é de maior polarização: de um lado, a consolidação de megagrupos privados, nacionais e internacionais, focados em EAD e cursos de escala; de outro, uma rede pública que pode se diversificar com instituições temáticas, respondendo a demandas sociais e ambientais, como os cursos ligados ao agrossistema, que tiveram crescimento de 26% nas matrículas presenciais na última década. A incógnita reside na capacidade do Estado em fortalecer políticas de financiamento (como FIES e Prouni, hoje enfraquecidos) e regulação para garantir qualidade, reduzir evasão e amortecer os impactos de crises como a da FMU, assegurando que o direito à educação não seja refém da volatilidade do mercado.
Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues
Reportagens e fontes consultadas:
"Faculdade de negócios francesa lança graduação em São Paulo" – Folha de S.Paulo, 4.dez.2025.
"Mapa do Ensino Superior no Brasil 2025" – Instituto Semesp
"Governo envia projetos para criar universidades federais indígena e do esporte" – Folha de S.Paulo, 27.nov.2023 (atualizado em 2025).
"FMU: entenda a briga judicial e o que pode acontecer com os alunos em eventual caso de falência" – G1, 14.nov.2025.

