segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Diploma Inútil? A Fala de Tarcísio que Ignora Dados e Ameaça o Futuro do País

 

  

   Em declaração proferida às vésperas do segundo dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que o "diploma cada vez tem menos relevância" e que o mercado está mais interessado em habilidades específicas do que na formação superior. A fala, proferida em evento sobre ensino técnico, ignora solenemente um conjunto robusto de evidências que comprova o peso decisivo da educação universitária para a mobilidade social e econômica no Brasil.

    Dados do relatório Education at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), são contundentes: brasileiros entre 25 e 64 anos com ensino superior ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que possuem apenas o ensino médio. Esse prêmio salarial é quase três vezes superior à média dos países da OCDE, que é de 54%. Os números não sugerem perda de relevância, mas, sim, uma valorização extrema do diploma como mecanismo de compensação em uma sociedade profundamente desigual.

 

 Fonte: Instituto Conhecimento Liberta 

    A afirmação do governador é particularmente dissonante em um contexto nacional onde apenas 24% dos adultos possuem formação superior – metade da média dos países desenvolvidos. O Brasil ainda patina em indicadores de acesso e conclusão do ensino superior, com uma taxa de abandono de 25% no primeiro ano, o dobro da média da OCDE. O discurso da "desimportância" do diploma, em vez de incentivar o aperfeiçoamento do sistema, pode servir para legitimar o atraso educacional e desestimular a busca por qualificação em um país que precisa, urgentemente, ampliar seu capital intelectual.

    Embora a valorização do ensino técnico seja legítima e necessária para diversificar as trajetórias formativas, equipará-lo à formação universitária em termos de retorno e oportunidades é um equívoco analítico. O desafio brasileiro não é escolher entre uma modalidade e outra, mas expandir com qualidade o acesso a ambas, reconhecendo que, hoje, o diploma universitário continua sendo um dos mais potentes antídotos contra a desigualdade.

    

    Além do benefício individual, a expansão do ensino superior gera ganhos incontestáveis para a sociedade como um todo. Uma população mais escolarizada impulsiona a produtividade nacional, fomenta a inovação tecnológica e fortalece as instituições democráticas. Profissionais com formação superior não apenas alimentam um ciclo virtuoso de desenvolvimento econômico, como também contribuem para a solução de problemas complexos em áreas essenciais como saúde, infraestrutura e gestão pública. O diploma, portanto, longe de ser irrelevante, consolida-se como um pilar fundamental para a construção de uma nação mais justa, próspera e competitiva. 
 
    Por Angelo Antonio Davis de Oliveira Nunes e Rodrigues